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Características do jornalismo gastronômico

3 GASTRONOMIA COMO PRODUTO JORNALÍSTICO

3.3 Jornalismo gastronômico

3.3.2 Características do jornalismo gastronômico

Assim como o jornalismo tradicional e o jornalismo especializado que possuem características e técnicas a serem seguidas para que tenham uma identidade, o mesmo ocorre com o jornalismo em gastronomia. Nele cabem os gêneros “informativo e interpretativo, nos quais se inserem grande parte das reportagens e o opinativo, no qual fazem parte as críticas, crônicas, artigos, colunas e comentários”. (FONTES, 2010, p.25).

Amaral (2006a, p.28) diz que a imprensa sobre alimentação surgiu entre 1803 e 1812 na França com a temida crítica gastronômica e o Almanach des Gourmands, de Grimond da La Reynière, um formador de opinião de grande influência que frequentava restaurantes franceses julgando e escrevendo sobre os pratos da época. O francês contribuiu para que hoje a crítica fizesse parte do jornalismo a partir do entendimento de que o conceito da crítica é de prestação de serviço e informação, assim como as crônicas e reportagens.

“Escrever sobre gastronomia é uma atividade delicada, principalmente pelo fato do leitor normalmente também entender do assunto. Esse tipo de mídia setorizado atinge determinado público específico, que aprecia e conhece o tema abordado.”, (SILVA, 2010, p.23). Sendo assim, para ser um crítico é necessário entender do assunto para que se consiga apreciar e avaliar o objeto gastronômico a fim de traduzir essas sensações ao público. Silva ainda diz que “é comum que esse tipo de crítica seja feita por gourmets ou especialistas no assunto, contudo, existem veículos que acreditam que o profissional de comunicação seja o mais habilitado para tal.” (SILVA, 2010, p.19)

A crítica em si é “[...] correspondente a uma apreciação das obras de arte ou outros produtos culturais, com a finalidade de orientar a ação dos fruidores ou consumidores” (MELO, 1943, p.125), que se encaixa no gênero opinativo, dando o poder da persuasão a quem a escreve.

No âmbito da gastronomia, informar e seduzir estão intimamente ligados, na medida em que todo o fazer do crítico está a serviço de um dizer que, ao apreciar, julgar e avaliar, revela a sua própria "subjetividade", A imagem de crítico proposta é a de alguém que, ao transmitir suas paixões e prazeres, procura sensibilizar o leitor, fazê-lo vibrar, incitá-lo a degustar. (PIETROLUONGO, 2000, p.149)

O crítico é o intermediário entre o chef e o leitor. O prato passa pela avaliação deste especialista, dando garantias sobre a qualidade, local e serviço sem que o leitor tenha o trabalho de se levantar do sofá. Sendo assim, cobre todos os parâmetros que condizem àquela crítica: “o locutor-enunciador-jornalista como crítico-avaliador faz apreciações sobre todos os aspectos que concernem a Gastronomia, da decoração à recepção do restaurante, da qualidade dos produtos ao resultado da cozinha [...]" (PIETROLUONGO, 2000, p.150).

Este, no entanto, deve exercer sua função em anonimato, uma vez que anunciada a sua presença, o crítico pode modificar a essência do estabelecimento comprometendo sua avaliação, uma vez que estará os observando e os julgando.

[...] os críticos frequentam os restaurantes avaliados sem se identificar e pagam sua conta, como qualquer cliente. Essa atitude pode parecer um detalhe insignificante, mas na verdade garante ao crítico liberdade e certeza de que não será tratado de forma diferenciada por estar avaliando o estabelecimento. É comum, em outros jornais e revistas, que os jornalistas visitem restaurantes após serem convidados, sendo inclusive recebidos pelos donos dos estabelecimentos ou pelos chefs de cozinha. Em geral, tais convites são intermediados por assessorias de imprensa, que ajudam a promover a imagem dos seus clientes. (AMARAL, 2006b, p.4)

Quando a crítica não é feita por um profissional anônimo, o serviço passa a ser de cunho comercial, para propagar a imagem de determinados locais e assim acaba por comprometer a credibilidade do crítico/veículo. O que é comum, já que o jornalismo gastronômico possui grande impacto nas decisões culturais os veículos se oportunizam dessa influência e acabam usando-a em benefício próprio, porque “a comida não é ‘boa’ ou ‘ruim’ por si só: alguém nos ensinou a reconhecê-la como tal”. (MONTANARI; CARNEIRO, p.95)

De acordo com Piza (2003, p.44), a crítica deve ser fiel ao que remete, “os críticos de qualidade não estão preocupados em encontrar falhas onde não existem”. É necessário ter clareza e objetividade, ser bem fundamentada e não possuir acusações de ordem pessoal.

Para Dias12 “a crítica gastronômica hoje no Brasil é muito voltada a serviços, ela está muito mais em serviços do que realmente fazer uma análise crítica sobre os restaurantes”. Sendo assim, o texto da crítica pode se fundir em uma crônica, ligando o cotidiano em traços cronológicos da entrada a saída do restaurante, pela poeticidade que torna a gastronomia uma arte e que pode amenizar críticas severas.

Melo (2002), relata que a crônica se aproxima da literatura, mas não romantiza, detém simplicidade e tom ousado, mas que não faz da mesma uma poesia. Desta forma, cabe o crítico/cronista a observação anônima e a transmissão de suas avaliações.

As reportagens, diante das técnicas jornalísticas, no jornalismo gastronômico não se alteram: possuem caraterísticas informativas transmitindo fatos diversos que remetem ao assunto para o público leitor. Também podem conter elementos do gênero interpretativo, com uma abordagem mais ampla e não factual que dispõe de conhecimentos profundos ao leitor e não apenas transmite um acontecimento, fator que o diferencia daquilo como é feito no jornalismo tradicional.

Assim como toda e qualquer informação jornalística, independente da editoria, seja ela voltada à notícia de acontecimentos diários ou ao aprofundamento de temas do cotidiano e entretenimento, as reportagens do segmento de gastronomia também podem exercer tal papel social. (FONTES, 2010, p.18)

Para Amaral (2014, p.3), “a imagem dos bens ganha mais importância do que os bens em si, o que explica o fato de as pessoas apreciarem olhar fotos de produtos inacessíveis para seus padrões de consumo [...]”. Assim, as reportagens gastronômicas se agraciam de métodos como imagens, infográficos e até mesmo gráficos para enfatizar e representar o que vem no texto, a fim de atrair o leitor, e incentiva-lo a degustar ou apenas fazê-lo imaginar.

O didatismo, com vistas a fazer o leitor aprender mais sobre comida, é explícito: há reportagens ilustradas sobre como funcionam as praças da cozinha do restaurante ou sobre quais cortes da carne de porco devem ser assados, braseados, fritos, guisados, grelhados ou salteados. Ao lado da barata carne de porco, surge até uma pauta sobre caviar, mas mostrando opções mais em conta (ou menos caras). Outra página rica em fotos indica onde comprar utensílios usados de restaurantes que acabaram de fechar as portas. (AMARAL, 2014, p.12)

Segundo Godoy (2003), “Boas imagens, fotografias e design gráfico impactam e cativam mais rapidamente que um texto ‘nu’. Mas, este aspecto não deve ser o único a alimentar o leitor”. A função do jornalismo gastronômico não deve ser posta de lado, o texto que comunica e educa, deve ser sempre o prato principal, os recursos usados apenas auxiliam no entendimento deste, “temperando-o” para dar sabor à leitura.

No jornalismo gastronômico, o desejo de intenso prazer gustativo pode ser verificado nas fotos de pratos em close, especialmente nas revistas, em que a impressão de alta qualidade ajuda no estímulo sensorial. Geralmente, as iguarias produzidas por chefs renomados vêm acompanhadas pela receita, mas podemos arriscar que poucos leitores ousam tentar reproduzir em casa

esse complexo passo a passo: o simples contemplar a imagem já é, em si, fonte de prazer. (AMARAL, 2014, p.3)

Além da crítica e das reportagens, o jornalismo em gastronomia ainda exerce o status de serviço, já que anuncia novidades, sejam elas nacionais ou internacionais, apresentando novos locais, seus pratos e seus valores sem segmentar a classe a qual o estabelecimento se encontra. “Isso mostra que o assunto já não é mais tão exclusivo da elite” (SILVA, 2010, p.19), pois permite ao leitor a escolha de locais a seu perfil.

Por fim, o profissional do jornalismo gastronômico deve torna-lo fonte de prazer, atribuindo ao leitor desejos e sensações, usando apenas palavras. “A matéria apresentada deve funcionar como um espaço de atração no qual a imaginação e as inclinações do leitor vão se projetar. Logo, é preciso que esse espaço seja tão saboroso quanto os pratos e receitas descritos”. (PIETROLUONGO, 2000, p.148)

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