CAPÍTULO 3 O BAIRRO JARDIM NOVA ESPERANÇA
3.2 CARACTERÍSTICAS DA FORMAÇÃO DO JARDIM NOVA ESPERANÇA
Nos dias atuais, o progressivo crescimento da urbanização em nível mundial expressa que a ampliação do território das cidades decorre do fato de efetivação do paradigma do período contemporâneo. A fundamentação deste modelo espacial está alicerçada na disparidade entre as nações, na especulação imobiliária e na desigualdade da distribuição da população no território.
Entre as décadas de 1940 e 1980, houve uma transformação da população brasileira que passou de rural para se tornar preponderantemente urbana. Neste processo de desenvolvimento urbano se caracterizar por, segregador, houve a privação das classes sociais de menor poder de compra e de condições básicas de integração efetiva no meio urbano, além de ser considerado, um modelo de urbanização concentrador.
Somente no século XX que se intensificou o processo de urbanização no Brasil. Entre 1940 e 1980 a população urbana brasileira cresceu cerca de 34,4%, no entanto, a mudança de uma população rural para uma urbana ampliou-se na década de 60, expandindo-se até a década de 70. (IBGE,1991)
Essa urbanização desordenada promove o surgimento de uma série de problemas sociais e ambientais, pois durante o processo não planejado que chega
de forma súbita aos municípios, se encontram despreparados para atender às necessidades básicas dos migrantes, ocasionando desemprego, a criminalidade, a formação de favelas e a poluição do ar e da água.
Todavia o Brasil é um país de contrastes, o que se reflete na urbanização. A distribuição por todo o território nacional se estabeleceu com grande divergência, conforme se verifica na quadro 1:
Quadro 1: Índice de urbanização (%) das regiões do Brasil período de 1950/2000.
Região 1950 1970 2000 Sudestes 44,5 72,7 90,5 Centro-Oeste 24,4 48 86,7 Sul 29,5 44,3 80,9 Norte 31,5 45,1 69,9 Nordeste 26,4 41,8 69,1 Brasil 36,2 55,9 81,2 Fonte: IBGE (1990, p 36-37; 2001, p. 2-15)
O êxodo rural no Brasil correspondeu a quase 57% do crescimento urbano no período entre 1960 e 1980, em que ocorreu a inserção de aproximadamente 50 milhões de pessoas nos limites das áreas urbanas. Neste momento, a urbanização inicia-se um processo complexo e dinâmico abrangendo cidades de vários tamanhos, e também as metrópoles, tornando a população preponderantemente urbana.
Assim, também ocorreu o desenvolvimento e crescimento da cidade de Goiânia ao expandir sua população e limite urbano com velocidade maior que a média nacional. Essa dinâmica urbana transformou Goiânia numa metrópole de influência regional, contudo, ao aumento da população urbana e dos investimentos propiciaram a geração de sérios problemas na área da habitação, saúde, educação, especulação imobiliária, transporte, circulação de veículos, lazer, e diversos outros. Todo esse apanhado exige esforços continuados do poder público no sentido do ordenamento do território urbano, na gestão ou implementação de políticas que atendam essa crescente demanda.
A perifirização é própria das cidades desde as origens (ALMEIDA, 2002), a qual a população com menor poder aquisitivo se deslocou para áreas mais distantes
do centro e sem infraestrutura básica. No mesmo sentido, uma parte da população com condições financeiras superior, também tem feito percurso semelhante. No entanto, os motivos eram divergentes, pois esta buscava maior tranquilidade e segurança, como se evidencia no aumento do número de condomínios horizontais em Goiânia.
O crescimento da população de Goiânia, principalmente entre 1933 e 1940, não ultrapassou ao previsto no plano piloto original da cidade. E, nesse período, montava-se a estrutura administrativa da cidade, que de forma natural exigia uma maior quantidade de mão de obra para as atividades inerentes a construção.
O Estado era, nesse período, o concessionário de lotes de assentamento na cidade, e posteriormente entre 1940 e 1950, devido ao rígido poder do Estado no assentamento urbano, que era assegurado pelo Decreto-Lei nº 90-A de 30 de julho de 1938, houve reduzido crescimento da população, devido a concentração e comprometimento do governo na conclusão dos espaços públicos presentes para a nova capital.
