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CAPITULO ÚNICO 

No documento Portal Luz Espírita (páginas 176-192)

Materialismo e Espiritismo – O Espírito no Espaço – As vidas sucessivas  – Provas da reencarnação 

O  movimento  cientifico  que  caracteriza  o  século  XIX  é  o  da  investigação  positiva.  Longe  de  quererem,  como  outrora,  firmar  hipóteses  admitidas a priori e fazer que os fenômenos da natureza concordem com as  suas  idéias  preconcebidas,  os  sábios  buscaram,  no  estudo  meticuloso  dos  fatos,  sua  norma  de  conduta  e  chegaram,  seguindo  este  método,  aos  maravilhosos resultados que diariamente estamos verificando. Mas se, dei­  xando  o  domínio  material,  os  homens  de  ciência  quiserem  aplicar  o  positivismo às realidades espirituais, esbarrarão em dificuldades invencíveis  ou, pelo menos, por eles supostas como tais. 

A  escola  alemã,  com  Büchner  e  Moleschott,  declara,  positivamente,  que as velhas concepções de Deus e da alma já estão fora do seu tempo e  que a Ciência reduziu a nada essas crenças fabulosas. Moleschott aplicou­  se,  sobretudo,  a  demonstrar  que  a idéia  é  o  produto direto  de  um  trabalho  molecular do cérebro, e Karl Vogt não teme dizer que o cérebro segrega o  pensamento,  mais  ou  menos  como  a  urina  é  segregada  pelos  rins.  Em  nossa  época,  Haeckel  desenvolveu teorias  análogas;  nada  há  de  novo em  seu sistema, a não ser as palavras: o mecanismo e a adaptação patológica,  que, no fundo, significam: materialismo. 

Pois bem! Nós, espíritas, vimos dizer aos positivistas: Somos vossos  discípulos;  adotamos  o  vosso  método  e  só  aceitamos  como  reais  as  verdades  demonstradas  pela  análise,  pelos  sentidos  e  pela  observação.  Longe  de  nos  conduzirem  aos  resultados  a  que  chegastes,  esses  instrumentos de investigação fizeram­nos descobrir um novo modo de vida  e esclareceram­nos sobre os pontos controversos. 

As grandes vozes dos Crookes, dos Wallace, dos Zollner proclamam  que,  do  exame  positivo  dos  fenômenos  espíritas,  resulta  claramente  a  convicção  de  que  a  alma  é  imortal  e  que  não  só  ela  não  morre,  mas  também  pode  manifestar­se  aos  humanos,  por  meio  de  leis  ainda  pouco

conhecidas que regem a matéria imponderável. Todo efeito tem uma causa  e  todo  efeito  inteligente  faz  supor  uma  causa  inteligente:  tais  são  os  princípios,  os  axiomas  inabaláveis  sobre  os  quais  repousam  as  nossas  demonstrações. 

Os  materialistas  podiam,  há  pouco  ainda,  repelir  os  argumentos  favoráveis  aos  fenômenos,  dizendo  que  eles  não  obedecem  ao verdadeiro  método que conduz à verdade; mas nada de semelhante dever­se­á temer.  Não  viemos  dizer:  Precisa­se  de  fé  para  compreender  a  nossa  revelação.  Não tolhemos o livre exame; mas, ao contrário, dizemos: Vinde instruir­vos,  fazei  experiências,  buscai  compreender  todos  os  fenômenos,  sede  observadores  meticulosos,  não  aceiteis  uma  experiência  senão  quando  puderdes  repeti­la  muitas  vezes  e  nas  mais  variadas  circunstâncias;  em  uma palavra, caminhai prudentemente em busca do desconhecido, porque,  avançando­se à procura de novos princípios, é fácil cair­se em erro. Quando  tiverdes suficientemente estudado, o próprio fenômeno vos instruirá acerca  da  sua  natureza  e  do  seu  poder.  Não  será  essa  uma  conduta  positiva  por  excelência?  Que  poderão  os  mais  decididos  materialistas  responder  a  Robert  Hare,  ao  professor  Mapes,  ao  Sr.  Oxon?  Servimo­nos  das  armas  dos  nossos  inimigos  para  vencê­los:  é  em  nome  do  seu  método  que  proclamamos a imortalidade da alma mesmo depois da morte do corpo. 

Todas as teorias que querem fazer do homem um autômato, todos os  sábios que fizeram da ciência um escudo para proclamarem a materialidade  do  ser  humano  encontram  o  mais  formal  desmentido  no  testemunho  dos  fatos.  Não  é  verdade  que  sejamos  só  matéria;  não  é  justo  pensar­se  que,  pela morte do corpo, sendo reduzidos a pó os elementos que o constituíam,  nada  restará  daquilo  que  foi  o  ser  pensante.  A  experiência  demonstra­nos  que,  assim  como  a  borboleta  sai  da  crisálida,  assim  a  alma  deixa  o  seu  vestuário  grosseiro  de  carne  para  atirar­se,  radiante,  no  éter,  sua  pátria  eterna.  Nada  morre  neste  mundo,  porque  nada  se  perde.  O  átomo  de  matéria que se escapa de uma combinação entra no grande laboratório da  natureza,  e  a  alma,  que  se  torna  livre  pela  dissolução  de  seus  laços  corporais, volta ao seu ponto de partida. A gélida noite do túmulo não mais  nos  aterroriza,  porque  possuímos  a  prova  certa  de  que  os  mausoléus  não  encerram senão cinzas inertes e que o ser pensante não desaparece. 

E    sobretudo  para  os  miseráveis,  para  os  deserdados  deste  mundo  que  esta  sublime  prova  da  imortalidade  é  doce  e  consoladora.  A  certeza  absoluta de uma vida melhor anima o trabalhador na luta encarniçada que,  diariamente,  ele  sustenta  contra  a  necessidade.  A  morte  não  lhe  aparece  mais  brutal  e  triste,  como  o  aniquilamento  supremo,  mas,  ao  contrário,  a  porta  que  se  abre  para  um  mundo  melhor,  a  aurora  brilhante  de  um  dia

novo, mais  compensador  de  seus  sofrimentos  que  esta  triste  terra  sobre  a  qual vegeta. 

Que  todos  aqueles  a  quem  a  perda  de  um  ser  ternamente  querido  deixou  abatidos,  desanimados  levantem  a  cabeça,  porque  as  vozes  dos  Espíritos  bradam­nos  que  essa  dor  os  atinge,  que  eles  vivem  ao  redor  de  nós, que nos envolvem em sua ternura e que de  seus corações elevam­se  constantes preces pedindo ao Eterno que nos  proteja contra os perigos da  existência.  Eis  as  claridades  sublimes  que  se  desprendem  da  ciência  espírita,  eis  as  venturosas  certezas  que  não  podiam  dar­nos  as  religiões  nem as filosofias, porque seus dogmas e suas doutrinas, não estando mais  em harmonia com os progressos do século, deixam o homem a braços com  a dúvida, esse verme roedor da sociedade moderna. 

Não  nos  iludamos:  o  tempo  da  fé  cega  passou;  hoje,  é  necessário,  para  que  uma  teoria  filosófica  moral  ou  religiosa  seja  aceita,  que  ela  repouse  no  fundamento  inabalável  da  demonstração  científica.  Outros  tempos,  outros  costumes.  O  mundo  antigo  apoiou­se  na  revelação;  o  de  hoje  precisa  da  certeza  lentamente  adquirida.  A fé,  por  si  só,  não  basta;  é  indispensável  que  a  razão  sancione  o  que  se  pretende  fazer­nos  aceitar  como verdades. 

