• Nenhum resultado encontrado

3.4 FONAÇÃO

3.4.2 Características acústicas dos tipos de fonação

marcação de fronteiras prosódicas nas línguas. Gordon e Ladefoged (2001, p. 391)

afirmam que a fonação não-modal das vogais é extremamente comum na

vizinhança de consoantes que não são produzidas com a fonação modal, como é o

caso das vogais que precedem consoantes oclusivas. Segundo esses autores, é

também recorrente haver soprosidade antes de oclusivas não-vozeadas e

crepitância antes de ejetivas. A fonação não-modal, especialmente a voz

crepitante, é geralmente usada como marcadora de fronteira prosódica, tanto no

início quanto no fim da frase entoacional. Ainda no domínio prosódico, há uma

grande incidência de voz crepitante no início de frase, principalmente no início de

enunciados mais longos e em sílabas acentuadas. Um número relativamente

pequeno de pesquisas tem investigado a fonação não-modal alofônica, como é o

caso do IN (Ladefoged, 1983; Löfqvist e McGowan, 1992) e do sueco (Gobl e Ní

Chasaide, 1999; Löfqvist e McGowan, 1992).

3.4.2 Características acústicas dos tipos de fonação

De acordo com Gordon e Ladefoged (2001, p. 397), há um número de

propriedades acústicas, articulatórias e aerodinâmicas que caracterizam as vozes

soprosa e crepitante, diferenciando-as entre si e também da voz modal. Para este

trabalho, serão focalizadas as características acústicas da voz soprosa e da

crepitante, em comparação com a voz modal. Para descrever esses e outros tipos

de fonação, Kreiman e Sidtis (2011) afirmam que há dois caminhos: analisar os

padrões da voz em função do tempo (medidas de domínio temporal) ou em função

da frequência (medidas de domínio de frequência).

No domínio temporal, uma das propriedades acústicas mais importantes da

fonação não-modal tem relação com a periodicidade. Como já mencionado na

seção 3.4.1.2.1, a voz crepitante apresenta pulsos glotais aperiódicos, ou seja,

irregularidades na duração do ciclo glotal que determina a frequência fundamental.

A voz soprosa também apresenta aperiodicidade, já que os pulsos glotais são

modificados pela presença do ruído na fonação, principalmente em altas

26

Para uma revisão de diversas línguas que usam a fonação de forma contrastiva, ver Keating et al., 2010.

frequências. A Figura 4 mostra a aperiodicidade do sinal acústico pelas figuras dos

formatos de onda de vocábulos do Jalapa Mazatec produzidos por uma falante

feminina.

Com relação à amplitude, ambas crepitância e soprosidade estão

associadas à diminuição da intensidade acústica. Como pode ser visto na (FIGURA

4), em comparação à voz modal, esses tipos de fonação apresentam amplitude

bastante reduzida. Com relação à frequência, voz crepitante apresenta períodos de

pitch menos frequentes e irregulares na sua duração.

No domínio da frequência, os tipos de fonação podem ser descritos pelo

declínio espectral

27

, que é o grau em que a intensidade diminui na medida em que

27 Em IN, “spectral tilt”.

FIGURA 4: FORMA DA ONDA E ESPECTROGRAMA DA FONAÇÃO MODAL, SOPROSA E CREPITANTE, RESPECTIVAMENTE

a frequência aumenta. O declínio espectral é medido pela comparação entra as

amplitudes da frequência fundamental (F0, que também pode ser chamada de H1)

e dos harmônicos mais próximos do primeiro, segundo ou terceiros formantes. Em

comparação com a voz modal, na voz soprosa, há um aumento na amplitude do

primeiro harmônico e no declínio espectral. Já na voz crepitante, o declínio

espectral é menor, e a amplitude do primeiro harmônico é menor que a do

segundo. Isso quer dizer que a queda da energia em frequências mais altas é

menor para a voz crepitante do que para a voz soprosa. A Figura 5 traz as

diferenças de declínio espectral entre os tipos de fonação, exemplificados por

palavras do São Lucas Quivaní Zapotec:

Na Figura 5, pode-se ver que no caso da voz modal, as amplitudes da F0 e

do harmônico mais próximo do F1 são relativamente parecidas. Já na voz soprosa,

a amplitude do harmônico mais próximo do F1 é consideravelmente menor que a

FIGURA 5: ESPECTROS FFT DA VOGAL /a/ NA VOZ MODAL, SOPROSA E CREPITANTE FONTE: Ladefoged e Gordon, 2001(p. 398).

amplitude da F0. Por outro lado, na voz crepitante, a amplitude do harmônico mais

próximo do F1 é maior que a amplitude da F0.

A relação entre a F0 e o segundo harmônico também é bastante importante

na caracterização da fonação. Como se pode ver na figura 5, na voz modal, o

segundo harmônico tem amplitude levemente menor que a da F0. Por sua vez, na

voz soprosa, o segundo harmônico tem uma amplitude consideravelmente menor

que a da F0. Em oposição, na voz crepitante, a amplitude do H2 é geralmente

maior que a da F0.

Tipos de fonação não-modal usualmente apresentam valores menores de F0

em relação à voz modal (GORDON e LADEFOGED, 2001, p. 399). Porém, Keating

e Esposito (2007, p. 89) afirmam que tal correlação pode não ser verdadeira para

todas as línguas, já que os resultados de algumas pesquisas não encontraram

correlação significante entre valores de F0 e tipos de fonação (HOLMBERG et al.,

1989; EPSTEIN, 2002), enquanto outra verificou a correlação entre o aumento do

H1*-H2* com o aumento da F0 (ISELI et al., 2006).

A frequência dos formantes também pode ser afetada pelo tipo de fonação.

Gordon e Ladefoged (2001, p. 400) apontam que os valores de frequência do

primeiro formante da voz crepitante são geralmente mais altos do que os da voz

modal e da voz soprosa, fator esse resultante do levantamento da laringe na

produção daquele tipo de fonação (SAMELY, 1991 para o Kedang; KIRK et al.,

1993, para o Jalapa Mazatec). Por fim, a duração das vogais é outra característica

acústica que pode ser alterada pelo tipo de fonação produzido. Kreiman e Sidtis

(2011) afirmam que vogais produzidas com ambas vozes soprosa e crepitante têm

maior duração do que as vogais produzidas com a voz modal. Gordon e Ladefoged

(2001) argumentam que é possível que o aumento na duração das vogais

produzidas com fonações não-modais pode acontecer por conta da maior

ocorrência desses tipos de fonação em vogais tônicas e não átonas, como por

exemplo em Hupa (Gordon, 1998).