Contudo, no período entre 1950 e 1960, em virtude da economia política que adquiriu uma nova realidade, a elevada demanda por moradia e a alteração na lei que proibia a liberação de loteamentos, teve-se o aumento da população na cidade Goiânia.
Conforme descrito por Oliveira (2002, p. 73):
A década de 1950 foi marcada pela procura de terras no Estado de Goiás por produtores rurais e por camponeses, atraídos pelas "facilidades" apresentadas pela política da Marcha para o Oeste. Para os primeiros o preço da terra era acessível e a sua propriedade guardava-lhe o caráter especulativo. Para os outros, a alternativa era o recebimento de lotes dos programas de colonização (dos quais se destaca a CANG - Colônia Agrícola Nacional de Goiás, iniciada em 1941, que a esse turno já tinha sua capacidade exaurida). Como estes não apresentavam o suporte técnico, financeiro e espacial para satisfazer toda a procura que se deu, grande parte dos camponeses que chegaram em Goiás em busca de terras "doadas" pelo Estado acabou transformando-se em posseiros, fixados principalmente às margens da estrada que ligava Goiás ao Maranhão, cortando o meio-norte goiano, pela facilidade de transporte na comercialização do excedente.
Com o estímulo a apropriação privada da terra, o crescimento da quantidade de posseiros induzia em confronto entre proprietários e posseiros; grileiros e camponeses; e, capital e trabalho (CARNEIRO, 1988, p. 33). Enquanto, ocorria a
expulsão dos camponeses do meio rural, provocando o êxodo rural, a cidade estabelecia-se como possibilidade de sobrevivência, tornando alvo a proprietários fundiários de terras urbanas.
Isso desencadeou na acentuada mobilização sociopolítica dos proprietários de terras e a consequente expansão de loteamentos. Ademais, o crescimento populacional urbano nesta década (1950) se justifica pela forte propaganda a respeito da vida na cidade.
Na década seguinte o fundamento permanece, transformam-se apenas as formas, como por exemplo, na política, pois devido ao crescimento e fortalecimento dos movimentos populares, as elites brasileiras elaboraram um pacto conservador que desencadeou no golpe de Estado que destituiu o presidente eleito de forma democrática, João Goulart, e impôs uma ditadura militar. Assim destaca Carneiro (1988, p.33):
Em Goiás, pelas circunstâncias de nosso estudo, damos destaque à Revolta Camponesa de Formoso e Trombas, que surgiu como uma resposta à violência praticada pelos proprietários contra os posseiros na região do meio-norte goiano, a fim de expulsá-los de lá. Convencidos de ficar após elementos do PCB infiltrarem-se no seu meio, iniciaram um processo de organização e resistência por volta de 1951, arrastando o confronto até 1964, quando a ditadura militar reprimiu violentamente o movimento.
O monopólio e a concentração eram a base dos interesses de favorecimento da política da elite brasileira. Como o poder estava nas mãos dos militares, realizou a articulação das decisões regionais e locais às nacionais, especialmente controle dos recursos financeiros. Com esse novo modelo de política os principais favorecidos eram os portadores do capital econômico e os grandes proprietários rurais.
Tem-se assim o fortalecimento da estrutura fundiária que reforçava o êxodo rural em Goiânia e como nesse período o setor econômico comandou a formação do espaço na cidade e o parcelamento do solo desencadeando ainda mais o caráter de segregação, pois os recém migrantes não tinham recursos financeiros para adquirir as habitações já construídas que eram negociadas sob a orientação do sistema financeiro.
No âmago dessas questões, as ocupações irregulares em Goiânia começaram a serem instaladas, com destaque a partir da segunda metade da década de 1970. Todo este crescimento intensificou o projeto mercantilista de expansão da ocupação do terreno urbano em direção à região Sul e à região Noroeste.
Conquanto, os modelos que promoveram a composição dos planejamentos de Goiânia preservaram uma característica de exclusão, devido ao fato de não se preocupar com divergências urbanas. E como o planejamento focava na resolução dos problemas a fim de adaptar a cidade à melhor forma para exploração capitalista, Moysés (2001, p. 9) destaca que:
Goiânia é produto de intenções que, apesar das ideias positivas de seus urbanistas e idealizadores, perderam-se diante da voracidade do capital. Este faz avançar a urbanização sobre os espaços disponíveis e não disponíveis e não escolhe formas para apropriar-se deles, pois sua lógica exige a transformação do solo urbano em espaços de acumulação. Goiânia, como fronteira, insere-se nessa lógica. (MOYSÉS, 2001, p. 9)
Moysés tem uma concepção de que a cidade, com base em uma integração popular ativa no sistema de decisão, pode ser um espaço de organização e de desenvolvimento social, se for introduzida uma gestão democrática. O foco do autor, está concentrado na região Noroeste de Goiânia, que se destaca pela população mais carente e o espaço mais desurbanizado da cidade.
