Capítulo 2 – (In)Justiça Espacial
2.3 Capital espacial
Pode-se dizer que tem havido uma (re)descoberta recente do poder gerativo da cidade, se quisermos da causalidade espacial e não só na geografia. Soja (2011) aponta que somente a partir dos anos 2000 tem havido uma reviravolta neste sentido, embora afirme que não sabe explicar o porquê, pois a produção do conhecimento na teoria social esteve assente no entendimento de que os fenômenos acontecem na cidade, mas não por causa das influências do urbano, do espaço, das suas espacialidades.
O trabalho de Jane Jacobs “The Economy of cities”, publicado em 1969, é reconhecido por lançar a noção original da existência de um estímulo gerado pela aglomeração urbana, ficando conhecido como força motora das externalidades Jacobianas (Soja, 2011).
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Contudo, para Soja (2011), às raízes da virada espacial estão nas ideias de espaço de Henri Lefebvre e Michel Foucault, mas que perderam força após as ebulições urbanas da década de 1960, sendo a causalidade espacial abafada como uma “heresia fetichista”.
No mundo falante de língua inglesa, as ideias ligadas à causalidade espacial ganharam uma dimensão transdisciplinar já na década de 1990 com a publicação em inglês da obra
“A Produção do Espaço” de Lefebvre, publicada mais precisamente, em 1991. Soja (2011, p. 453) é a este respeito peremptório ao afirmar que “[…] never before, at least during the past 200 years, has a critical spatial sensibility been so widespread and so influential in contemporary popular and academic debates”.
Segundo Soja (2011), a noção de causalidade espacial além da sua ligação ao termo de estímulo da aglomeração urbana de Jacobs, também esteve ligada aos termos de “buzz”
de Michael Storper e Anthony Venables12 e de “synekism” de Soja (2000). Já em 2011, Soja apontou que não tardava muito para que a noção de causalidade espacial evoluísse para um termo novo e mais abrangente, e ele se referia ao de capital espacial, dado o desdobramento da noção de capital social.
A discussão sobre capital espacial se enquadra na “ausência” de seu reconhecimento e conceitualização explícita na teoria sociológica de Bourdieu (1986), na qual os indivíduos eram definidos não pela classe social, como nas teorias marxistas, mas pelas três formas de capital: o social, o económico e o cultural (e simbólico, não reconhecido como um capital em si, mas como uma dimensão dos três primeiros no quadro social) representados na arena social. Desta maneira, o capital espacial não aparece como uma forma de poder (Rérat e Lees, 2010), sendo a ideia de capital estendido ao espaço um pouco mais tarde com Lévy (1994; 2014), sugerindo que o espaço é uma forma de capital, e como tal, podendo ser acumulado e utilizado na produção de outros bens, sendo também uma fonte de desigualdade (Barthon e Monfroy, 2010).
Contudo, a avaliação realizada por Bourdieu de como a materialidade desempenha um papel importante na representação das relações sociais, mantém aberto o debate sobre a
12 No artigo “Beyond Postmetropolis”, publicado em 2011 na Revista Urban Geography, Soja quando se refere ao artigo “Buzz: face-to-face contact and the urban economy” de Storper e Vanables para exemplificar o termo “buzz” como um dos utilizados para descrever o poder gerativo das cidades, explica que o subtítulo original do artigo era “economic force of cities”, mas que por sugestão de um editor da revista foi substituído, por julgar que o original não seria muito bem compreendido, dado que apontava para o caráter pouco familiar e presunçoso da ideia de que as cidades geravam forças desenvolvimentistas.
75 ausência/presença da espacialidade da sua teoria sociológica, apesar da sua extensiva ênfase na agência individual (Bourdieu, 1985; Mace, 2017). Contendo o perigo da adoção do capital espacial ser mais uma categoria de análise criada sem que tenha sido suficientemente reconhecida como pode ter sido mobilizada nas categorias de capital já existentes (Mace, 2017).
