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2.3 A indústria brasileira de Produtos para Saúde

2.3.2 Características das empresas e do mercado nacional

Marques et al. (2013) destacam que a saúde é reconhecida como um importante aspecto econômico para os países, pois a dinâmica do setor traz alto potencial de inovação, conhecimento e produção. Para Pieroni et al. (2010), no Brasil a indústria de equipamentos e materiais médicos, hospitalares e odontológicos ocupa um papel de destaque no complexo industrial da saúde.

Segundo GTI-OPME (2015) e Pieroni et al. (2010), a indústria nacional de PS é constituída em sua grande maioria por empresas de pequeno e médio porte e restrita aos segmentos de menor complexidade tecnológica em que a concorrência é nivelada pelo preço.

De acordo com GTI-OPME (2015), 90% das empresas instaladas são de médio e pequeno porte com faturamento inferior a R$50 milhões enquanto os 10% restantes são constituídos por grandes empresas dominantes do setor, em sua grande maioria, multinacionais com poder elevado para investimento em pesquisas tecnológicas e inovações. No entanto, Marques et al. (2013) ressaltam que apesar da produção nacional não conseguir competir em todos os setores com a fabricação extrangeira, o país é o único nas Américas Central e Sul a possuir uma base produtiva instalada e, de certo modo, diversificada.

Em algumas áreas específicas como a de produção de válvulas cardíacas não mecânicas e incubadoras neonatais, por exemplo, alguns fabricantes nacionais conseguem inovar e competir em mercados consolidados como EUA e Alemanha (MARQUES et al., 2013; PIERONI et al., 2010). No entanto, em outras áreas como equipamentos para hemodiálise e endoscopia, por exemplo, ainda é necessário construir bases tecnológicas e de inovação industrial para possibilitar a competição em mercado externo (PIERONI et al., 2010).

Segundo GTI-OPME (2015) e Pieroni et al. (2010), há uma grande diversidade de produtos classificados como PS e portanto, características particulares que conduzem a diferentes lógicas de concorrência, cadeia produtiva e logística. Nesta pesquisa será utilizada a classificação definida pela ABIMO (2017) com a setorização por tipo de mercado atendido: equipamentos médico-hospitalares, materiais de consumo, odontologia, radiologia, implantes e laboratório.

A Figura 2.9 indica a participação percentual do número de empresas do setor por estado brasileiro. O grande destaque é o estado de São Paulo que possui 34,85% das empresas enquanto Minas Gerais possui 13,1% seguido do Paraná com 8,11% e Rio Grande do Sul com 7,20%. É possível verificar que a maior concentração das empresas se dá nos estados do Sudeste e Sul do país.

Figura 2.9 – Participação percentual do número de empresas do setor por estado Fonte: Adaptado de ABIMO (2017)

A produção física de materiais e instrumentos para uso médico e odontológico e de artigos ópticos acumulada nos últimos 12 meses teve uma queda de 13,4% em 2016 e a indústria de transformação teve uma queda de 8,5% em sua produção física no mesmo período (ABIMO, 2017).

Segundo Moreli et al. (2008), como a cadeia produtiva do setor da saúde é significativa para a economia brasileira, com cerca de 8% do Produto Interno Bruto, existe a preocupação do governo em criar mecanismos que estimulem o desenvolvimento do setor, tais como: acesso a financiamento com taxas adequadas para inovação, criação de leis, regulamentações, desoneração tributária, uso do poder de compra do estado e câmbio favorável. Estas ações devem ser capazes de incentivar o desenvolvimento do setor que é estrategicamente importante para o país e possui marcante interesse social (MORELI et al., 2008).

A demanda interna por PS é crescente, mas as características da indústria nacional geram um cenário de déficit da balança comercial em que grande parte da demanda é suprida

através de importações (ALMEIDA et al., 2017; GTI-OPME, 2015; MARQUES et al., 2013; PIERONI et al., 2010). Os dados do setor divulgados pela ABIMO e indicados na Figura 2.10 também indicam que o volume de importações é muito maior do que o de exportações.

Figura 2.10 – Importações e exportações do setor por ano (janeiro a outubro) em milhões de dólares Fonte: Adaptado de ABIMO (2017)

A Figura 2.11 indica os países que foram principal foco de exportação nos anos de 2015 e 2016, enquanto a Figura 2.12 indica os países de origem das importações do setor no período. Através da análise destas figuras é possível concluir que a exportação é voltada especialmente para os países do continente americano enquanto as importações provém da América do Norte, Europa e Ásia.

Figura 2.11 – Exportação do setor por país e por ano (janeiro a outubro) em milhões de dólares Fonte: Adaptado de ABIMO (2017)

Figura 2.12 – Importação do setor por país e por ano (janeiro a outubro) em milhões de dólares

Fonte: Adaptado de ABIMO (2017)

A ABIMO criou em 2002 o projeto Brazilian Health Devices em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) com o intuito de fomentar as exportações. Com a participação de 170 indústrias do setor, as principais ações do projeto incluem a participação em feiras internacionais, programas de incentivo à certificações, parceria com associações e universidades, rodadas de negócio e missões para desenvolver clientes em países-alvo (ABIMO, 2017). Tais ações do projeto permitiram aumentar em 260% as vendas internacionais no período de 13 anos (ABIMO, 2017).

Marques et al. (2013) pontuam que o aumento das exportações de PS mesmo em se tratando de poucas empresas nacionais que ainda não são capazes de reverterem sozinhas o quadro do déficit da balança comercial, evidencia que já existe capacidade e competência dentro de empresas nacionais para competir em mercados mais restritos. No entanto, Marques

et al. (2013) ressaltam que as competências necessárias transpassam a questão técnica e

precisam ser desenvolvidas através de processo legítimo de aprendizagem organizacional e até mesmo interorganizacional.