2. CRIATIVIDADE, PROJETO E AMBIENTE
2.3. Contexto do ambiente criativo
2.3.1. Características do macro ambiente
O macro ambiente é formado pelos contextos cultural, social e institucional nos quais a pessoa está inserida (e, portanto, vive). Como um importante componente, o contexto cultural pode provocar variações diretas no processo criativo, estando sua influência fortemente relacionada ao acesso que proporciona aos diferentes níveis de recursos existentes, tais como como teorias, informações, tecnologias e materiais. Além disso, a exposição às normas, condutas e tradições locais tende a variar de acordo com três aspectos: a aceitabilidade de uma cultura a outra cultura; sua adaptabilidade/resiliência às mudanças temporais; as possibilidades de expressão que aceita e oportuniza (LUBART, 2007).
Goswami (2008) ressalta que, a contemporaneidade tem tornado evidente uma importante dicotomia: as sociedades mais individualistas (como as norte-americanas e europeias) enfatizam a “criatividade exterior”, influenciando o comportamento de outras culturas ocidentais principalmente quanto ao estímulo ao progresso, novos deslocamentos e interações sociais; as sociedades vinculadas às civilizações do Oriente, fazem mais referência à “criatividade interior”, relacionando-a aos aspectos tradicionais de normas e obrigações. Segundo o autor, essas duas perspectivas implicam diferenças tanto no processo quanto nos comportamentos a ele associados.
Em culturas ocidentais, como a nossa, a percepção da pessoa como ser autônomo influencia “o modo pelo qual o indivíduo vai procurar se diferenciar de outros membros de sua comunidade” (LUBART, 2007, p. 85) ressaltando diretamente em seu produto criativo, em termos de quantidade e originalidade das ideias. Nesse processo, há uma tendência para a ruptura com preceitos tradicionais e não conformidade com as normas locais.
Segundo Csikszentmihalyi (1996), o ambiente onde a pessoa vive é importante para a atividade criativa porque permite ou dificulta o acesso ao domínio, a experimentação de novos estímulos e o contato com o campo de interesse. Em geral, no contexto macro ambiental, as pessoas que trabalham com atividades criativas tendem a se deslocar para ambientes (cidades, campos de estudo ou corporações) em que planejam trabalhar, porque entendem que ali há mais oportunidades relativas aos seus interesses, seja informações armazenadas, outras pessoas que já estudam ou trabalham a temática ou disponibilidade de recursos/tecnologia para fazê-lo, incluindo financiamento para o desenvolvimento de novas investigações/proposições.
No entanto, o autor ressalva que como as novas ideias não estão uniformemente distribuídas no espaço, o campo pode provocar altas pressões quanto ao desdobramento da criatividade, o que pode tanto estimular quanto provocar bloqueios psicológicos. Nesse sentido, a mudança para o centro das ações é altamente influenciada pelos recursos do lugar (tecnológicos, econômicos e informacionais), mas também depende das características pessoais. Ao pesquisar sobre isso, Fisher (1975) propôs que centros urbanos densos alimentam subculturas (conjunto de crenças, valores normas e costumes existentes em um sistema social) com “massas críticas”, estilos de vida e interesses mais do que cidades pequenas ou subúrbios e um dos fatores é a variedade de habitantes provocada pela migração.
Além da alta e variada densidade populacional, o macro ambiente criativo concentra mão-de-obra qualificada, boa infraestrutura de comunicação e produção de informação, cultura tolerante à troca e constante difusão de novas ideias e tecnologias (BORJA, 2009; CRUZ, 2014). Tais características são fundamentais para alimentar a dinâmica das chamadas “economia e indústria criativas”, que tratam da transformação dos conhecimentos em produtos e serviços, abrangendo os aspectos socioculturais, mas também de mercado. Sob esse ponto de vista, em centros urbanos, acadêmicos ou corporativos é possível identificar setores e segmentos criativos (Quadro 6), o que permite a compreensão da direção e do crescimento dos investimentos.
Quadro 6: Agrupamentos dos setores e segmentos criativos Setores criativos Segmentos criativos Atividades relacionadas
Patrimônio Patrimônio e Artes Histórico, Cultural, Arquivos e Museologia Expressões artísticas Expressões culturais Artesanato, Folclore, Gastronomia, Pintura e Escultura
Artes do espetáculo Música Música, Concertos, Shows e Festivais
Artes cênicas Dança, Circo e Teatro
Audiovisual e literatura (mídias)
Audiovisual Cinema, Vídeo, Rádio, TV e Video Games
Editorial Livros, Jornais e Revistas
Criações culturais (de consumo)
Moda Desenho de roupas e acessórios
Design Projeto de produto e programação visual Arquitetura Planejamento e projeto de edificações, paisagens e
ambientes urbanos
Marketing Publicidade, Propaganda e Organização de eventos Tecnologia
P&D Pesquisas e Experimentos
Biotecnologia Bioengenharia, Biologia
TIC Desenvolvimento de softwares, sistemas, TI e robótica Fonte: Elaborado pela autora a partir de MEC (2011) e FIRJAN (2019).
Cruz (2014) propôs um modelo explicativo do ambiente criativo urbano (Figura 10) que relaciona quatro dimensões: i) o desenvolvimento histórico da população; ii) a cultura urbana,
resultante das interações dessas pessoas; iii) as conexões em rede com outros setores a nível local, nacional ou internacional; e iv) as políticas públicas, que podem atuar sobre os potenciais criativos através dos seus investimentos ou restrições. Quando integradas, essas dimensões favorecem a manutenção e até mesmo o surgimento dos setores criativos.
Figura 10: Modelo do ambiente criativo urbano
Fonte: Cruz (2014).
Para Johnson (2011), essas características urbanas também podem ser estendidas aos ambientes de mídia (internet e redes sociais) nos quais há alta probabilidade de estarem presentes os sete padrões que ele considerou existir em ambientes de fertilização de ideias: i) possível adjacente; ii) redes líquidas; iii) intuição lenta; iv) serendipidade; v) erro; vi) exaptação; e vii) plataformas. Dentre eles, essa dissertação destaca os de número ii, iv, vi e vii, como aqueles que mais se relacionam com sua temática.
A “exaptação”, refere-se a alguém “toma emprestado” uma ideia, tecnologia ou produto de uso específico, tornando-o/a apropriando a uma nova função, diferente do original. A exaptação prospera porque acontecem colisões de diferentes campos de conhecimento que “convergem num espaço físico ou intelectual compartilhado” (Idem, p. 135) e, portanto, estimula a interdisciplinaridade.
Como não há possibilidade de controle ou previsão desses acontecimentos nessa macro escala, isso estimula também outros padrões ambientais, como: a “serendipidade”, conexões acidentais, surpreendentes e improváveis, que completam intuições ou pensamentos que não tinham sido percebidos antes das colisões provocadas por esse ambiente; as “redes líquidas” de informações, sistema comportamental, que por não ser demasiadamente estável ou
instável, é capaz de manter as ideias num estado de fluidez que não as destrói imediatamente, preservando-as úteis até um tempo indeterminado; e as “plataformas”, que, por sua vez, fazem as ideias emergirem a partir da reutilização de recursos (inventivos e econômicos) existentes em camadas ainda não exploradas.
Ao classificar as descobertas e produções divulgadas nos últimos dois séculos e que são consideradas criativas em termos históricos, Johnson (2011) definiu quatro quadrantes (Figura 11), a partir dos quais classificou os macro ambientes de criação: i) empresas privadas ou empreendedor individual que atuam para o mercado; ii) diversas empresas do mercado que interagem em rede; iii) cientista ou produtor isolado que compartilha suas ideias livremente; e iv) ambientes de código aberto (instituições públicas e de ensino), nos quais o sistema de rede colaborativo permite que os processos criativos sirvam de base para novas criações.
A figura 11 revela o quarto quadrante (ambientes de código aberto) como o mais propício para a produção criativa. O autor explica que provavelmente isso se deve ao fato desse tipo de ambiente não depender do investimento do mercado, mas estar conectado em rede, o que promove interdisciplinaridade e correlação entre ideias do presente e do passado, as quais são livremente divulgadas, discutidas e reinterpretadas.
Figura 11: Produções criativas de 1800 até 2010 divididas em quadrantes
Com esse estudo, o autor acentua a discussão da dualidade entre ambientes abertos e controlados no processo criativo, destacando a necessidade de “equilíbrio entre ordem e caos” (Idem, p. 56). Ele ainda argumenta que alguns dos sete padrões de fertilização de ideias também poderiam ser pensados em uma escala menor – “em nossos hábitos de trabalho e hobbies pessoais” (Ibidem, p. 20), quando o indivíduo se propõe a incluir essas relações em seu entorno imediato. Ressalta, também, que a ocorrência de situações inesperadas ainda se manterá incontrolável, e que a abertura para a oportunidade de elas acontecerem pode se aproximar das características flexíveis do microambiente.