CAPÍTULO II REVISÃO DA LITERATURA
2.3 Capital Intelectual
2.3.3 Capital Intelectual x Contabilidade
Reconhecendo-se o Capital Intelectual como um dos principais geradores de riqueza das empresas, atenção especial deve ser dada à sua gestão, pois uma vez formalizado, capturado e alavancado, pode produzir Ativos de ainda maior valor.
Neste diapasão, Sveiby (2000) advoga que numa empresa em que os Ativos Intangíveis são várias vezes mais valiosos que os tangíveis, o gerenciamento deveria concentrar-se na gestão dos intangíveis.
Porém, conforme Rezende (2001, p.16), “quantificar esse valor intangível, que é uma lacuna existente entre o Balanço Patrimonial de uma empresa e o seu valor de mercado, é um dos grandes desafios da atualidade, especialmente para as empresas que detêm elevado conhecimento técnico.”
Martins e Antunes (2000) mencionam que o Capital Intelectual consubstancia-se numa plêiade de fatores intangíveis, conhecidos há muito na área contábil como Goodwill, não reconhecidos contabilmente como pertencentes ao ativo da empresa em decorrência da observância de princípios contábeis específicos.
A mensuração do Capital Intelectual talvez seja um dos mais difíceis desafios a serem vencidos pela Contabilidade. Beuren e Beltrame (1998) asseveram que esse desafio precisa ser vencido para que se possa ter uma noção do retorno proporcionado pelo
conhecimento detido pela organização. Sua importância consiste basicamente no fato de que em muitas empresas, notadamente as que utilizam tecnologia de ponta, determinado executivo ou grupo de pessoas (por exemplo, pesquisadores e cientistas) são responsáveis pela manutenção da parcela de mercado ou liderança em termos de práticas adotadas e inovações tecnológicas oriundas do conhecimento que estes detêm.
Paiva (2000, p.10) afirma que para a Contabilidade “atingir bem seus objetivos, deve fornecer não só informações monetárias, mas também informações não-monetárias que sejam úteis aos seus usuários”. Especificamente sobre Capital Intelectual, Paiva (2000, p.10) afirma que “o que se busca é um modelo contábil que identifique os seus elementos formadores e apresente uma maneira adequada de mensuração, registro, análise e controle dos mesmos, ou seja, uma contabilidade do conhecimento”.
Martins e Antunes (2000, p.1) mencionam que o Grupo Skandia4 tentou resolver tal problema por intermédio de uma ferramenta que busca especificar os elementos que diferenciam o valor do patrimônio contabilizado e o valor atribuído ao mesmo pelo mercado. Tal empresa considera ser importante que as organizações gerenciem seus investimentos com o objetivo de aumentar os benefícios econômicos futuros gerados pelos ativos intangíveis possuídos.
Para Stewart (1998, p.51) a iniciativa dos mercados em recompensar o trabalho baseado no conhecimento, ou seja, a substituição de Ativos tangíveis pelo conhecimento, nos diz que “alguém que investe em uma empresa está comprando um conjunto de talentos, capacidades, habilidades e idéias - Capital Intelectual, não capital físico.” Também corroba a importância dos Ativos intelectuais de uma empresa, estimando que os mesmos representam ser três ou quatro vezes mais valiosos que os Ativos tangíveis registrados contabilmente, na maioria das demonstrações publicadas.
No mesmo sentido, Andrade (1997) afirma que os atuais procedimentos contábeis não conseguem abranger o conhecimento humano que está a serviço da empresa, mesmo sendo notório que tal fator intangível proporciona acréscimo relevante de valor à companhia, perante o mercado.
4A Skandia é o quarto maior grupo financeiro do mundo atuando na área de prestação de serviços financeiros e
Iudícibus (1994) advoga que todo investidor deve atentar para os recursos destinados pelas empresas à capacitação de seus quadros. Assinala que os gastos com a formação de pessoal ou com a área de Pesquisa & Desenvolvimento de produtos pode ser um importante indicativo quanto às probabilidades de que, futuramente, o investimento seja compensador (ou traga lucros superiores aos das empresas que não se preocuparam com esse aspecto).
Stewart (1998, p.57) comenta que Gordon Petrash, diretor de gerenciamento do Capital Intelectual da Dow Chemical defende a utilização de um conjunto de passos que pode contribuir para administrar o Ativo intelectual:
1. Comece com estratégia: defina o papel do conhecimento em cada negócio ou unidade de negócios [...]
2. Avalie as estratégias e os portfólios de patentes dos concorrentes. 3. Classifique seu portfólio: o que você tem, o que usa e – principalmente – quem no
negócio deve ser responsável por ele?
