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Característica generativa da internet e futuros desafios

1.3 Democracia e liberdade na internet

1.3.4 Característica generativa da internet e futuros desafios

O Termo “generatividade” é oriundo da língua inglesa do termo generative, que significa capacidade criativa. O termo foi usado pelo professor de direito de internet de Harvard, Jonathan Zittrain, é tema central de sua obra “The future of the internet and how to stop it” que aborda o desenvolvimento da internet e seu crescimento cada vez mais acelerado e discorrendo sobre a importância das contribuições de um público criativo e variado44.

Um dos fatores que contribuiu para o crescimento e popularidade da internet foi a ilimitada versatilidade existente em ambiente virtual, o que trás uma sensação de liberdade jamais vivenciada e possibilita aos usuários serem ao mesmo tempo consumidores e criadores, como bem descrito em 2006 pelo professor de filosofia do direito da Universidade de Harvard, Lawrence Lessig, em sua obra Code Version 2.0, obra criada sob o Creative Commons45, também de sua criação. 46

Sites que possibilitam aos usuários compartilharem informações, agregarem algum conteúdo, contribuiu para a disseminação de emissores e multiplicadores de conteúdo de internet em todo mundo, criando um ambiente de contínuo crescimento a aperfeiçoamento. Contudo, sem uma governança que não seja setorial.

De acordo com o periódico britânico The Guardian, o site o Wikipédia que tem aproximadamente 10 anos de existência, se fossem impressos seus arquivos, teríamos mais de mil volumes, com cada um com mais de 1.200 páginas. Sua contínua possibilidade de edição e criação de textos, potencializa a velocidade de crescimento do volume de conteúdo. 47

Neste contexto, a revista americana Time Magazine, internacionalmente conhecida desde 1927 por escolher uma personalidade do ano48, elegeu para o ano

44 ZITTRAIN Jonathan. The future of the Internet and how to Stop it, R.R. Donnelley, Harrisonburg.

Virginia 2009.

45 Disponível em: http://creativecommons.org/about. Acesso em: novembro 2014

46 LESSIG L. – Code 2.0. Harvard. 2006

47 Disponível em: http://www.theguardian.com/books/2014/feb/20/wikipedia-1000-volume-print-edition-crowdfunding. Acesso em: novembro 2014

48 Disponível em: http://time.com/3614128/person-of-the-year-covers/. Acesso em: novembro 2014 A revista americana TIME escolhe para homenagear em sua capa elege uma personalidade que tenha influenciado o mundo seja para melhor ou para pior.

de 2006 como personalidade do ano “você”, ou seja, o usuário de internet, o cidadão comum, o usuário de internet que consome, fornece e compartilha conteúdo na internet e é aquele que mais tem contribuído para o crescimento de desenvolvimento da rede. 49

Os defensores da internet livre, como Lessig e Zittrain, compartilham que a liberdade proporcionou o crescimento da internet e a liberdade deve ser ampla no sentido do seu desenvolvimento.

Ocorre que a sensação de liberdade vivida por cada usuário de internet, para agir e se expressar poderá colidir com direito de outro usuário. A mesma liberdade que fascina, proporcionará em algumas ocasiões, desconforto, constrangimento e prejuízos.

Outro grande fascínio proporcionado aos usuários da rede é a possiblidade de se comunicar e interagir em meios virtuais, sem a necessidade de se conhecer pessoalmente o interlocutor, que ao mesmo tempo equipara e aproxima os conectados, independente de idade, sexo, origem ou etnia, basta que compartilhem o mesmo idioma.

Sherry Turkle, psicanalista americana e professora do Massachusetts Institute of Technology - MIT, dedicada ao estudo da internet e seus impactos na sociedade, “considera as fantasias e personagens experimentadas como reforço da multiplicidade do indivíduo” 50. Para a estudiosa, as diferentes identidades assumidas pelos internautas permitem revelar de forma clara esta noção, vez que numa conversa de chat ou troca de e mail, pode se vivenciar uma infinidade de possiblidades fantasiosas que pode ser ou não detectada por seu interlocutor.

Com isso, as inúmeras possibilidades de se viver um personagem, passam também a ser um fator de insegurança para quem utiliza a rede. Mesmo em ambientes artificialmente criados, que proporcionam uma relativa sensação de segurança aos seus usuários, como os sites de redes sociais, onde existe um certo critério para aceitação e possibilitando que cada usuário crie seu perfil, disponibilizando um conjunto de informações, como fotos pessoais ou conexão

49 Disponível em: http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,1570810,00.html. Acesso em:

novembro 2014

50 Disponível em: http://www.transparencynow.com/turkle.htm. Acesso em: novembro 2014.

outros usuários, no entanto, esses perfis podem ser parcialmente ou completamente falsos.

Brasileiros massivamente ocupam e utilizam os sites ou plataformas conhecidas como redes sociais, postam, acessam e compartilham conteúdos, que mediante novos aplicativos e aparelhos mais modernos e mais portáteis, potencializam e aceleram o fluxo e troca de informações.

Faz parte do passado checar os e-mails recebidos apenas quando se chega em casa ao fim do dia, ou quando se chega ao escritório após compromissos externos. Normalmente é possível acessar, postar ou compartilhar algum conteúdo, na fila para ser atendido em um banco ou esperando o elevador.

Nesse ritmo cada vez mais acelerado de troca de mensagens, postagem e compartilhamento de conteúdo, necessário é se atentar ao respeito aos direitos fundamentais do cidadão na internet e importante é analisar em que medida a direção que segue a legislação referente a internet no Brasil, mesmo em seu momento embrionário, aproxima-se das propostas mundiais para governança de internet no que tange a proteção de direitos fundamentais.

Necessário ainda, com a massiva e crescente utilização da internet pela sociedade brasileira, observar novos aspectos a serem considerados quando a sociedade se depara com questões conflituosas de direitos fundamentais constitucionalmente assegurados, como o conflito entre liberdade de expressão e direitos de personalidade.

Com a massiva participação do cidadão brasileiro em redes sociais da internet e com o constante aumento do fluxo de mensagens e conteúdos publicados em sites de conteúdo, verifica-se potencializada a possiblidade de ocorrência de condutas que podem causar danos. A internet é um ambiente novo e livre de normas que propicia a atuação dos formadores de opinião, sempre dispostos a chocar ou entreter seu público, com palavras ou com imagens, que em algumas oportunidades ofendendo direito alheio, onde a liberdade de expressão encontra limites nos direitos de personalidade, estes igualmente plasmados em nosso texto constitucional como direitos fundamentais e dignos de uma proteção especial.

Porém, uma carência legislativa referente ao uso da internet, que considere suas especificidades ao mesmo tempo que não contribua para que o cidadão

possa exercer sua cidadania em meios digitais, coloca o usuário sob risco de uma cada vez maior vigilância e controle, deixando o ainda desguarnecido no que tange ao respeito aos seus direitos constitucionalmente assegurados, mas não efetivamente observados em meios digitais.