• Nenhum resultado encontrado

“O texto quando cai na alma de um aluno, ele transforma... Ele me transformou!”

Profª Patrícia Oliveira

Um dos mais influentes nomes na literatura sobre os Novos Estudos do letramento é David Barton. Ao conceituar “ecologia do letramento”, o autor utiliza- se de conceituações como “nichos ecológicos”, “ecossistemas”, “equilíbrio” e as aplica às atividades humanas de usar a leitura e a escrita. De fato, aponta que o letramento é “parte do ambiente e ao mesmo tempo influencia e é influenciado pelo ambiente” (BARTON, 1994, p.29).

O confronto com suas ideias permitiu-nos relativizar o discurso da professora-sujeito da nossa investigação e as práticas de letramento ocorridas em sua sala de aula. A primeira pergunta que nos inquietou foi: As práticas de escrita e de leitura na sala de aula investigada têm como objetivo “aprender a ler e a escrever?” e/ou “ler e escrever são ferramentas para aprender conteúdos?”

Porém, ao nos defrontarmos com o cotidiano da sala de aula, percebemos que nossas perguntas não seriam pertinentes em relação ao nosso objeto de estudo. Para entendermos os usos e significados das práticas de letramento no contexto mencionado, caberia, primeiramente, compreender: Quem são seus sujeitos? Qual valor atribuem à escrita? Que ideologias subjazem às práticas de leitura e de escrita? Qual o papel e finalidades da escrita? Que relações os sujeitos investigados estabeleceriam com a escrita? Antes, porém, de caracterizarmos os sujeitos, apresentamos uma breve descrição do contexto destas práticas.

7.1.1 A sala de aula e os alunos

As observações da escola pesquisada mostraram salas de aula precárias. Apesar da estrutura da sala ser relativamente boa, a conservação deixa a

146

desejar. Como explica a gestora, “Agente precisaria de mais verbas pra ajeitar”. A sala tem cerca de 20 carteiras, algumas delas sem braço de apoio; outras sem se equilibrarem corretamente no chão; outras ainda com os encostos danificados. Um fato que nos chamou bastante atenção é que a sala possuía quadro-branco, um sinal de modernidade, mesmo que, segundo as professoras, as mesmas devam comprar os pilotos quando o pequeno estoque acaba.

FIGURA 12

Figura 12 : Sala de aula do 5º ano

Na sala não há janelas, observa-se apenas um ventilador em mau funcionamento. Em uma das paredes encontramos, de fora a fora, “persianas” que ajudam bastante na ventilação e na iluminação do espaço. O chão da escola é de cimento batido, mas, devido ao uso, está com buracos e nem sempre proporciona uma limpeza adequada. As paredes estavam precisando de uma demão de tinta, porém notamos a presença de calendários, nomes de aniversariantes, produções dos alunos, cantinho de leitura e “alfabetário”.

FIGURA 13

147

A sala de aula observada era bastante pequena. Tinha 12 alunos, em sua maioria com 10 anos de idade, e apenas um fora de faixa, com 14 anos de idade. Inicialmente, eram 14 crianças, mas, como é comum nas escolas da zona rural, houve duas transferências. A média de frequência dos alunos na sala, por dia observado, ficou entre 10 e 11 alunos, sendo nas segundas-feiras, dia de feira na cidade, a frequência é bem menor, o que nos fez tirar este dia do nosso calendário de observações. A metade dos alunos era oriunda da vila e a outra metade, das localidades próximas. O meio de subsistência, em sua maioria, como visto na análise dos questionários aplicados aos pais, é a agricultura; exceto uma aluna, cuja mãe era agente de saúde e o pai trabalhava em uma empresa de venda de materiais de construção na cidade. Segundo a professora, muitos alunos se encontravam, no início do ano, no nível silábico-alfabético e duas destas crianças apresentavam dificuldade de aprendizagem.

Neste trabalho, estamos atribuindo à sala de aula a mesma acepção expressa por Macedo (2010, p. 459) quando afirma ser este um espaço sociocultural complexo e multifacetado:

Esse espaço pode ser tratado como um lugar em que alunos e professores interagem e negociam significado no processo ensino- aprendizagem e, nesse processo, constroem a sua história enquanto grupo por meio da participação em diferentes eventos que constituem o fluxo da vida cotidiana da sala de aula.

