CAPÍTULO I – DIREITOS HUMANOS E HISTÓRIA
1.3 Direitos Humanos e Serviço Social: pressupostos de análise
1.3.1 Capitalismo, Questão Social e Desigualdade
Buscar as relações entre a questão social e a desigualdade social são imprescindíveis para o entendimento de como se processam as relações econômicas, sociais e culturais na atual sociedade capitalista. A apreciação crítica referente ao modo de produção capitalista e as suas respectivas particularidades sócio-econômicas é papel dos profissionais que lidam com as múltiplas expressões da questão social, tal como a desigualdade social e a ausência de efetivação dos direitos sociais.
A compreensão das relações humanas – do mundo humano – supõe o entendimento da atividade social e das relações sociais por meio das quais os homens se autoconstroem e produzem as condições de sua existência, os meios de vida. Para isso, é necessário o conhecimento da história, que identifica a possibilidade da re-criação constante do mundo dos homens, por meio do
processo de produção material da vida pelo trabalho. O trabalho é atividade que constrói a vida social, mas que tem suas particularidades no modo de produção capitalista que emerge a partir do confronto entre as relações feudais e as forças produtivas burguesas.
Foi o conflito entre as forças produtivas e as relações feudais que engendrou o modo de produção capitalista. Esse modo de produção/reprodução criou suas raízes históricas e erigiu-se na sequência de um longo e conturbado processo que passou por abalos e fissuras no sistema feudal até culminar na sua superação. É um modo de produção que contou com o ineditismo de constituir-se pelo mercado – pela supremacia do valor de troca, conformando uma organização social cujas relações materializam a submissão do trabalho ao capital e os valores de uso incorporam a condição de mercadoria (inclusive a força de trabalho toma a forma de mercadoria que, para reproduzir-se, necessita ser trocada por salário); tivemos a emersão de uma formação social com tendência à universalização das relações mercantis (FORTI, 2010, p. 3).
O modo de produção capitalista é um processo que engendrou e engendra relações sociais próprias, e somente se tornou possível a partir do momento em que já se contava com condições materiais – formal e efetiva – de subordinação do trabalho ao capital, com certo desenvolvimento das forças produtivas. E a ordem burguesa, enquanto organização social, produziu os mecanismos de preservação e ampliação do valor de troca e controle das relações mercantilizadas.
Para Marx, em “O Capital” (1996), a riqueza das sociedades em que predomina o modo de produção capitalista apresenta-se como uma imensa acumulação de mercadorias. A grandeza do valor de uma mercadoria varia pela quantidade e produtividade de trabalho humano que nela se realiza, por isso, a substância do valor tem início no trabalho humano. Neste sentido, a produção capitalista está fundada na produção de mercadorias e na extração da mais-valia (o trabalho excedente), já que o trabalhador produz para o capital e não para si. O capitalismo é movido pela produção de mercadorias, tendo no trabalho humano, o seu principal instrumento de acumulação do capital.
No processo de produção capitalista, o trabalhador que produz mais-valia é visto como um produto para o capitalista e serve para a autovalorização do capital, a partir da relação de subordinação do trabalho – venda e compra da
força de trabalho humano. O dono do capital possui os meios materiais necessários ao trabalho, e o trabalhador, que possui somente sua força de trabalho, é obrigado a vender suas capacidades de criação, sua força física e mental para o capitalista, iniciando o processo de exploração do trabalhador, que para perpetuar o processo de acumulação do capital deve produzir o máximo possível, obtendo o seu valor a partir da sua capacidade de produzir mercadorias de valor.
Segundo Marx, o processo de produção capitalista - um todo articulado e que se reproduz – constrói a mercadoria, a mais-valia e também a própria relação capital. De um lado encontra-se o capitalista e, de outro, o trabalhador assalariado, em condições que determinam a separação entre força de trabalho e condições de trabalho, como também a exploração do trabalhador. Esse processo se auto-alimenta lançando o trabalhador constantemente ao mercado, como vendedor de sua força de trabalho, e sempre transforma seu próprio produto no meio de compra do dono do capital.
