2. DIREITOS DA PERSONALIDADE
2.4 Características do direito da personalidade
Os doutrinadores Gagliano e Filho (2015) entendem que os direitos da personalidade por serem direitos inerentes aos seres humanos em seus aspectos físicos, mentais e morais, possuem determinadas características, as quais são consideradas próprias de cada indivíduo, sendo atribuídas como uma forma de individualização das pessoas no âmbito dos direitos particulares.
Nesse sentido, os doutrinadores acima mencionados afirmam que: “sendo direitos ínsitos à pessoa, em suas projeções física, mental e moral, os direitos da personalidade são dotados de certas características particulares, que lhes conferem posição singular no cenário dos direitos privados” (GAGLIANO; FILHO, 2015, p.194).
Os direitos da personalidade possuem determinadas características, quais sejam: caráter absoluto, generalidade ou caráter necessário, extrapatrimonialidade, indisponibilidade, imprescritibilidade, impenhorabilidade e vitaliciedade (GAGLIANO; FILHO, 2015, p.194).
O caráter absoluto dos direitos da personalidade se materializa na sua oponibilidade erga omnes, irradiando efeitos em todos os campos e impondo à coletividade o dever de respeitá-los. Tal característica guarda íntima correlação com a indisponibilidade, característica estudada abaixo, uma vez que não se permite ao titular do direito renunciar a ele ou cedê-lo em beneficio de terceiro ou da coletividade. Admite a doutrina especializada, porém, a existência de “direitos da personalidade relativos, como ocorre, exemplificadamente, com o direito à saúde, ao trabalho, à educação e à cultura, à segurança e ao meio ambiente” (GAGLIANO;
FILHO, 2015, pp. 194-195).
A primeira característica a ser analisada é o caráter absoluto, tal característica diz respeito à oponibilidade, ou seja, os direitos da personalidade possuem efeitos “erga omnes”, sendo assim, seus efeitos possuem aplicabilidade a todas as pessoas. Esta característica encontra-se relacionada com a indisponibilidade, a qual proíbe a disposição de direitos, não podendo o titular abrir mão do direito que lhe inerente em prol de outras pessoas. Portanto, produz efeitos “erga omnes”, devendo a observância por toda a coletividade. A doutrina entende que há direitos da personalidade que podem ser relativos, como o direito à saúde, educação, cultura, dentre outros, (GAGLIANO; FILHO, 2015, pp. 194-195).
Nessa mesma linha de raciocínio Gonçalves (2011) em sua obra ensina que:
O caráter absoluto dos direitos da personalidade é consequência de sua oponibilidade erga omnes. São tão relevantes e necessários que impõem a todos o dever de abstenção, de respeito. Sob outro ângulo, têm caráter geral, porque inerentes a toda pessoa humana (GONÇALVES, 2011, p.
195).
Em se tratando da generalidade conhecida também como caráter necessário, esta por sua vez entende que os direitos da personalidade por serem essenciais a condição humana são atribuídos a todos os indivíduos, bastando-se para tanto a sua existência (FILHO; GAGLIANO, 2015, p.195).
“A noção de generalidade significa que os direitos da personalidade são outorgados a todas as pessoas, simplesmente pelo fato de existirem” (FILHO;
GAGLIANO, 2015, p.195).
Em relação à extrapatrimonialidade, Gagliano e Filho (2015) entendem que uma das peculiaridades mais claras dos direitos legítimos da personalidade é a inexistência do objeto patrimonial imediato, mesmo que o prejuízo produza efeitos de natureza econômica. Porém, isso não proíbe que as manifestações de caráter pecuniário de determinadas naturezas de direitos possam adentrar no mercado jurídico. Dessa maneira, é certo alegar que em início os direitos personalíssimos são declarados extrapatrimoniais, não sendo impeditivo sob alguns aspectos, especialmente quando houver violação, podendo ser economicamente apreciáveis.
Uma das características mais evidentes dos direitos puros da personalidade é a ausência de um conteúdo patrimonial direto, aferível objetivamente, ainda que sua lesão gere efeitos econômicos. Isso não impede que as manifestações pecuniárias de algumas espécies de direitos possam ingressar no comércio jurídico. Assim, é correto dizer que, em principio, os direitos da personalidade são considerados extrapatrimoniais, não obstante, sob alguns aspectos, principalmente em caso de violação, possam ser economicamente mensurados (GAGLIANO;
FILHO, 2015, p.196).
Farias e Rosenvald (2011) entendem que a extrapatrimonialidade dos direitos da personalidade restringem-se na insuscetibilidade de análise econômico dos direitos personalíssimos, mesmo que ocorra algum imprevisto que possa ocasionar lesão, cujos efeitos sejam de natureza pecuniária. Desse modo, afirmam em sua obra que:
Já a extrapatrimonialidade consiste na insuscetibilidade de apreciação econômica dos direitos da personalidade, ainda que a eventual lesão possa produzir consequência monetária (na hipótese, a indenização por dano extrapatrimonial, comumente chamado de dano moral) (FARIAS;
ROSENVALD, 2011, p. 156).
Os doutrinadores Gagliano e Filho (2015) mencionam a indisponibilidade como uma característica genérica dos direitos personalíssimos, pois esta abrange a intransmissibilidade e a irrenunciabilidade, as quais possuem limitações previstas na legislação brasileira. A primeira pode ser entendida como a impossibilidade de alteração do sujeito, não podendo haver a transferência da titularidade dos direitos personalíssimos. Em se tratando da irrenunciabilidade,
entende-se que o ordenamento jurídico brasileiro não aderiu à possibilidade do titular renunciar o direito pela simples vontade.
A intransmissibilidade e a irrenunciabilidade são característica que possuem previsão expressa no art. 11 do Código Civil de 2002, tal dispositivo traz a seguinte redação: “Art.11- Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária”.
Gonçalves (2011) em sua obra ensina que as características acima citadas de forma expressa pelo Código Civil brasileiro de 2002, ocasionam a indisponibilidade dos direitos personalíssimos. Assim, é vedado a seus titulares transferí-los a terceiros, ou deles dispor, posto que tais direitos por serem considerados inerentes aos seres humanos se iniciam e terminam juntos com seus titulares.
Nesse sentido, o autor acima mencionado entende que nenhuma pessoa tem o direito de usufruir dos bens intrínsecos pertencentes aos outros indivíduos, como à honra, à vida, à liberdade, dentre outros. Entretanto, determinados direitos da personalidade autorizam seu uso, deste que haja consentimento por parte de seu titular, mediante uma recompensa em dinheiro, como exemplo, a imagem.
Nessa linha de raciocínio, Gagliano e Filho (2015), afirmam que: “a indisponibilidade significa que nem por vontade própria do indivíduo o direito pode mudar de titular, o que faz com que os direitos da personalidade sejam alçados a um patamar diferenciado dentro dos direitos privados” (GAGLIANO; FILHO, 2015, p. 196).
Tome-se o exemplo o direito à imagem. Em essência, esse direito é intransmissível, uma vez que ninguém pode pretender transferir juridicamente a sua forma plástica a terceiro. Ocorre que a natureza do próprio direito admite a cessão de uso dos direitos à imagem. Não se trata da transferência do direito em si, mas apenas da sua faculdade de uso. Essa cessão, realizada contratualmente, deverá respeitar a vontade do seu titular, e só poderá ser interpretada restritivamente (GAGLIANO;
FILHO, 2015, p. 197).
Conforme Gagliano e Filho (2015), outra característica dos direitos da personalidade é a imprescritibilidade, assim, não existe prazo prescricional para exigir tais direitos, não ocorrendo à cessação do direito pelo não uso. Além disso, não devem ser adquiridos em razão de um lapso temporal, pois, a doutrina
entende que estes direitos são do instinto dos seres humanos. A observação a ser feita é que ao mencionar o direito personalíssimo na imprescritibilidade, estará especificando os efeitos em relação ao tempo para a obtenção ou cessação de direitos.
A imprescritibilidade dos direitos da personalidade deve ser entendida no sentido de que inexiste um prazo para seu exercício, não se extinguindo pelo não uso. Ademais, não se deve condicionar a sua aquisição ao decurso do tempo, uma vez que, segundo a melhor doutrina, são inatos, ou seja, nascem com o próprio homem. Faça-se uma ressalva: quando se fala em imprescritibilidade do direito da personalidade, está-se referindo aos efeitos do tempo para a aquisição ou extinção de direitos (GAGLIANO; FILHO, 2015, p.198).
Em relação à impenhorabilidade, os autores Gagliano e Filho (2015) ensinam que há certos direitos que se apresentam patrimoniais, como o caso dos direitos autorais. Os direitos relativos à moralidade não podem ser passíveis de penhora, no entanto, não há vedação legal da penhora de créditos referentes aos direitos de natureza patrimonial. Adotando esta tese, deve-se autorizar a penhora dos créditos cedidos pelo uso da imagem.
A indisponibilidade dos referidos direitos autorais não é absoluta, podendo alguns deles ter o seu uso cedido para fins comerciais, mediante retribuição pecuniária, como o direito autoral e o de imagem, por exemplo.
Nesses casos, os reflexos patrimoniais dos referidos direitos podem ser penhorados (GONÇALVES, 2011, p. 189).
Para Gonçalves (2011), em sendo os direitos da personalidade, fundamentais aos seres humanos são indivisíveis e indisponíveis. Porém, em se tratando dos direitos autorais essa indisponibilidade é relativa, podendo haver a cessão de determinados direitos para o exercício da atividade mercantil, através de uma compensação em dinheiro, como por exemplo, o uso de imagem. Nesse caso, pode haver penhora dos efeitos de natureza patrimonial. No que tange à vitaliciedade, Gonçalves (2011) afirma que:
Os direitos da personalidade inatos são adquiridos no instante da concepção e acompanham a pessoa até sua morte. Por isso, são vitalícios. Mesmo após a morte, todavia, alguns desses direitos são resguardados, como o respeito ao morto, à sua honra ou memória e ao seu direito moral de autor, por exemplo (GONÇALVES, 2011, p. 189).
Os direitos da personalidade são naturais sendo concebidos no momento da fertilização e permanece com os seres humanos até seu falecimento. Desse modo, são vitalícios, e mesmo depois da morte, determinados direitos são preservados, como por exemplo, a memória e honra da pessoa falecida (GONÇALVES, 2011, p. 189).