Parêntesis II: A Assistência Bilateral ao Desenvolvimento surge em 1949, quando o então presidente dos EUA, Harry Truman, propôs o «Programa dos 4 Pontos» (versão para o
RÁDIOS COMUNITÁRIAS: O FUTURO FALA «GLOCAL»
9. Carácter Inter e Multidisciplinar das Rádios Comunitárias
No âmbito desta perspectiva, as RC - iniciativas pró-activas de DC – permitem: 1. Uma compreensão multidisciplinar e multissectorial da comunidade;
2. A identificação de dinâmicas socio-político culturais e artísticas; 3. A articulação de lideranças e de organizações dos três sectores; 4. A mobilização e potencialização de recursos e talentos existentes; 5. A projecção de uma visão colectiva e de futuro;
6. O desenvolvimento de acções conjuntas em benefício da comunidade; 7. A capacitação de pessoas e o fortalecimento de laços societais; 8. A atracção e fixação de jovens e de emprego qualificado; 9. Melhorar o nível e a qualidade do emprego;
10. Melhorar a organização do mercado de formação (exemplo disso é a Escola de Artes e Ofícios de Quelélé, em Bissau, que ministra formação nas mais diversas áreas de interesse e que é resultado das demandas dos ouvintes da Rádio Comunitária Voz de Quelélé);
11. Melhorar os níveis de escolaridade e de qualificação da população residente, em particular dos jovens e adolescentes;
12. Promover os jovens no mercado de trabalho e reconverter e reinserir profissionalmente trabalhadores desempregados;
13. Reforçar e valorizar o potencial humano de determinada região;
167
15. Gerar polos e redes privilegiadas de participação/acção na vida das comunidades, garantindo-lhes autonomia;
A FAO acrescenta outras características comprovativas da sua versatilidade:
“(…) informing and motivating rural communities (…), local solidarity (…), emergence of new forces within society, such as farmer associations (…), devoted to specific issues such health hazards (AIDS, onchocerciasis), agricultural topics (rice, cotton, irrigation, livestock), women’s issues, etc. Diversity of actors and iniciatives (…), linguistic and socio-economic diversity (…), closer and more interactive communication with village communities and empowers rural populations with a better use of this means of communication”53.
Nos cinquenta anos de história/de experiências que se seguiram ao documento das NU “Progresso Social através do Desenvolvimento Comunitário” (1950), emergiu um conjunto de princípios estruturantes das estratégias de DC e cuja actualidade é inequívoca:
- Princípio das Necessidade Sentidas - um projecto de DC humanista deve partir das carências sentidas pelas populações e não apenas das “necessidades consciencializadas pelos técnicos” 54;
- Princípio da Participação - as populações devem envolver-se profundamente em dinâmicas/processos/estratégias/instrumentos que gerem desenvolvimento sustentado; - Princípio da Cooperação - estreita colaboração/articulação entre os diversos sectores
(ONG, Estados, Associações de Base, etc.) da sociedade nos projectos de DC;
- Princípio da Auto-Sustentação - os processos de mudança devem ser equilibrados, contínuos e mantidos pelas populações envolvidas que, per si, devem dotá-los de mecanismos inibidores de efeitos perversos, gerados pelas alterações efectuadas; - Princípio da Universalidade – os projectos de desenvolvimento devem abranger o
todo da população visada e não apenas subgrupos dessa população e devem almejar alterar profundamente as condições que perpetuam o subdesenvolvimento.
A relevância das RC nos actuais programas de desenvolvimento radica exactamente nestes princípios e, sobretudo, numa compreensão dialógica: 1. Não há globalização sem representatividade, realidade que impõe a necessidade de capacitar as sociedades em vias de desenvolvimento; 2. Quando se prevê mudanças estruturais que ditarão alterações efectivas no comportamento das pessoas, torna-se necessário prepará-las para novos modelos de relacionamento social, assim como para novas estratégias de envolvimento comunitário:
“African rural societies increasingly find that they must adapt to a rapidly changing world. They have to integrate into complex worldwide economic mechanisms and yet not lose sight
53 Corporate Document Repository: “Development of Rural Radio in Africa – Declaration and Plan of action”.
In: http://www.fao.org/docrep/w3618e/w3618e01.htm (consultado a 08-07-2012).
168
of the need to ensure their own food security. They must manage and protect their resources, improve their standards of living, health and education, and value and conserve their cultural heritage. Communication is essential to overcome the constraints to development and face the challenges. Rural communities should have at their disposal the tools to access and convey useful information and knowledge. They should be able to exchange experiences, knowledge and techniques, and be actors in the debate on development matters”55.
