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2 CAPITAL SÓCIO-TERRITORIAL E DESENVOLVIMENTO:

2.3 CAPITAL SÓCIO-TERRITORIAL E DESENVOLVIMENTO: UMA

INTEGRADORA PARA AÇÃO DOS CONSÓRCIOS PÚBLICOS

INTERMUNICIPAIS

Ao longo do capítulo, buscamos fragmentar a base teórica de compreensão do conceito: capital sócio-territorial e desenvolvimento, a fim de colocar amiúde todas as categorias analíticas que para o conceito convergem, para, somente, agora recompor esse conceito eminentemente geográfico e integrador das ações horizontais de coesão e da dimensão política e territorial do desenvolvimento. Nessa perspectiva, o mesmo corresponde a um desafio teórico de junção e geografização do capital social, ou seja, à dimensão de suas ações territorias voltado para o efetivo desenvolvimento.

As bases conceituais que foram apontadas ao longo desse capítulo nos permitiram visualizar que o capital sócio-territorial e desenvolvimento corresponde em sua plenitude ao somatório indissociável de uma tríade conceitual (capital social, território e desenvolvimento), o que, por sua vez, torna visível o conteúdo geográfico embutido na noção, pois, a partir do conceito, podemos operacionalizar e compreender como a sociedade organiza sua produção social, mas também como ela participa intensamente do tecido sócio-territorial, demonstrando a complexidade do fenômeno humano em suas múltiplas escalas.

Assim, a relação entre os conceitos capital social, território e desenvolvimento correspondem à tríade fundamental para compreensão do que Silva et al (2008) denominaram de capital sócio-territorial e desenvolvimento. Este representa, em síntese, a valorização das potencialidades ambientais e socioeconômicas (localização/interação) como fator de inclusão dos territórios nas redes nacionais/globais, sendo complementada pela perspectiva territorialização/identidade, que resultará no fortalecimento das interações sócio- territoriais, observadas nas relações intrínsecas de organização da sociedade, reveladas na forma de “solidariedade, capacidade organizacional e institucional em torno de interesses comuns e na formação de projetos de mudança (desenvolvimento), em um amplo e dinâmico contexto competitivo (laços de coesão e de cooperação”) (SILVA et al, 2008, p.117).

A inserção do conceito na agenda geográfica está relacionada basicamente a três vertentes: a) horizontalidades: valorização das ações de coesão, normas e reciprocidade, que passam a estimular a participação dos atores sociais no processo de governança do território; valorização de redes sociais e de solidariedade/cooperação; b) valorização do conteúdo territorial; c) perspectiva de ações proativas do desenvolvimento entre as dimensões econômicas, sociais, culturais e ambientais, em contraposição à perspectiva reducionista do desenvolvimento econômico, per si.

Dessa maneira, a concepção do capital social imbrica na maximização das redes horizontais e na articulação dos atores sociais no território que tem suas estratégias baseadas no contento das normas de confiança e reciprocidade, traços de união que serão materializados na conformação do território. Assim, impõem a essa categoria o papel de destaque, pois o coloca no centro das ações coletivas dos diferentes grupos sociais que nele se organizam. Consequentemente, “o território é

condição de processos de desenvolvimento” (SAQUET, 2007, p. 113). Todavia, procuramos evitar a sobrevalorização do conceito, sob pena de:

“[...] transformá-lo num conceito que não só, epistemologicamente, tem a pretensão de dar conta de toda a complexidade do espaço geográfico [...], como também, num sentido normativo, acaba se tornando uma verdadeira

panacéia em termos de políticas públicas” (HAESBAERT, 2010, p. 156).

De fato significa que o conceito de capital sócio-territorial e desenvolvimento tem que ser apreendido pela indissociação das três vertentes (horizontalidade/território/desenvolvimento) e não pela supervalorização de uma delas, é preciso colocar sobre a balança pesos iguais para que possamos ter uma unidade conceitual. Igualmente, esse esforço constitui-se numa postura teórica desafiante para os geógrafos, pois essa junção teórica, ao mesmo tempo em que complexifica sua análise, amplia exponencialmente a necessidade de sua geografização e difusão no meio acadêmico, pois se trata de uma proposta inovadora e integradora de analisar as ações do efetivo desenvolvimento no território, tendo como conteúdo laços de solidariedade e cooperação.

