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3.3 A abelha Apis mellifera

3.3.2 Características biológicas e comportamentais

Os trabalhos de MICHENER (1974) e FREE (1987; 1993) estão entre os que melhor descrevem as características biológicas da abelha melífera. A colônia tem sua população dividida em três partes, aproximadamente iguais, das quais uma parte é constituída por ovos e crias (larvas, pré-pupas e pupas), outra parte por adultos de serviço interno e a terceira parte por adultos de serviço externo. Os adultos são divididos por sexo e categorias (ou castas), e por seus tipos de tarefas.

A abelha A. mellifera é inseto pecilotérmico mas com a colônia comportando-se como um organismo homeotermo. A temperatura basal individual varia conforme o porte: as operárias em temperatura basal entre 5ºC a 7ºC; os indivíduos maiores, zangões e rainha, não suportam menos que 9ºC a 11ºC, e a colônia mantém sempre na região do ninho (a câmara de cria) com cerca de 33ºC a 34ºC. Uma colônia é estruturada em castas, determinadas por ação de feromônios, tendo uma rainha (a fêmea fértil), cerca de oito dezenas de machos ou zangões e mais ou menos 60 mil a 80 mil abelhas operárias (fêmeas inférteis). As fêmeas apresentam duas castas morfológicas, as operárias e a rainha. ROTHENBUHLER & PAGE (1989), comentam sobre a importância do polietismo nas abelhas, isto é, divisão de tarefas por faixa etária, com todos os indivíduos tendo funções das quais depende a sobrevivência da família e com as operárias sendo os indivíduos que atuam dentro dos mais diversos tipos de trabalho, em tarefas intranidais, extranidais e em tarefas externas à colméia.

A A. mellifera é um inseto social, característica que também influi em sua alta adaptabilidade. Muitos animais vivem juntos, em grupo, e não são necessariamente sociais, e MICHENER (1974) comenta que o comportamento verdadeiramente social (eusocial) pode ser definido por três características: há cuidados da prole (ninhada) em conjunto, não com

interesse individual na própria descendência; há sobreposição de gerações de modo que o grupo (a colônia) sustentará a todos durante algum tempo, com cada geração sustentando e auxiliando os pais durante a vida destes; e há divisão do trabalho reprodutivo. Nos insetos, isto significa que há um ou alguns reprodutores e os trabalhadores são estéreis. As proles são numericamente expressivas, contando com famílias médias entre 50.000 a 80.000 indivíduos e, dependendo da estação e da raça, com variações entre 6.000 a 140.000 componentes em uma só colônia.

Para essas abelhas, a prosperidade e sobrevivência da família depende da aquisição de recursos a fim de satisfazer as necessidades de todos os indivíduos na sociedade que compõem. A cooperação existente surge pela necessidade de sobrevivência somada à eficiência em trabalharem em conjunto, o que requer transferir informações, integrar e coordenar as atividades individuais. De acordo com MCFARLAND (1993), a A. mellifera tem comportamentos complexos que exigem aprendizado e estimativas, fatos que deveriam ser amplo conhecimento dos profissionais da área apícola

O ciclo de reprodução é fundamentado no acasalamento da rainha com vários zangões, que são encontrados em campos de fecundação (regiões próximas aos apiários) formados espontaneamente. A postura dos ovos, que originam operárias, e dos óvulos, que originam zangões, obedece a um período mais ou menos padronizado para cada subespécie (raça), e varia de 19 a 21 dias (menos para as africanizadas). A diferenciação em castas de fêmeas férteis (rainha) e inférteis (operárias) começa na fase de cria, e é induzida através de mecanismos hormonais e nutricionais. Estes mecanismos atuam por toda vida útil da rainha, controlando o desempenho da colônia através dos feromônios de agregação da família, de estímulo à colheita, de inibição dos ovários das operárias, de estímulo ao abandono ou à enxameação. Os feromônios da rainha darão os diversos comandos que regularão a colméia, enquanto a rainha for saudável. A rainha pode atingir de três a cinco anos de vida (africana menos, européias mais) enquanto as outras fêmeas terão, em média, 40 dias de vida e os machos viverão em torno de 80 dias (FREE, 1987; GONÇALVES, 1994).

