Capítulo III: IDEOLOGIA, EDUCAÇÃO E POLÍTICA
3.3 Capitalismo, poder do mercado na política
Karl Marx (2007) acreditava que o trabalho, em sua essência, é o que nos torna humanos. Ele contempla a essência de nossa espécie, nos permite viver, sermos criativos, e prosperarmos. Mas, a realidade do século XIX era que, o trabalho destruía os trabalhadores, principalmente os que não tinham nada para vender, além de sua força de trabalho. Para os donos de fábricas, um trabalhador era apenas uma ideia abstrata, com um estômago vazio para preencher. Os trabalhadores não tinham escolha, senão, trabalhar por longas jornadas de trabalho por alguns trocados.
Com isso surge a ideia de alienação, que seria um senso desorientador de exclusão e separação, o trabalho em fábricas, no sistema capitalista, alienou os trabalhadores dos produtos de seu trabalho, eles produziam produtos que não podiam se dar ao luxo de comprar, que iriam para lojas distantes, para fazer dinheiro para pessoas que pagaram quase nada por esse produto. As linhas de produção dividiram o trabalho em tarefas insignificantes que fizeram das horas no trabalho, entediantes e vazias. Tornavam-se engrenagens da máquina, como Charles Chaplin no filme “Tempos modernos” de 1936. Os trabalhadores passavam algumas horas em casa quando podiam comer, dormir e relaxar. O resto do tempo eles não estavam vivos de verdade, o trabalho os alienou uns dos outros. O trabalho aliena as pessoas na medida em que elas não se reconhecem em suas atividades, perdem o sentimento de pertencimento.
No sistema capitalista em que vivemos é comum grandes empresas ter grande influência política, nas eleições através de financiamento de campanhas,
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apoiam projetos políticos que os beneficiem financeiramente, como em muitos casos famosos, envolvimento em esquemas de corrupção envolvendo políticos de alto escalão e grandes empresários, alguns desses empresários com fortunas maiores que o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países em desenvolvimento.
Noam Chomsky, americano, linguista, filósofo e ativista político, no documentário “Requiem for the American Dream”, que consiste numa série de entrevistas feitas durante quatro anos, onde Chomsky apresenta seu pensamento e ideias sobre a concentração de poder nas mãos de poucas pessoas, a elite. Para explicar como esse acontecimento ocorre frequentemente e como se sustenta através do tempo, Chomsky cita dez princípios que explicam a concentração de poder. Os quais são apresentados aqui para reflexão.
Partindo do princípio que o dinheiro possui uma conexão direta com o poder, a elite sempre teve interesse em participar e influenciar na política. Podendo ser notada esta tendência mesmo em Adam Smith em “A Riqueza das Nações”, onde os “mestres da humanidade” ou elite, já demonstravam a vontade de crescer sozinha.
O primeiro ponto então seria reduzir a democracia. De forma que a elite se mantenha no poder, sem dar espaço para que algum candidato popular desponte, para isso, a ideia era diminuir a desigualdade, como forma de evitar questionamentos, protestos e crescimento de movimentos sociais.
O segundo ponto é moldar a ideologia. Nos anos 60 houve um despertamento de consciência, o que gerou vários movimentos sociais, como o movimento pela igualdade racial e pelos direitos das mulheres. Nos anos 70 o governo juntamente com os setores privados via esses movimentos como um “excesso de democracia”. Então passa a utilizar a mídia para transmitir a ideia que o sistema econômico americano estava sendo ameaçado e devia ser protegido.
O terceiro ponto seria redesenhar a economia. Ou seja, aumentar o papel das instituições financeiras. Isso pode ser visto atualmente, como por exemplo, em 2007, antes da grande crise econômica, as instituições financeiras tinham 40% dos lucros empresariais nos EUA. Grandes corporações financeiras estão no centro de disputa de poder. Esse novo parâmetro econômico, serve para manter trabalhadores inseguros, com insegurança, os manter sob controle é mais fácil.
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Quarto ponto é descolar o fardo. Fardo são os impostos e como que com o passar dos anos, os ricos estão pagando proporcionalmente menos impostos que os pobres, ressaltando o fato de que ocorre de grandes empresas e empresários não pagarem seus impostos, enquanto a grande parte da população continua a pagar.
O quinto ponto é atacar a solidariedade. Desvalorizar emoções básicas do ser humano, fazer com que as pessoas só se importem com elas mesmas. Atacar a seguridade social, a educação gratuita, chegar ao ponto de questionar o porquê de pagar impostos para beneficiar outra pessoa que não seja ela mesma.
