Esta seção apresenta características e resultados de pesquisas recentes sobre avaliação de TD&E compilados em artigos de autoria de alguns dos principais estudiosos do assunto e publicados no país e no exterior nos últimos anos. As subdivisões desta seção são: (1) principais metodologias utilizadas; (2) resultados de pesquisas sobre aspectos individuais, instrucionais e contextuais; e (3) visão de futuro dos autores das pesquisas revisadas.
2.3.1. Principais metodologias utilizadas
Em artigo sobre lições aprendidas com a pesquisa na área de treinamento na última década do século XX, Haccoun e Saks (1998) identificam alguns aspectos das metodologias mais comumente empregadas nos estudos que analisaram, dentre os quais se destacam:
– como se percebeu que é quase sempre impossível realizar pesquisas sobre avaliação de treinamento com grupos de controle e experimentais em contextos aplicados, os autores concluíram que seria ideal, no máximo, conduzir avaliações com grupos simples antes e depois do treinamento, sem grupo de controle;
– os autores citam Haccoun e Hamtiaux (1994), que utilizaram com sucesso uma estratégia de pesquisa de referência interna, em que se realizou uma comparação do comportamento e do desempenho antes e depois de trabalhadores submetidos a treinamento e trabalhadores da mesma área não submetidos a treinamento;
– o método de coleta de dados objetivos de comportamento apareceu muito pouco e o auto-relato, o mais utilizado nas pesquisas analisadas, tenderia a permanecer em uso em estudos futuros – o que tem sido amplamente confirmado até os dias atuais tanto nas pesquisas nacionais quanto nas estrangeiras (Abbad, Pilati e Pantoja, 2003). Sobre características metodológicas da pesquisa, os dados apresentados por Abbad, Pilati e Pantoja (2003), além de mais recentes (revisão de trabalhos publicados entre 1998 a 2001), são mais detalhados. Os autores descrevem que as pesquisas nacionais vêm utilizando,
em suas amostras, profissionais de níveis superior e médio que atuam em organizações públicas, privadas e de diferentes setores, como de telecomunicações, pesquisa, saúde, energia elétrica, além do setor financeiro, dentre outros. A pesquisa estrangeira tem estendido suas amostras a estudantes universitários e foram observadas pesquisas conduzidas também em organizações das forças armadas e universidades. Quanto ao tipo de coleta de dados, os autores observam, como já mencionado, a confirmação da tendência descrita por Haccoun e Saks (1998), de utilização com maior freqüência, na pesquisa internacional, do auto-relato. No Brasil, além de se confirmar o mesmo direcionamento, também foi identificado o uso de observação direta, análise documental e entrevistas.
Em relação às fontes de informação, Abbad, Pilati e Pantoja (2003) percebem que, no país, a ênfase foi direcionada para auto-avaliação e heteroavaliação (pares e supervisores), além do uso de bases secundárias de dados. No exterior, a pesquisa utilizou basicamente auto e heteroavaliação. Os autores também oferecem estatísticas sobre tipos de medidas, tempo transcorrido do evento instrucional até a coleta e análise de dados:
– tipos de medidas: no âmbito nacional, foram observados estudos de medidas de impacto em amplitude, que mede os efeitos gerais do treinamento sobre o desempenho de tarefas relacionadas ou não ao conteúdo programático do curso, e de impacto em profundidade, que avalia “o efeito do evento instrucional em tarefas estritamente relacionadas aos conteúdos específicos ensinados no curso” (p.207), enquanto que, na literatura estrangeira, observou-se maior interesse pelas medidas de impacto em profundidade;
– tempo transcorrido: duas semanas no mínimo e quatro anos no máximo, na literatura nacional, e mínimo de quatro semanas e máximo de dois anos e meio, na estrangeira; – análise dos dados: regressão múltipla stepwise e correlação canônica, nos trabalhos nacionais, e equação estrutural, regressão hierárquica, ANCOVA, MANCOVA e MANOVA, nos estrangeiros.
2.3.2. Resultados de pesquisas sobre aspectos individuais, instrucionais e contextuais
A respeito dos aspectos individuais que influenciam a efetividade dos resultados de TD&E, Haccoun e Saks (1998) oferecem algumas conclusões a respeito da literatura revisada. Segundo os autores, um dos maiores avanços da última década do século XX foi o reconhecimento de que o treinamento nas organizações não podia ser mais considerado como
um mero paradigma de aprendizado, e o comportamento e o estado psicológico do treinando passaram a ser tratados como um conjunto de variáveis relevantes na predição da transferência e do impacto do treinamento no trabalho. Uma das variáveis que os autores identificaram como sendo preditora estável de comportamento e desempenho pós- treinamento, e que deveria ser mais explorada, foi a auto-eficácia.
Abbad, Pilati e Pantoja (2003) confirmam a tendência descrita anteriormente por Haccoun e Saks (1998), identificando maior atenção dada à pesquisa sobre características do indivíduo, com destaque para: idade, auto-eficácia, comprometimento e motivação para aprender, no âmbito nacional, e, no estrangeiro, locus de controle, nível de agressividade, adaptabilidade e estratégias de aprendizagem, além de motivação para aprender, idade e auto- eficácia.
Em relação aos aspectos instrucionais, Abbad, Pilati e Pantoja (2003) apresentam os seguintes resultados: no âmbito nacional, observou-se preocupação dos pesquisadores com similaridade entre situação de treinamento e realidade de trabalho, clareza e precisão dos objetivos e uso de exercícios práticos, enquanto que, na literatura estrangeira, foram estudados principalmente aspectos relacionados a estabelecimento de objetivos combinados com feedback, procedimentos multimídia, abordagem humanista e estratégia instrucional múltipla (aquisição de conhecimentos e aplicação da habilidade). Sobre os aspectos instrucionais, Salas e Cannon-Bowers (2001) descrevem que os pesquisadores devem começar a prestar mais atenção na forte influência que a tecnologia vem exercendo nos sistemas de treinamento. Para esses autores, a pesquisa deve direcionar esforços para identificar: (1) melhores estratégias de uso de internet; (2) mudanças na atuação do instrutor e do treinando nesse novo cenário; e (3) como a efetividade desses métodos modernos de treinamento pode ser avaliada.
Abbad, Pilati e Pantoja (2003) avaliam resultados da pesquisa nos últimos anos a respeito dos aspectos contextuais que influenciam a efetividade dos resultados de TD&E, descrevendo que os pesquisadores brasileiros têm se preocupado em estudar: (1) suporte dos superiores hierárquicos à transferência; (2) valorização do treinando demonstrada através da implementação da gestão do desempenho; (3) contexto de suporte pré-treinamento (expectativas de suporte); e (4) contexto funcional. Na literatura estrangeira, observou-se maior interesse por suporte à transferência – em textos estrangeiros, tem-se optado pela denominação clima para transferência – como principal preditor de transferência para o posto de trabalho, dos conhecimentos e habilidades adquiridos em treinamento.
2.3.3. Visão de futuro dos autores das pesquisas revisadas
Segundo Haccoun e Saks (1998), apesar das dúvidas que remanesciam, já se sabia muito mais do que anteriormente a respeito dos caminhos a percorrer na busca pelo sucesso de programas de treinamento. Os autores identificam que a qualidade e a quantidade de pesquisas sobre treinamento vêm crescendo em ritmo acelerado e a previsão era de que essa tendência permaneceria nos próximos anos, o que foi confirmado posteriormente de forma otimista por Salas e Cannon-Bowers (2001) e Abbad, Pilati e Pantoja (2003).
Por outro lado, Salas e Cannon-Bowers (2001) demonstram preocupação com a necessidade de buscar maior precisão e clareza de construtos e maior rigor na construção de métodos de pesquisa sobre treinamento. Segundo eles, os avanços observados na definição de conceitos organizacionais e cognitivos estão provocando mudanças nos estudos sobre o tema e prometem alterações profundas na concepção, design, implementação e institucionalização da aprendizagem nas organizações.
Abbad, Pilati e Pantoja (2003) concordam com essa visão, destacando que, embora já demonstre robustez em questões empíricas, a base de conhecimentos permanece fragmentada e dispersa devido, em parte, a problemas conceituais e metodológicos. Quanto aos problemas conceituais, os autores ressaltam confusões em definições de motivação e traços de personalidade, bem como falta de clareza na descrição dos elos existentes entre auto-eficácia, auto-estima, locus de controle e autoconceito, o que provoca redução do grau de explicação dos modelos de avaliação. Em relação a problemas metodológicos, emergem quatro questões: (1) falta de estudos sobre a validade convergente das medidas; (2) utilização de delineamentos pouco comparáveis entre diferentes estudos; (3) pouca diversificação de estratégias de coletas de dados; e (4) falta de consenso entre os pesquisadores sobre técnicas de análise de dados. Para os autores, qualquer pesquisa conduzida com o objetivo de enfrentar esses problemas será bem-vinda no meio científico.
Na conclusão de seu relato de pesquisa, Salas e Cannon-Bowers (2001) alertam para a importância de as organizações evitarem os modismos empresariais e aplicarem no seu cotidiano as descobertas da pesquisa sobre treinamento.
Por sua vez, Abbad, Pilati e Pantoja (2003) relatam que uma das mais importantes conclusões a que chegaram se refere ao papel central dos aspectos contextuais na explicação do impacto do treinamento no trabalho. Para os autores:
à luz dessa conclusão, urge revisar as tecnologias de levantamento das necessidades de treinamento, as quais deverão incorporar a análise da aplicabilidade do treinamento em termos do empenho da organização em acolher, estimular, incentivar e viabilizar a aplicação, no trabalho, de novas aprendizagens (p.215).
Na próxima seção deste referencial teórico, a revisão de literatura é direcionada para a discussão sobre as definições de avaliação, eficiência, eficácia e efetividade no contexto de TD&E nas organizações.