O ninho, local central da colônia e onde ficam os favos com crias, não pode ter grande variação térmica, oscilando no máximo 4ºC a 6ºC por períodos curtos, de minutos a poucas horas. No resto da colméia a temperatura e a umidade, que estão sempre sendo reguladas pelas operárias, sofrerá oscilações de acordo com o distanciamento da câmara de cria. A termorregulação é realizada através do esforço ergotérmico das operárias, abanando as asas

para ventilação, com conseqüente resfriamento, ou vibrando os músculos torácicos, para elevar a temperatura. Também, regulam a umidade através do calor e utilizam outros procedimentos termorreguladores e umidificadores, para baixar temperatura ou elevar a umidade. Dependendo da necessidade de larvas e pupas serem mantidas plenamente viáveis, utilizam: aspersão de gotículas de água, para umidificar e/ou resfriar; esvaziamento populacional, para resfriamento; adensamento populacional, para aquecimento. Os zangões podem participar indiretamente do incremento de temperatura da colméia, quando expõem-se ao sol e retornam à colônia com a temperatura de seus corpos elevadas. Deste modo, dissipam calor e auxiliam, deste modo, as operárias a manterem o ninho aquecido à noite. As crias abertas (ou desoperculadas, na fase até cinco dias) e as crias fechadas (ou operculadas, na fase de pré pupa e pupa até 19-21 dias) apresentarão sutís diferenças térmicas e odoríficas em caso de doença ou presença de agentes invasores, o que induzirá à ação das abelhas da faixa etária final de serviços internos (com comportamento higiênico exacerbado) na tarefa de eliminar estas crias deficientes (CALDERONE & PAGE, 1991; DIETZ & VERGARA, 1995; GRAMACHO, 2002).

Importantes características biológicas também são sua excelente visão e seu sistema de orientação. Aprendem a localizar-se e, para tanto, memorizam o ângulo formado pelo sol em relação ao planeta, a fim de poderem retornar a sua colméia e encontrarem os elementos principais para a sobrevivência, as floradas e a água existentes num raio de três a cinco km. Estes animais vêem a luz polarizada e orientam-se bem pelo ultravioleta, distingüindo muito bem as cores, menos os tons escuros (o preto e suas nuances, e o vermelho), englobando-os numa mesma tonalidade. Aprendem a tarefa de colheita e possuem um sistema de comunicação complexo (CRANE, 1985).

Uma das mais extraordinárias características é sua dança de comunicação, descoberta por Karl von Frisch e que rendeu a ele um prêmio Nobel, em 1973 (GONÇALVES, 1994). A dança informa distância e localização das fontes alimentares e de água, através de movimentos de dança (em círculo, foice ou requebrado). Com evoluções, de acordo com o tipo de dança, número de evoluções por segundo e pelo direcionamento do corpo, informam a distância em metros ou quilômetros e, também, a direção em relação ao ângulo solar. Algumas subespécies tem dialetos de dança diferentes para informar as fontes de alimento (as caucásicas expressam-se em dialeto diferente do das italianas).

No entanto, a base da comunicação das abelhas é química, através dos feromônios e de substâncias químicas odoríficas segregados por diversos órgãos. A partir dos feromônios da rainha, inúmeros comandos direcionam a vida da colônia, o que demonstra a importância de haver rainhas jovens e saudáveis nas colméias, pois seus feromônios estarão sempre atuantes.

A fim de otimizar as atividades das operárias é fundamental que as caixas permitam às abelhas abrigo, temperatura e proteção adequados contra as intempéries, tanto no inverno quanto no verão. Este esquema de proteção visa, entre outros, evitar que venham a comer as crias por deficit de água e impedir de deslocar as campeiras do serviço de colheita de néctar e pólen para o de coleta de água para termorregulação de sobrevivência (LARISA,1998).

Há diferenças morfológicas e comportamentais expressivas entre as abelhas regiões de clima frio e de clima quente. Como a raça africana é quem prepondera no país, através de suas descendentes africanizadas, é fundamental conhecer estes caracteres. Na Tabela 6, pode- se verificar as diferenças principais entre as raças de clima frio e as de clima quente.

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