Destarte, trabalhar o conceito de capital sócio-territorial e desenvolvimento, como um conceito eminentemente geográfico, constitui-se num dos objetivos aqui propostos, pois acreditamos que tal categoria deve ser operacionalizada com maior

veemência pelo geógrafo, visto que se alicerça nos princípios geográficos: o da territorialidade, da territorialização, do desenvolvimento. Nessa essência, as articulações que procuramos organizar constituem-se numa profícua referência teórica para subsidiar a interpretação da materialidade empírica que propomos investigar, a dos Consórcios Públicos Intermunicipais.

Essas reflexões nos revelam a complexidade teórica analítica e a necessidade de valoração dos estudos geográficos sobre a problemática do desenvolvimento regional/local/territorial, maximizando o conteúdo territorial nas suas múltiplas escalas. Dessa maneira, enfocando a identidade social, os laços de coesão e solidariedade como respostas às decisões políticas verticalizadas. Nessa trama, Silva e Silva (2003) assinalam que no contexto atual é de fundamental importância a análise da tendência de organização social e política que objetiva o direcionamento de ações para o desenvolvimento territorial, pois, no âmago da territorialização dos CPIMs, a noção de autonomia administrativa advém como uma unidade socialmente integrada à solidariedade (normas de confiança e reciprocidade), frente ao processo de desenvolvimento.

Assim sendo, Silva e Silva (2003) destacam que, no mundo de relações complexas, devemos buscar compreender a perspectiva autônoma, participativa e de autogestão, priorizando as micro/meso escalas, no intuito de focar a capacidade de organização e participação social. Nesse fluxo, os autores alertam para a importância de rever a emergência de novas territorialidades pautadas nas relações de confiança, coesão e solidariedade, nas suas múltiplas escalas da dinâmica social. Isto denota a construção de uma “territorialidade politicamente organizada em torno

de objetivos comuns” (SILVA; SILVA, 2003, p. 23).

Para tal, os autores propõem um modelo de análise da organização social do território, ajustada ao conceito de capital sócio-territorial e desenvolvimento. A respeito disso, ficam destacadas três características facilitadoras para o fortalecimento/entendimento das relações intrínsecas ao conceito. Por conseguinte, da apreciação de sua interface, é indispensável identificar e compreender:

a) a capacidade que o local tem na formulação de redes de colaboração – forte conteúdo do capital social;

b) o enraizamento das características históricas e culturais que a sociedade local tem, o grau de pertencimento – territorialidade;

c) a organização espacial de maneira que estimule a colaboração entre os atores sociais e o poder local em prol da valorização de estratégias que promovam o exercício constante de inovações e mudanças – desenvolvimento.

Os CPIMs se colocam, inicialmente, como produto dessas características e posteriormente como o meio de fortalecimento dessas potencialidades locais, pois

na atualidade os processo endógenos são caracterizados “mais pela capacidade organizacional das comunidades locais e regionais em definir prioridades e formas de ação inovadora que possam dinamizar as atividades econômicas, sociais, políticas e culturais em busca de patamares mais elevados” [...] (SILVA; SILVA, 2003, p. 23).

Nesse contexto, os autores revelam que “é fundamental definir novas políticas

territoriais” (SILVA, SILVA; COELHO, 2008, p. 117) que visem a uma articulação do capital sócio-territorial e desenvolvimento, ou seja, fomentar ações territoriais a partir da lógica de coesão e cooperação para superação da questão dos desequilíbrios e desigualdades regionais (SILVA; SILVA, 2003). Dessa forma, uma das vias

assinaladas por Silva, Silva e Coelho (2008) é a superação da “guerra fiscal” entre

municípios e estados para arranjos institucionais que corroborem para o crescimento do capital social. Como exemplo os autores destacam a importância dos Consórcios Intermunicipais.

No artigo “Políticas territoriais de integração e fortalecimento urbano e

regional para o estado da Bahia” Silva e Fonseca (2008) apontam para o

fortalecimento de novas abordagens de políticas territoriais que substituam as velhas acepções da intervenção estatal, caracterizadas por ações verticais e centralizadoras, por novos arranjos institucionais que estimulem o aumento da densidade institucional local e regional apoiada na descentralização de decisões e

planejamento “permitindo, com isso, o fortalecimento de relações mais horizontais e,

consequentemente, o estímulo à ampliação do capital social no Estado da Bahia” (SILVA; FONSECA, 2008, p. 19).