A grande força do Espiritismo consiste na liberdade de exame que ele  deixa  ao  cuidado  dos  seus  adeptos.  Todos  os  seus  princípios  podem  ser  discutidos e submetidos ao estudo. Cada vez que essa experiência foi feita,  ele  surgiu  mais  forte  e  mais  robusto  que  nunca  dessa  prova  temível.  As  religiões,  na  hora  atual,  assemelham­se  a  essas  andadeiras  que  são  indispensáveis  à  criança  para  aprender  a  caminhar,  porém  que  se  tornam  inúteis,  e  mesmo  prejudiciais,  quando  ela  adquire  o  desenvolvimento  preciso  para  se  dirigir  por  si  só.  Encerrado  em  um  dogmatismo  estreito,  o  homem  do  século  décimo  nono  sente  que  esse  ensino  caduco  não  mais  está em harmonia com os seus conhecimentos, e, forçado a escolher entre  as  certezas  da  ciência  e  a  fé  imposta,  atira­se  de  corpo  e  alma  para  o  materialismo. Se, porém, esse homem encontrar uma doutrina que concilie  as exigências da ciência com as necessidades que a sua alma tem de crer  em  alguma  coisa,  ele  não  hesitará:  adotará  essa  fé  nova,  que  satisfaz  plenamente  a  todas  as  suas  aspirações.  Estas  considerações  sumárias  explicam  a  enorme  aceitação  do  Espiritismo.  Não  devemos,  contudo,  crer  que o Espiritismo seja inimigo das religiões: ele não combate senão os seus  abusos; dirige­se mais particularmente aos materialistas e àqueles que, sem  serem completamente ateus, estão indecisos acerca da vida futura. 

Em vez de ser ridiculizada e combatida, esta doutrina deveria achar­  se na  base de todo o  ensino moral ou religioso. Dando ao homem a prova

evidente  de  que  a  sua  passagem  pela  Terra  é  temporária,  de  que  terá  de  responder, depois, pelo bem ou mal que fez, impõe um paradeiro aos seus  maus instintos, que, em nossos dias principalmente, ameaçam corromper a  sociedade. O Espiritismo faz conhecer, com efeito, as condições em que se  acha a alma depois da morte do corpo. Em vez de considerar o Espírito de  um  modo  abstrato,  nossa  doutrina  demonstra  que  ele  é,  depois  da  morte,  uma  individualidade  verdadeira,  que  não  tem  menos  realidade  que  o  homem;  somente  a  natureza  do  corpo  mudou,  quando  as  condições  da  existência deixaram de ser as mesmas. 

O ESPÍRITO NO ESPAÇO 

O  Espírito  está  revestido  de  um  invólucro  a  que  chamamos  perispírito. Esse corpo é formado pelo fluido universal terrestre, isto é, pela  matéria sob a sua forma primordial. A união entre o corpo e a alma pode ser  comparada a uma combinação. Quando essa combinação se desfaz, o que  sucede  na  ocasião  da  morte,  a  alma  desprende­se  com  o  seu  invólucro  espiritual, que é indecomponível, pois que é composto pela matéria em sua  forma inicial, e conserva as suas propriedades, como o oxigênio que, saindo  de  uma  combinação,  nada  perdeu  de  suas  afinidades.  Nesse  estado,  o  corpo  espiritual,  segundo  a  expressão  de  São  Paulo,  tem  sensações  que  nos  são  desconhecidas  na  Terra  e  que  lhe  devem  propiciar  gozos  muito  superiores aos que experimentamos aqui. 

A  Ciência  ensina­nos  que  os  nossos  sentidos  apenas  nos  fazem  conhecer  ínfima  parte  da  natureza,  porém  que,  além  e  aquém  dos  limites  impostos às nossas sensações, existem vibrações sutis, em número infinito,  que constituem modos de existência de que não podemos formar idéia, por  falta de palavras para exprimi­la. 

A  alma  assiste,  pois,  a  espetáculos  que  não  temos  meios  de  descrever:  ouve  harmonias  que  nenhum  ouvido  humano  tem  apreciado,  move­se  em  completa  oposição  às  condições  de  viabilidade  terrestre.  O  Espírito  libertado  das  cadeias  do  corpo  não  tem  mais  necessidade  de  alimentar­se, não se arrasta mais pelo solo: a matéria imponderável de que  é formado permite­lhe transportar­se  para os mais longínquos lugares com  a  rapidez  do  relâmpago,  e,  segundo  o  grau  do  seu  adiantamento  moral,  suas  ocupações  espirituais  afastam­se  mais  ou  menos  das  preocupações  que  nutria  na  Terra.  Não  se  pode  mais  negar  a  existência  do  corpo  espiritual,  porque  experiências  diretas  permitiram­nos  estudar  a  sua  natureza e o seu modo de condensação.

Vimos,  nas  experiências  de  Crookes  e  de  Aksakof,  esse  corpo  espiritual  ir  revestindo  aos  poucos  os  caracteres  da  matéria,  e  as  moldagens mostram­nos que ele é rigorosamente idêntico ao que o Espírito  tinha na Terra. 