Moysés (2001), intencionando realizar uma análise crítica das fases e dos planejamentos de utilização do solo de Goiânia, apresentou um recorte temporal baseado em três momentos no qual considera o Estado dentro de uma concepção mais autônoma. Para o autor, ao planejar a forma/ação de uma cidade, o Estado fundamenta-se em conceitos urbanísticos com intuito de superação dos problemas e a possibilitar a harmonia da experiência urbana.
Assim o período que se estende de 1933 a 1950, é considerado o primeiro período de temporalização, afirmação do plano original, em que se destaca como caráter básico a composição dos “sonhos” de seus idealizadores. Nessa acepção, destaca-se também o pensamento e a ação-intervenção de Pedro Ludovico Teixeira, Atílio Correa Lima e Armando de Godói.
De 1951 a 1979 tem-se o segundo período, “do sonho ao pesadelo”, neste, destaca que mesmo assegurada por legislação a urbanização da cidade continuamente adequada ao planejamento, iniciou uma caminhada ao caos, sinalizada pelo desleixo ao plano original da cidade e supressão de controle do poder público acerca da administração da cidade e instituiu um novo processo de urbanização em Goiânia, definido pelo contraste entre o planejamento e o desequilíbrio do Estado, mesmo a ocupação do solo da cidade estar resignada a uma rígida legislação, pois a saturada população e, principalmente, da mais carente, impulsionava a uma ocupação ilegal de cujo o governo não detinha o controle.
Por último, o terceiro período é delimitado entre 1980 e 1992, conceitua como fase da “urbanização às avessas”, que instigou a cidade, com base em seus habitantes mais carentes, à evidência dos conflitos sociais na formação das favelas, de maneira considerável na região Noroeste.
Moysés compreende que o trajeto percorrido pelo planejamento em Goiânia foi (des)urbanizador, como descreve:
É propositadamente paradoxal, já que o planejamento urbano, em tese, tem como função organizar os espaços da cidade visando orientar o seu crescimento de forma racional. [...] primeiro, o planejamento, qualquer que seja o seu espaço de atuação, sempre estará condicionado às exigências do processo de acumulação capitalista. Vale lembrar que o planejamento não existe em função de si mesmo e muito menos das propostas formuladas pelos técnicos, mas para atender fundamentalmente os interesses hegemônicos; [...] O paradoxo [...] está no fato de que os territórios segregados sobre os quais vamos refletir foram produzidos de forma deliberada e pensada pelo governo estadual. Como consequência, segregou-se sócio-espacialmente um contingente elevado de pessoas, durante as duas últimas décadas, em condições extremamente precárias. Isto leva-me a pensar que o planejamento urbano voltado para atender as demandas das populações pobres e assentadas, sobretudo na Região Noroeste de Goiânia, reveste-se desse caráter paradoxal, ou seja, planeja- se a ocupação de espaços às avessas do recomendado pelo bom senso. (MOYSÉS, 2001, p. 177)
Com todo esse apanhado torna-se necessário alguns comentários sobre o entendimento do processo de formação do espaço urbano de Goiânia, portanto, se tem suporte sociológico antes que se possa apresentar os elementos sócio- espaciais que definiram a formação do Jardim Nova Esperança, por toda sua ideologia por ser o primeiro bairro de ocupação coletiva por mobilização social em Goiânia.
O movimento social que promoveu o bairro foi a primeira e a mais rígida manifestação sócio-espacial advinda da relação entre intelectuais e população. Se tornando o modelo de orientação para os outros movimentos de luta social por moradia em Goiânia.
Na qualidade de movimento social popular urbano organizado o Jardim Nova Esperança se tornou de relevância nacional. E todos os participantes do movimento modificaram suas vidas. Entretanto, não foi pelo significado de transformação radical na consciência social do grupo; muito menos pelo por ter conquistado sua casa própria. Essa transformação teve maior efetividade, pois antes de 1976, esses participantes eram apenas trabalhadores, sem qualificação a fim de que pudessem exercer atividades urbanas de melhor remuneração, tinham uma vida de luta diária para criar condições de reprodução.