O sexto ponto é controlar os reguladores. Algo cada vez mais comum, são as grandes empresas terem influência sob a legislação. Com o governo salvando bancos de colapsos financeiros. É a contradição do capitalismo, ver empresas recorrerem ao estado paternalista. E serem salvas pelos contribuintes, enquanto aos pobres é dito para não esperar ajuda do governo e correr atrás.
O sétimo é controlar as eleições. A concentração de riqueza gera concentração de poder político. As legislações permitem financiamento de campanha, o que gera campanhas milionárias, onde os partidos ficam dependentes de seus financiadores posteriormente.
O oitavo ponto é manter a “ralé” na linha. Atacar seriamente os sindicatos, acabar com a ideia de que existem classes (opressor x oprimido).
O nono ponto é o consentimento na produção. Desenvolver outras formas de controle, doma-los controlando suas crenças e atitudes. “Fabricar consumidores”, fabricar vontades novas, princípio da alienação. Controle através de publicidade para o consumo, e posteriormente até em eleições. Criar um eleitorado desinformado, que fará escolhas irracionais, muitas vezes contra o próprio interesse. Chomsky afirma que “A política está cada vez mais focada em interesses particulares que financiam campanhas, com o público sendo marginalizado”.
O décimo é marginalizar a população. A população se sente impotente em relação as intuições políticas, com a mídia criando consensos, gerando uma massa sem senso crítico, fazendo com que o discurso da elite pareça atrativo, gerando ódio e terreno para lideranças antidemocráticas surgirem.
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Pensando nesse movimento Escola sem Partido com um todo, percebo ele como um reflexo de um lado, uma política influenciada por grandes empresas e pelo capital, de outro, a religião com sua própria ideologia, que colide com outras ideologias que devem ser tratadas dentro de sala, também demonstrando influência e poder dentro da política, com uma forte representação na Câmara dos Deputados. Dessa forma, tendo um claro interesse da elite em várias esferas.
Esse movimento utiliza do termo “sem partido” no seu nome, porém vemos que a corrente ideológica entre seus apoiadores é muito semelhante e segue a tendência de criticar a ideologia de esquerda, partidos de esquerda, movimentos sociais, movimentos LGBT. Determinando que debater o socialismo, comunismo, a revolução russa, igualdade de gênero e diversidade seria um “delito”. Esse movimento é o mesmo que prefere considerar o Golpe Militar de 1964 como uma “Contra Revolução” e que não considera o Impeachment da Presidenta Dilma Rousseff um golpe parlamentar, criticando duramente quem assim considera.
O ESP, portanto, se apresenta como um grupo preocupado com a educação. Porém, é perceptível que devido a composição dos grupos responsáveis por essa iniciativa terem suas próprias ideologias conflitantes com outros grupos contrários à sua ideologia procuram, dessa forma, ter um controle maior sobre como essas ideologias conflitantes são apresentadas nas escolas, ou se elas devem ser apresentadas e debatidas nas escolas.
Esse projeto ameaça a educação de forma que a escola, uma instituição designada a desenvolver o pensamento científico e crítico do aluno, se vê obrigada a tratar dentro de sala, de assuntos complexos explorados pela ciência, porém respeitando as “convicções religiosas e morais” dos pais dos alunos. No livro “Escola “sem” Partido” é possível ter uma ideia de como isso funcionaria:
O que os autores do projeto pretendem, na verdade, é que o professor de biologia ensine ao mesmo tempo o logos do evolucionismo e a versão; ou seja, a doxa criacionista (campo exclusivo da religião, não da ciência); que o professor de física não ensine apenas a teoria do big bang; que o professor di história ensino que a África foi povoada pelos descendentes de Cam – deixando subjacente a ideia de que os povos africanos originaram-se de uma maldição bíblica e que, portanto, sua cultura e religião são igualmente amaldiçoadas. (FRIGOTTO, 2017, p.123).
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Portanto, os objetivos por trás do ESP são preocupantes, considerando que caso esse projeto venha um dia se tornar uma lei estaríamos sujeitos ao risco de sofrer censura dentro de sala de aula. E os impactos disso na nossa educação seriam expressivos.
No entanto, para se tornar lei, o “Escola Sem Partido” pode encontrar dificuldades, considerando que o Ministro do STF, Roberto Barroso recentemente suspendeu uma Lei baseada no Escola Sem Partido que tinha sido promulgada em Alagoas, considerando essa Lei inconstitucional.
Considerações Finais:
Esse trabalho teve como objetivo a análise do projeto de lei “Escola sem Partido”, sua composição, suas influências e seus possíveis impactos na educação brasileira.