Os autores consideram que a valorização de mecanismos institucionais pautados na horizontalidade deve constituir a base fundamental para as políticas de

desenvolvimento territorial no estado da Bahia, tanto na escala local quanto na escala regional.

Inserido nesse cenário territorial, Silva e Fonseca (2008) sugerem o

direcionamento de oito ações “de intervenções diferentes, mas complementares, que

estão em perfeita sintonia com as tendências nacionais e internacionais e vão de

encontro às proposições de caráter competitivo” (p. 19). As ações propostas pelos

autores possuem um caráter cooperativo, fundamentado na integração e no fortalecimento dos centros urbanos a partir da institucionalização de políticas descentralizadoras e integradas, voltadas para uma nova organização e gestão do território baiano com base na promoção do capital social. Caracterizadas pela

“participação e capacidade de auto-organização, para que os grupos sociais possam ampliar as discussões em torno dos seus problemas e que possam formular projetos integrados de interesse comum” (SILVA; FONSECA, 2008, p. 19). Sendo assim, essas propostas são: a) Consolidação e criação de Conselhos Regionais de Desenvolvimento; b) Incentivos à implantação de Consórcios Municipais; c) Implantação de um Fundo de Desenvolvimento Urbano-Regional; d) Realização de Fóruns de Desenvolvimento Urbano-Regional das Cidades Médias; e) Realização de Seminários de Integração das Ações para os Centros Urbanos; f) Implantação das Aglomerações Urbanas de Ilhéus-Itabuna e de Feira de Santana; g) Revisão da abrangência e retomada do planejamento metropolitano de Salvador; h) Fortalecimento da densidade institucional e informacional dos centros urbanos.

No caso específico dos CIMs, os autores sublinham que esse arranjo institucional representa uma inovação cuja prática necessita ser estimulada e implantada no estado da Bahia com maior veemência.

É premente que os consórcios sejam implementados num quantitativo cada vez maior, principalmente em áreas onde as municipalidades necessitam resolver questões referentes a problemas comuns em termos de infraestrutura e serviços.

Esses arranjos devem ser estimulados principalmente em “municípios com menores

densidades institucionais, informacionais e com maiores carências financeiras, de serviços básicos de infraestrutura do Estado e apresentam muitos problemas

comuns em termos de infraestrutura e de serviços” (SILVA e FONSECA, 2008, p.

Os exemplos acima demonstram a importância da efetivação de políticas públicas que tenham como centralidade a promoção efetiva do capital sócio- territorial e desenvolvimento em suas práticas empíricas. Destarte, inovações institucionais com base na formação de traços de confiança e reciprocidade devem ser estimuladas [e vêm sendo] como método de cooperação entre níveis de governo que historicamente estão unidos pela proximidade territorial.

De fato, não podemos escapar de compreender o conceito de capital sócio- territorial e desenvolvimento pela perspectiva que vem despontando no cenário atual brasileiro: o do aumento da capacidade que muitas localidades que vêm desenvolvendo em se organizarem, de modo articulado e civilmente estruturado, para a promoção de políticas públicas voltadas para o incremento da equidade e eficácia da gestão.

O capital sócio-territorial e desenvolvimento expressa a dinâmica de todos os processos políticos, econômicos, sociais e culturais. Assim, o conceito agrega valor à análise geográfica, principalmente quando é direcionada para o entendimento da importância das relações da territorialidade humana do desenvolvimento, sobretudo quando esse processo ocorre frente ao alargamento dos laços de cooperação, o que acaba corroborando para uma maior tenacidade da ação social.

Além de tudo, representa na ratificação das três vertentes indissociáveis que servem de sustentáculos para a compreensão da ideia de capital sócio-territorial e desenvolvimento – forte conteúdo na formação de confiança-reciprocidade-coesão, associado à territorialidade permanente nessa relação, tracejado para a concretização do desenvolvimento social e participativo.

É a tese defendida neste documento e aplicada a uma escala microrregional, a do Vale do Jiquiriçá, por entender nela a riqueza da valorização de questões de interesse comum e, consequentemente, o forte potencial de agregação institucional proporcionado pelos consórcios intermunicipais, como veremos a seguir.

3 CONSÓRCIOS PÚBLICOS INTERMUNICIPAIS E (DES)CENTRALIZAÇÃO NO