Descrito o complexo processo de aprovação nas instâncias internas na UFG e apresentados alguns dos atores que participaram ativamente nessa construção, analisar- se-á agora os principais caracteres da proposta aprovada que, em grande parte, conferem a dimensão conflituosa e incômoda que lhe é inerente.
Neste ponto, o principal documento de referência é o próprio Projeto de criação da Turma, que delimita a justificativa e os objetivos, público-alvo e perfil de profissional almejado, além da proposta pedagógica.
Para o leitor, uma questão importante deve ficar como advertência: apresentar as características da proposta aprovada não significa apresentar suas características “definitivas”. Isso porque, independentemente da proposta inicial, o desenvolvimento das atividades e a dinâmica que se estabelece, permitem modificações (necessárias ou ocultas), em maior ou menor grau.
Desta forma, as características aqui apresentadas levam em consideração o que foi construído no início do Projeto, buscando demonstrar a perenidade dos elementos “essenciais” da proposta, de forma sintetizada. Inevitavelmente, foram justamente esses elementos que deram margem às principais críticas e defesas da iniciativa.
2.4.1 Justificativa e objetivos (geral e específicos)
Na Justificativa do Projeto, os argumentos giram em torno do processo de exclusão social vigente na realidade agrária brasileira. A questão da concentração fundiária e da necessidade de efetivação da Reforma Agrária são os elementos principais. O cenário é retratado nos dados do projeto (BRASIL, 2006, p. 4):
As estatísticas apontam que 1,7% dos proprietários de imóveis com mais de mil hectares detêm 43,7% de toda terra agricultável no País; de outro lado, existem mais de quatro milhões de famílias de trabalhadores reivindicando terra para produzir.
Na proposta, visualiza-se uma desigualdade estrutural derivada do próprio desenvolvimento desigual das condições no campo. Nesse sentido, os conflitos pela posse e propriedade da terra se intensificam e repercutem não só no meio rural, mas nos processos de marginalização nos centros urbanos.
[...] instrumento indispensável na conquista da cidadania, a Educação, objeto de intensos debates, na década de 90, tentou compreender a nova configuração das relações entre a escola e o trabalho e entre educação geral e formação profissional (BRASIL, 2006, p. 04).
Defende que a educação, portanto, deve servir de instrumento problematizador, sendo também necessária para o preparo técnico-profissional em diversas áreas e para promover o desenvolvimento rural sustentável.
Nesse sentido, o trecho abaixo do projeto, embora longo, parece ser importante para sintetizar a justificativa:
Diretamente ligado às questões dos conflitos agrários, da desapropriação de terras, das garantias constitucionais gerais e da disseminação de uma cultura pacífica – que respeite o Estado de Direito e suas Instituições jurídicas, está a grande dificuldade de acesso aos cursos de Direto pelos trabalhadores. Quando se trata de ingresso em uma Instituição de Ensino Superior pública e gratuita, em especial, nas Universidades Federais, torna-se tarefa quase que inatingível; exclusiva à pequena elite que, além de começar o curso consegue finalizá-lo. Conclui-se, então, que os operadores do Direito que desta realidade surgirão têm pouca ou nenhuma percepção (pouca teoria e provavelmente nenhuma prática) e sensibilidade acerca das condições de marginalização – na melhor acepção da palavra –, o que repercute em atuações na área pública em suas mais diversas esferas (agentes e delegados de polícia, representantes do Ministério Público e membros do Judiciário), levando a um fenômeno de criminalização dos trabalhadores rurais e dos Movimentos Sociais. [...] não se admite mais fazer tábula rasa à necessidade de se graduarem, no Curso de Direito, trabalhadores e trabalhadoras rurais a fim de que possam ter o preparo técnico necessário e indispensável para assessorar juridicamente os trabalhadores rurais excluídos ou em processos de inclusão parcial (BRASIL, 2006, p. 5).
Desta forma, do ponto de vista jurídico-constitucional, a justificativa aponta três eixos diferentes e interligados: a questão da reforma agrária e a função social da propriedade16, a questão da educação como direito fundamental17 e a questão das ações
afirmativas para concretização do princípio da igualdade18.
16 Presentes no art. 5º, XXIII e nos arts. 184 e 185 da Constituição Federal de 1988. 17 Segundo os arts. 6º e 205 da Constituição Federal de 1988.
18 A despeito da discussão sobre ações afirmativas ser bastante importante e significativa na proposta, ela não é o objeto principal deste trabalho, dada a necessidade de delimitação do mesmo. No entanto, quando necessário, essas discussões aparecerão.
No que tange ao objetivo geral, o projeto apresenta a diplomação de 60 trabalhadores rurais com o título de bacharel em direito. Aduz que essa iniciativa possibilita trazer debates para os cursos jurídicos, até o presente momento inexistentes (ou insuficientes), garantindo a expressão desta categoria social no espaço jurídico, fato com repercussões ainda desconhecidas, mas com potencialidades (BRASIL, 2006, p. 7):
Objetivo Geral
Formar uma Turma Especial do Curso de Direito, a ser oferecido
na Cidade de Goiás, a fim de diplomar 60 (sessenta) trabalhadores e
trabalhadoras rurais, com origem nos assentamentos da Reforma Agrária, para que adquiram o preparo técnico necessário à sua atuação profissional.
Objetivos Específicos
a) Garantir o acesso à Educação Superior aos que pelo modo de vida peculiar e em razão das condições típicas do meio rural têm dificuldade de se inserir nos cursos de Graduação, mormente os públicos e gratuitos, assim, democratizar o acesso à informação, à
cultura acadêmica e ao saber jurídico especializado, permitindo a
compreensão dos processos socioculturais em curso e as especificidades de condições dos estudantes e de seu universo circundante neste processo;
b) Formar Advogados e assessores jurídicos com consciência crítica e conhecimento técnico que seja aplicável à realidade dos trabalhadores assentados, como multiplicadores do saber adquirido, buscando a garantia dos seus direitos fundamentais, solucionando pacificamente os conflitos típicos do mundo rural, e também na constituição e no desenvolvimento de suas instâncias produtivas; c) Contribuir para a pluralização do debate no meio acadêmico e
para uma abertura progressiva do campo jurídico com a utilização de
raciocínio jurídico, de argumentação, de persuasão e de reflexão críticas, que permitam pensar as instituições e seus atos de maneira articulada com uma realidade diversificada e singular;
d) Proporcionar a inclusão das trabalhadoras e trabalhadores no
meio jurídico, facilitando a expressão desta categoria social, através
de sua produção científica, exegética e até na sua representatividade pública advinda de uma formação jurídica (delegados, defensores públicos, representantes do Ministério Público Estadual e Federal, Magistratura em ambas as esferas e, também, docentes em Universidades, certamente com uma visão mais enriquecida).(grifos nossos)
2.4.2 Público-alvo e Perfil de profissional
O público-alvo da Turma são trabalhadores/as rurais, vinculados a assentamentos de Reforma Agrária ou beneficiários da Política Nacional de Agricultura
Familiar, desde que comprovem essa situação. Como já visto, no projeto inicial apresentado não havia previsão de vagas para os beneficiários da Agricultura Familiar da Lei 11.326/2006, adicionados por sugestão do Conselho Universitário.
O art. 3º desta Lei define quem são considerados agricultores familiares e empreendedores familiares rurais:
Art. 3o Para os efeitos desta Lei, considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:
I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais;
II - utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III - tenha renda familiar predominantemente originada de atividades
econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou
empreendimento;
IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.
O segundo parágrafo do mesmo artigo inclui também silvicultores, aqüicultores, extrativistas e pescadores, desde que obedeçam às regras citadas acima.
Quanto ao perfil do profissional, o projeto não difere, em regra, das proposições comuns em outros projetos político-pedagógicos, com algumas nuances. Deseja-se um profissional de perfil amplo, crítico e tecnicamente qualificado. A formação divide-se em: fundamental, sócio-política, técnico-jurídica, prática, e ética e socialmente responsável (BRASIL, 2006, p. 6):
a) Formação fundamental: o curso perseguirá as raízes sociológicas, políticas e filosóficas que são indispensáveis à formação geral e humanista do futuro bacharel. Com essa formação fundamental, pretende-se propiciar um alicerçado conhecimento dos princípios e das instituições jurídicas básicas, bem como estabelecer um liame entre eles e as demandas políticas, econômicas, sociais e culturais da sociedade, tais como o alargamento dos mecanismos de participação popular, com a legitimação do poder e a democratização das estruturas sócio-econômicas.
b) Formação sócio-política: o curso criará as condições para o desenvolvimento de uma formação humanística e interdisciplinar, de sorte a alargar a compreensão do Direito, passando a vê-lo não apenas como instrumento de conservação e legitimação do poder e da realidade social, mas também como objeto de transformação da realidade sócio-econômica e de emancipação do homem. O futuro bacharel deverá ser capaz de intervir numa realidade em constantes mudanças, questionando-a e sugerindo soluções para problemas dela exsurgidos.
