1.2.1 | AS NOVAS CIDADES O grande desenvolvimento das infraestruturas por todo o país levou a um aumento da população, que não aumentou apenas o número de cidades, mas também as diversificou. Não só as estradas permitiam um controlo alargado sobre o território, como os diferentes canais construídos permitiram a comunicação e o comércio rápidos entre as cidades emergentes e a capital.
O Grande Canal, acabado de construir em 610 d.C.,16 não transportava
apenas água a zonas sem irrigação, sendo uma importante linha de comércio e transporte de bens. Em conjunção com as novas estradas construídas por ordem do governo, surgiu uma necessidade de entrepostos comerciais e de controlos aduaneiros, estabelecendo-se portagens para o uso das principais estradas. Ligadas a estas novas vias de comunicação começaram a surgir povoações que acabaram por se desenvolver para cidades inteiras. 17
Com a unificação da China sob os Tang, surge uma maior preocupação com as relações exteriores. Procura-se estabelecer novas rotas comerciais marítimas, que, em relação às terrestres, tinham maior
16 WRIGHT, Arthur – The Sui Dynasty. In TWITCHETT, Denis – The Cambridge History of
China. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1979. vol. 3. Parte 1. pp. 135-137, 144.
17 SIT, Victor – Chinese City and Urbanism: Evolution and Development. Singapura: World
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alcance e rapidez. Assim, foi desenvolvida a linha costeira, com uma série de portos a partir dos quais se desenvolveram cidades portuárias. 18
Estes novos tipos de cidades, em conjunto com as cidades capitais, estabelecem o paradigma da China dos Tang, não apenas estabelecendo um tipo de governo imperial, mas igualmente dando pistas dos principais grupos socio económicos que adviriam.
A expansão do Estado burocrático e a necessidade de controlo de um governo central, veio a reflectir-se na forma urbana. O centro da cidade passaria a ser dominado pelos edifícios de representação estatal e os necessários à administração da mesma.
Seguindo esta realidade, houve necessidade de criação de escolas, que passariam também a ocupar estes centros da cidade. O ensino e o governo estavam intimamente ligados e ambos eram providos pelo Estado imperial. 19
18 In TWITCHETT, Denis – Introduction. In TWITCHETT, Denis – The Cambridge History of
China. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1979. vol. 3. Parte 1. pp. 22-25
19 SIT, Victor – Chinese City and Urbanism: Evolution and Development. Singapura: World
Scientific Publishing Company, 2010. pp. 141-142. COTTERELL, Arthur – The Imperial Capitals of China. Londres: Pimlico, 2007. pp. 16.
Quioto do plano histórico à cidade real
41 1.2.2 | Estrutura das capitais
As capitais chinesas eram o local do trono imperial. Sendo a China regida por princípios confucionistas, os imperadores aplicaram-nos às suas capitais, de modo a trazer protecção e harmonia com o ambiente em redor.
Os princípios de geomancia prescritos pelo Wu eram aqui aplicados, nomeadamente, na exposição a Sul da cidade e dos palácios, na principal avenida direcionada a Sul e na protecção por montanhas a Norte. 20
Cada quadrante é associado a uma característica. O Norte associado à morte, necessitava de ser protegido por montanhas simbolizando a Tartaruga Negra 北方玄武. Também a Este e Oeste, respectivamente associados ao Dragão Verde 東方青龍 e ao Tigre Branco 西方白虎, deveria haver montanhas que protegeriam contra os ventos nefastos. Finalmente o Sul, associado ao pássaro vermelhão 南方朱雀, devia ser o único quadrante sem montanhas, preferindo-se uma abertura e exposição a este quadrante que trazia conforto e calor. Este quadrante era associado ao elemento fogo, associado ao poder imperial.21
Apesar de haver um quinto elemento no centro destes todos, associado à Serpente, que devia enraizar toda a construção, este parece ter influído apenas nas primeiras cidades, tendo sido este centro progressivamente deslocado para a parte Norte da cidade. O modelo da cidade imperial no centro da cidade é exemplificado em cidade como Wangcheng dos Zhou e Jiankang, capital de seis diferentes dinastias22, mas em Changan e na
Luoyang dos Wei já se tinha deslocado para Norte, aproximando-se das montanhas que lhe dariam protecção.
20 COTTERELL, Arthur – The Imperial Capitals of China. Londres: Pimlico, 2007. p. 14. 21 KONG, Mário – Harmonia e Proporção: Um Olhar sobre o Desenho Arquitetónico no
Ocidente e no Oriente. Lisboa: Insidecity, 2012. e STEINHARDT, Nancy – Chinese Imperial
City Planning. Honolulu: University of Hawaii Press, 1990. pp. 8-9.
22 Wangcheng foi capital dos Zhou entre 1021 a.C. até 510 a.C. Mais tarde seria aqui que
os Han fundariam a capital de Luoyang em 25 d.C., ainda com um modelo com o palácio centralizado. Jiankang fo capital de seis diferentes dinastias entre 229 d.C. e 589 d.C., dando origem mais tarde a Nanjing. STEINHARDT, Nancy – Chinese Imperial City Planning. Honolulu: University of Hawaii Press, 1990. pp. 76-78.
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As capitais imperiais chinesas eram um símbolo do poder divino do imperador, tendo a configuração de um quadrado ou rectângulo figuras proporcionais. Muralhadas por todos os lados, fechavam dentro de si o espaço sagrado dos rituais imperiais, representando estas muralhas a autoridade imperial. Cada face continha três portões compondo doze números, número da perfeição temporal.23
Divididos por uma grelha ortogonal os quarteirões eram rectangulares, e eram intercalados por grandes avenidas que se podiam estender por centenas de metros, em alguns casos. Toda a cidade era governada, idealmente por uma simetria, que proporcionava ao desenho urbano harmonia e atestava o poder ordenador do imperador.
No centro destes quarteirões, um espaço era alocado para a cidade dos palácios. Aqui residia o imperador e eram edificadas as estruturas que lhe permitiam conduzir os rituais imperiais. O centro da cidade era também o centro do cosmos e toda a China convergia para este ponto. Junto aos aposentos imperiais estava a cidade imperial, o principal local da burocracia do país. Aqui os oficiais, parte da elite organizavam regiões distantes e tratavam dos assuntos administrativos. 24