Esta acepção de sala de aula enquanto espaço social marcado por histórias diversas foi adotada em nossa pesquisa, cabendo-nos aqui espaço para estas particularidades.

7.1.2. A PROFESSORA DO 5º ANO36: lembranças e história de vida

“(...) Não teve uma professora como D. Cleonice, eu procurei em toda a minha vida (...)”. Profª Patrícia Oliveira

148

Para compreendermos melhor as bases das práticas de letramento propostas por esta docente, faz-se necessário percorrermos alguns episódios de sua história de vida, a fim de termos elementos que possam nos auxiliar na análise dos usos e dos significados atribuídos a tais práticas.

Vejamos alguns excertos de relatos de suas experiências de vida, nos quais ela rememora sua relação com a escrita no âmbito familiar.

Tinha tios que contavam histórias... minha vó paterna, eu lembro... zelava os livros deles dentro de uma caixa. Tinha também uma estante linda, cheia de livros. Meus tios não chegaram a se formar, era o tempo da ditadura... mas eles liam histórias pra mim aos domingos. Tinha uma estante cheia de livros. No domingo ele juntava os sobrinhos e contava as histórias (o menino que foi roubado pelos ciganos; a história da morte, a filha do rei) era o fato dele ser contador de história, só que ele não contava sentado, ele contava em pé, de lá pra cá, pulava de lado pra outro!.

Um fato interessante é que apesar destas práticas de ler e escutar histórias em família desde muito cedo, a docente nos conta que demorou a aprender a ler. Isso ocorreu, segundo ela, devido à professora do seu primeiro ano de escolarização ser muito rígida, demonstrando pouco afeto em relação às crianças de classe social menos favorecida e de etnia negra. Vejamos este relato:

Eu demorei a ler por conta da professora do pré (não vai fazer xixi! puxava minhas orelhas; eu era a última a merendar! Não me deu a lembrancinha de Natal!; porque as sobrinhas dela eram todas galegas e eu preta). Minha mãe quis me botar no Solidônio Leite37, que era uma escola para as elites. Ela fazia meu irmão me levar, porque ela creditava no ensino do Solidônio Leite, que era vizinho à escola normal e o que acontece: a professora trazia as sobrinhas e o tratamento dela era totalmente diferente com os alunos, era bruta... ela gritava e os cabelos caiam assim na testa. Eu me lembro!!!! Eu era quieta, aí eu pedi pra ir ao banheiro e ela não deixou e tentei segurar. Aí eu fiz xixi na roupa... ela não me bateu, mas ela me humilhou!!! Disse a todo mundo da escola... ela teve nojo e foi constrangedor e eu chorava... era minha primeira realidade na escola (...)

Aí, foi totalmente diferente das histórias de leitura... como Deus prepara planos, meu tio, ele era ainda solteiro, ele me ensinou a ler, com toda paciência. Porque eu aprendi a ler com muita, muita, muita dificuldade, já estava na terceira, já, 10 anos. Aí, nesta terceira série, eu peguei dona Cleonice, que até hoje é uma festa quando a gente se encontra, a qual contava: “roque, roque, roque, roque, roque e o rato e a ratinha namorando”. Com ela eu aprendi que a criança precisa brincar, precisa cantar e da música tentar simular um texto, trazer alguma coisa, depois eu fui perceber que Marcuschi, ele dizia que o livro didático está muito distante da sala de aula, porque está muito distante do problema daquela turma. Assim, a gente tem que defender textos que circula gritante na sala de aula e eu percebi isso com esta minha professora da 3ª série,

minha teórica foi ela... ela deixava a aula mais alegre e os alunos mais participativos e só existiu

ela na minha vida, Dona Cleonice. Não teve uma professora como D. Cleonice, eu procurei em toda a minha vida, procurei pra meu filho, que tem problema de leitura, não teve professora como D. Cleonice, ela fazia agente ficar até em cima da banca pra fazer coreografia e isso na década de 80 (1983/84) eu não encontro aulas conteudista, aulas silábicas, aulas sem música, sem

interação, sem conversa, sem vida... eu não encontro professores como D. Cleonice. Ela foi a

149

minha mestra... ela distribuiu simpatia, interação, ela naquele tempo ela fazia a gente escrever coisas pro dia a dia, já mandava a gente escrever o que queria... e manda mesmo. (grifos

nossos)

Este longo relato nos remete a muitas observações trazidas das aulas da professora. De fato, pudemos dizer que a sua sala era a mais “barulhenta” de toda a escola, mesmo quando se tinha a menor quantidade de alunos. A professora estabelecia uma rotina bem diversificada e atraente aos alunos, que se mostravam dispostos a realizar as atividades propostas.