O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria tanto mais barata, quanto maior número de bens produz. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como mercadoria e justamente na mesma proporção com que produz bens (MARX, 1964, p. 159).
O modo de vida na sociedade burguesa pressupõe contradições fundantes. Falar em igualdade jurídica (liberdade individual) é o mesmo que falar em desigualdade, visto que pressupõe apropriação do trabalho alheio como uma mercadoria; e analisar a questão do crescimento econômico significa falar em pauperização do trabalhador, já que há valorização do capital na mesma proporção em que há exploração do trabalhador.
Esse modo de vida implica contradições básicas: por um lado, a igualdade jurídica dos cidadãos livres é inseparável da desigualdade econômica derivada do caráter cada vez mais social da produção, contraposta à apropriação privada do trabalho alheio. Por outro lado, ao crescimento do capital corresponde a crescente pauperização relativa do trabalhador. Essa é a lei geral
da produção capitalista, que se encontra na gênese da “questão social” nessa sociedade (IAMAMOTO, 2009, p. 23).
Como já exposto, Iamamoto (1998) trata a questão social como sendo a
expressão do processo de produção e reprodução da vida social na sociedade burguesa, da totalidade histórica concreta. As múltiplas expressões da questão
social nos dias atuais são os objetos de trabalho dos profissionais do Serviço Social, e um de seus aspectos centrais é a problemática da ampliação do
desemprego e da precarização das relações de trabalho, o que revela um
processo constante de exclusão e pauperização da classe trabalhadora na mesma proporção em que se amplia a concentração de riquezas.
A Questão Social é indissociável da sociabilidade capitalista e diz respeito às lutas políticas e culturais contra as desigualdades produzidas socialmente. Na verdade, suas manifestações demonstram a existência de múltiplas desigualdades que atingem diretamente os sujeitos sociais no que tange a ausência de acesso aos bens da civilização. A questão social possui uma dimensão estrutural pela apropriação privada do trabalho na sociedade e atinge os sujeitos na luta pelos direitos de cidadania.
Utilizando-se da expressão dialética exclusão/inclusão, Sawaia (2006) apresenta o sistema capitalista a partir da ideia de que o mesmo realiza a exclusão de pessoas do sistema econômico e social, como forma de manutenção de um sistema social, ou seja, é uma inclusão que exclui. Exemplo disso é o fato de que a sociedade inclui o trabalhador, mas na mesma proporção o aliena das conquistas pessoais, do processo e resultado de seu trabalho; ou mesmo quando inclui as pessoas em políticas sociais deficientes, as mantendo excluídas e alienadas da posição de detentoras de condições para sua própria emancipação.
A exclusão é processo complexo e multifacetado, uma configuração de dimensões materiais, políticas, relacional e subjetiva. É processo sutil e dialético, pois só existe em relação à inclusão como parte constitutiva dela. Não é uma coisa ou um estado, é processo que envolve o homem por inteiro e suas relações com os outros. Não tem uma única forma e não é uma falha do sistema, devendo ser combatida como algo que perturba a ordem social, ao contrário, ele é produto do funcionamento do sistema (SAWAIA, 2006, p. 9).
Sawaia utiliza-se de Foucault para fundamentar a ideia de que a inclusão social é um processo de disciplinarização dos excluídos, e por isso, um processo de controle social para manter a ordem na desigualdade social. Para ela, só assim é possível explicar o motivo pelo qual um governo prioriza a saúde de bancos, em detrimento da saúde de pessoas.
Mas é a concepção marxista sobre o papel fundamental da miséria e da servidão na sobrevivência do sistema capitalista, que constitui a idéia central da dialética exclusão / inclusão, a ideia de que a sociedade inclui o trabalhador alienando-o de seu esforço vital. Nessa concepção a exclusão perde a ingenuidade e se insere nas estratégias históricas de manutenção da ordem social, isto é no movimento de reconstituição sem cessar de formas de singularidade, como o processo de mercantilização das coisas e dos homens e o de concentração de riquezas, os quais se expressam nas mais diversas formas: segregação, apartheid, guerras, miséria, violência legitimada (SAWAIA, 2006, p. 108).