Ademais, a abordagem que incorpora a dimensão espacial como uma forma de capital encontra aporte no distanciamento dos trabalhos de matriz positivista, nos quais o espaço era analisado enquanto um elemento neutro, produto social sem qualquer influência sobre os fenômenos sociais (Mace, 2017; Rétrat e Lees, 2010). Estas ideias abriram terreno para o desenvolvimento de um pensamento espacial crítico, no qual foi dada especial atenção ao espaço (e seus atributos) e o papel das materialidades na condução da ação social, consolidado pela relevância que tem ganho a produção de conhecimento sobre o agenciamento da morfologia espacial nas práticas de apropriação e (re)produção do espaço. Afastando-se desta maneira a ideia que o espaço é simplesmente um suporte onde as pessoas e as atividades se localizam ou os agentes tomam as decisões conducentes à sua produção e apropriação (Cachinho, 2005), afirmando-se neste quadro o espaço também como uma forma de capital que de modo algum se encerra no capital social.
Embora o conceito de capital espacial seja considerado aberto e ainda passível a diferentes apropriações e interpretações (Mace, 2017), o compreendemos a partir da definição proposta por Lévy e Lussault (2003, p. 124) como “un ensemble de ressources, accumulées par un acteur, lui permettant de tirer avantage, en fonction de sa stratégie, de l’usage de la dimension spatiale de la société”. Deste modo, capital espacial volta-se para as propriedades e atributos espaciais inerentes ao espaço e, que por sua vez, são mobilizados estrategicamente por sujeitos individuais e/ou coletivos para alcançar um determinado objetivo. Estando a especificidade do capital espacial nas vantagens trazidas pelo domínio de um conjunto de “layouts” geográficos (Lévy, 2014). Esta definição apoia a nossa investigação no sentido de tentar compreender de que forma os sujeitos, políticos planeadores e gestores do setor público e privado da saúde, em função do seu capital espacial, em interação com atributos do espaço (re)organizam a distribuição dos serviços de urgência na Área Metropolitana de Lisboa, e em que medida esta interação resulta em (in)justiças espaciais.
Os atributos do espaço incluem propriedades com a centralidade, a acessibilidade, a proximidade, além daqueles de caráter demográfico, social e económico que condicionam
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a organização de uma dada formação socioespacial. Estes atributos são potenciais de construção de algo novo, pois uma vez ativados podem originar um novo formato de organização espacial. A relação que os sujeitos estabelecem com os atributos do espaço induzem, necessariamente, a uma diferenciação socioespacial, dada a complexidade das interações (Rérat e Less, 2010).
Esta relação entre sujeitos e atributos espaciais pode ser entendida no seio da teoria Ator-Rede de Latour (1996), na qual o funcionamento de um sistema deve ser entendido a partir da relação entre elementos de natureza humana e não humana interligados, da qual resultam múltiplas combinações. Nesta teoria, a interação dentro do sistema dá-se no contexto social não definido e em constantes combinações (rede) entre atores (elementos de natureza humana) e actantes (associados, de um modo geral, aos elementos não humanos) (Farías, 2011; Boelens, 2010).
Os trabalhos de Kärrholm (2007; 2008) vêm dando robustez no âmbito desta análise.
Apoiando-se nesta ideia, analisou na escala do espaço público o comportamento dos atores em interação com actantes e chamou atenção para a “regulação” do comportamento humano envolver uma dimensão imaterial (códigos de conduta social e moral), mas também uma dimensão material, por vezes negligenciada. Kärrholm fundamenta que as formações sociais são constituídas de uma combinação específica de elementos cuja interação com a ação social a condiciona (Paiva, 2017), assumindo que o espaço é dotado de um conjunto de atributos que molda a ação dos sujeitos (Boelens, 2010). Neste seguimento, os trabalhos de Amin (2008) e Dewbury (2015) também têm demonstrado no espaço público como as formas materiais têm condicionado os ritmos, a localização e as práticas dos sujeitos, deslocando o foco do sujeito e sua agência para o espaço (atributos) e entendimento da influência exercida na sua apropriação, realçando a dimensão espacial dos mundos sociais (Lévy, 2014).
