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2. Capítulo 2 – Folhetos de cordel: da poesia oral ao registro impresso

2.2 Características midiáticas: as possibilidades do folheto

O estudo das mídias passa por uma série de categorias. Podemos investigar seus usos, atribuições, funções sociais etc., de diversos modos e a partir de diversas óticas. Os recortes para o estudo das mídias passam pela emissão, suporte, conteúdo, discurso, mediação, recepção, enfim. Trata-se de uma área ampla de conhecimento e com muitas possibilidades de investigação. Neste trabalho estudamos o cordel dentro da ótica da comunicação, compreendendo o folheto como suporte midiático, dentre suas diversas formas de apresentação.

Neste momento, nos debruçamos sobre a questão do suporte técnico desta mídia que é o folheto. Questões referentes à recepção não fazem parte do nosso recorte. E o conteúdo midiático dos cordéis será abordado mais adiante. Consideramos a importância de estudar o suporte a partir de Mouillaud (2002). Para estudarmos o discurso de uma mídia, devemos estar atentos ao suporte que o abriga. O sentido é predisposto pelo dispositivo que o carrega, pois “o dispositivo prepara para o sentido” (MOULLIAUD, 2002, p.30). Por isso, é importante refletirmos sobre o suporte impresso dos folhetos e sua origem na oralidade. Esse contexto de impressão da fala é fundamental para a conceituação da literatura de cordel e para a análise de seu conteúdo.

O dispositivo que dá suporte ao cordel é o folheto. Dispositivo que define esta literatura, pois fora dos folhetos, trata-se de poesia oral. De acordo com Mouillaud (2002), o dispositivo prepara a leitura. No formato de folheto, a poesia se movimenta com maior facilidade e é capaz de propagar ainda mais um causo. “Imagem, texto e som presentes no universo do cordel integram sua identidade” (ABREU, 1999, p. 23). Possui uma leveza tanto física, quanto de preço. Leveza que o permite atingir longas distâncias, mesmo que não tenha grande durabilidade de tempo. “Leves no tamanho, no peso, no preço, são feitos para estar no ar, para circular” (BRASIL, 2005, p. 38).

A essência dos cordéis está na impressão da oralidade, o que nos apresenta uma mudança de mídias. O alcance do cordel, sua repercussão, seus usos estão ligados à sua

forma. O folheto é leve, fácil de ser transportado. Uma produção de baixo custo e baixo valor de mercado (atualmente, em média, cerca de R$ 2). O suporte oferece ao conteúdo mobilidade e permanência. No caso dos folhetos, o suporte muda, inclusive, o sentido utilizado pelos ouvintes que passam a ser leitores e vão da audição à visão. O poeta passa a usar a voz apenas para divulgação, mas a obra agora está no papel.

Além dos folhetos, outros dispositivos dão suporte à poesia, como o meio digital, onde muitos poetas publicam seus versos como meio de divulgação, e principalmente a voz dos cantadores acompanhados pela viola. A voz é a matriz da literatura de cordel, mas só depois de impressa é que a poesia popular adquire permanência e durabilidade, escapando das alterações causadas pela transmissão oral e/ou por falhas nos recursos mnemônicos.

“O dispositivo não é um suporte, mas uma matriz que impõe suas formas aos textos” (MOUILLAUD, 2002, p.35). Falamos sobre a forma dos folhetos no tópico anterior e, neste momento, dedicamos atenção ao suporte, seus usos e características, atentando para as possibilidades que ele oferece ao conteúdo poético, a partir da classificação dos meios para Pross (1990).

Ficamos atentos à relação direta que o folheto possui com as práticas orais, conforme descrevemos anteriormente, quando identificamos alguns dos traços mais relevantes nos cordéis. O que acontece quando a poesia oral é impressa nos folhetos é uma mudança de mídia, passando de uma classificação a outra, devido às possibilidades que são atribuídas à comunicação dos conteúdos.

Para Pross (1990), os meios de comunicação utilizados para a transmissão de notícias são os media, em inglês, ou mídia, como chamamos em português, e que a produção de comunicação significa empregar os meios existentes. Pross (1990) considera que as formas também possuem significados, daí a importância de analisá-las para que, compreendendo o seu sentido, possamos também compreender o sentido que, no caso, o folheto oferece aos versos de cordel.

2.2.1 Da voz ao papel

Os folhetos transmitem a informação presente na poesia oral. Por isso, nós o estudamos como o veículo midiático que dá suporte aos versos de cordel. O fato de a poesia ser veiculada em folhetos dá a ela diferentes possibilidades de sua transmissão pela voz. Ela adquire durabilidade e inalterabilidade, por exemplo, que não seriam possíveis na voz, visto que, por questões de memória e performance, enquanto é oralidade, a poesia acontece no

momento em que é declamada, não podendo ser retomada a momentos anteriores – a não ser quando trata-se de uma gravação – tampouco ser representada novamente do mesmo modo, sofrendo alterações seja na entonação, na declamação ou mesmo de conteúdo.

Então, para a comunicação das mensagens, buscam-se os meios adequados ao propósito da informação, de acordo com as suas possibilidades. Ao fixar um conteúdo, de modo que ele tenha um longo alcance, sem que seja modificado, o folheto de cordel difunde a poesia oral. Ele permite a combinação de funções que integram as formas oral e impressa desta poesia. Mantém as características da oralidade, mas oferece a ela um suporte diferenciado, agregando as possibilidades do papel às da voz, o que também pode configurar- se como uma limitação. Daí a necessidade de compreendermos que oralidade e escrita não se hierarquizam no contexto do cordel, mas se complementam, apresentando realidades comunicativas diferenciadas em cada uma das formas.

Na forma oral, a performance é a interação direta entre o poeta e seu público, sem o intermédio de nenhum equipamento técnico. Apenas os corpos (voz e ouvido) são necessários para a comunicação. O corpo é a mídia da performance. Esta comunicação sem a utilização de instrumentos técnicos é chamada por Pross (1990) de mídia primária. Não se faz necessário o uso de nenhuma matéria, apenas a presença de emissor e receptor no mesmo tempo e espaço para que haja a comunicação.

Presença essa que é dispensada diante do uso dos folhetos. A utilização de meios para a reprodução leva a mídia a ter outra classificação, dependendo das possibilidades oferecidas por ela. A utilização de meios técnicos para a transmissão da informação depende da intenção da mensagem. Segundo Pross (1990), as intenções podem referir-se ao reforço da expressão, incremento da expressão e duração da expressão, algumas que podem ser incorporadas à performance por meio da adoção de símbolos não verbais agregados à declamação, ou da adoção de materiais, como o papel no caso dos folhetos, que registra a voz, oferecendo durabilidade ao que seria efêmero.

A voz, como mídia primária, deixa aberta a possibilidade de modificações do texto em declamações futuras. Por essa possibilidade de mudança, de representações diferenciadas em cada momento, de falhas mnemônicas, alterações no conteúdo, diferentes posicionamentos corporais, pela influência das mudanças pelas quais os homens passam no decorrer dos dias, consideramos que performances diferentes de um mesmo conteúdo não se tratam de reprodução. A mídia primária também é uma forma que interfere no conteúdo. Por exemplo, para analisarmos uma cantoria, devemos levar em conta o hic et nunc de sua emissão. Um

mesmo verso será diferente, se apresentado em outro dia, pois mudam também os elementos que o compõem.

A mudança das mídias quando acontece na passagem da voz para o folheto, ao servir como registro da poesia, fecha o conteúdo. Ele passa a ser o mesmo, reprodutível. A voz é aberta, pode ser alterada e, uma vez emitida, apenas os receptores que estiveram presentes no momento em que o conteúdo foi mencionado podem referir-se ao que ouviram, sem a possibilidade de reproduzi-lo, mas reinterpretando-o.

La divulgación, el correr da voz, modifica la intención, la imitación se convierte en modo, la propaganda de boca a oreja circula, las formas de saludo las reciben las personas para las que no iban destinadas. La comunicación tiene tendencia a la franqueza, a ser abierta. 4(PROSS, 1990, p. 163)

Assim, no papel, o que foi escrito pode ser relido inúmeras vezes, pois se trata do mesmo conteúdo, enquanto que na voz, cada emissão realiza-se de formas diferentes, produzindo novos sentidos.

Segundo Pross (1990), o uso de aparatos pressupõe a possibilidade de uma duração que vai além do aqui e agora da performance. “Desde la primera transcripción fonética de los sumerios, la escritura ha reforzado sobre todo la duración de la expresión” (PROSS, 1990, p. 163). Esta é a principal característica que a impressão nos folhetos oferece à poesia oral, possibilitando, assim, que o conteúdo seja difundido pelo tempo até os receptores que não estiveram presentes durante a declamação.

