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Características morfológicas e funcionais do intestino grosso

Em gatos, o intestino grosso é relativamente curto e mede em torno de 0,4 m. Suas principais funções são a absorção de eletrólitos e água, além da fermentação microbiana de nutrientes que escapam da digestão e da absorção no intestino delgado. Anatomicamente, consiste do ceco, cólon e reto; o cólon compreende a maior parte e é dividido em ascendente, transverso e descendente (National Research Council, 2006).

Histologicamente, as quatro túnicas características do tubo digestivo (mucosa, submucosa, muscular e serosa) estão presentes. Contudo, não se observam pregas circulares nem vilosidades. A mucosa é constituída por epitélio cilíndrico simples (colonócitos) e por células caliciformes (Figura 3), sendo estas últimas as mais numerosas neste do que no epitélio do intestino delgado. Já a túnica submucosa é formada por tecido conjuntivo frouxo que contém vasos e nervos, além do plexo submucoso do sistema nervoso autônomo. A camada muscular apresenta uma camada circular interna, outra mais externa (longitudinal) e o plexo mioentérico. Por fim, a serosa se caracteriza pela presença de tecido conjuntivo frouxo, com muitas células adiposas, vasos sanguíneos e linfáticos (Fieri et al., 1997).

Em relação aos tipos celulares, os colonócitos são as células que respondem pela digestão final e pelo transporte transepitelial dos nutrientes. Possuem prolongamentos de polissacarídeos que penetram no lúmen intestinal, denominados glicocálix. O glicocálix exerce uma série de funções, tais como a manutenção do pH neutro próximo à mucosa intestinal e ligação às bactérias patogênicas e não patogênicas, que são importantes para a ação de enzimas de membrana e para a manutenção da sanidade da mucosa intestinal (Maiorka, 2008).

FIGURA 3 Lâmina histológica de cólon canino (hematoxilina/eosina) evidenciando as características teciduais e celulares

Já as células caliciformes são as secretoras de mucina (glicoproteínas), que correspondem ao constituinte predominante da camada de muco intestinal e lhe confere a viscosidade. N-acetilglucosamina, N- acetilgalactosamina, fucose e galactose são os principais oligossacarídeos constituintes da mucina e suas cadeias terminam com ácido siálico ou grupos sulfato, o que contribui para a natureza polianiônica dela em pH neutro (Deplancke & Gaskins, 2001). De forma geral, o muco age como um meio de proteção, lubrificação e transporte entre o lúmen e as células epiteliais, e as células caliciformes sofrem hiperplasia

e aumentam as suas descargas quando ocorre agressão ao tecido (Maiorka, 2008).

Além disso, é importante ressaltar a existência de um tipo celular associado às placas de Peyer no íleo (região de transição da porção final do intestino delgado e início do intestino grosso), denominado células M, pois elas são importantes para a indução de resposta imunológica de mucosa. Elas possuem uma borda em escova pobremente organizada, com capacidade endocítica e linfócitos justapostos na superfície basolateral (Lu & Walker, 2001).

Para que haja a formação desse epitélio característico, são necessárias duas fases de diferenciação: a que inclui os processos que ocorrem durante a ontogênese e a que agrega os eventos que se desenvolvem ao longo da vida. A divisão celular que acontece durante a embriogênese imprime as características epiteliais fenotípicas que aparecerão posteriormente e, durante este processo, cada tipo celular sofre mudanças morfológicas distintas. No intestino adulto, a migração de células diferenciadas ao longo do eixo cripta-ápice é perpetuada por um pool de células em divisão, presente nas criptas (Louvard et al., 1992). Esta maturação está na dependência da síntese de proteínas estruturais, as quais são codificadas pelo genoma das células e os mecanismos indutores do desenvolvimento estão sob influência de fatores intrínsecos e extrínsecos. A mucosa intestinal tem crescimento contínuo, sendo afetada tanto pelos nutrientes da dieta como pelos níveis de hormônios circulantes (Maiorka, 2008).

Assim, as células que estão no ápice apresentam contato a partir de seu polo basal com a matriz extracelular sintetizada pelas subjacentes. Este exoesqueleto interage com os receptores de superfície celular que traduzem a informação do ambiente para os compartimentos intracelulares. Estas interações desempenham papel importante na maturação, migração e renovação das células epiteliais (Louvard et al., 1992).

Neste contexto, podem ser distinguidas cerca de quatro categorias de moléculas de adesão: as caderinas, as integrinas, as selectinas e as imunoglobulinas.

As caderinas pertencem a uma família de glicoproteínas envolvidas no mecanismo de adesão célula-célula Ca2+ dependentes e são detectadas na

maioria dos tecidos. A inibição da atividade das caderinas com anticorpos induz a dissociação de camadas celulares, indicando uma importância fundamental delas na manutenção das estruturas multicelulares (Takeichi, 1995).

As integrinas regulam a formação de grupos celulares na junção de adesão bem como a ativação de vários mecanismos de sinalização, levando à modulação da expressão gênica. Há diversas subclasses envolvidas na proliferação e na diferenciação celular (Lussier et al., 2000). Isso ocorre porque a adesão de células à matriz extracelular contém integrinas que recrutam a quinases, induzindo a diferenciação mitogênica. Os diferentes tipos de matriz parecem sinalizar a partir de diferenciadas integrinas e estas traduzem sinais correspondentes, sendo a resposta matriz-dependente. Por exemplo, as células epiteliais intestinais, quando cultivadas em colágeno ou laminina, levam à multiplicação celular. Por outro lado, se as mesmas células são cultivadas em fibronectina, o mesmo estímulo inibe a mitogênese (Iqbal & Zaidi, 2005).

Já as selectinas pertencem a uma pequena família dos receptores tipo lectina, compostas por três membros: L, E e P. Essas moléculas mediam interações heterotípicas por meio de reconhecimento de glicanos cálcio- dependentes (Aplin et al., 1998).

Por sua vez, as imunoglobulinas pertencem a uma ampla superfamília de moléculas de adesão celular. Um exemplo clássico de receptor dessa classe é o NCAM, que contém cinco dobras de imunoglobulinas na sua porção extracelular. Há três formas de NCAM, duas com domínio transmembrana e

uma contendo N-glicosilfosfatidilinositol ligado à membrana (Aplin et al., 1998).

Dessa forma, a regulação da adesão celular durante a migração envolve um mecanismo controlado (que inclui a participação de moléculas de adesão) e com interação de inúmeros fatores (Wilson & Gibson, 1997).

Diversas substâncias podem interferir nesse processo, estimulando-o. Elas são denominadas de agentes tróficos, pois interferem no desenvolvimento da mucosa intestinal, acelerando o processo mitótico na região cripta-vilo e provocando hiperplasia e hipertrofia celular (Maiorka, 2008). Dentre eles, podem-se citar os fatores de crescimento, peptídeos, glutamina, ácidos graxos de cadeia curta (acético, propiônico e butírico), citocinas, óxido nítrico e neuropeptídeos (Wilson & Gibson, 1997).

O uso de MOS poderia interferir com a modulação da microbiota intestinal e a consequente produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC). O papel dos AGCC no processo de mitose e renovação epitelial será discutido posteriormente.