4. ARGAMASSAS
4.2. Características Principais das Argamassas
As argamassas a aplicar na reabilitação de edifícios têm como principal função proteger e preservar as alvenarias em que são aplicadas. Deste modo, deve-se avaliar a compatibilidade da argamassa com os restantes materiais existentes, pois esta compatibilidade quer a nível mecânico, como físico e químico, é fundamental no desempenho das alvenarias, tanto a médio como a longo prazo. Assim, após a perda de funcionalidade das argamassas, estas podem ser retiradas sem provocar estragos nos suportes, assegurando-se a reversibilidade ou reaplicação em possíveis operações. Efectuado este estudo, deve-se considerar a durabilidade interna da argamassa, sendo ela representada pelas características de prevenção ou redução da deterioração da argamassa.
As características exigíveis às argamassas para que se consigam cumprir os critérios acima referidos são os seguintes:
a) Para proteger as alvenarias em que são aplicadas, reduzindo a sua degradação devem apresentar:
84 - Baixa absorção capilar, quer em termos de velocidade de absorção (coeficiente de capilaridade, quer quanto à quantidade total de água absorvida (valor assimptótico de absorção);
- Boa permeabilidade ao vapor de água, não devendo ser inferior à do suporte, aumentando de dentro para fora nas diferente camadas que constituam o revestimento;
- Estabilidade dimensional, quer a curto prazo, onde as possíveis retracções podem provocar a fendilhação, quer a longo prazo, onde as variações dimensionais podem originar esforços no interior da alvenaria ou no reboco, ou ainda perda de aderência entre estes dois elementos;
- As argamassas devem ser mais deformáveis e mais fracas que as alvenarias de suporte e que cada camada sucessiva;
- Boa aderência ao suporte, sem que o ponto anterior seja colocado em causa;
- Baixa libertação de sais solúveis, para a preservação da alvenaria bem como para a redução da degradação da argamassa.
b) Para prevenção da degradação das argamassas (em termos de durabilidade) devem ser considerados os seguintes aspectos:
- Boa resistência aos sais solúveis (sulfatos e cloretos);
- Boa resistência a ciclos de gelo/degelo – exigida resistência mecânica elevada;
- Boa evaporação da água (mas não muito elevada), para se minorarem os efeitos do gelo e do transporte e cristalização dos sais solúveis;
85 - Resistências mecânicas suficientemente elevadas para que suportem as acções já referidas e a acção de choques;
- A presa das argamassas devem dar-se num período de tempo suficientemente curto (tanto em ambientes secos, como em ambientes húmidos) prevenindo deteriorações devido a resistências mecânicas iniciais insuficientes.
Estes dois princípios são difíceis de ajustar, pois os seus objectivos são contraditórios, podendo haver alguma dificuldade em encontrar um equilibrio adequado entre algumas das suas características.
4.2.1. Argamassas de assentamento e refechamento
Tradicionalmente, utilizadas argamassas de cal para assentamento e refechamento de juntas de edificios de pedra. Essas argamassas variavam nos seus traços, conforme a época construtiva e o local geográfico em que se inseria o edificio em questão. O recurso á cal, a sua cozedura, os agregados e aditivos utilizados, variavam bastante. Os materiais naturais geralmente eram obtidos no local ou na região, e quanto mais antiga e rustica a construção, maior probabilidade em os materiais serem de origem ou fabricado sno local.
Em edificios antigos, as argamassas de acentamento utilizavam correctamente cal e areia ao traço 1:2 e até 1:1, em zonas especialmente vulneráveis.
A areia usada nas argamassas era predominantemente argilosa, ou saibro, eventualmente combinada com areia do rio. Quando se usava apenas areia lavada, de rio, recorria-se a traços mais finos em cal. A utilização da areia de areeiro permitia reduzir o traço, pois os finos de areia amarela ou vermelha contribuíam para o aumento da resistência das argamassas.
Em zonas maritimas, as conchas e a areia da praia eram regularmente como agregados. As antigas construções dessas zonas, estão carregadas de sal, e os sais das argamassas transferiram-se para as cantarias das paredes. As conchas, especialmente
86 conchas de ostra, eram também utilizadas na construção de alvenarias de pedra argamassada, de lages de xisto ou pedras delgadas. Em certas localidades, eram utilizados escassilhos para reduzir as áreas expostas de juntas largas entre pedras assentes a seco. Isto envolvia a inserção de pequenas pedras na argamassa ainda humida, perlongando a durabilidade do refechamento pela redução da sua superficie e, assim, também da sua erosão.