4. Avalie o custo e o valor de suas propriedades intelectuais e decida se quer mantê- las, vendê-las ou abandoná-las. [...]
5. Invista: com base no que aprendeu sobre seus ativos baseados no conhecimento, identifique as brechas que você deve aproveitar para explorar o conhecimento ou as lacunas que deve preencher a fim de afastar os rivais, e direcione para lá as atividades de P&D ou busque tecnologia a adquirir.
6. Monte seu novo portfólio de conhecimentos e repita o processo ad infinitum.
Em relação à expressão “Capital Intelectual”, Padoveze (2000) anota que a adoção da mesma justifica-se por proporcionar uma diferenciação entre os ativos tangíveis e os intangíveis da companhia. Comenta que esse conceito traz um desafio à contabilidade tradicional, pois seus proponentes entendem que o Capital Intelectual é passível de mensuração econômica motivando sua presença no Ativo da empresa, juntamente com os demais Ativos.
O mesmo autor sugere, ainda, a representação do Capital Intelectual no Balanço Patrimonial conforme demonstrado no Quadro 5.
ATIVO PASSIVO
Balanço tradicional
Investimentos tangíveis Capital financeiro Bens e direitos
Balanço Intelectual
Propriedade intelectual Capital intelectual Goodwill
Tecnologia Competência Outros
Total do Ativo Total do Passivo
Antunes (2000) diz que dentre as experiências iniciais realizadas por algumas companhias para mensurar seu Capital Intelectual, a Skandia AFS foi a primeira organização a publicar, em 1995, um relatório suplementar às Demonstrações Contábeis referentes ao ano de 1994, divulgando o Capital Intelectual da companhia.
Sveiby (1998, p.221) argumenta que a prática de divulgação dos demonstrativos de pessoal surgiu na Suécia, “onde os relatórios anuais hoje, sobretudo os das empresas públicas, normalmente contêm uma ou duas páginas com números e gráficos-chave sobre o assunto.” Nesta direção, menciona que a WM-data e a Skandia AFS podem ser consideradas exemplos em relação ao assunto. No caso da WM-data, as demonstrações publicadas por esta empresa há mais de uma década (desde 1989) abordam o assunto sem muita ênfase, evidenciando que utiliza indicadores relacionados ao Capital Intelectual para gerenciamento interno. Por seu turno, a Skandia caracterizou-se por ser mais incisiva em termos de divulgação do seu Capital Intelectual, publicando em detalhes o Business Navigator. Esta ferramenta gerencial é composta por diversos indicadores que tentam expressar o Capital intelectual da companhia, tendo alcançado grande notoriedade em termos internacionais.
No intuito de evidenciar o Capital Intelectual, Pacheco (1996, p.36) propõe a elaboração de peças contábeis complementares. Nestas demonstrações, tal autor defende a inserção dos recursos humanos como Ativos da entidade, atribuindo-lhes um valor e uma respectiva amortização, a ser expressa na demonstração de resultados. Neste caso, notas explicativas “descreveriam e justificariam os métodos de avaliação e de amortização utilizados, identificariam o valor dos gastos que foram registrados com investimento em recursos humanos e se foram auditados ou não.”
Corroborando a importância do tratamento contábil do Capital Intelectual, Batocchio e Biagio (1999) defendem que ao evidenciá-lo, as entidades estariam demonstrando a relevância que imputam ao seus ativos intangíveis. Com isso, segundo tais autores, expressam aos usuários de tais demonstrações a importância dada às parcerias mantidas com clientes e fornecedores, aos funcionários qualificados que possui, à busca por inovações tecnológicas etc. Adicionalmente, tal registro pode subsidiar decisões de investimento internas ou de terceiros.
Paiva (2000, p.5) destaca que a contabilização do Capital Intelectual não justifica o abandono ou o desprezo à contabilidade financeira. Sinaliza, sim, uma preocupação em proporcionar informações mais consistentes acerca do patrimônio da empresa, principalmente por assumir que inúmeros fatores de ordem intangível contribuem para o valor de mercado da
mesma. Finaliza argumentando que “enquanto a contabilidade ‘tradicional’ destaca elementos do passado, o Capital Intelectual viaja para o futuro.”
Buscando alternativas para a avaliação do Capital Intelectual, alguns modelos têm sido utilizados. Estas metodologias são destacadas na seção seguinte, onde comenta-se acerca das características, vantagens e limitações inerentes às mesmas.