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2 EFEITOS DO PERÍODO DE ADMINISTRAÇÃO DE CLORIDRATO DE

2.5 Conclusões

3.3.3 Características de palatabilidade

Houve interação entre período de administração de CZ e tempo de

maturação para escore de maciez inicial (P = 0,03) e tecido conjuntivo (P < 0,01).

Para as demais características sensoriais, força de cisalhamento e perda por cocção

não foram observadas interações entre período de administração de CZ, tempo de

confinamento e tempo de maturação (P > 0,10). Nesse sentido, observou-se

aumento quadrático na força de cisalhamento (P < 0,01) com aumento do período de

suplementação com CZ (Tabela 3.5). Como se pode constatar na tabela anterior, o

valor percentual de perda por cocção não alterou com a inclusão de CZ na dieta. O

tempo de confinamento, por sua vez, não alterou os valores de força de

cisalhamento e perda por cocção. Com aumento do tempo de maturação a força

mecânica necessária para cortar a carne diminuiu linearmente (P < 0,01), enquanto

que o valor percentual de perda por cocção não alterou.

A interação observada para escore de maciez inicial (Figura 3.1) e tecido

conjuntivo (Figura 3.2) não impede a avaliação dos efeitos principais, uma vez que

ocorreu mudança na magnitude e não na direção da resposta. Neste contexto,

verificou-se diminuição linear na maciez sensorial (P < 0,01) com aumento do

período de suplementação com CZ. Embora tenha ocorrido diminuição no escore de

maciez com administração de CZ, todos os bifes foram considerados macios pelos

provadores treinados (isto é, escore sensorial acima de cinco). O escore de tecido

conjuntivo diminuiu linearmente (P < 0,01) com aumento do período de

suplementação com CZ, ou seja, a percepção da massa cárnea formada após um

período de mastigação aumentou com administração de CZ. Verificou-se também,

que o escore de suculência inicial (P < 0,01) e suculência sustentada (P < 0,01)

diminuíram linearmente com aumento do período de suplementação com CZ (Tabela

3.6), enquanto que o escore de sabor de carne e a perda por cocção sensorial não

diferiram.

Os bifes provenientes de animais confinados por 117 dias proporcionaram

maior suculência sustentada (P < 0,01) e maior intensidade de sabor de carne (P =

0,03) quando comparados aos bifes provenientes de animais confinados por 90 dias,

sendo que a suculência depende da sensação de umidade nos movimentos

mastigatórios, isto é, da liberação de líquidos pela carne. Os valores de maciez

inicial, tecido conjuntivo, suculência inicial e perda por cocção sensorial não

alteraram com o tempo de confinamento. Os bifes maturados por 14 dias

post-mortem proporcionaram maior escore de maciez sensorial (P < 0,01) e maior escore

de tecido conjuntivo (P < 0,01) quando comparados aos bifes maturados por 7 dias

post-mortem, ou seja, a resistência do corte e a percepção da massa formada após

um período de mastigação diminuíram com aumento do tempo de maturação da

carne. Os valores de suculência inicial, suculência sustentada, sabor de carne e

perda por cocção sensorial não diferiram entre os tempos de maturação.

Tabela 3.5 - Efeito do período de administração de cloridrato de zilpaterol (CZ) e do

tempo de confinamento na força de cisalhamento e perda por cocção

do contrafilé de bovinos Nelore

Força de cisalhamento, kg Perda por cocção, %

Administração de CZ, dias

0 4,26 19,0

20 5,60 19,2

30 5,43 19,5

40 5,63 19,0

EPM

1

0,195 0,51

Linear

2

< 0,01 0,87

Quadrático

3

< 0,01 0,30

Controle vs. CZ

4

< 0,01 0,55

Confinamento, dias

90 5,19 19,3

117 5,27 19,0

EPM

1

0,166 0,44

Probabilidade 0,58 0,43

Maturação, dias

7 6,15 19,8

14 5,46 18,7

21 4,92 18,7

28 4,39 19,5

EPM

1

0,195 0,51

Linear

2

< 0,01 0,43

Quadrático

3

0,56 0,08

1

Erro padrão da média;

2

Probabilidade do efeito linear;

3

Probabilidade do efeito quadrático;

4

Probabilidade do contraste ortogonal: animais não suplementados com CZ versus animais

suplementados com CZ

Figura 3.1 - Interação entre período de administração de cloridrato de zilpaterol e

tempo de maturação para escore de maciez inicial (P = 0,03).

1

Escala

estruturada de oito pontos variando de (8) extremamente macio a (1)

extremamente duro

Figura 3.2 - Interação entre período de administração de cloridrato de zilpaterol e

tempo de maturação para escore de tecido conjuntivo (P < 0,01).

1

Escala estruturada de oito pontos variando de (8) imperceptível a (1)

sensoriais do contrafilé de bovinos Nelore

Suculênciainicial

1

Suculência sustentada

1

Sabor de carne

2

Perda por cocção, %

Administração de CZ, dias

0 5,91 5,85 5,77 20,9

20 5,72 5,54 5,77 21,7

30 5,54 5,39 5,81 21,9

40 5,35 5,35 5,78 20,9

EPM

3

0,099 0,089 0,074 0,42

Linear

4

< 0,01 < 0,01 0,84 0,89

Quadrático

5

0,99 0,12 0,87 0,08

Controle vs. CZ

6

< 0,01 < 0,01 0,92 0,13

Confinamento, dias

90 5,67 5,41 5,70 21,4

117 5,60 5,65 5,86 21,3

EPM

3

0,070 0,069 0,053 0,32

Probabilidade 0,48 < 0,01 0,03 0,89

Maturação, dias

7 5,61 5,46 5,78 21,2

14 5,65 5,60 5,78 21,6

EPM

3

0,067 0,070 0,049 0,31

Probabilidade 0,73 0,10 0,93 0,23

1

Escala estruturada de oito pontos variando de (8) extremamente suculento a (1) extremamente seco;

2

Escala estruturada de oito pontos variando de (8)

extremamente forte a (1) extremamente fraco;

3

Erro padrão da média;

4

Probabilidade do efeito linear;

5

Probabilidade do efeito quadrático;

6

Probabilidade do

contraste ortogonal: animais não suplementados com CZ versus animais suplementados com CZ

3.4 Discussão

O maior índice de luminosidade (valor L*) e menor intensidade de cor

vermelha (valor a*) em amostras de contrafilé (músculo Longissimus thoracis et

lumborum) de animais suplementados com CZ (Tabela 3.2) podem estar

relacionados aos mecanismos responsáveis pelo aumento da massa muscular. O

efeito do CZ na hipertrofia muscular tem sido atribuído tanto ao aumento do diâmetro

das fibras musculares (KELLERMEIER et al., 2009) como ao aumento da incidência

de fibras musculares de contração rápida (BAXA et al., 2010). Este último poderia

explicar os resultados encontrados para cor instrumental, uma vez que os autores

observaram uma transição de fibras de contração lenta (fibra vermelha) para fibras

de contração rápida (fibra branca) com a administração de CZ. De modo geral,

quanto maior a incidência de fibras musculares de contração rápida, menos

vermelha (menor conteúdo de mioglobina) será a coloração da carne (HUNT;

HEDRICK, 1977).

O menor conteúdo percentual de lipídios intramusculares e maior conteúdo

percentual de proteína em amostras de contrafilé de animais suplementados com CZ

(Tabela 3.3) podem estar associados a um acréscimo da deposição de proteína

muscular. O efeito do CZ na deposição de proteína muscular tem sido atribuído

principalmente ao aumento da atividade da calpastatina, enzima que inibe a ação

das calpaínas (µ-calpaína e m-calpaína), diminuindo a degradação proteica

(HOPE-JONES et al., 2010; STRYDOM et al., 2011). Dessa forma, o menor conteúdo

percentual de lipídios intramusculares pode ser atribuído a uma diluição da fração

lipídica ocasionada pelo aumento da deposição de proteína muscular. Essa

alteração na composição química da carne poderia estar associada ainda a uma

diminuição da deposição de tecido adiposo (BIRKELO, 2003). Nesse sentido, os

dados de literatura não são conclusivos e é bem possível que os dois efeitos

ocorram simultaneamente.

O maior valor percentual de ácidos graxos poliinsaturados totais em amostras

de animais suplementados com CZ (Tabela 3.4) pode estar associado a uma

diminuição da participação de lipídios neutros (triacilgliceróis) e, consequente,

aumento da participação percentual de lipídios de membrana (fosfolipídios). Esta

interpretação dos resultados corrobora com a observação que na carne bovina os

ácidos graxos poliinsaturados são encontrados quase que exclusivamente na fração

fosfolipídica (WOOD et al., 2003). Curiosamente, constatou-se que mesmo não

alterando o conteúdo percentual de lipídios intramusculares com aumento do tempo

de confinamento, o valor percentual dos ácidos graxos poliinsaturados ômega-3

diminuiu com aumento do tempo de confinamento e, consequentemente, a relação

entre ácidos graxos ômega-6 e ômega-3 aumentou. Neste sentido, dados da

literatura demonstram que a maior participação de ácidos graxos poliinsaturados e a

menor relação entre ômega-6 e ômega-3 proporcionam uma alimentação mais

saudável (WOOD et al., 2003; MCAFEE et al., 2010). Dessa forma, carne de animais

suplementados com CZ e confinados por menos tempo parece contribuir para uma

alimentação mais saudável.

A menor maciez instrumental (maior força de cisalhamento) e sensorial em

amostras de contrafilé de animais suplementados com CZ (Tabela 3.5; Figura 3.1)

também pode estar relacionada aos mecanismos responsáveis pelo aumento da

massa muscular. Conforme discutido anteriormente, o CZ aumenta a incidência de

fibras musculares de contração rápida (BAXA et al., 2010), as quais apresentam

maior diâmetro, promovendo um aumento da massa muscular. Entretanto, fibras

musculares de contração rápida apresentam uma relação entre calpastatina e

calpaínas desfavorável para o processo de maturação da carne (KOOHMARAIE et

al., 1988). Este último poderia explicar a interação encontrada para maciez sensorial,

onde o processo de maturação melhorou mais a maciez da carne de animais

controle do que a maciez da carne de animais suplementados com CZ. Com os

resultados obtidos nesta pesquisa pode-se constatar que a carne de animais

suplementados com CZ, após 21 dias de maturação, apresenta a força de

cisalhamento semelhante ao da carne de animais não suplementados com

maturação de 7 dias (dados não apresentados em tabelas ou figuras).

Tem sido demonstrado uma diminuição da desestruturação das proteínas

miofibrilares com a administração de CZ (STRYDOM et al., 2011;

RODAS-GONZÁLEZ et al., 2012), sendo atribuída principalmente ao aumento da atividade

da calpastatina (HOPE-JONES et al., 2010; STRYDOM et al., 2011), embora outros

autores tenham relatado que a atividade da calpastatina, µ-calpaína e m-calpaína

não altera com a administração de CZ (HILTON et al., 2009). Neste sentido, a maior

percepção de massa cárnea formada durante o processo mastigatório (menor

escore de tecido conjuntivo) em amostras de contrafilé de animais suplementados

com CZ (Figura 3.2), pode estar relacionada a uma menor desestruturação das

proteínas miofibrilares durante o processo de maturação e, consequente, aumento

da resistência à mastigação e deglutição. Já o menor escore sensorial de suculência

em amostras de animais suplementados com CZ (Tabela 3.6), pode ser atribuído ao

menor conteúdo percentual de lipídios intramusculares, uma vez que a suculência

depende da sensação de umidade nos movimentos mastigatórios, ou seja, da

liberação de líquidos pela carne e, são os lipídios que estimulam a salivação e

lubrifica o bolo mastigatório.

3.5 Conclusões

O cloridrato de zilpaterol permite produzir carne mais magra, com menor teor

de lipídios intramusculares e com maior teor de proteína. Além do menor teor total

de lipídios intramusculares, estes lipídios apresentaram maior composição de ácidos

graxos poliinsaturados. O tratamento dos animais com cloridrato de zilpaterol reduz

a maciez e a velocidade do processo de amaciamento.

Mesmo com a diminuição da maciez, os bifes de bovinos Nelore

suplementados com cloridato de zilpaterol são considerados macios. Estes

resultados de qualidade, em conjunto com dados que demonstram aumentos na

eficiência de produção, permitem simular o efeito global do uso desta tecnologia nas

condições de produção típicas da América do Sul.

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