Quando é necessário substituir as argamassas, geralmente dá-se preferência a utilização de material semelhante ao original. Com essa finalidade, retiram-se amostras da argamassa original para ser testada e analisada. Os ensaios e análises permitem identificar os materiais constituintes da argamassa original, apesar de nos dizerem pouco sobre como era misturada, conservada, aplicada e tratada. No entanto é essencial que os restauradores estejam familiarizados e confiantes no uso de argamassa de cal.
Em alguns casos, a harmonização com a argamassa original não é possivel nem adequada. Argamassas históricas que incorporam componentes carregadas de sal, ou areia do mar, por exemplo, não devem ser utilizadas em refechamento de juntas, por razões óbias. A escolha da argamassa de cal, de pasta de cal não hidráulica ou de cal hidráulica, depende da dureza e rapidez de presa requerida, e da severidade climática aque está exposta.
A pasta de cal é geralmente opção preferida se a argamassa é não hidráulica. No entanto, o carbonato de cálcio nas argamassas de pasta de cal pode reagir com as chuvas ácidas formando o sulfato de cálcio, que tem sido associado ao decaimento da pedra mais próxima. Embora seja possivel ocorrerem estes fenómenos, a experiência mostra que são raros, uma vez que a argamassa permite garantir a carbonatação completa. O decaimento da pedra é devido, essencialmente, á acção do cimento ou dos agregados contaminados de sais. A cal hidráulica natural tem menor percentagem de cal aérea, pelo que existe, neste caso, menor risco de contaminação de sulfato de cálcio pelo blocos de pedra. A sua rápida presa inicial torna-a mais adequada a locais frios, húmidos e junto a costa maritima, do que as argamassas não hidrálicas [10].
Em diversos estudos e aplicações prácticas verificou-se a adequação de argamassas de cal e areia com aditivação de pozolanas ou com metacaulino, para as camadas finas. Apresentam, como principal desvantagem, a baixa velocidade em que endurecem.
87 Na reabilitação de edificios correntes, obtiveram êxito as argamassas bastardas, de cal, cimento e areia, ao traço 1:1:6, com areia lavada e areia de areeiro em partes iguais [11].
Quadro 4.1 – Requisitos estabelecidos para características mecânicas das argamassas (Juntas)
USO
Características Mecânicas
(Mpa) Aderência
(Mpa)
Comportamento à retracção restringida
Rt Rc E Frmáx (N) G (N.mm) CSAF CREF (mm) Juntas 0,4-0,8 0,6-3 3000-6000 0,1-0,5 ou rotura coesiva pela junta < 70 > 40 > 1,5 > 0,7
Rt- Resistência à tracção; Rc- Resistência à Compressão; E- Módulo de elasticidade; Frmáx- Força máxima induzida por retracção restringida; G- Energia de rotura à tracção;
CASF- Coeficiente de segurança à abertura da 1ª fenda; CREF- Coeficiente de resistência à evolução da fendilhação.
[Adaptado de VEIGA, M. Rosário – Argamassas para revestimentos de paredes de edificios antigos. Cracteristicas e campo de aplicação de algumas formulações correntes; Actas do 3º ENCORE, Encontro sobre Conservaçõe e Reabilitação de Edificios. Lisboa, LNEC, Maio de 2003.]
Quadro 4.2 – Requisitos estabelecidos para características de comportamento à água e ao clima (argamassa de juntas).
USO
Comportamento á água
Envelhecimento artificial acelarado Ensaio Clássico Ensaio com humidímetro
SD (m) C Kg/m2.H1/2 M (h) S (h) H (mv.h)
Juntas < 0,10 < 12; > 8 > 0,1 < 120 < 16000
Médio: degradação moderada nos ciclos água/gelo
SD – espessura da camada de ar de difusão equivalente (valor relacionado com a permeância); C-
coeficiente de capilaridade; M- atraso na molhagem; S- período de humedecimento; H- intensidade de molhagem.
[Adaptado de VEIGA, M. Rosário – Argamassas para revestimentos de paredes de edificios antigos. Cracteristicas e campo de aplicação de algumas formulações correntes; Actas do 3º ENCORE, Encontro sobre Conservaçõe e Reabilitação de Edificios. Lisboa, LNEC, Maio de 2003.]
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