CAPÍTULO 1 - DIREITOS DA PERSONALIDADE
1.7 CARACTERÍSTICAS
Também em termos de características dos direitos da personalidade não há unanimidade doutrinária, vez que cada jurista elenca determinadas características que no seu sentir representam e dão os contornos de tais direitos.
160 CORTIANO JR., Alguns apontamentos..., p.47.
161 MORAES, M. C. B. de, op. cit., p.128.
Assim, por exemplo, San Tiago Dantas elege como sendo característica dos direitos da personalidade: o caráter absoluto e inestimável, a inalienabilidade, a imprescritibilidade.
162Por seu turno, o Professor Eroulths Cortiano elege como sendo caracte-rísticas do direito da personalidade: a generalidade (que engloba a vitalicidade e necessidade); a extrapatrimonialidade; o absolutismo e a indisponibilidade (que engloba a inalienabilidade, a imprescritibilidade, a irrenunciabilidade e a intransmissibilidade).
163Destaca-se ainda a longa lista de características eleitas por Roxana Borges, que afirma que os direitos da personalidade são: extrapatrimoniais, inalienáveis, impenhoráveis, imprescritíveis, irrenunciáveis, indisponíveis, inatos, absolutos, neces-sários, vitalícios.
164Já Capelo de Souza elenca como característica dos direitos da personalidade a oponibilidade erga omnes, a intransmissibilidade, a indisponibilidade com limitações, a perenidade e imprescritibilidade, a extrapatrimonialidade e o caráter originário ou inderrogável.
165Por outro giro, Santos Cifuentes elege como características dos 'derechos personalíssimos': a) inatos ('derechos innatos'); b) vitalicidade ('vitalicios'); c) necessários ('necesarios'); d) essenciais ('esenciales'); e) direito interno da pessoa ('el objeto es interior'); f) inerentes ('inherentes'); g) extrapatrimoniais ('extrapatrimoniales');
h) indisponíveis relativamente ('relativamente indisponibles'); i) absolutos ('absolutos');
j) privados ('privados'); k) autônomos ('autónomos').
166162 DANTAS, op. cit., p.194/195.
163 CORTIANO JR., A teoria..., p.26/31.
164 BORGES, op. cit., p.32/35.
165 SOUZA, R. V. A. C., op. cit., p.401/419.
166 CIFUENTES, op. cit., p.175/192.
Roberto Gonçalves assevera que os direitos da personalidade são, além de intransmissíveis e irrenunciáveis, conforme a dicção do art. 11 do Código Civil de 2002, também absolutos, ilimitados, imprescritíveis, impenhoráveis, inexpropriáveis e vitalícios.
167Por fim, pela relevância da obra cabe citar ainda a lição de Adriano de Cupis, que elenca a intransmissibilidade, a indisponibilidade, a irrenunciabilidade, a impenhorabilidade e a imprescritibilidade como sendo as características dos direitos da personalidade.
168Como visto, várias são as características elencadas pelos mais renomados cientistas jurídicos, porém algumas possuem apenas variação nominal, tendo o mesmo conteúdo. Diante disso, optou-se, para efeitos conceituais, pelas seguintes características que aparecem com maior freqüência entre os autores citados: extrapatrimonialidade, inalienabilidade/indisponibilidade, impenhorabilidade, imprescritibilidade, irrenun-ciabilidade, caráter absoluto e vitalicidade.
Extrapatrimonialidade. Os direitos da personalidade são extrapatrimoniais, vez que não são suscetíveis de avaliação econômica, pecuniária, não possuindo equivalência em valores monetários. Os direitos da personalidade estão ligados mais diretamente "à categoria do ser e não do ter da pessoa"
169.
Por evidente que alguns atributos da personalidade podem vir a adquirir reflexos patrimoniais, como, por exemplo, a voz, a imagem, o corpo. Contudo, não é tal reflexo que predomina, mas sim os interesses inerentes da própria pessoa, vale dizer: antes do reflexo patrimonial que pode surgir da imagem da pessoa (no exemplo dado) prepondera o direito dessa própria imagem que é um interesse de "ordem
167 GONÇALVES, op. cit., p.156/158.
168 CUPIS, op. cit., p.51/68.
169 SOUZA, R. V. A. C., op. cit., p.415.
moral"
170, ou, como ensina Caio Mario: "Não há, entretanto, confundi-los com os efeitos patrimoniais que dele emanem, os quais podem, até onde não ofendam os direitos em si mesmos, ser objeto de renúncia, transação, transferência ou limitações"
171.
Tal característica, por evidente, não exclui a possibilidade de se efetivar a compensação monetária por eventual lesão aos direitos não patrimoniais.
Neste sentido:
É que eventual utilidade – econômica – determinante do caráter de patrimo-nialidade de um direito dos direitos da personalidade vai decorrer indiretamente do objeto – o ser físico e moral da pessoa – destes mesmos. A vida, a integridade física e psíquica permite ao indivíduo adquirir outros bens e direitos que, estes sim, terão conteúdo econômico (assim o direito de exploração do nome, o direito de ser indenizado em caso de ofensa física etc.).172
"Em outras palavras, existem aspectos patrimoniais dos direitos da perso-nalidade que podem ser destacados e transmitidos, desde que de forma limitada."
173Há, portanto, uma pequena parcela dos direitos da personalidade que podem ser 'destacados' da pessoa e gozarem de certa 'disposição patrimonial' desde que não afronte, em nenhuma hipótese, a dignidade da pessoa humana.
Inalienabilidade/Indisponibilidade/Intransmissibilidade.
174Os direitos da personalidade são inalienáveis, não podendo ser vendidos, doados ou de qualquer
170 CORTIANO JR., A teoria..., p.28.
171 PEREIRA, op. cit., p.242.
172 CORTIANO JR., A teoria..., p.28.
173 TARTUCE, Direito civil..., p.166.
174 Optou-se por tratar sobre a mesma rubrica o que alguns autores consideram ser características diferentes vez que, para fins deste estudo, entende-se que não há diferenciação ontológica entre a inalienabilidade (intransmissibilidade) e indisponibilidade. Como assevera Cupis: "A relação existente entre a transmissibilidade e a disponibilidade compreende-se com facilidade, desde que uma das causas de mudança do sujeito dos direitos é precisamente a vontade do seu titular, a qual reveste relevância jurídica por virtude da existência da referida faculdade de disposição". (CUPIS, op. cit., p.56). Ou ainda como afirma Nery: "Está compreendida na irrenunciabilidade dos direitos de personalidade, a indisponibilidade, pois seu titular deles não pode dispor livremente". (NERY JR.;
NERY, op. cit., p.173).
modo passados a terceiros, mesmo que em decorrência da morte de seu titular
175;
"são insusceptíveis de serem transmitidos deste para outro sujeito jurídico"
176, tendo em conta que são inerentes à pessoa humana e necessários ao seu pleno desenvolvimento, vale dizer: "nem por vontade própria do indivíduo o direito [da personalidade] pode mudar de titular"
177.
De fato, nos direitos da personalidade a intransmissibilidade reside na natureza do objeto, o qual, como já dissemos, se identifica com os bens mais elevados da pessoa, situados, quanto a ela, em um nexo que pode dizer-se de natureza orgânica. Por força deste nexo orgânico, o objeto é inseparável do originário sujeito: a vida, a integridade física, a honra, a liberdade, a honra [sic], e outros de Tício, não podem vir a ser bens de Caio, por virtude de uma impossibilidade que se radica na natureza das coisas. Nem o ordenamento jurídico pode consentir que o indivíduo se despoje daqueles direitos que, por corresponderem aos bens mais elevados, têm caráter de essencialidade.178
"Não pode alienar-se a favor de outrem a personalidade humana, não pode vender-se a vida, a liberdade de pensamento ou a honra, não pode dar-se de penhor o corpo"
179, "mas pode-se alienar a matéria sobre a qual incide o direito da perso-nalidade".
180Pode-se alienar, por exemplo, a utilização da voz gravada, mas não se pode alienar a voz, pode-se alienar a exploração da imagem de determinada pessoa, mas não se pode alienar a própria imagem; não se pode dizer, portanto, que determinada imagem ou voz não mais pertence àquela pessoa; ninguém poderá dizer que comprou a voz de Roberto Carlos ou a imagem da miss Universo. Qualquer ato jurídico que
175 "A terceira característica é a inalienabilidade. Os direitos subjetivos transmitem-se por ato entre vivos, como nas alienações mortis-causa, nas sucessões, mas os direitos da personalidade, esses de nenhum modo se transmitem." (DANTAS, op. cit., p.195).
176 SOUZA, R. V. A. C., op. cit., p.402.
177 GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, op. cit., p.154.
178 CUPIS, op. cit., p.55.
179 SOUZA, R. V. A. C., op. cit., p.403.
180 CORTIANO JR., A teoria..., p.29.
previsse tal disposição seria nulo de pleno direito, vez que tais direitos são inerentes aos seus titulares.
A disponibilidade parcial e transitória da matéria sobre a qual incidem os direitos da personalidade
181foi consagrada pelo Egrégio Conselho da Justiça Federal, por intermédio dos Enunciados 4 e 139 da primeira e terceira jornadas de Direito Civil, respectivamente nos seguintes termos:
I Jornada STJ. Enunciado 4: "Art. 11 - O exercício dos direitos da perso-nalidade pode sofrer limitação voluntária, desde que não seja permanente nem geral".
III Jornada STJ. Enunciado 139: "Art. 11 - Os direitos da personalidade podem sofrer limitações, ainda que não especificamente previstas em lei, não podendo ser exercidos com abuso de direito de seu titular, contrariamente à boa-fé objetiva e aos bons costumes".
Neste aspecto, o contrato do jogador de futebol Ronaldinho, "o fenômeno", se efetivamente contiver a cláusula que concede à Nike o direito vitalício da utilização de sua imagem como especula a imprensa mundial, acaso tivesse sido firmado no Brasil, neste particular aspecto seria declarado nulo, vez que a emanação de certos direitos da personalidade somente pode ser cedida, ou sofrer limitação, de forma transitória, nunca perpétua.
Outrossim, como assevera Capelo de Souza, mesmo quando autorizada pelo titular a utilização da matéria sobre a qual recaem os direitos da personalidade, estas autorizações são "sempre revogáveis, discricionárias e unilateralmente", obrigando-se, no entanto, ao pagamento dos "prejuízos causados às legítimas expectativas da outra parte"
182.
A regra da intransmissibilidade foi consagrada no Código Civil vigente, que em seu art. 11 prescreve:
181 Nos termos do Enunciado, o que neste trabalho chama-se alienação da matéria sobre a qual incidem os direitos da personalidade, a Corte Especial denominou de limitação.
182 SOUZA, R. V. A. C., op. cit., p.409.
Art. 11/CC: Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária.
Irrenunciabilidade. O titular do direito da personalidade, da mesma forma que não pode transmitir o direito da personalidade, não pode vir a ele renunciar.
"A irrenunciabilidade se explica pela inerência dos direitos da personalidade ao seu titular: se este não pode dispor de tais direitos, não pode renunciar a eles, já que a renúncia é uma forma de disposição."
183"Assim, e em conclusão: a ausência da faculdade de disposição, relati-vamente aos direitos da personalidade, integra-se pela falta da faculdade de renúncia."
184Impenhorabilidade. Tendo em conta o seu caráter extrapatrimonial e de vedação de alienação, também os direitos da personalidade não podem ser penhorados para servirem de garantia do cumprimento de determinada obrigação; dito de outro modo, assim como o titular dos direitos da personalidade não pode deles dispor, também não pode o Estado impor a 'disposição' forçada por intermédio da constrição judicial.
Não se impede, porém, de se penhorar a utilização da matéria do direito da personalidade, como, por exemplo, a penhora sobre os direitos da utilização da imagem de determinada pessoa, tal qual se permite a utilização dessa imagem de modo consentido pelo seu titular.
Imprescritibilidade. A não utilização de determinado direito da personalidade humana não acarreta a perda desse direito como acontece com a grande maioria dos direitos patrimoniais. São imprescritíveis "no sentido de que não há prazo para o seu exercício"
185.
Todas as vezes em que um direito subjetivo sofre uma lesão por parte daqueles que têm um dever correspondente, forma-se a necessidade de uma reparação, de uma reintegração que deve ser procurada pelo próprio titular do direito subjetivo e já se sabe que a faculdade de pedir tal reintegração é, talvez, em última análise, a própria essência do direito subjetivo. Se, porém, o titular do
183 CORTIANO JR., A teoria..., p.30.
184 CUPIS, op. cit., p.60.
185 AMARAL, op. cit., p.250.
direito subjetivo deixa que passe muito tempo sem reclamar, a lesão jurídica convalesce ou, em outras palavras, prescreve, não sendo mais possível reclamar.
Os direitos da personalidade têm esta característica singular: é que a lesão que alguém lhes faça jamais convalesce; o direito de reclamar não mais prescreve. Sempre será possível reclamar-se a reintegração do direito, uma vez que a lesão continua, bastando para isso que perdure o estado lesivo.186
Muito embora ainda se discuta a respeito se existe prazo prescricional para se exigir a reparação monetária de determinada ofensa aos direitos da personalidade, tem-se que a melhor exegese é a de que o direito patrimonial de ser indenizado ou compensado pela ofensa prescreve em conformidade com os prazos estipulados pelo Código Civil, não prescrevendo, porém, a possibilidade de se fazer cessar a lesão a qualquer tempo.
187,
188Caráter absoluto. Os direitos da personalidade são absolutos, vez que podem ser exigidos contra toda a coletividade, são eficazes contra toda a sociedade, não existindo um sujeito específico contra o qual se pode exigir o respeito a tal
186 DANTAS, op. cit., p.195.
187 Esta foi a corrente adotada pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Paraná em julgamento do Recurso de Apelação interposto pelo Estado do Paraná de minha lavra, enquanto Procurador do Estado, em processo que o Apelado, cabo do Corpo de Bombeiros, pedia indenização por danos morais por ter sofrido lesão a sua integridade física quando laborava para o ente público, vindo a sofrer acidente que lhe causou paraplegia.
O referido Tribunal acolheu a preliminar de apelação, no sentido de reconhecer a prescrição no caso vertente "[...] pois ao contrário do contido no decisium [sentença] aplica-se a prescrição qüinqüenal, a qual atingiu o direito de fundo". Vale dizer: acertadamente o TJ/PR reconheceu que o Autor não poderia ser compensado monetariamente pela lesão de sua integridade psicofísica tendo em vista a sua inércia pelo período superior a 05 (cinco) previsto no art. 1.o do Decreto-lei n.o 20.910/1932, que regula o prazo de propositura de medida jurisdicional em geral contra pessoas jurídicas de direito público. (BRASIL. PARANÁ. Tribunal de Justiça do Paraná. Apelação Cível n.o 319868-7. Rel. Desembargador Luiz Mateus de Lima. Apelante: Estado do Paraná.
Apelado: Claudemir Marcondes do Amaral. Julgamento ocorrido em: 23.05.2006. Disponível em:
<http://www.tj.pr.gov.br/consultas/judwin/ListaDadosProcesso.asp?Codigo=706588>. Acesso em:
31 ago. 2007).
188 Em sentido contrário ao ora defendido, vide: TARTUCE, Direito civil..., p.169/172.
direito, por isso são direitos oponíveis erga omnes
189, "irradiando efeitos em todos os campos e impondo à coletividade o dever de respeitá-los"
190.
Vitalicidade. São vitalícios haja vista que acompanham o seu titular por toda a sua existência, extinguindo-se com a sua morte. "Por isso, são vitalícios. Mesmo após a morte, todavia, alguns desses direitos são resguardados, como o respeito ao morto, à sua honra ou memória e ao seu direito moral de autor, por exemplo."
191O Código Civil vigente outorgou ao cônjuge sobrevivente, ou qualquer parente em linha reta, ou colateral até o quarto grau, legitimação para pleitear o respeito dos direitos da personalidade de titular já falecido, ou sua indenização em respectiva para o caso de lesão (art. 12, parágrafo único).
O art. 20, parágrafo único, outorgou esta legitimação ao cônjuge, ascendentes ou descendentes quando o bem jurídico a ser protegido for a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem.
192Como se vê, a extensa lista de características dos direitos da personalidade, como acima se narrou, o Código Civil de 2002 limitou-se a enumerá-los como sendo intransmissíveis e irrenunciáveis
193, deixando antever a sua insuficiente regulação,
189 Admite-se, "porém, direitos da personalidade relativos, como os direitos subjetivos públicos, que permitem exigir do Estado uma determinada prestação, como ocorre, exemplificativamente, com o direito à saúde, ao trabalho, à educação e à cultura, à segurança e ao ambiente". (AMARAL, op. cit., p.250).
190 GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, op. cit., p.152.
191 GONÇALVES, op. cit., p.158.
192 Acerca da interpretação dos dispositivos legais citados, o Conselho da Justiça Federal, na I Jornada de Direito Civil, exarou o Enunciado 5 nos seguintes termos:
"Arts. 11 e 20 – 1) as disposições do CC 12 têm caráter geral e aplicando-se inclusive às situações previstas no CC 20, excepcionando os casos expressos de legitimidade para requerer as medidas nele estabelecidas; 2) as disposições do CC 20 têm a finalidade específica de regrar a projeção dos bens personalíssimos nas situações nele enumeradas. Com exceção dos casos expressos de legitimação que se conformem com a tipificação preconizada nessa norma, a ela podem ser aplicadas subsidiariamente as regras instituídas no CC 12."
193 "Art. 11: Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária."