Da mesma forma Carapinheiro (1993) destaca que o poder dos médicos brota do saber capaz de curar e salvar vidas e da competência que lhes permitem opor às exigências da administração e sobrepor à defesa dos interesses e privilégios. Foucault (1995) salienta alguns aspectos que reforçam o poder médico, das quais destacamos: os médicos são os únicos profissionais realmente autônomos do hospital; a natureza do poder vem do poder fazer; o poder médico se localiza no hospital, cujo instrumento é a disciplina médica.
Além da temática do poder que resulta na quebra de comando-controle descendente, existem inúmeras outras características e leis próprias que singularizam o setor saúde em relação a outros sistemas complexos, no qual decorreremos sobre aquelas que consideramos as mais clássicas.
à saúde é o arranjo organizacional uni ou pluri-institucional que permite a gestão de todos os componentes das redes de atenção à saúde, de forma a gerar um excedente cooperativo entre os atores sociais em situação, a aumentar a interdependência entre eles, e a obter bons resultados sanitários e econômicos para a população adscrita.
Independentemente da forma como se organizam, os sistemas de saúde são reconhecidos por duas crenças fundamentais: a de que a saúde tem um valor intrínseco sobre as pessoas, e a de que os serviços de saúde são necessários para manter a vida e aliviar o sofrimento.
Os sistemas de serviços de saúde são constituídos por múltiplos elementos, em que o Estado atua como mediador entre a população e as organizações prestadoras de serviços ou geradoras de recursos, com interesses diversos, muitas vezes conflitantes. Diferentemente dos sistemas biológicos, os sistemas sociais não procuram harmonizar suas funções em busca da sobrevivência, ao contrário, movem-se dialeticamente, repletos de conflitos internos e externos que reproduz uma complexidade singular, típica do setor saúde (MENDES, 2002).
Uma característica marcante refere-se ao fato da saúde lida com o ser humano, na sua totalidade e complexidade, envolvendo suas dimensões e subjetividades, durante todo o seu ciclo de vida. Miller, com muita propriedade, sintetiza esta ideia, ao dizer que:
De todos os objetos do mundo, o corpo humano tem um status peculiar:
ele não é somente possuído pela pessoa que o tem, ele é também possui e constitui a pessoa que o porta. Nós podemos perder dinheiro, livros e casas e, ainda assim, nos mantemos íntegros, mas não é inteligível a idéia de uma pessoa sem corpo. Ainda que nós consideremos nossos corpos como premissas da vida, isto é uma forma especial de propriedade porque nossos corpos são onde nós podemos sempre ser contactados (MILLER, 1878, p.14).
No campo da economia, o setor saúde não se comporta as leis de mercado, comumente conhecidas, gerando falhas de mercado. Esta configuração de um mercado imperfeito convoca a ação do Estado para atuar como provedor e regulador dos serviços de saúde (MENDES, 2002).
A primeira diferença está na imprevisibilidade das doenças, o que gera incerteza e transforma a informação e o conhecimento advindos dos cuidados
especializados em mercadorias, que não podem ser testadas e são baseadas apenas na confiança. No caso de uma intervenção, por exemplo, se paga por um serviço que pode não ter o ressaltado esperado, e pelo contrário, pode até provocar seqüelas ou morte. Além disso, o setor saúde é o único que de fato não se conhece a real demanda. Dois pacientes com a mesma patologia podem demandar serviços diferentes e com custos variáveis.
Outra característica se refere à assimetria de informação entre profissionais de saúde e as pessoas que demandam seus cuidados, e as duas partes são conscientes desta assimetria. Enquanto no mercado o indivíduo é quem decide o que quer e o que pode pagar, na saúde, ao contrário, é o profissional quem decide o que o usuário vai utilizar, ou seja, o provedor é quem induz demanda. Essa assimetria de informação, acompanhada da urgência de utilização de determinados serviços provoca um fenômeno especial na saúde que é a indução da demanda pela oferta. A possibilidade dos profissionais induzirem uma demanda está no fato de que estes profissionais vão receber mais dinheiro (RICE, 1998, p. 122). Isso pode ocorrer em sistemas de pagamento por produção, privilegiando determinadas áreas e procedimentos, principalmente aqueles com agregado tecnológico. Ocorre também em função da questão ética ou falta de preparo, em que o profissional se vê tencionado a utilizar o que está disponível, mesmo sendo desnecessário, provocando iatrogenias.
Há também a demanda do próprio paciente que busca o que está disponível e não o que está precisando. Quando isso acontece chamamos tal fenômeno de risco moral.
Mendes (2002) salienta outros fundamentos e leis específicas que regem os sistemas de saúde. A lei de indução da demanda pela oferta, conhecida por Lei de Roemer que diz que se “há leitos hospitalares disponíveis eles tendem a ser usados independentemente das necessidades da população”. Baseado neste princípio surge a Lei de Evans que observou que os serviços de saúde se expandiram em função da oferta de médicos e não na necessidade. Da mesma forma Enthoven e Singer (1996) dizem que o “número de cirurgias realizadas em um sistema de serviços de saúde varia na razão direta do número de cirurgiões”. Esta indução ocorre principalmente com o uso das tecnologias.
Outra lei referida pelo autor é Lei de Hart ou Lei da Atenção Inversa que diz que “a disponibilidade da boa atenção tende a variar na razão inversa das
necessidades da população”, ou seja, quanto maior a necessidade menor é a qualidade da atenção prestada, o que aponta para as iniqüidades indesejáveis. Esta lei está fundamentada na constatação de que os ricos dispõem de mais conhecimento e tendem a receber uma atenção diferenciada e especializada.
Outra lei clássica na saúde é a chamada Lei da Caneta do Médico que se baseia no fato de que:
Os médicos tomam suas decisões nos sistemas de saúde e as concretizam através de registros escritos por suas canetas (ou computadores). Daí que poderia denominar de Lei da Caneta do Médico a tendência universal de que a parte mais significativa dos gastos dos sistemas de serviços de saúde é realizada pelos médicos, com sua autorização escrita (DOWLING, 1997).
Segundo Dowling (1997) mais de 70% dos gastos de um sistema de saúde são autorizados pelos médicos. São neles que concentram o poder decisório relevante de ordenar as principais despesas com internações, a prescrição de medicamentos e exames. As internações consomem 45% (EDUARDS et al., 1998) dos recursos da saúde e os medicamentos, cerca de 10 a 20%.
Outro traço peculiar da saúde é a seleção adversa e ocorre quando a população jovem, consciente de suas condições de saúde e riscos, tende a não procurar os seguros de saúde. Por outro lado, os consumidores de mais alto risco terão interesse em participar do seguro. Consequentemente, as seguradoras aumentam seus custos administrativos para refinar os mecanismos de controle e criam barreiras de filiação de pessoas de maior risco ou portadoras de patologias de alto custo e ou desenvolvem mecanismos para desfiliar estas pessoas. Esta situação exclui os mais necessitados por não poderem pagar os prêmios altos cobrados pelas seguradoras (MENDES, 2002; PEREIRA, 1995).
Outro ponto de destaque se refere à incorporação tecnológica, diferentemente de outras áreas, não significa a substituição de tecnologia e sim complementação (raios X + ultra-sonografia + tomografia + ressonância magnética).
O mesmo ocorre com os profissionais de saúde (SOLLA; CHIOLO, 2008).
Por fim, destacamos à concepção de que saúde como um bem público, o que significa a ilimitada oferta de serviços, tanto quanto o paciente demandar, e sem exclusão de nenhuma pessoa.