A amplitude da dominação ideológica não permitia ao cidadão comum, a compreenderem o momento político, a articulação do regime militar e do fortalecimento das forças pela mobilização social da sociedade civil na busca de espaço político.
Nesta percepção intelectual tem-se depois de três anos de análise e reuniões nas favelas, em julho de 1979, uma área da Fazenda Caveiras em Goiânia, região Noroeste de propriedade da Cerealista Goiazil, (separada topograficamente do núcleo central da cidade pelo Ribeirão Anicuns e pela Avenida Perimetral Norte), foi ocupada por centenas de famílias.
A periferia de Goiânia, anteriormente a esta data, era constituída por bairros de loteamentos e por favelas, formadas a partir de ocupações individuais em áreas públicas e em pequena quantidade, áreas privadas nas imediações do centro da cidade. Assim, este método organizado e coletivo de ocupação, constituía-se na periferia de Goiânia uma heterotopia (LEFEBVRE, 1991).
E a partir de então esse tempo ficou caracterizado como o das ocupações coletivas, sendo de toda a cidade, esse lugar marcava o início do surgimento de um novo momento para a realidade urbana de Goiânia. E todo o significado desse momento, que possibilitou a fundação de dezenas de bairros com a mesma lógica na cidade, permaneceu no imaginário coletivo (VOVELLE, 1991).
No Jardim Nova Esperança, em particular, este tempo marcou alterações significativas no comportamento social dos moradores, como sua utopia representada na transformação sociopolítica dos participantes dos movimentos sociais organizados urbanos.
Neste sentido, o ideal de um espaço conquistado a partir da expressão do movimento social significava a conquista política da sociedade civil que se encontrava reclusa, por todo o período de ditadura militar, ao espaço particular.
O processo de reprodução deste bairro, na busca do atendimento das necessidades de seus moradores com o modelo de desenvolvimento da cidade, foi marcado por novas identidades temporais como: o momento de demarcação dos limites entre seus espaços privados e o espaço público, organizando sua sociabilidade com base no estabelecimento de “comportamentos” e de “benefícios simbólicos” (CERTEAU; MAYOL, 1997, p. 38-39); e a constituição de uma cidade dentro da cidade, que demarca a incorporação do bairro ao processo capitalista, por meio da difusão dos estabelecimentos comerciais acerca do bairro residencial e a inclusão em alguns programas institucionais de integração.
A compreensão das possibilidades da ação coletiva determinado pelos valores da luta foi o que norteou o seu caminho e demarcou em suas configurações o sentido político presente na mentalidade político-intervencionista do coletivo dos moradores é que determina o ideal sócio-espacial no bairro.
Acometidos pelos valores da luta e pela transformação cultural, os moradores do Nova Esperança formaram o seu espaço privado a partir de uma utopia e no decorrer dos anos de 1979 a 2000, desenvolveram o ideal da possibilidade legal de mobilização política. Este foi a refutação à Goiânia capitalista, ao sistema econômico hegemônico, excludente e contraditório do governo, e principalmente à alienação, segregação e heterotopia.
Este é o significado dos movimentos sociais e da relação das forças sociais dos trabalhadores expropriados que foram revolucionados por um novo olhar, o do direito à cidade marcando sua a inserção no espaço político.
O Jardim Nova Esperança, com a posição ideológica que se revelou frente aos demais bairros da região Noroeste, não se dimensiona em um espaço mercantilista, mas transformou-se também na fonte irradiadora da isotopia, bem
como da possibilidade de inclusão social. Destaca-se assim a perspectiva de Lefebvre, a democracia direta somente acontece quando, confrontado a lógica de dominação, prevalece a apropriação do e espaço pelos cidadãos.