Uma  simples  analogia  pode,  senão  explicar,  ao  menos  ajudar  a  compreender o que se dá em tal caso: 

O  perispírito  pode  ser  comparado  a  um  eletroímã;  o  corpo,  ao  espectro magnético; a vida, à eletricidade. 

Enquanto  o  fluido  elétrico  não  circula,  não  há  espectro,  o  eletroímã  fica  indiferente:  eis  um  estado  análogo  ao  do  perispírito  no  espaço;  ele  contém, virtualmente, em si, todas as linhas que formam o organismo, mas  não  as  dispõe.  Logo  que  a  corrente  circula  no  eletroímã,  a  limalha  acomoda­se,  seguindo  uma  certa  ordem,  e  forma  esse  desenho  a  que  chamamos espectro magnético; do mesmo modo sucede com o perispírito:  sob a influência do fluido vital subtraído ao médium, ele acomoda a matéria,  conforme o desenho do organismo, e reproduz o corpo humano, como este  era na vida terrena. 

O  perispírito,  se  bem  que  formado  de  matéria  primitiva,  é  mais  ou  menos  livre  de  misturas,  conforme  o  mundo  habitado  pelo  Espírito.  Essa  observação  nos  conduz  ao  assinalamento  do  verdadeiro  lugar  que  ocupamos no Universo. 

Uma verdade  que  a  Astronomia  hoje tornou vulgar  é a  de  não  ser  o  nosso mundo o centro do Universo; segundo ela, a nossa pequena Terra é  um dos planetas mais pobremente dotados do sistema solar. Nada, em seu  volume ou na posição da sua eclíptica, da qual resultam as estações, lhe dá  o  direito  de  orgulhar­se  do  lugar  que  ocupa,  e,  não  muito  longe  de  nós,  o  planeta  Júpiter  oferece­nos  o  exemplo  de  condições  de  habitabilidade  preferíveis às nossas. 

Com  esses  conhecimentos  que  fazem  das  estrelas  sóis  como  o  nosso,  em  cujo  redor  circulam  planetas,  caíram  os  erros  seculares  dos  nossos avós, segundo os quais o inferno achava­se colocado no centro da  Terra,  e  o  terceiro  céu,  aquele  aonde  foi  elevado  São  Paulo,  distava  nos  confins  da  criação.  Esses  dados  cosmológicos  baseavam­se  na ignorância  dos teólogos a respeito das verdadeiras proporções do Universo. 

Quando  a  Ciência,  com  a  inexorável  lógica  dos  fatos,  abriu  aos  nossos olhos atônitos e deslumbrados as perspectivas ilimitadas do Infinito,  quando a Astronomia projetou o seu telescópio para os espaços siderais, as  velhas  lendas  evaporaram­se  ao  sopro  da  realidade.  Os  mundos  que  povoam o Universo são terras como a nossa, sobre as quais palpita a vida  universal, e o homem moderno ri das pretensões infantis dos nossos  ante­

passados, que quiseram limitar a este imperceptível grão de areia, chamado  Terra,  as  manifestações  da  força  infinita,  incriada  e  eterna,  a  que  se  dá  o  nome de Deus. 

Se, porém, o céu não existe no lugar em que o indicavam, para onde  foi ele transportado? Em que região do imenso Universo devemos colocar o  éden de delícias prometido às almas que cumpriram aqui dignamente a sua  missão?  Eis  o  que  nenhuma  religião  indica,  e  somente  o  Espiritismo,  demonstrando  o  verdadeiro  destino  do  homem,  põe­nos  no  estado  de  compreender  o  progresso  indefinito  do  Espírito,  por  transmigrações  su­  cessivas. Tomando por ponto de partida os atributos de Deus e a natureza  do  homem,  Allan  Kardec  mostrou  qual  devia  ser  o  nosso  futuro  espiritual.  Vamos, resumindo, expor­lhe a teoria. 

O homem é composto de corpo e Espírito; o Espírito é o ser principal,  o  ser  racional  e  inteligente;  o  corpo  é  o  invólucro  material  que  o  Espírito  reveste  temporariamente  para  o  cumprimento  da  sua  missão  na  Terra  e  para  a  execução  do  trabalho  necessário  ao  seu  adiantamento.  O  corpo,  quando  gasto,  é  destruído,  mas  a  alma  sobrevive  a  essa  destruição.  Em  suma, o Espírito é tudo, e a matéria não é mais que um acessório, de modo  que  a  alma,  libertada  dos  laços  corporais,  entra  no  espaço,  que  é  a  sua  verdadeira pátria. 

Há,  pois,  o  mundo  corporal,  composto  de  Espíritos  encarnados,  e  o  mundo  espiritual,  formado  pelos  Espíritos  desencarnados.  Os  seres  do  mundo corporal, em virtude do seu invólucro material, estão presos à Terra  ou a outro globo qualquer; o mundo espiritual está por toda parte, ao redor  de  nós  e  no  espaço;  ele  é  ilimitado.  Como  o  dissemos,  em  razão  da  sua  natureza fluídica, os seres que o compõem têm um modo de vida particular,  dependente do seu organismo imponderável. 

Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas com aptidão para  adquirirem  tudo  e  progredirem  em  virtude  do  seu  livre­arbítrio.  Pelo  progresso,  adquirem  novos  conhecimentos,  novas  faculdades  e,  por  conseqüência,  novos  gozos  desconhecidos  aos  Espíritos  inferiores;  vêem,  ouvem,  sentem  e  compreendem  o  que  os  Espíritos  atrasados  não  podem  ver,  ouvir,  sentir  e  compreender.  A  felicidade  está  na  razão  direta  do  progresso  feito;  de modo  que,  de  dois  Espíritos,  um pode  não  ser  tão  feliz  quanto  o  outro,  unicamente  por  não  ser  tão  adiantado  intelectual  e  moralmente,  sem  que  tenham  necessidade  de  achar­se  cada  um  em lugar  diferente. 

Achando­se  mesmo  ao  lado  um  do  outro,  pode  um  estar  em  trevas,  quando  tudo  é  resplandecente  ao  redor  do  outro,  exatamente  como  se  dá  com  um  cego  caminhando  ao  lado  de  uma  pessoa  que  vê  perfeitamente;

um  percebe  a  luz,  ao  passo  que  o  outro  nenhuma  impressão  tem  a  esse  respeito.  Sendo  a  felicidade  dos  Espíritos  inerente  às  qualidades  que  possuem, eles a gozam onde quer que estejam: na superfície da Terra, no  meio dos encarnados ou no Espaço. 

E  fácil  compreender  que  o  organismo  fluídico  seja  mais  ou  menos  apto  para  perceber  as  sensações,  conforme  o  Espírito  for  mais  ou  menos  grosseiro. Sabemos que as paixões más viciam o invólucro perispiritual, do  mesmo modo  que  as  enfermidades  corrompem  a  carne  terrena; visto isso,  existe para os seres desencarnados uma recompensa proporcional à soma  de virtude que eles adquiriram. Na Terra, acontece, muitas vezes, ficarmos  cheios de admiração à vista das maravilhosas perspectivas de um radiante  ocaso do Sol ou de uma aurora esplêndida; mas, que são esses matizes de  luz ao lado das inumeráveis vibrações fluídicas que, sem cessar, se cruzam  no espaço e que dão àqueles que as testemunham os mais inefáveis gozos!  Uma comparação vulgar fará melhor compreender essa situação:  Se num concerto se acharem dois homens, um deles bom músico, de  ouvido  educado,  o  outro  sem  conhecimentos  musicais  e  de  ouvido  pouco  delicado: o primeiro experimenta uma sensação de agrado, ao passo que o  outro  fica  insensível;  porque  um  compreende  e  percebe  o  que  nenhuma  impressão  causa  ao  outro.  O  mesmo  se  dá  em  relação  a  todos  os  gozos  dos Espíritos; eles são proporcionais à aptidão que estes têm para senti­los.  O mundo da erraticidade tem por toda parte esplendores e harmonias  que  os  Espíritos  inferiores,  ainda  dominados  pela  matéria,  nem  mesmo  entrevêem, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados. 

O Espiritismo ensina que a nossa situação, na vida de além­túmulo, é  a  resultante  do  nosso  estado  moral  e  dos  esforços  que  fizermos  para  nos  elevarmos no caminho do bem. Podemos trabalhar em nosso adiantamento  espiritual,  com  atividade  ou  negligência,  segundo  o  nosso  desejo,  mas  também os nossos progressos são apressados ou retardados, e, por conse­  qüência,  a  nossa  felicidade  aproxima­se  ou  afasta­se  segundo  a  nossa  vontade.

Os  Espíritos  são  os  próprios  construtores  do  seu  futuro  conforme  o  ensino do Cristo: A cada um segundo as suas obras. Todo Espírito que ficar  demorado  em  seu  progresso  somente  de  si  próprio  deverá  queixar­se,  do  mesmo  modo  que  aquele  que  se  adiantar  tem  todo  o  mérito  do  seu  procedimento: a felicidade que ele conquistou tem por esse fato mais valor  aos seus olhos. 

A  vida  normal  do  Espírito  efetua­se  no  espaço,  mas  a  encarnação  opera­se numa das terras que povoam o Infinito; esta é necessária ao  seu  duplo progresso, moral e intelectual: ao progresso intelectual, pela atividade

que  ele  é  obrigado  a  desenvolver  no  trabalho;  ao  progresso  moral,  pela  necessidade que os homens têm uns dos outros. A vida social é a pedra de  toque das boas e das más qualidades. A bondade, a malvadeza, a doçura,  a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a  humildade, a sinceridade, a fraqueza, a lealdade, a má­fé, a hipocrisia, em  uma palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso  tem  por  móvel  ou  por  incentivo  as  relações  do  homem  com  os  seus  semelhantes; aquele que vivesse  só não teria vícios nem virtudes, porque,  se, pelo isolamento, ele se  preserva do mal, anula, com isso, o bem. Uma  só  existência  corporal  é  manifestamente  insuficiente  para  que  o  Espírito  possa adquirir tudo o que lhe falta de bem, e despojar­se de todo o mal que  em  si  exista.  O  selvagem,  por  exemplo,  não  poderá  numa  só  encarnação  atingir  o  nível  moral  do  europeu  mais  adiantado.  Isso  lhe  é  materialmente  impossível.  Deverá  ele,  portanto,  ficar  eternamente  na  ignorância  e  na  barbárie,  privado  dos  gozos  que  só  lhe  podem  vir  com  o  desenvolvimento  de suas faculdades? O simples bom senso repele tal suposição, que seria,  ao  mesmo  tempo,  a  negação  da  justiça,  da  bondade  de  Deus  e  da  lei  progressiva da Natureza. 

AS VIDAS SUCESSIVAS 

A  lei  das  existências  sucessivas  é­nos  ensinada  pelos  Espíritos  instruídos.  O  testemunho  de  milhares  de  almas  que  se  comunicam  vem  trazer a esta crença a autoridade da experiência diária, porque todos dizem­  nos que vêem os erros de suas vidas passadas, que sofrem por isso e que  procuram voltar à Terra para reparar as faltas anteriormente cometidas. 

Eis o que a respeito diz Allan Kardec: 

O  dogma  da  reencarnação,  afirmam  certas  pessoas,  não  é  novo:  ressuscitou  de  Pitágoras.  Nunca  dissemos  que  a  doutrina  espírita  fosse  invenção moderna; o Espiritismo, sendo uma lei da Natureza, existe desde  a  origem  dos  tempos,  e  sempre  nos  esforçamos  em  provar  que  seus  indícios  aparecem  desde  a  mais  remota  antigüidade.  Pitágoras,  como  se  sabe,  não  é  o  autor  do  sistema  da  metempsicose:  colheu­o  entre  os  filósofos  da  índia  e  do  Egito,  onde  ele  existia  desde  tempos  imemoriais.  A  idéia  da  transmigração  das  almas  era,  pois,  uma  crença  vulgar,  admitida  pelos homens mais eminentes. Como lhes veio essa idéia? Pela revelação  ou por intuição? Não o sabemos; mas, como quer que tenha sido, uma idéia  não transpõe as idades  e não é  aceita por inteligências escolhidas, se  não  tiver um lado sério.

No documento Portal Luz Espírita (páginas 176-192)

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