3. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
3.1. CARACTERÍSTICAS DOS TEXTOS TRADUZIDOS NO MODO
JURAMENTADO
Um traço pertinente nos documentos analisados é o uso de inserções feitas pelo
tradutor. No corpus de estudo de CCVs e de TEs, notamos a incidência de
metatraduções e paráfrases entre colchetes com explicitações, como por exemplo:
“[Logotipo]”, “[Assinatura ilegível]”, “[rubrica]”, “[em branco]”, entre outras. Ocorreu
uma variação com a expressão “assinatura ilegível”: no tradutor A, apareceu como
“[assinatura ilegível]” e, no tradutor B, com “ilegível” abreviado “[assinatura ileg.]”.
Além disso, após o brasão da República, encontramos dados referentes à
matrícula na Junta Comercial do Estado, o número da tradução e do livro, a quantidade
de folhas e o endereço do tradutor.
Quando a tradução é feita na direção inglêsÆportuguês, ocorre um termo de
abertura, por meio da unidade fraseológica “Certifico e Dou Fé”. No que diz respeito a
variações do termo de abertura das TJ analisadas, encontramos pequenas diferenças
Nos TTJPs-ccv do tradutor A, a expressão “Certifico e Dou Fé” está grafada em
caixa alta-baixa; no tradutor B, está escrita em caixa baixa e precedida pelo nome do
tradutor e pela expressão “abaixo assinado”, enquanto que, em C, apenas “certifico”
encontra-se em caixa-alta. Poderíamos inferir certa tendência da parte do tradutor B em
colocar sua identificação logo no início dos documentos, o que não ocorre com os
tradutores A e C.
Outra diferença pode ser notada quanto à identificação do tipo de documento
que é feita dentro do termo de abertura pelo tradutor. No corpus representado pelo
tradutor B, a identificação é colocada após a abertura, antes de iniciar a tradução
propriamente dita, inserindo: “Identificação do documento: Cópia autenticada de
contrato de compra e venda”. Quando se trata de documentos vertidos para o inglês,
encontramos o seguinte termo de abertura:
Certifico e Dou Fé, para os devidos fins, que nesta data me foi apresentado
um documento com a seguinte identificação — CONTRATO DE
COMPRA E VENDA em idioma inglês, o qual traduzo para o vernáculo no
seguinte teor: – TRADUTOR A
Eu, NOME DO TRADUTOR, abaixo assinado, Tradutor Público
Juramentado, certifico e dou fé, para os devidos fins, que nesta data me foi
apresentado um documento em idioma Inglês, o qual traduzo para o
vernáculo, no seguinte teor: – TRADUTOR B
I, John Doe, Public Sworn Translator for the English, Spanish and Portuguese
languages, in and for the State of São Paulo, Brazil, Certify that on this 9th day of
March, 2010, in this city of São Paulo, was submitted to me an Agreement written
in the Portuguese language, which I hereby translate into the English language,
word for word, to the best of my knowledge and ability, as follows:
CERTIFICO e dou fé, para os devidos fins, que nesta data me foi
apresentado um documento em idioma inglês, com as seguintes
características: CONHECIMENTO DE EMBARQUE, o qual traduzo para
o vernáculo, no seguinte teor: – TRADUTOR C
Na TJ, além dos elementos performativos e das inserções entre colchetes,
marcadores icônicos (selos e o brasão da República), estão presentes: o número de
matrícula da Junta Comercial; o número da tradução; o número da folha; o endereço do
tradutor; termo de abertura/encerramento; a identificação do documento; o número de
laudas, o valor dos emolumentos e o número do recibo. Segundo Aubert (1998, p. 17), a
disposição desses elementos está de acordo com a escrita utilizada dos cartórios, tanto
que, num passado recente, antes da utilização do computador, era comum a utilização de
** e // para preencher os espaços em brancos, a fim de evitar alterações posteriores. A
título de ilustração, encontra-se reproduzido o modelo-padrão brasileiro de um CCV
submetido à TJ (vide Anexo A).
Desse modo, verifica-se a existência de elementos textuais tipicamente
pertencentes ao texto submetido ao procedimento de TJ. Para Mayoral (1999, p. 67),
trata-se de informações que pressupõem determinados tipos de funções. O autor
menciona a função principal, a função secundária e os elementos que as transmitem. No
caso da TJ, podemos identificar a função performativa “Certifico e Dou Fé” como sendo
a principal dos “atos de fala subordinados” (MAYORAL, id.), e as informações sobre o
número do documento, emolumentos, laudas e número do recibo, por exemplo, como
informações secundárias.
Nesse mesmo sentido, segundo a Teoria dos Atos de Fala, de Austin (1962), ao
dizer algo, estamos transmitindo informações e agindo sobre o interlocutor e seu
mundo. Podemos empregar enunciados constativos (no caso da TJ, por exemplo: “Nada
mais constava do documento acima [...]”) e performativos (Dou Fé). Os constativos são,
em sua grande maioria, descrições, afirmações e relatos. O foco do trabalho de Austin
foram os enunciados performativos, proferidos na primeira pessoa do presente do
primeiro momento, critérios gramaticais para o estabelecimento de sua teoria. A partir
de determinadas evidências, o autor passa a admitir a distinção entre atos performativos
explícitos (eu te benzo) e atos performativos implícitos (Proibido Fumar = eu proíbo
vocês de fumarem) que são os atos nos quais as primeiras características gramaticais
apontadas pelo autor não estão presentes.
Há também as “condições de felicidade” para que os atos performativos sejam
tidos como válidos. Podemos mencionar pelo menos dois no caso da TJ: autoridade do
falante (tradutor juramentado) e circunstâncias apropriadas (no ato tradutório, por
exemplo).
Posteriormente, Searle (1979) retoma e sistematiza essas definições e passa a
distinguir cinco categorias de atos de fala:
a) representativos: mostra a crença do interlocutor (afirmar, crer, dizer,
asseverar, entre outros);
b) diretivos: o alocutário é levado a fazer algo (ordenar, mandar, fazer);
c) comissivos: o locutor se compromete com uma ação futura (afirmar, garantir,
prometer, assegurar);
d) expressivos: expressam sentimentos (agradecer, dar boas vindas);
e) declarativos: produz situação externa nova (certificar, dar fé, demitir,
condenar, por exemplo).
Alinhavado ao pensamento de Austin e também de Searle sobre as “condições
de felicidade”, Mayoral propõe as “condições de adequação” para a tradução oficial,
entendendo que, na TJ, o tradutor não poderia traduzir o texto sem fornecer o maior
número de informações por conta da convencionalidade ou do estatuto de TJ. Entre as
condições de adequação, o autor menciona as que poderiam produzir a refutação de uma
incompreensibilidade dessa informação; c) falta de integridade; d) forma de traduzir; e)
o não cumprimento das normas legais ao se traduzir; f) ambiguidades; g) falsificação do
original; h) a presença de informações inverossímeis. Verificam-se condições de
eficácia que afetariam a idoneidade da TJ quando não empregadas, a saber: a) uso de
colchetes para separar informações inseridas pelo tradutor das informações presentes no
texto; b) utilizar colchetes para os gráficos, desenhos, assinaturas; c) mencionar partes
dos textos que estejam borradas, ilegíveis, incompletas; d) relacionar elementos do
original que possam indicar tentativa de falsificação; e) oferecer a solução de tradução
mais econômica.
Nota-se, desse modo, que existem procedimentos, expectativas e margens de
aceitação por parte de quem solicita a tradução no modo juramentado. Também os
documentos produzidos pelos tradutores juramentados A, B e C mostram um emprego
desse modelo formal, com mudanças mínimas.
Cabe uma ressalva com relação à Teoria dos Atos de Fala e às condições de
adequação, uma vez que o fenômeno linguístico pressupõe polissemia e multiplicidade
de efeitos pragmáticos. A teoria não explica uma série de enunciados, não havendo, de
certa forma, correlação acertada entre as estruturas morfossintáticas ou entre verbos
performativos e força ilocucionária. Entretanto, o contexto e as condições sócio-
-culturais acabam por criar as condições necessárias para, por exemplo, explicarmos os
efeitos expressivos de frases como “Certifico e Dou Fé”.
No documento
A tradução juramentada de contratos de compra e venda e de títulos executivos na direção inglês português:
(páginas 87-91)