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Características do setor de saneamento no brasil

No documento Edição Completa (páginas 137-144)

tenDÊnCiAs De Consumo e A ÉtiCA empresAriAL

6 “I PRINCÍPIOS GERAIS

5. Características do setor de saneamento no brasil

O setor de saneamento é caracterizado por baixo dinamismo tecnológico e apresen- tam-se com pequenas variações na oferta de serviços (água e esgoto), quando comparada à de outros setores de infra-estrutura, como telecomunicações. Ao mesmo tempo é carac- terizado por uma grande heterogeneidade quanto ao tamanho, número de prestadores en- volvidos, forma de gestão e de desempenho (eficiência) e de investimentos (MARINHO, UFPR, 2012, p.344).

Para iniciar as características dos serviços de saneamento básico no Brasil, é interes- sante demonstrar alguns dados do SNIS 2012 (Ministério das Cidades): I) Atendimento em água potável: quando consideradas as áreas urbanas e rurais do País, a distribuição de água atinge 82,4% da população; II) O atendimento em coleta de esgotos: chega a 48,1% da população brasileira. Do esgoto gerado, apenas 37,5% recebe algum tipo de tratamento; III) Crescimento das ligações: entre 2010 e 2011, houve um crescimento de 1,4 milhões de ramais de água e 1,3 milhões na rede de esgotos no País, crescimentos relevantes quando se trata de ampliação de sistemas complexos nas cidades brasileiras; IV) O consumo de água por habitante no Brasil: foi de 162,6 litros por habitante ao dia, um pequeno incremento de 2,3% em 2011 com relação a 2010. A região com menor consu- mo é a Nordeste, com 120,6 litros por habitante por dia; já a região com maior consumo é a região Sudeste, com 189,7 litros por habitante por dia; V) Perda de água: as médias de perdas de água na distribuição alcançaram 38,8%, mantendo-se no mesmo patamar de 2010; VI) Receitas totais geradas pelos serviços de água e esgotos: alcançaram os R$ 76,0 bilhões (2011); VII) Investimentos: movimentação financeira de R$ 76,0 bilhões no ano de 2011, referente a investimentos que totalizaram R$ 8,4 bilhões, mais receitas operacionais de R$ 35,0 bilhões e despesas de R$ 32,6 bilhões; VIII) Posto de trabalho: em 2011, o setor de saneamento gerou 642,9 mil empregos diretos e indiretos e de efeito renda em todo o país. Desses, 198,9 mil nas atividades diretas de prestação dos serviços e 444,0 mil gerados pelos investimentos.

O déficit de atendimento dos serviços de saneamento no Brasil, apresentando forte desigualdade de atendimento por serviço prestado (água e esgoto), entre as regiões (sul e sudeste em detrimento de nordeste, norte e centro-oeste), e por origem de domicílio atendido (urbano e rural), bem como uma expressiva iniqüidade social. De acordo com essa hipótese, existiria uma relação não linear, no formato de um “U invertido”

entre indicadores de degradação e o desenvolvimento econômico, ou seja, nos primeiros estágios do desenvolvimento, a degradação aumentaria, mas passaria a diminuir em es- tágios mais avançados. Tal hipótese justifica a afirmação de Beckerman (1992) de que o desenvolvimento econômico possui impactos iniciais negativos sobre o meio ambiente, mas que, ao longo do tempo, seria a melhor forma de gerar uma maior preservação4.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) no ano de 2004, em cada R$ 1,00 investido em saneamento gera economia de R$ 4,00 na área da saúde. Isso demonstra a extrema importância desse serviço para a saúde da população, sendo que 88% das mortes por diarréias no mundo são causadas pelo saneamento inadequado (IBGE, 2012).

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2012): I) Dos 62,8 milhões de domicílios, quase 27 milhões de residências (42,9%) ainda não têm rede coletora de esgoto; II) O número de domicílios beneficiados por rede coletora de esgoto aumentou de 54,9% em 2011, para 57,1% em 2012; III) O maior crescimento regional ocorreu no Sul, onde o avanço foi de 35,7% em 2011 para 42,3% em 2012. A região Norte se manteve estável em relação a 2011 com 13% de domicílios com acesso a rede coletora de esgoto. O Sudeste ainda é a região com melhor cobertura de rede de esgoto, 84,1% dos domicílios tem o serviço; IV) A cobertura de redes de água em todo o País aumentou de 84,6%, em 2011 para 85,4%, em 2012; V) O acesso a coleta de lixo em todo o País permaneceu em 88,8% entre os anos de 2011 e 2012; VI). A utilização de fossa rudimentar permaneceu em 16,6 % entre os anos de 2011 e 2012 em todo o País.

Uma característica que dificulta a verificação das condições de manutenção e ope- ração é a localização da infra-estrutura, que se encontra enterrada. Isso gera uma necessi- dade maior de fiscalização e de informação para os reguladores. Existe ainda a assimetria de informações, que faz com que o regulador focalize sua atuação nas condutas mais facilmente observáveis do regulado, como a qualidade da água distribuída e a pressão da mesma na rede. Isso faz com que questões mais importantes sejam colocadas em segundo plano, como a verificação das tarifas e custos, pois para a regulação destas é necessário à disponibilização de informações por parte dos prestadores de serviços. (GALVÃO JU- NIOR e PAGANINI, 2009, p.159)

Outro fator que dificulta a regulação neste setor é fato de serem efetuados grandes investimentos, isso pode levar a um comportamento oportunista por parte dos regula- dores, como mudanças de regras tarifárias após a construção de obras e instalações 4 O presente estudo avaliou a existência de uma Curva Ambiental de Kuznets (CAK) para o caso dos déficits municipais de acesso a serviços de saneamento ambiental, que podem ser considerados como medidas indiretas de degradação ambiental. SAIANI, Carlos César Santejo at ali. Déficit de acesso a serviços de saneamento ambiental: evidências de uma Curva Ambiental de Kuznets para o caso dos municípios brasileiros? Disponível http://www.scielo.br/pdf/ecos/v22n3/08.pdf 08/03/2015

operacionais. Isso torna necessário que o marco regulatório ofereça garantias e estabilida- de de regras claras para os investidores (GALVÃO JUNIOR e PAGANINI, 2009, p. 406). As características do setor de água e esgoto apresentadas no quadro abaixo possibili- tam analisar várias dimensões dessa prestação de serviços e justificam a extrema necessida- de de haver a regulação do setor.

Características do setor de saneamento e suas repercussões

Fonte: Alceu de Castro Galvão Junior e Wanderlei da Silva Paganini

Enfim, essas características apresentam situações perigosas existentes no setor, como poder de monopólio e assimetria de informação, o que justifica a regulação do setor. Além disso, a regulação é necessária para que sejam realizadas práticas eficientes de gestão, expansão do produto, redução de tarifas, bem estar do consumidor pela qualidade dos serviços e universalização.

A pesquisadora em saneamento Marina Mello identificou alguns desses mesmos problemas nos contratos de quatro concessões plenas realizadas entre 1995/1998 (Águas de Limeira, Águas de Petrópolis, Pró- Lagos e Águas de Jaturnaíba). Nos em três casos, o leilão se deu com base na cobrança de outorga (Águas de Petrópolis, Pró-Lagos e Águas de Jaturnaíba) e em um caso (Águas de Limeira) com base na menor Tarifa Referencial de Água (TRA), ou seja, sem o pagamento dos direitos de outorga. Na maior parte dos casos, o esgoto continua sendo cobrado com base numa proporção da tarifa de água.

As metas físicas dos contratos são relativamente modestas, em que pese o período da concessão ser de 30 anos, não prevendo a cobertura total dos serviços, principalmente de coleta e tratamento de esgotos e não define quem deve ser atendido prioritariamente. Registra o descuido com relação ao sistema de preços de forma a aproximá-lo de critérios de eficiência e de equidade e apenas algumas iniciativas tímidas para adequar preços a custos de atendimento mediante diferenciação de tarifa de esgoto, principalmente no que diz respeito a consumidores industriais. Os padrões de qualidade inadequadamente de- finidos e não há determinação de avaliação de desempenho dos concessionários privados (MELLO, 2001, p.20-21).

6. Conclusões

A essencialidade dos serviços de saneamento básico para a população atribui-se com saúde pública preventiva fez a sua regulação, com a finalidade de fiscalizar, controlar e corrigir possíveis falhas no setor. Assim a regulação do saneamento no Brasil surgiu justa- mente quando os serviços passaram a ser prestados por empresas concessionárias privadas, pois até 1995, quase todas concessionarias eram publicas ou semi-públicas.

Em regra houve uma melhora do setor de saneamento à população brasileira, mas quanto à prestação desses serviços esse vem se dando de forma desigual, seja por tipo de serviço prestado, por região ou entre os setores sociais e faixa de renda. Quanto à desigual- dade regional de renda, a solução para o alcance de metas de universalização desses servi- ços depende da garantia de financiamento público, que compreenda aporte de recursos para financiar os investimentos em regiões e/ou municípios carentes e a implementação de uma política de subsídio.

A insistência regulatória está na definição clara das regras e nos contratos de conces- são, taxa mínima de retorno e equilíbrio econômico-financeiro, definindo metas e resulta- dos, metas de expansão compatíveis com a universalização dos serviços e regimes tarifários relacionados à eficiência produtiva e tecnológica e o repasse dos ganhos de produtividade aos usuários em benefícios as empresas envolvidas e a qualidade de vida.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD 2012) mostra que o Sudeste ainda é a região com melhor cobertura de rede de esgoto, com 84,1% dos domicílios. De acordo com os relatórios técnicos, pode-se observar que houve avanços no abastecimento e tratamento de água e coleta e tratamento de esgoto em todo o Brasil, contudo desi- gualmente em cada região. Registram-se resultados positivos em vários aspectos, como o ganho de lucro das empresas, à modicidade tarifária de forma geral e a melhoria da saúde pública.

O problema grave situa-se pontualmente em relação à captação e o tratamento do esgoto sanitário. Há desigualdade na distribuição dos serviços de saneamento no município,

seja por região, bairro, renda etc. Os serviços mais precários estão nos bairros mais pobres em desacordo com o ideal de saneamento básico previsto na lei 11.445/2007. Muitas vezes, apesar de existir estação de tratamento de esgoto não se oferece serviço de coleta e tratamento de esgoto em todo território das cidades. Parte desse esgoto coletado é jogada, sem condições sanitárias, perto de corpos de água (rio, lagoa e mar). A cobertura da rede de esgoto na área rural é menor, porém tem menores conseqüências devido ao alto núme- ro de fossas sépticas, que têm capacidade de eliminar de forma segura o esgoto em áreas de baixa densidade populacional.

Por fim, conclui-se que houve avanços consideráveis no sistema de saneamento, mas há falha de métodos na regulação quanto à execução dos contratos com as concessioná- rias, principalmente na prestação do serviço de esgoto.

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