1.2 Conceitos e características do direito de autor
1.2.9 Caráter dual do direito do autor
A visão atual é de que o direito do autor apresenta duas manifestações distintas, porém interligadas, possuindo uma natureza jurídica dúplice, híbrida ou sui generis. Nesta linha, são identificadas características de direito moral e de direito patrimonial. Os direitos morais são aqueles relacionados à proteção da personalidade do autor, e direitos patrimoniais são aqueles relacionados ao aproveitamento comercial da obra.
Os direitos patrimoniais de autor estão indicados expressamente na Constituição Federal, em seu artigo 5º, incisos XXVII e XXVIII. Desta forma, o inciso XXVII constitui a base de sustentação dos direitos patrimoniais, o inciso XXVIII constitui um direito de fiscalizar editores, além de estabelecer uma vertente constitucional para os direitos conexos, assim como para o chamado “direito de arena”. 73 Estes direitos advém da exclusividade dada ao autor para explorar economicamente sua obra, o que representa um verdadeiro monopólio.
Assim, a Constituição Federal, em seu art. 5º, inciso XXVII, aponta três direitos exclusivos do autor: o direito de usar, publicar e reproduzir. No entanto, ao fazer uma análise dos tratados internacionais e da LDA, é certo que os direitos dos autores não se resumem aos três mencionados na Constituição Federal de 1988. Assim, nota-se que a Lei de Direitos Autorais fala, por exemplo, em seu art. 5º, também em direitos de emissão, transmissão, distribuição, comunicação ao público, etc.
Portanto, é possível afirmar que o ordenamento jurídico atual define como necessária a consulta prévia ao autor, para que seja possível a utilização de uma obra, sob
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ABRÃO, Eliane Y. Direitos de autor e direitos conexos, p. 35. Ver também: BEVILAQUA, Clovis. Direito das coisas, 1o v. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1941, p. 273-274; BITTAR, Carlos Alberto. Direito de autor, 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p. 17.
73 MIZUKAMI, Pedro Nicoletti. Função Social da Propriedade Intelectual: Compartilhamento de Arquivos e Direitos Autorais na CF/88. 2007. 537 f. Tese (Mestrado) - Curso de Direito, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2007. Disponível em: <http://www.culturalivre.org.br/artigos/comp-arquivos-da.pdf>. Acesso em: 3 set. 2011.
pena de violar os direitos de autor, cometendo, desta forma, ilícito cível e penal. Desta forma, os direitos patrimoniais sobre as obras intelectuais hoje possuem como características: o direito de propriedade; a mobilidade da titularidade sobre os direitos, podendo assim serem alienados ou transferidos; e a temporalidade, para efeitos de fruição, prescrição e penhora.
Já os direitos morais possuem características distintas dos direitos patrimoniais, são considerados a manifestação da personalidade do autor, ligada a elaboração, divulgação e titulação da obra. Os direitos morais do autor são elencados pela LDA, em seu artigo 24: O inciso I prevê o direito de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra; O inciso II determina que o autor tem o direito, no caso de utilização de sua obra, de ver o seu nome ou pseudônimo indicado como autor; O inciso III trata-se do direito de conservar a obra inédita; O inciso IV assegura e integridade da obra, protegendo-a de quaisquer modificações ou da prática de atos que possam prejudicá-lo ou atingi-lo; O inciso V diz que o autor poderá modificar a obra, antes ou depois de utilizá-la; O inciso VI afirma que o autor também poderá tirar sua obra de circulação, quando esta caracterizar afronta a sua imagem; e o inciso VII garante ao autor, acesso a exemplar único ou raro da obra, quando esta se encontre legitimamente em poder de outrem.
Para buscar uma base constitucional para os direitos morais, primeiramente faz-se necessária uma pequena análise da Propriedade Intelectual, contida no capítulo dos direitos e garantias individuais do homem, no rol de direitos e garantias fundamentais do art. 5° da Constituição Federal, a propriedade industrial está prevista no inciso XXIX, enquanto o direito de autor está incluso nos incisos XXVII e XXVIII74. Esta inclusão do direito de autor no rol de direitos e garantias fundamentais advém da ideia de que os direitos de propriedade intelectual nascem de direito natural.
74 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XXVII - aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar;
XXVIII - são assegurados, nos termos da lei:
a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas;
b) o direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participarem aos criadores, aos intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas;
XXIX - a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País;
No entanto, a ideia de que os direitos de propriedade intelectual são fundamentais e surgem de direito natural é bastante controvertida. Denis Borges Barbosa diz que não é em todo sistema constitucional que a propriedade intelectual tem o prestígio de ser incorporada literalmente no texto básico, tal como ocorre na Constituição Federal Brasileira. Para ele, os direitos de propriedade intelectual nascem de lei e não de direito natural. 75
Essas ideias controvertidas serão objeto de discussão posteriormente, quando for feita a análise da constitucionalização do Direito de Autor.
75 BARBOSA, Denis Borges. Bases constitucionais da propriedade intelectual. In: Revista da ABPI – Associação Brasileira da Propriedade Intelectual no 59, jul/ago de 2002, p. 16.
2 A MANIFESTAÇÃO DA FUNÇÃO SOCIAL NO DIREITO
Il y a longtemps que l’on discute le point de savoir de quel côté se trouve la raison, du côté de la minorité ou de celui de la majorité. Guillaume Apollinaire