A autora analisa o sofrimento ético-político causado pela crise do Estado e do sistema de empregabilidade. Esse sofrimento resulta do modo como as pessoas são tratadas e tratam os outros na relação intersubjetiva, cuja dinâmica é determinada pela organização social existente em cada período da sociedade. Significa dizer que a partir do sofrimento das pessoas retrata-se a vivência cotidiana das questões sociais dominantes em cada época histórica, principalmente a dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, subalterno, sem valor, apêndice inútil da sociedade. Também revela a capacidade ética das relações cotidianas, tendo por base a desigualdade social, a negação imposta socialmente quanto à possibilidade de apropriação da produção material, cultural e social, de participar do espaço público e de se expressar-se. Exemplificando uma das principais causas do sofrimento ético-político na atualidade é o fato de pessoas terem condições de trabalhar, mas precisarem conviver com a ausência do trabalho, ou o trabalho em condições cada vez mais degradantes.
Almeida (2004) discutindo sobre o fenômeno da violência e da
desigualdade social no Brasil alerta que a população mais vulnerável e
desprovida de recursos para o pleno desenvolvimento encontra-se entre os jovens, mulheres e homens negros, e que “os pobres” estão mais expostos à violência e, por isso, em estado maior de vulnerabilidade do que os “ricos”. Este
cenário se agrava com a nítida naturalização e criminalização da classe trabalhadora, que além de não ter acesso às políticas públicas básicas é estigmatizada e culpabilizada pelos “males do mundo”, vítima de comportamentos discriminatórios e repressivos, tanto por parte do Estado (através do poder de polícia) como pela sociedade, que indignada com tanta violência, equivocadamente e descontextualizada do movimento histórico da sociedade, tenta realizar “justiça com as próprias mãos”.
[...] o Brasil apresenta um quadro de desigualdades estruturais no qual se imbricam as condições de classe, de gênero e as raciais. Não é possível pensar tais regularidades como se fossem obra do acaso ou um acidente geográfico (raciocínio por demais fatalista) ou a partir de um determinismo biológico (raciocínio muito fascista). Talvez o mais apropriado nem seja falar em condições (para não correr o risco de congelar o dado), mas em conjunto de relações sociais contraditórias, estruturadoras do ser social, que, ao se potencializarem reciprocamente, produzem um grau enorme de exploração e dominação de contingentes humanos que disputam desigualmente o acesso a bens e serviço coletivos e, portanto, a direitos que deveriam se materializar em políticas públicas (ALMEIDA, 2004, p. 54).
Os temas da igualdade e da desigualdade são fundantes na discussão da violência e dos direitos humanos. É impossível e mesmo impensável imaginar um país legitimador de direitos com índices tão alarmantes de desigualdade social15, por isso, é necessário e urgente buscar estratégias viáveis e possíveis de enfrentamento à desumanização do homem. É importante refletir sobre ações que atinjam objetivamente o campo dos direitos humanos no enfrentamento às manifestações da questão social, em um quadro de crescente desigualdade social, sendo a mais contundente expressão da violação desses mesmos direitos.
Dada a gravidade vivenciada no Brasil quanto às violações de direitos humanos – que já se encontram institucionalizados nos organismos estatais e instalados entre a sociedade civil – não é mais possível desenvolver ações apenas restritivas, de contenção dos excessos e dos abusos de poder e violência. É necessário o debate abrangente sobre os direitos humanos, em uma perspectiva de totalidade e vinculando-os às políticas públicas e aos direitos,
15 Segundo artigo publicado por Frei Betto no Jornal Correio do Brasil, em 10 de agosto de 2010, em
análise ao Relatório da ONU (PNUD) divulgado também em 2010, o Brasil ocupa o terceiro pior índice de desigualdade no mundo. Quanto à distância entre pobres e ricos o país empata com o Equador e só fica atrás da Bolívia, Haiti, Madagáscar, Camarões, Tailândia e África do Sul.
consubstanciados na Constituição Federal de 1988, que bem expressa os seus elementos de indivisibilidade e interdependência, como também, recepciona tratados internacionais ratificados em vários artigos.
Como já dito, pela reforma do Estado através do Plano Diretor no Brasil, passaram a serem desenvolvidas experiências envolvendo a sociedade civil, no que tange a prestações de serviços, que antes eram de responsabilidade exclusiva do Estado. Esses projetos, denominados de organizações da sociedade civil de interesse público e organizações sociais, revelam a omissão do Estado diante da responsabilidade de proteger e promover os cidadãos através de políticas públicas, que garantam o bem-estar social.
O Estado transfere os serviços sociais para segmentos da sociedade civil e fragiliza ainda mais a perspectiva universal, isso porque, com o processo de desmonte das políticas públicas ocorre a privatização, que favorece a instituição de critérios de seletividade no atendimento aos direitos sociais, como também o voluntarismo, ações de solidariedade e práticas isoladas de caridade (filantropia), com forte apelo moral ao “bem comum” – ações que vem de encontro à manutenção da reprodução da desigualdade, da pobreza e da violência, que são tendencialmente naturalizadas. Neste sentido, o Estado restringe-se a ações de resguardar e regular o desenvolvimento social e econômico, deslocando-se da linha de frente quanto às prestações positivas, para a retaguarda.
A garantia da universalidade do acesso aos direitos, por meio das políticas públicas, programas e projetos sociais, é responsabilidade do Estado, ainda que não dependam apenas dele. Os projetos desenvolvidos por organizações privadas, da sociedade civil, muitas vezes não tem por princípio o interesse público, e sim, o interesse privado de certos grupos e segmentos sociais, o que reforça os critérios de seletividade. Assim, os serviços sociais deixam de expressar direitos universais e se vinculam no circuito de compra e venda de mercadorias, decorrente da progressiva mercantilização do atendimento às necessidades sociais e privatização das políticas sociais. Vive-se a tensão constante entre a mercantilização e re-filantropização do atendimento das necessidades sociais e a defesa dos direitos sociais universais, com expressivas implicações no que tange ao espaço ocupacional e ao trabalho dos assistentes sociais.
O campo dos direitos somente pode ser construído no espaço público, assim, é neste campo que, por excelência, os direitos humanos podem ser objetivados por meio de ações democráticas que atendam às necessidades da população.
Segundo Iamamoto (2009), os direitos sociais, que são constitutivos dos direitos humanos, foram negados no decorrer da história com a alegação de que provocam a preguiça, a acomodação e estimulam atividades paternalistas por parte do Estado. Com este instrumento ideológico, a justiça social permanece como último plano, individualiza os problemas sociais (que deveriam ser tratados no âmbito da estrutura) e fragmenta as interpretações referentes aos fenômenos da questão social, como se tudo tivesse que ser resolvido individualmente pelas relações de trabalho.
Isso explica a atual reação dos neoliberais aos direitos sociais, que não interessam à burguesia. Ela pode tolerá-los e, inclusive usá-los a seu favor, mas procura limitá-los ou suprimi-los nos momentos de recessão, quando tais direitos se chocam com a lógica de ampliação máxima dos lucros. Por tudo isso, a ampliação da cidadania – esse processo progressivo e permanente de ampliação de direitos – termina por se chocar com a lógica do capital e expõe a contradição entre cidadania e classe social: a condição de classe cria déficits e privilégios, que criam obstáculos para que todos possam participar, igualitariamente, da apropriação de riquezas espirituais e materiais, socialmente criadas. (IAMAMOTO, 2009, p. 34).
Quanto aos direitos sociais, há uma maior dificuldade de operacionalidade. Isso se deve ao fato de que esses direitos exigem do Estado maior investimento em políticas sociais que beneficiem os cidadãos nos aspectos habitacionais, de saúde, trabalho e geração de renda, saneamento básico, alimentação, dentre outros que protejam e promovam a cidadania, devendo provocar ações por parte do poder público que vão na contramão das prioridades do sistema capitalista.
É com certeza, por esse motivo, que muitos “representantes do povo” que se encontram em situações de gestores do dinheiro público, se intimidam e colocam esses direitos em segundo plano, utilizando mecanismos como a divulgação de que são inexequíveis no momento. Em outras palavras, o problema de execução de políticas públicas sociais não é pela sua ausência de fundamento, muito pelo contrário, todos sabem a importância que as ações
sociais possuem para a manutenção mínima da vida humana digna, no entanto, o problema se encontra quando se trata de passar à ação e direcionar investimentos públicos a essas políticas, e a partir daí, mesmo que seja inquestionável a sua necessidade, começam a existir reservas e oposições.
Segundo Yazbek (1993, p. 37), as políticas assistenciais são lidas a partir da categoria subalternidade16, que faz parte do universo dos dominados, dos
submetidos à exploração e à exclusão econômica e política.
São políticas casuísticas, inoperantes, fragmentadas, superpostas, sem regras estáveis ou reconhecimento de direitos. Nesse sentido, servem à acomodação de interesses de classe e são compatíveis com o caráter obsoleto dos aparelhos de Estado em face da questão. Constituem-se ações que, no limite, reproduzem a desigualdade social na sociedade brasileira (YAZBEK, 1993, p. 37).
Havendo dificuldades em objetivar os direitos sociais – pela existência de políticas sociais fragmentadas e sem perspectiva de direitos, o que reproduz a desigualdade social - em um sentido maior, há restrições e limites quanto à universalização dos direitos humanos. Percebe-se então, que as dificuldades não estão em justificar as suas importâncias - isso já é mais do que hegemônico - mas em protegê-los, garanti-los e defendê-los para além das solenes declarações, ou seja, é um problema político e de ação, não de ordem apenas filosófica.
Não é difícil perceber que interesses do capital contempla apenas uma parcela pequena da população, que possui “privilégios” formais e objetivos para consecução de seus interesses burgueses, enquanto do outro lado, encontram-se os grupos e segmentos da sociedade lutando pela materialização dos direitos básicos à vida humana – como os de moradia, alimento, condições mínimas de trabalho, salários dignos, garantia à saúde, ao lazer, à educação, às liberdades civis e políticas.
Segundo Bourdieu (1998, p. 58), os problemas sociais, que são de ordem estrutural, passam a ser divulgados pela classe dominante, distorcidamente,
16 Para Yazbek (1993), pobreza, exclusão e subalternidade configuram-se como indicadores de uma
forma de inserção na vida social, de uma condição de classe e de outras condições que reiteram a desigualdade no plano social, político, econômico e cultural, definindo para os pobres um lugar na sociedade, onde são desqualificados por suas crenças, seu modo de expressar-se e seu comportamento social, como “qualidades negativas”.
como justificação teórica para o fato de existirem os privilegiados. Isso se dá porque existe sempre a necessidade de justificar os abusos de autoridade cometidos por aqueles que se encontram no poder e, por isso, inauguram o instrumento ideológico da filosofia da competência, segundo a qual, são os mais competentes que governam, e neste mesmo sentido, também justificam a ocorrência da seleção natural dos vencedores e dos perdedores, como se a
desigualdade de competências desencadeasse as desigualdades sociais. Aos
pobres merecedores ficam as migalhas da caridade.
O Estado, gestado quase sempre por interesses das classes dominantes, utiliza-se de estratégias econômicas, sociais e de cunho administrativo- burocrático para manter um projeto voltado ao desenvolvimento econômico, sob a forma do neoliberalismo e da globalização (livre comércio)17. Neste sentido, os resultados são catastróficos para a população que vive do trabalho, que ao invés de obter a universalidade dos direitos, são vítimas da flexibilização das relações de trabalho, desregulamentação do Estado protetivo, em favor das relações de mercado, descaracterizando o real sentido do Estado para outro que privilegia a ordem socioeconômica pela violência, repressão, autoritarismo, relações individualizadas, sem universalidade quanto aos direitos de cidadania.