Subjacente a esta preocupação da FAO, está a «Dimensão Prática do Desenvolvimento Comunitário» “pelas consequências que a sua aplicação tem no terreno, tanto pela implicação das comunidades no processo do seu próprio Desenvolvimento como pela alteração das práticas profissionais a que obriga” (Carmo, 2007: 84). As RC incorporam essa dimensão prática, instituindo-se como uma bússola para a intervenção comunitária na medida em que visam ultrapassar três problemas: a sobre-informação, a sub-informação e a pseudo- informação, componentes que integram o conceito de “nevoeiro informacional” de Edgar Morin (1981: 19-26).
“It is also important to emphasize that radio remains, and will no doubt continue to remain for some time, the communication media that is most readily available to serve the economic, social and cultural needs of rural Africans. It provides the one source of information, expression and communication at a time when new technology and global information and communication networks monopolize international attention, and siphon off a significant proportion of available resources. It is therefore essential to ensure the survival and credibility of African rural radio”56.
Nesta perspectiva, as RC devem adoptar uma metodologia rigorosa que lhes permita seleccionar informação relevante sobre as comunidades que servem e expor os seus problemas numa linguagem simples, avaliando uma série de componentes societais: inputs (contributos do macrossistema para a comunidade, que podem, ou não, condicionar o desenvolvimento da mesma), outputs (contributos da comunidade para o macrossistema onde está integrada), outtakes (elementos retirados ou a retirar da estratégia comunicacional comunitária que integra o microssistema), outcomes (opiniões, atitudes, emoções das audiências) e outflows (impacto na estratégia das organizações ou do público-alvo).
E, assim, ter em conta os cinco tipos de necessidades humanas identificados por Maslow: fisiológicas, de segurança, de pertença, de estima, de auto-realização. O interventor e/ou
55 Corporate Document Repository: “Development of Rural Radio in Africa – Declaration and Plan of action”.
In: http://www.fao.org/docrep/w3618e/w3618e01.htm (consultado a 08-07-2012).
169
radialista comunitário deve: a) Desenvolver estratégias de relacionamento com a comunidade visando instaurar um clima de confiança mútua e b) Promover estratégias sócio-educativas visando incutir na comunidade, nos seus grupos e líderes, as seguintes alterações:
Atitude Global: Passiva è Activa/Vibrante
Atitude perante os Outros: Dependente è Independente Comportamentos: Padronizados è Autonomizados
Interesses: Superficiais è Profundos/Orientados/Especializados Atitude face ao tempo: Curto Prazo è Médio/Longo Prazo Consciência de si: Estereotipada è Objectiva/Assertiva
Foi exactamente esta perspectiva prática que os entrevistados no terreno exaltaram. À pergunta “o que significa DC?”, responderam: modéstia, humildade, estreita ligação entre parceiros locais, intervenção conjunta, simbiose entre recursos endógenos e exógenos e sinergia entre o SABER-SABER e o SABER-FAZER. Exemplo de uma estratégia de DC eficaz é, sem dúvida, o Centro de Saúde do Bairro de Quelélé, na Guiné-Bissau, cuja necessidade de construção foi identificada pela Associação de Moradores (devido ao alto índice de mortalidade materna) que pediu ajuda à ONG AD (disponibilizou materiais de construção) que, por sua vez, solicitou a intervenção do Ministério da Saúde (contribuiu com médicos, enfermeiros e analistas), da UNICEF (distribuiu medicamentos), da Câmara Municipal de Bissau (cedeu espaço para construção), tendo a própria Associação mobilizado os moradores que, numa lógica cooperativista, contribuíram com a mão-de-obra.
Qual o papel da RC Voz de Quelélé? “Mobilizou jovens para o trabalho voluntário na construção civil, mobilizou mulheres para cozinharem para os trabalhadores e acompanhou/geriu os diferentes actores desta iniciativa de intervenção social. O sucesso de qualquer projecto de desenvolvimento depende sempre da participação activa e consciente dos beneficiários, do diálogo, da concertação e de parcerias nas acções a empreender”, explicou Jorge Handem, director da Escola de Formação Profissional “Artes e Ofícios” da ONG AD, para quem «DC» é uma “estratégia que gera e gere mudanças”, umas menos outras mais conflituosas, e é sobre estas últimas que as RC devem intervir mais energicamente:
“Por exemplo, acções junto das comunidades que praticam a queima de matas/florestas. Não basta uma ONG exigir à comunidade que cesse a actividade sob pena de prejudicar o ambiente, isto porque, existem pessoas que retiram daí o seu rendimento e defendem-se alegando que se trata de uma prática ancestral! Não é fácil intervir com uma acção de desenvolvimento comunitário que vise uma alteração radical de hábitos e comportamentos
170
enraizados! Urge encontrar soluções alternativas - de que é exemplo o micro-crédito - que permitam às pessoas desenvolver outras actividades com as quais se identifiquem, das quais retirem dividendos e que beneficiem o país. É aí que as RC desempenham o seu papel, informando os cidadãos das vantagens deste tipo de alternativas rentabilizadoras”57.
Este testemunho espelha, na perfeição, a definição de DC da CDX “Community Development Exchange” (Figura 26), cujo mote é “Supporting people who support communities”: