Apesar das diferentes noções de redes, existe um conjunto de características e sinais que exprimem quando um grupo atua no formato de rede. Dentre estas características, pode-se destacar a interdependência, a complexidade de inovação, a consciência de ação coletiva, a presença de problemas comuns e objetivos coletivos, a governança e a cooperação.
A interdependência, de acordo com Rusbult e Arriaga (1997), é definida como a maneira que os indivíduos interagem ou influenciam a experiência uns dos outros, tendo como referência o fato de que as preferências, motivações e comportamentos de um indivíduo são relevantes para seus parceiros de interação. Para exemplificar o que é interdependência, suponha-se um processo de produção, comercialização ou ação coletiva, no caso de grupo não comercial, em que não é possível uma organização fazer tudo sozinha, precisando que esse trabalho seja realizado em conjunto com outras empresas ou pessoas. Nesse sentido, a interdependência é um forte sinal de que o grupo atua no formato de redes, demonstrando que os atores devem trabalhar em conjunto e dependem um dos outros para o desenvolvimento de determinada atividade.
Outra característica presente nas redes refere-se à complexidade de inovação do grupo. A inovação é definida por Schumpeter (1988) como sendo a força central no dinamismo do sistema capitalista. Segundo o autor, a inovação pode ser radical e incremental. A inovação radical está associada a uma invenção, algo que não existia anteriormente. Já a inovação incremental está associada ao melhoramento de determinado produto, ou procedimento. Para Santos, Fazion e Meroe (2011), a inovação pode ser o resultado de uma solução criativa por parte de um ator, uma forma diferenciada de atender um cliente, uma mudança para melhor desenvolver determinada etapa do processo produtivo, ou a transformação de um insumo para um novo produto. Cada vez mais se afirma que a inovação é o resultado de processos coletivos (SIQUEIRA et al., 2014; RIMOLI; NORONHA e SERRALVO, 2013), porque alguém sozinho não muda um processo, um produto ou um atendimento.
A consciência da ação coletiva é outro sinal de que o grupo atua em rede. Segundo Whitaker (1997), uma organização em rede deve ter participação livre e consciente dos atores. Segundo o autor, caso não exista essa forma de participação, ou seja, se ela é imposta, a rede
tende a não se consolidar e/ou se manter. Ainda para o autor, se a rede tiver a participação livre dos atores e estes colocarem a capacidade de iniciativa e ação à frente da realização de seus objetivos, a rede tende a se adensar e se fortalecer.
A presença de problemas comuns e objetivos coletivos é, em muitos casos, o motivo para determinado grupo de pessoas ou empresas unirem-se e atuarem no formato de redes. A busca pela solução dos problemas, associada aos objetivos coletivos do grupo, fazem com que essa união se consolide. Popp et al. (2013) ressaltam alguns fatores a serem considerados para determinar se é o momento correto para formação de uma rede. Dentre estes fatores, os autores destacam os objetivos coletivos. Outros autores, como Reyes, Brandão e Espírito Santo (2011) também dão destaque para a importância de os atores deixarem de ter uma visão individualista e passarem a ter uma visão coletivista. Conforme esses autores, com os resultados do trabalho coletivo cria-se um circuito de realimentação da rede, incrementando a participação.
Ainda em relação às características do formato de redes, tem-se a governança. Grandori e Soda (1995) destacam que a governança é considerada necessária nos processos da rede, podendo ser classificada como formal e informal. Para os autores, a governança informal resulta das relações de confiança e comprometimento. Autores como Castro e Gonçalves (2014), Queiroz (2013) e Oliveira e Santana (2012) tratam a governança como sendo um conjunto de regras, definições de responsabilidades e incentivos que visa orientar os processos decisórios na rede, gerando a interação entre os atores, promovendo a cooperação e fazendo com que haja redução de conflitos de interesse. Assim, a existência de uma governança clara, transparente e legitimada (as pessoas aceitam e seguem), seja formal ou informal, é sinal de compromisso, controle e incentivo para ações coletivas. A ausência de regras, geralmente, indica que não é um grupo organizado, que trabalha de forma coletiva.
A cooperação também é uma característica das organizações que atuam em redes. Para Cullen, Johnson e Sakano (2000), a cooperação consiste em um esforço para cada ator agir além das obrigações contratuais, buscando o crescimento do grupo. Para Ariño (2003), a demonstração de cooperação por parte de alguns atores realimenta outros atores a agirem da mesma forma, criando-se uma teia de compromisso no grupo. Balestrin e Vargas (2004) afirmam que as organizações em redes mantêm interações e interdependência entre si, e destacam que uma das variáveis que mais influenciam as relações de negócios é a cooperação. Segundo os autores, por meio da cooperação existe uma melhor troca de informação, conhecimento e aprendizagem entre os atores.
Havendo a presença dessas características no grupo (interdependência, complexidade de tarefas, consciência de ação coletiva, presença de problemas comuns e objetivos coletivos, governança e cooperação), independentemente da natureza da tarefa do grupo, é possível
afirmar que ele atua, ou funciona, no formato de rede. Caso essas características se apresentem com sinais fracos ou ausentes, pode-se afirmar que o grupo de organizações funciona numa situação clássica de mercado, de competição isolada, ou de hierarquia fortemente estabelecida, como é o caso de algumas redes de políticas públicas.
A aplicação dessa matriz dos sinais de redes é visualizada no Quadro 5, localizado no item 5.1 e foi utilizada como guia para a análise da validade, isto é, de um prognóstico prévio da forma de atuação do grupo de organizações selecionadas para a pesquisa.
No Quadro 1, apresenta-se o resumo dos conceitos das características dos sinais de redes.
Quadro 1 – Resumo dos conceitos das características dos sinais de redes Características dos sinais de
rede
Resumo do conceito
Interdependência
Um ator depende do outro e vice-versa para execução de determinada atividade, ou porque este possui mais conhecimento ou equipamentos que o outro não têm.
Complexidade de tarefas Atividades que requeiram conhecimento técnico, por exemplo, havendo
troca de informações e conhecimento.
Consciência de ação coletiva Desenvolver atividades em prol do grupo, colocando os objetivos coletivos
a frente dos individuais. Presença de problemas comuns
e objetivos coletivos
Existindo problemas que atingem a todos, surge uma força de união e manutenção do grupo.
Presença de governança
Conjunto de regras, definições de responsabilidades e incentivos que visa orientar os processos decisórios na rede, gerando a interação entre os atores, promovendo a cooperação e fazendo com que haja redução de conflitos de interesse.
Cooperação Esforço de cada ator para desenvolver suas atividades além das obrigações
contratuais, buscando o crescimento do grupo. Fonte: Elaborado pelo autor (2017).
Assim, embora as características das redes e as categorias sociais estejam citadas nos textos, conforme a revisão bibliográfica, neste trabalho elas estão organizadas de uma forma raramente encontrada: (a) a organização das características que indicam o formato de rede; (b) a reciprocidade entre confiança e comprometimento; (c) as duas categorias colocadas como bases do desenvolvimento da rede; (d) a organização de um conjunto de indicadores sobre as relações sociais e o desenvolvimento da rede.
Sobre esta última categoria, o desenvolvimento da rede, seguem algumas explicações.