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Características dos sistemas complexos

CIÊNCIAS DA COMPLEXIDADE

4.2 Conceito de sistema

4.2.2 Características dos sistemas complexos

Casti (1994) sugere que, para se lidar com sistemas complexos, se inicie por apresentar características que o diferenciem dos sistemas simples. Ele denomina essas características como “impressões digitais” da complexidade.

- Quantidade e heterogeneidade - Na visão de Heylighen (1998), um sistema complexo possui duas ou mais partes ou elementos diferentes, as quais são conectadas ou entrelaçadas e que interagem não-linearmente. Os componentes do sistema, normalmente, interagem entre si de modo não linear, recorrendo a retornos “loops de feedbacks” entre eles (Wu, 2002).

- Variedade e variabilidade - O grande número de estados que podem ser assumidos pelas unidades do sistema é a maior dificuldade para representar os sistemas complexos. Nesse aspecto, destacam-se: a variedade e a variabilidade. A variedade ocorre quando a unidade

pode ser predisposta para produzir várias quantidades do mesmo resultado. A variabilidade existe quando as unidades de produção são predispostas no sentido de produzir vários tipos de resultados. Os sistemas, ao assumirem várias configurações, apresentam dificuldade de representação, tornando-se um grande problema para a gestão dos sistemas complexos (Gino, 2002).

- Interdependência - Para compreender o comportamento do sistema complexo é necessário entender não somente o comportamento das suas partes mas também como elas agem juntas para formar o comportamento do todo (Bar-Yam, 1997), (Gino, 2002) e (Baranger, 1999). - Imprevisibilidade - O comportamento de sistemas complexos é imprevisível, devido à interacção entre as partes e mais imprevisível quando interage com outros sistemas (Heylighen,1998)

- Evolução - Os sistemas complexos quando evoluem são imprevisíveis. A evolução dos sistemas não pode ser guiada (Heylighen, 1998).

- Instabilidade - Os sistemas complexos tendem a possuir muitos modos possíveis de comportamento; as mudanças entre esses modos são, frequentemente, resultados de pequenas mudanças em alguns factores que controlam o sistema (Casti, 1994).

- Incerteza - Todo sistema responde a condições externas, tendo como base o seu próprio estado. Nos sistemas complexos, nem sempre essas condições, para as quais o sistema dará respostas e o seu próprio estado, são previsíveis. Como consequência, um sistema complexo é caracterizado por um grande número de interdependências, várias configurações possíveis e dificuldade de reconhecer, quais destas são preferíveis para determinada situação (Gino, 2002).

- Adaptabilidade - Os sistemas complexos tendem a ser compostos de muitos agentes inteligentes, que tomam decisões e agem com base em informações parciais sobre o sistema inteiro. Mas esses agentes são capazes de mudar as próprias regras de decisões, com base nas informações adquiridas (Casti, 1994).

- Organização e Auto-organização - A organização é um encadeamento de relações entre componentes e indivíduos que produzem um sistema complexo, dotando-o de qualidades desconhecidas quanto aos componentes ou indivíduos. A auto-organização confere estabilidade às relações, possibilitando uma certa duração ao sistema, apesar das perturbações aleatórias (Morin, 1977).

- Irredutibilidade - Os sistemas complexos resultam num todo unificado. Eles não podem ser compreendidos nem pela desintegração das partes que os compõem, nem pela análise de suas partes isoladas. O comportamento do sistema é determinado pela interacção entre as partes e qualquer desintegração do sistema destrói muitos aspectos da sua individualidade (Casti, 1994).

- Emergência - Considerada a importância da “Emergência”, em sistemas complexos, reserva-se para esta característica uma secção própria, com o fim de a abordar com maior profundidade.

4.2.2.1 A Emergência

Os sistemas complexos produzem padrões comportamentais e propriedades que não podem ser previstos pelo conhecimento das suas partes isoladas. As propriedades emergentes são as mais evidentes características que distinguem um sistema complexo de um sistema complicado (Casti, 1994).

Segundo Morin (1977), as emergências são as qualidades ou propriedades de um sistema que apresentam um carácter de novidade com relação às qualidades ou propriedades dos componentes isolados ou dispostos diferentemente em um outro tipo de sistema. A emergência apresenta três pressupostos:

- O todo é mais do que a soma das partes: o sistema possui algo mais do que seus componentes considerados de modo isolado – a sua organização, a própria unidade global, as qualidades e propriedades novas que emergem da organização e da unidade global. Esses três termos são entrelaçados e difíceis de separar. Morin (1977) destaca as emergências globais, ressaltando que todo o estado global apresenta qualidades emergentes. A realidade da emergência comporta a ideia de qualidade, produto, globalidade e novidade. Tais ideias precisam de estar interligadas para se compreender a emergência. A emergência da realidade é logicamente imprevisível e fisicamente irredutível. Elas perdem-se se o sistema se dissocia.

- O todo é menos do que a soma das partes: toda a organização comporta diversos níveis de subordinação quanto aos componentes. Em todo sistema, há coesões sobre as partes. Estas

impõem restrições e servidões, que fazem perder ou inibir qualidades e propriedades. Nesse sentido, o todo é, portanto, menos do que a soma das partes. Deve-se considerar, no sistema, não somente o ganho de emergências, mas também a perda, por imposições, repressões e subordinações. Um sistema não é apenas enriquecimento, é, também, empobrecimento. Por isso, é essencial observar em que proporções existem enriquecimento e empobrecimento.

- A formação do todo e as transformações das partes: um sistema é um todo que toma forma ao mesmo tempo em que seus elementos se transformam. A ideia de emergência é inseparável da ideia de criação de uma forma nova que constitui um todo. A organização transforma uma diversidade descontínua de elementos em uma forma global. Por fim, a emergência da emergência faz surgir a globalidade.

A emergência é exemplificada por Baranger (1999) da seguinte forma: o corpo humano é capaz de caminhar. Esta é uma propriedade emergente. Contudo, estudando-se somente a cabeça, somente o tronco ou somente os membros de uma pessoa, não haverá a compreensão da capacidade de caminhar.

A partir da constatação da coexistência de tipos diferentes de sistemas e do reconhecimento de que os sistemas complexos possuem características peculiares que os diferenciam dos sistemas complicados, percebeu-se a inadequação da aplicação da abordagem reducionista aos sistemas complexos. Assim, iniciou-se um processo de formulação de várias teorias que se adequassem às características desses sistemas. Desse modo, surgiu o termo “Ciências da Complexidade”, que é discutido seguidamente.