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Características Mecânicas e Experimentais do Osso

No documento EMÍLIO GRACILIANO FERREIRA MERCURI (páginas 33-40)

O tecido ósseo é um material altamente complexo, pois é um tecido vivo que se regenera, tem porosidade, não é homogêneo, é anisotrópico e tem comportamento não linear.

Algumas simplificações devem ser aplicadas para poder simular o comportamento deste tecido de uma maneira aproximada. O osso será considerado como homogêneo, a composição será considerada constante e será considerado como um material contínuo para se poder utilizar o ferramental matemático da Mecânica do Contínuo.

As propriedades elásticas do osso como um material isotrópico linear podem ser descritas por apenas dois parâmetro: o módulo de elasticidade ou de Young E e o coeficiente de Poisson . A relação entre a rigidez do material e a densidade aparente , Equação (2.9), é descrita por Martin et al., 1998 apud Rüberg, 2003.

32

l

ke

E

E ()  (2.9)

Os parâmetros kee l são constantes ajustáveis a dados experimentais.

O modelo de Stanford apresenta uma relação parecida (Doblaré e García, 2002) como mostram a Equação (2.10) para o módulo de elasticidade e a Equação (2.11) para o consideração o grau de mineralização. A rigidez do material depende da fração de volume do osso VB/VT e do grau de mineralização gm, como mostra a Equação (2.12). Uma aproximação para a tensão última do osso é dada na equação (2.13):

74 compressão é próxima à do aço sendo que o peso específico é um quarto em relação ao peso específico do metal. Em outras palavras, o tecido ósseo é muito mais leve e flexível que o aço, porém tem a tensão última da mesma magnitude.

Testes mecânicos uniaxiais de compressão e de tração foram realizados em vértebras humanas (Kopperdahl e Keaveny, 1998), com aplicação de carga do tipo servo-hydraulic, ou seja, dinamicamente em ciclos. As densidades aparentes iniciais dos dois corpos de prova ensaiados são distintas, como mostra a Figura 10

.

33

Figura 10 – Diagrama tensão x deformação para duas vértebras humanas com diferentes densidades aparentes iniciais (𝝆), (Kopperdahl e Keaveny, 1998).

A espécie óssea com menor densidade aparente submetida à tração apresentou menor módulo de elasticidade e deformação última menor. Os dois diagramas de tensão versus deformação apresentaram comportamento não linear para deformações menores que 1.0 %.

Enquanto que a deformação última apresentada pela vértebra de menor densidade foi menor que 2.0 %. O “X” no gráfico indica o ponto onde ocorreu o rompimento do material, que aconteceu apenas para o corpo de prova da espécie da vértebra tracionada. Os corpos de prova possuiam formato cilíndrico com 8 mm de diâmetro e 25 mm de altura como mostra ilustração da Figura 11

.

Figura 11 – Ilustração de um corpo de prova ósseo cilíndrico.

34 2.6. Dano no Osso

O dano na matriz óssea tem um importante papel no início do remodelamento ósseo. O tecido ósseo é um material mais frágil do que dúctil e os efeitos plásticos e viscoelásticos são geralmente desconsiderados nas análises. Como mostrado por Jepsen et al., 2001, o espectro completo de acumulação de microfissuras, escoamento plástico e viscoso (creep) existem, porém neste trabalho será considerado apenas o primeiro destes fenômenos inelásticos. Isto é necessário para diminuir o grau de complexidade do problema.

A maneira mais fácil de descrever o processo de danificação é introduzindo uma variável de estado que representa o estado do dano em cada ponto material. Esta variável é então associada com a perda de rigidez seguindo os princípios da mecânica do dano. A relação entre essa variável global (o escalar d no caso isotrópico ou o tensor D no caso anisotrópico) e os efeitos microscópicos é altamente complexa, no entanto, a variável do dano fornece uma “medida” das microfissuras. Uma fissura influencia localmente no comportamento mecânico do tecido ósseo. No local onde ela ocorreu surgem concentrações de tensões e a possível abertura da fratura pode se propagar em uma direção e comprometer a integridade da estrutura, além de afetar as propriedades materiais globais do osso.

Alguns resultados retirados de Jepsen et al., 2001, mostram que a densidade de fratura varia entre 0 e 760 fissuras/cm2 e o comprimento da fissura entre 2 e 88 micrometros. Estes resultados foram retirados de seções do osso humano e variam muito com a idade, gênero ou grupo étnico.

É comum a definição de dano como a perda de rigidez com respeito à tensão uniaxial, como mostra a Equação (2.14).

0

1 E

d   E (2.14)

sendo E0 o módulo de Young inicial do material sem dano. Esta expressão é consistente para o estado sem danificação, quando EE0, e para o estado de falha, quando o dano tende à unidaded1 e o módulo de elasticidade tende a zero E0.

A questão é saber como esta variável evolui. E se suas derivadas em relação ao tempo d ou em respeito ao número de ciclos d /N são significantes.

35 O tempo para a falha será denotado por tf e o correspondente número de ciclos de carga de Nf . Mantendo a deformação ou a tensão constante, a variável de dano pode ser expressa através do tempo normalizado t/tf ou pelo número de ciclos normalizado N /Nf.

A Figura 12 mostra um gráfico qualitativo da evolução do dano para compressão e tração, dependendo do número de ciclos de carga. A maior diferença é encontrada na fase inicial, onde o dano na tração tem um crescimento mais acelerado. Em seguida, tem-se um período com pouco crescimento do dano até que sua taxa aumente rapidamente.

Figura 12 - Evolução qualitativa do dano para compressão (linha contínua) e tração (linha pontilhada) até o momento de fadiga em função do número de ciclos de carga normalizado N /Nf para um nível constante de

deformação aplicado.

Funções para a este tipo de representação da evolução do dano com o tempo podem ser derivadas facilmente, tais como:

)]

~ N C C [ln(

dc 2 1

1

1 1 

 (2.15)

para compressão e:

5 1 ln( 3 ~ 2 )

1 4

3

C C

t e C N

d   C   (2.16)

para tração. As relações (2.15) e (2.16) coincidem qualitativamente com os formatos das curvas experimentais, onde a medida de deformação ~ é utilizada. As constantes C1, C2, C3,

36 C4, C5, 𝛿1 e 𝛿2 são ajustáveis a partir de dados experimentais. Versões destas leis baseadas nos níveis de tensão existem, mas os experimentos são usualmente controlados pela deformação, pois é mais fácil de ser observado.

Regressões lineares e de potência relacionando propriedades mecânicas com a densidade aparente (g/cm3) para o osso trabecular vertebral humano foram publicadas por Kopperdahl e Keaveny em 1998. O número de corpos de prova ensaiados foi igual a 22 para compressão e 22 para tração, na Tabela 1 as informações são especificadas.

Tabela 1 - Regressões lineares e de potência relacionando propriedades mecânicas com a densidade aparente para o osso trabecular vertebral humano.

_ Indica que o intercepto da regressão linear teve significância baixa;

NS Indica que a regressão não foi significante;

a As regressões para o módulo de elasticidade utilizaram n=44 corpos de prova.

Fonte: (Kopperdahl e Keaveny, 1998)

O módulo de elasticidade, a tensão última e a tensão para o início do dano demonstraram correlação positiva com a densidade aparente, como pode se observar pelo coeficiente r2. As regressões relacionando o módulo de young e a densidade aparente foram geradas independentemente do estado de tensões ensaiado (tração ou compressão) como pode se observar no caso da regressão linear ilustrada na Figura 13

.

A Figura 14 ilustra a regressão linear e de potência relacionando a tensão de início do dano com a densidade aparente (Kopperdahl e Keaveny,1998).

Quando a flambagem domina a compressão axial na trabécula, uma lei de regressão de potência ajusta a curva que relaciona a tensão compressiva de início do dano e a densidade aparente com um expoente 1.6, como ilustrado pelo coeficiente b na compressão da Tabela 1.

Na tração, onde não ocorre flambagem, a relação entre a tração axial de início do dano e a densidade aparente é linear (Figura 14).

E = a + b E = ab

Compressão Tração Compressão Tração

a b r2 a b r2 a b r2 a b r2

Deformação dano (%) 0.66 1.09 0.49 NS 1.24 0.21 0.48 NS

Deformaçãoúltima(%) NS NS NS NS

Tensão de dano (MPa) -1.40 19.6 0.73 _ 10.1 0.51 32.6 1.60 0.70 10.0 1.04 0.51 Tensão última (MPa) -1.46 21.9 0.71 _ 13.2 0.47 33.2 1.53 0.68 13.3 1.07 0.47

Módulo (MPa)a _ 2100 0.61 2350 1.20 0.60

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Figura 13 – Módulo de Elasticidade na compressão e na tração em função da densidade aparente e a regressão linear correspondente (Kopperdahl e Keaveny, 1998).

Figura 14 – As tensões de começo do dano na compressão e na tração apresentaram forte correlação com a densidade aparente (Kopperdahl e Keaveny, 1998).

Segundo Kopperdahl e Keaveny (1998), a equação que relaciona linearmente a densidade aparente (g/cm3) com o módulo de elasticidade (MPa) é definida como:

2100

E (2.17)

ou ainda, em termos de potência:

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No documento EMÍLIO GRACILIANO FERREIRA MERCURI (páginas 33-40)

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