Ao ser perguntada sobre a expectativa de seus pais sobre a aquisição da leitura e a escrita, afirma:

Meu pai dizia, “meu Deus não tem jeito, não”, uma menina desta idade, a maior da turma. Ele ficava louco, dizia, Patrícia, é assim ... assim! Eu dizia: tá bom, tá bom, tá bom! Aí foi o livro “terra da gente” com a palavra TAPIOCA, ainda me lembro, TA PI O CA – A mãe estava fazendo a tapioca. Tinha outras palavras, mas o foco era aprender tapioca. Quando, neste dia, eu li a frase todinha com ele, soletrando, ele me levou pra casa e mandou eu ler pra mãe TAPIOCA. Era o livro terra da gente, porque circulava nestas escolas do campo e minha tia tinha, era professora do campo, minha tia era do município e acho interessante, aí levou este livro, achou que tinha funcionalidade. E o livro, ele tinha um contexto, por mais que fosse silábico, ele tinha um alfabeto ilustrado por desenho do campo, ele tinha uns ‘textoszinhos’ voltados à realidade regional (tapioca/cipó/açude) quando eu li com ele, foi uma emoção pra mim, porque eu tava começando a conhecer as sílabas, eu tinha dominado aquele texto...daquele jeito (mangava do meu jeito de ler travado), mas tinha dominado!!! Mas teve toda uma perspectiva de meus pais de esperar por aquele momento. Eu fui apresentada a eles!!!

Regastar as experiências da professora sujeito da nossa pesquisa foi uma etapa importantíssima na realização deste trabalho. Entendemos, tal como Barton e Hamilton (1998), que contextos e momentos outros determinam as nossas práticas “hoje”, levando-se em

conta a possibilidade de que essas pessoas, como seres sociais que são, inevitavelmente são providas de saberes adquiridos em situações diversificadas e em outros momentos, com grandes chances de as suas histórias de vida contemplarem experiências nas quais a escrita poderia ter estado presente (LOPES, 2004, p. 89)

Após descrevermos um pouco sobre o ambiente da sala de aula, seus alunos e a professora, interessamo-nos em compreender os usos e os significados das práticas de leitura e de escrita ocorridos neste espaço. Desta maneira, usamos um texto bastante conhecido pelos educadores, de Rubens Alves (2001):

150 Bons professores, como a aranha, sabem que lições, essas teias de palavras, não podem ser tecidas no vazio. Elas precisam de fundamentos. Os fios, por fino e leves que sejam, têm de estar amarrados a coisas sólidas: arvores, paredes, caibros. Se as amarras são cortadas, a teia é soprada pelo vendo, e a aranha perde a casa. Professores sabem que isso vale também para as palavras: separadas das coisas, elas perdem sentido. Por si mesmas, elas não se sustentam. Como acontece coma teia de aranha, se suas amarras às coisas sólidas são cortadas, elas se tornam sons vazios: nonsense...

Utilizamos a metáfora enunciada por Alves (2001) para falarmos dos eventos e das práticas de letramento no espaço da sala de aula. Estamos considerando os “eventos” de letramento como fios que “por si só” não se sustentam, mas na trama, nas teias de palavras em que são tecidas, isto é, na interação com a escrita, adquirem, através de seus usuários, significados, crenças, saberes e valores - Práticas de Letramento. Observamos, também, como no cotidiano ordinário as pessoas estabelecem “fazeres” que se consolidam enquanto táticas frente a estratégias de manipulação. Cada âmbito (espaço/tempo) expõe um “cotidiano” único, onde várias histórias estão sendo escritas ao mesmo tempo, sendo, assim, um lócus repleto de riquezas de elementos e significados.

7.2 OS EVENTOS DE LETRAMENTO NA SALA DO 5º ANO: OS FIOS DOS