Ademais, o espaço enquanto uma forma de capital é dotado de atributos “à espera” de serem mobilizados por sujeitos que igualmente detém “habilidades/conhecimento” que lhes permitem ativá-los em prol de um objetivo, englobando o capital espacial três dimensões interdependentes: o acesso, a competência e a apropriação (Flamm e Kaufmann, 2006; Kaufmann, Bergman e Joye, 2004). Enquanto o acesso e a competência se relacionam com os atributos físicos do espaço e as capacidades dos indivíduos (que podem ser adquiridas), respectivamente, a apropriação resulta da interação entre as duas dimensões inseridas nas motivações das práticas dos indivíduos. Pois, embora o espaço
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Desta maneira, o capital espacial está simultaneamente na materialidade (actante) e nos sujeitos (atores) em interação, abrindo a questão se o capital espacial está vinculado às outras conhecidas formas de capital (Barthon e Monfroy, 2010; Rérat e Less, 2011). Para Lévy (2014), o capital espacial está presente nos atores e no espaço, enquanto nos atores pode ser considerado como uma componente significante do capital social, mas não reduzido a este, no espaço está presente em termos de stock (fixos) e fluxos.
Para Rérat e Lees (2010), a presença diferencial das dimensões do capital espacial nos indivíduos e no espaço reflete-se em diferentes graus de domínio/uso da dimensão espacial. O capital espacial constitui não só um fator de diferenciação de natureza social, mas também espacial. Em virtude da sua desigual apropriação, o espaço geográfico acaba por adquirir texturas diferenciadas que necessitam de ser mobilizadas na explicação das lógicas de organização socioespacial. Isto explica, em certa medida, que os estudos realizados sob as lentes do capital espacial assentem na análise empírica dos fenômenos resultantes das dinâmicas socioespaciais (Binder, 2012).
No essencial, a investigação do capital espacial avança na produção do conhecimento ao ampliar as dimensões de análise do entendimento das lógicas de apropriação e diferenciação do espaço, ao se debruçar sobre a operação do poder no urbano imbuído de uma dimensão espacial, produzindo vantagens face a outros (Mace, 2017). Assim, assume-se que a compreensão de uma dada formação socioespacial à luz do capital espacial passa pelo entendimento da ativação dos atributos espaciais no contexto (cidade) da sua interação com os atores (Lévy, 2014). É neste sentido que vários geógrafos e sociólogos vão avançando na busca da compreensão das diferentes conexões entre as dimensões sociais e espaciais e das geografias delas resultantes.
Tendo subjacente as concepções de justiça espacial e de capital espacial anteriormente expostas, a investigação sobre o serviço de urgências na Área Metropolitana de Lisboa visa essencialmente responder algumas questões chave: (i) É a oferta do serviço de urgências espacialmente (in)justo?; (ii) Que papel o espaço e, em particular, o capital
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espacial desempenharam nas estratégias dos setores público e privado da (re)organização dos serviços de urgências; e por último, (iii) De que forma o capital espacial intervém na (re)produção de eventuais (in)justiças espaciais na oferta do serviço de urgências?
A abordagem da organização do serviço de urgências através das lentes da inclusão espacial e do espaço, enquanto forma de capital, afigura-se de grande relevância na geografia, pois é nossa convicção que esta não só reforça os princípios norteadores do pensamento espacial crítico, ao possibilitar uma análise operacional da causalidade do espaço e seu papel na (re)produção de (in)justiças espaciais, como também confere verdadeiro protagonismo ao espaço, sem deixar de reconhecê-lo inserido na prática de uma dialética socioespacial.
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