Já na dimensão técnica e prática, repete-se a necessidade de fugir dos dogmatismos, tornando os/as educandos/as aptos a aplicar com competência o direito positivo estatal, “balizado uma dimensão ética e justa da norma”: “Ao revés de pensar
com o código, deverá ser capaz de pensar o código e compreender juridicamente os
fatos sociais” (BRASIL, 2006, p. 6) (grifos do original).
Também se objetiva uma dimensão ética da formação, para buscar um comprometimento na discussão de valores para uma atuação socialmente responsável. “Pretende-se que o profissional formado esteja comprometido com a causa democrática e com a defesa dos direitos humanos” (BRASIL, 2006, p. 6). Pretende-se, portanto, apontar não um “perfil do profissional”, abstrato, mas sim um profissional de perfil – no caso, um jurista agrário, adaptado aos interesses da Turma.
2.4.3 Proposta pedagógica
Para o desenvolvimento de projetos pelo PRONERA, são estipulados alguns princípios de ordem político-pedagógica, formulados com a intenção de buscar a adaptação do processo de apreensão do conhecimento à realidade dos/as estudantes do campo (BRASIL, 2004, p. 18). Neste sentido, a proposta metodológica da Turma apresentou algumas características peculiares. Segundo o projeto, a metodologia se divide em duas partes: uma parte intensiva presencial e outra parte não-presencial, sob a forma de trabalho na própria comunidade.
Esta divisão de momentos parte da chamada Pedagogia da Alternância, proposta pedagógica já utilizada em várias iniciativas de Educação no Campo (FREITAS; SOUSA, 2008). A Pedagogia da Alternância caracteriza-se pela inclusão, como elemento formativo, de trabalhos ou atividades na própria comunidade de origem dos estudantes, buscando aproveitar academicamente a necessidade desses estudantes, de continuarem vinculados ao campo.
A parte intensiva presencial foi proposta com a inclusão dos chamados “momentos pedagógicos”, divididos em três fases (BRASIL, 2006, p. 11):
a) Estudo da Realidade (ER), que é o momento de compreender o universo significativo em que está inserido o estudante; b) Organização do Conhecimento (OC), em que predomina a manifestação do professor, que organiza as informações e habilidades
necessárias à aquisição do conhecimento; c) Aplicação do Conhecimento (AC), que é o momento da síntese, quando as duas visões de mundo se articulam para promover a ampliação do conhecimento.
A parte intensiva se fará durante 77 dias (em média) contínuos de atividades, em período diurno – matutino e vespertino, tendo cada disciplina uma variação de 32 a 64 horas/aula e terá como procedimento didático fundamental a perspectiva dialógica. A partir de uma situação inicial problematizada se desenvolverão os conteúdos, que serão concluídos com uma síntese, que deverá encaminhar para um trabalho e este, para o trabalho não presencial.
A proposta é que o trabalho não-presencial desenvolvido seja aproveitado como mecanismo de avaliação. A partir do quinto período, as atividades não-presenciais seriam desenvolvidas através de Estágio Supervisionado, desenvolvido nas comunidades de origem junto a um escritório de advocacia, advogado previamente indicado ou órgão público. Estes deveriam atuar na área de interesse dos/as estudantes, ou seja, majoritariamente com questões da realidade agrária, assessorando os trabalhadores/as rurais e Movimentos Sociais do Campo.
Tendo em vista todo este percurso e especificidade, a “Turma Evandro Lins e Silva” foi alvo de diversos questionamentos que ajudam a compreender melhor a própria definição dos temas geradores deste trabalho. Destarte, tenta-se apresentar a seguir o panorama dos conflitos surgidos tanto na criação quanto no decorrer da experiência.