Visto isso, percebe-se que desde a década de 1980 o ideal envolvente dos movimentos sociais foi o que promoveu a transformação do espaço urbano. E posteriormente à formação do Jardim Nova Esperança, diversos outros bairros resultados de ocupações coletivas surgiram por toda a cidade. No entanto, os bairros formados na região Noroeste são os que recebem destaque pelo fato de possibilitarem a interrupção do processo de ocupação do solo urbano em Goiânia. Essa conquista se deve a três fatores, conforme demonstrado por Oliveira (2002, p. 142):
1º) Na região noroeste que ocorreu a inauguração do tempo das ocupações coletivas por mobilização social na cidade, mais especificamente com a ocupação da Fazenda Caveiras;
2º) Foi nesta região que promoveu-se as primeiras intervenções do Estado no âmbito de solucionar impasse das ocupações coletivas, mediante os assentamentos do Jardim Boa Sorte (transformado em Vila Finsocial), em 1982, e da Vila Mutirão, em 1983;
3º) É nesta área que ocorreram as maiores ocupações coletivas, que comprometiam o equilíbrio ecológico da cidade em função de progredir sobre área de preservação ambiental e de captação de água, mas que foram originadas da articulação dialógica entre movimentos de bairros e governo do Estado, tendo constituído o Jardim Curitiba em 1987 e posteriormente, o Bairro da Vitória, em 1996.
De acordo com dados do IBGE a respeito dos domicílios ocupados e unidades habitacionais não residenciais presente no bairro Jardim Nova Esperança em 1996 informou o seguinte quantitativo quadro 2:
Quadro 2: Domicílios ocupados e Unidades Habitacionais no Jardim Nova Esperança
DISCRIMINAÇÃO QUANTITATIVO
Domicílios ocupados 4.563
Unidades Habitacionais não Residenciais 640 Fonte: IBGE - Contagem Populacional, 1996.
Esta mensuração populacional do Jardim Nova Esperança somente pode ocorrer em 1996, uma vez que nos períodos anteriores o bairro ainda não havia sido parcialmente regularizado, e sendo assim não foi considerado nas pesquisas de recenseamento do IBGE.
Essa irregularidade promovia no bairro uma instabilidade. Essa situação foi levada em consideração na década de 1990; e, a partir de 1992 o Jardim Nova Esperança passou a viver outra realidade, o bairro começou a receber uma série de novos benefícios públicos, incorporando mais valor de uso a seu espaço.
Devido à intensa procura pelo lugar, feito por comerciantes, gerou-se um novo conflito para o morador do bairro, que era a luta para continuar no bairro. A insistência de comerciantes a fim de estabelecerem-se no local (e como dito anteriormente, principalmente os das avenidas Central e Sol Nascente - figura 3 e 4), além do aumento de taxas, tarifas públicas e de impostos, pelos serviços realizados no local, ocasionavam dificuldades para muitas famílias permanecerem no bairro, ou seja, foram excluídas de participar da valorização, determinante do valor de uso e de troca pelas condições econômicas, mesmo tendo participado da luta na época da ocupação.
Várias modificações ocorreram no bairro em virtude dessa nova articulação entre valor de uso e de troca, o desenvolvimento das relações sociais de reprodução impulsionou o bairro a proferir as mesmas contradições da cidade, ocasionando em espaços de inclusão e exclusão, levando a formação de estado de cidade dentro da cidade.
Esse equilíbrio entre os valores de uso e valor de troca levou à tona diferentes modos de utilização do solo, e a concorrência por este, entremeada no contexto histórico do bairro, definiu-lhe uma nova forma.
Sendo os diversos modos de apropriação do espaço urbano que vão pressupor as diversificação de uso do solo e a concorrência que formará pelo uso, e no interior do mesmo uso; e tem-se que os interesses e as necessidades dos indivíduos são contraditórios, assim a ocupação não ocorrerá sem contradições, e, portanto sem luta (CARLOS, 1997, p. 52).
Nessa linha de pensamento, verifica-se que no Jardim Nova Esperança, por ser o primeiro bairro da cidade de ocupação coletiva, sua apropriação relacionou-se na carência social, a divergência no uso do solo se ocorreu com o equilíbrio dos valores de uso e valores de troca do coletivo, e a inviabilização da permanência no local por parcela dos moradores pelo aumento do valor de troca do lugar ocasionaram um conflito individual entre vontade e necessidade e um conflito social entre vontade e poder econômico.
Como resposta deste conflito tem-se a concepção de fatos no qual moradores encontravam dificuldades financeiras, e, entretanto, escolhiam a prevalência da vontade, terminaram isolados no meio do bairro ou ficaram confinados nas áreas mais externas; já nos casos em que se optou pela