O registro permite a reprodução e a permanência. A transmissão pode se realizar em tempos e espaços diferentes. A partir da utilização de uma mídia para o registro, a reprodução torna-se possível, pois o contexto de emissão permanece o mesmo, o que muda é o contexto de recepção. Tal registro demanda que emissores e receptores compartilhem o conhecimento do código utilizado. No caso de Seu Lunga, por exemplo, algumas expressões do vocabulário nordestino utilizadas pelos poetas precisam ser compreendidas em suas metáforas pelos leitores/ouvintes para que ocorra o riso objetivado pelos versos.

Para o registro, a emissão necessita da utilização de aparatos técnicos. No caso dos folhetos, é necessário o conhecimento das técnicas tipográficas e de impressão, além dos próprios equipamentos. Mas esta necessidade está localizada na emissão, segundo Pross (1990). “Cuando se requiere un aparato del lado de la producción, y no del lado de la recepción, propongo el término de ‘medios secundarios’” (PROSS, 1990, p. 165). O folheto

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“A divulgação, o correr da voz, modifica a intenção, a imitação se converte em modo, a propaganda boca a boca circula, as formas de cumprimento são recebidas por pessoas a quem não teriam sido destinadas. A comunicação tem tendência à franqueza, a ser aberta” (tradução nossa).

de cordel, então, é uma mídia secundária, por ser impresso, demandar uma rotina de produção que utiliza meios técnicos destinados ao registro e à reprodução.

O folheto é comercializável, dá forma e suporte à poesia oral, cujo conteúdo varia da literatura à informação. Da brincadeira à construção de conhecimentos. Do entretenimento à realidade. Não tem uma periodicidade definida, como jornais, revistas etc., mas possui uma produção constante, que depende da criatividade e habilidade do poeta para transformar os fatos em poesia.

Os poetas se apropriam dos recursos técnicos que cada tempo lhes oferece para a difusão e permanência de sua poesia. As máquinas tipográficas foram sendo barateadas, com o surgimento de outras mais modernas. Com isso, as tipografias foram se estabelecendo no Nordeste. Assim, o folheto pode ser considerado a mídia que dá suporte e materializa a poesia de cordel.

Esta configuração dos folhetos como mídia secundária nos permite pensar em diversas características da passagem de uma mídia a outra. Essas características, algumas vezes, se complementam. Outras vezes, trocam possibilidades de usos, interações, permanência, durabilidade, sociabilidade etc. Tratamos aqui de algumas dessas características que a mudança das mídias acarreta à poesia oral quando ela passa a ser escrita e a circular em folhetos.

No momento da declamação, quando a mídia do conteúdo poético é o corpo, utilizado para a performance, está na efemeridade da voz a aura desta poesia. A aura está ligada a autenticidade da obra, ao hic et nunc de sua exposição. Esta aura da performance se perde quando a poesia vira produto comercializável, o que não significa colocarmos o comércio dos folhetos de cordel como negativo, mas compreende-se aqui que a partir das formas impressas da oralidade o aqui e agora das declamações não tem mais o mesmo valor, pois o ex-ouvinte passa a ter a possibilidade de ser leitor a qualquer momento, afinal, a reprodutibilidade “substitui a existência única da obra por uma existência serial” (BENJAMIN, 1994, p. 168).

As diferenças sensoriais utilizadas em cada forma de expressão da poesia mostram que elas não são idênticas, mas possuem características em comum em determinadas manifestações como a literatura de cordel. A escrita atribui ao texto uma espécie de sacralização. O conteúdo poético passa a ser considerado documental, devido à impossibilidade de alteração do conteúdo escrito. Ele passa a ser registro e permite que o conteúdo seja analisado em uma temporalidade diferente do tempo da performance.

No caso de Seu Lunga, enquanto as histórias eram voz, eram anedotas em conversações cotidianas, por mais que sempre tenham incomodado Seu Joaquim, nenhuma atitude de intervenção podia ser tomada. A oralidade dava uma conotação fugaz aos causos. Mas a partir do momento que elas são impressas e vendidas, passa a haver uma comprovação do que se diz sobre Seu Lunga, as histórias tornam-se imutáveis, elas estão ali e permanecerão enquanto existir o papel e a tinta da impressão.

Além da referência documental, a escrita permite ainda, ao lado de outras mídias, a reprodutibilidade da poesia oral. A poesia entra, então, em um ciclo comercial que vai da criação, passando pela edição, performance como estratégia de atração de compradores e a venda de folhetos.