Percebemos após análise, que o ESP surge com a ideia de combater a doutrinação ideológica que supostamente ocorre no sistema de ensino brasileiro. Possui em sua composição pais e alunos que concordam que existe essa doutrinação, assim como grupos conservadores, como o MBL, políticos de direita e bancada evangélica.
A utilização de sites oficiais e páginas do projeto servem como divulgação do mesmo, porém, também é utilizado como um espaço onde seus apoiadores exteriorizam seus discursos de ódio contra pessoas que pensam diferente sobre questões políticas ou questões que vão contra seus princípios morais e religiosos. Contando com apoiadores que possuem milhões de seguidores pelas redes sociais, esse discurso intensifica as tensões entre esquerda e direita, assim como dá representatividade a pessoas que veem esses discursos de ódio, homofóbicos e racistas como normal.
Como percebemos, o ESP é contra ideologias que enxergam o capitalismo como um sistema com problemas graves e ideologias que vão contra os princípios religiosos e morais. Weber demonstra como a religião protestante foi importante no processo de expansão do capitalismo. Chomsky pensa como os grandes empresários
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e corporações exercem seu poder na política e como essa elite (Governamental e Empresarial) utiliza de seus poderes como forma de controle.
Analiso que o ESP seja influenciado pelos ideais dessa elite empresarial e de religiosos que são representados fortemente na política dessa forma fortalecendo grupos conservadores.
Essa preocupação com o ensino demonstrada por esse projeto pode ser vista como um ataque a liberdade dos professores. Focam no medo do comunismo e acabam não discutindo assuntos mais relevantes.
Mudar é humano. Conservar valores retrógrados numa sociedade de constante evolução apenas nos impede de combater problemas como a desigualdade social, racismo, machismo e homofobia.
Por ser um assunto muito atual, o projeto de Lei Escola sem Partido ainda segue aguardando os trâmites legais do projeto na Câmara dos deputados. Com isso, esse trabalho fica como uma reflexão sobre esse movimento.
42 Referências bibliográficas:
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa – São Paulo: Martins Fontes, 2003.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo - SP Martin Claret. 2013.
FRIGOTTO, Gaudêncio. Escola “sem” Partido: esfinge que ameaça a educação e
a sociedade brasileira. Rio de Janeiro: UERJ, LLP.. 2017.
KIRK, Russel. A Política da Prudência. São Paulo. É Realizações Editora. 2013. SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. São Paulo: Abril Cultural, 1a ed., 1983. MARX, Karl. Friedrich Engels. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. São Paulo: Boitempo Editorial. 2007
MARX, Karl. Friedrich Engels. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007
GIUMBELLI, Emerson. O fim da religião: dilemas da liberdade religiosa no Brasil
e na França. São Paulo: Attar Editorial, 2002.
MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
43 Outras fontes:
Requiem for the American Dream. Direção: Kelly Nyks, Peter D. Hutchison, Jared
P. Scott. Roteiro: Kelly Nyks, Peter D. Hutchison, Jared P. Scott. PF Pictures, 2015. (Documentário) http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=105066 8<acesso em 10/02/16>. http://www.escolasempartido.org/quem-somos<acesso em 10/02/16> http://escolasempartido.org/midia/395-entrevista-de-miguel-nagib-a-revista-profissao- mestre<acesso em 10/02/16> http://www.programaescolasempartido.org/<acesso em 10/02/16> http://www.programaescolasempartido.org/saiba-mais<acesso em 10/02/16> http://exame.abril.com.br/brasil/onu-alerta-para-impactos-do-escola-sem-partido-na- educacao-do-pais/<acesso em 23/03/17> https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/aulas-sob-vigilancia-perseguicao-na- ditadura-militar-8110480#ixzz4Qb8igBPv<acesso em 19/05/17> http://escolasempartido.org/sindrome-de-estocolmo-categoria/647-mensagem-de- fim-de-ano-do-coordenador-do-escola-sem-partido-ao-militante-disfarcado-de- professor<acesso em 19/05/17> http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,bancada-evangelica-vai-comandar- discussao-sobre-escola-sem-partido,10000083205<acesso em 19/05/17> https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/10/19/bancada-evangelica- cresce-e-mistura-politica-e-religiao-no-congresso.htm<acesso em 25/03/17> http://portalconservador.com/quem-foi-russell-kirk/<acesso em 25/05/17> http://tradutoresdedireita.org/o-que-e-conservadorismo/<acesso em 25/05/17> https://direitasja.com.br/2012/09/25/a-mentalidade-conservadora-de-edmund- burke/<acesso em 25/05/17>
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