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Organograma 2 – Espécies autógamas e alógamas nos cultivos das comunidades

4.1 Características socioculturais das comunidades

O estudo foi realizado em comunidades de Quilombos, denominadas Comunidade Cambambi (CC), Comunidade Pingador (CP) e Comunidade Itambé (CI) somando um total de 48 domicílios nas três comunidades. No total foram entrevistadas 86 pessoas que atenderam o critério e objetivo desta pesquisa. Desse total de entrevistados, 94% declaram ser de origem racial Afrosdescendentes, e 6% declaram ser descendentes de Indígenas. Entre os entrevistados 44 são mulheres e 42 são homens e todos maiores de 18 anos de idade.

O gênero feminino com 51% se deve ao fato de que as mulheres estão envolvidas nas atividades de dona de casa e cuidados com os filhos, motivo que as atraem para afazeres próximos da residência como horta e quintal, especialmente com plantios, coletas e limpeza deste espaço culturalmente modelado segundo seus saberes e tradição étnica. Estudos etnobotânicos registram dados semelhantes em que há predominância do gênero feminino (VOEKS, 2017). Os homens se dedicam às atividades de preparação do solo, como carpir e limpar a área de plantio, na manutenção dos cultivares nas roças, e da colheita, armazenamento e gestão dos produtos colhidos e sempre atentos às demandas de consumo da família e da comunidade. A faixa etária dos entrevistados nas três comunidades variou de 18 a 105 anos de idade, apresentada nas Figuras 2, 3 e 4, referente a cada comunidade estudada.

Figura 2 - Idade dos informantes da Comunidade Cambambi. 2020.

Figura 3 - Idade dos informantes da Comunidade Pingador. 2020.

Figura 4 - Idade dos informantes da Comunidade Itambé. 2020.

3%

36%

14%

3%

1%

29% 14%

18 a 39 anos 40 a 60 anos 61 a 80 anos 81 a 100 anos

Acima de 100 anos

mero de informantes

CAMBAMBI

Feminino Masculino

21%

14%

11%

16%

20% 18%

18 a 39 anos 40 a 60 anos 61 a 80 anos

Número de informantes

PINGADOR

Feminino Masculino

Os resultados mostram que na primeira comunidade apresentada a frequência relativa é de 65% para a faixa etária de 61 a 105 anos de idade. A segunda comunidade registra 10%

para a mesma faixa e a terceira com 25% para as pessoas entre 61 a 80 anos de idade.

Portanto, a população da comunidade Cambambi é mais antiga das três comunidades e reflete sua tradição cultural e social na ancestralidade, através dos conhecimentos e saberes empíricos repassados de geração em geração.

Nas comunidades de Pingador e Itambé, que são formadas por pessoas mais jovens, que varia de 18 a 60 anos de idade, ficou evidente o processo de êxodo rural dos jovens para os centros urbanos, em busca de estudo e trabalho, fato que altera significativamente a mão-de-obra familiar nas atividades de produção agrícola de pequena escala para subsistência da família. A saída do jovem da área rural tem contribuído na diminuição da produção agrícola local, e a estratégia é a readequação na diversificação e no tamanho da área dos plantios.

Nesse contexto Brumer (2007), destaca que os principais motivos para o esvaziamento do campo e não substituição da mão-de-obra rural é a depreciação do trabalho rural, os atrativos da vida urbana e a falta de infraestrutura nas comunidades rurais.

Quanto a origem dos informantes nas comunidades (CC), (CP), (CI), os resultados registram que 95% são naturais do próprio município e Estado de Mato Grosso e (5%) são de outros estados brasileiros que mudaram para o Estado de Mato Grosso, casaram-se com pessoas naturais do municipuio em estudo, construíu suas famílias e residem há mais de 10 anos no local, conforme Figura 5.

11% 11% 11%

34%

16,5% 16,5%

18 a 39 anos 40 a 60 anos 61 a 80 anos

mero de informantes

ITAMBÉ

Masculino Feminino

Figura 5 - Origem dos informantes das comunidades (CC), (CP) e (CI). 2020.

Quanto ao nível de escolaridade (95%) dos informantes da comunidade (CC), possuem o Ensino Fundamental, (4%) não são alfabetizados, (1%) concluiu o Ensino Superior. Na comunidade do (CP) (55%) terminaram o Ensino Médio, (41%) o Ensino Fundamental, e (4%) dos informantes cursaram o Ensino Superior. Já (50%) dos informantes da comunidade (CI) cursou o Ensino Fundamental, (20%) concluiu o Ensino Médio, (20%) não são alfabetizados e (10%) concluíram o Ensino Superior completo, conforme Figura 6.

Figura 6 - Nível de escolaridade dos informantes. Chapada dos Guimarães-MT, 2020.

Mato

Mato Grosso Bahia Rio Grande do Sul Minas Gerais CC/ MT CP/ BA CP/ RS CI / RS

15%

A comunidade Cambambi é a mais antiga entre as comunidades estudadas e pessoas com maior idade, também possui menor grau de escolaridade entre a população, prevalecendo a hegemonia dos conhecimentos empíricos e tradicionais sobre a escolarização, nas atividades do dia-a-dia. Fato que colabora e fortalece o resgate e divulgação dos dados etnobotânicos em comunidades tradicionais de quilombos. Trabalhos de Pasa et al. (2019) destacam a importância dos saberes empíricos sobre a conservação da biodiversidade, através de práticas ancestrais no domínio dos conhecimentos exercidos em paisagens culturais em comunidades Afrodescendentes.

O tempo de moradia da população variou entre as comunidades. A comunidade cambambi é mais antiga possui maior tempo de permanência (80) anos no local e apresenta maior grau de ancestralidade e caracterizada como tradicional. Os moradores com menos tempo de permanência nas comunidades são de dez anos e os moradores com mais tempo residindo no local ultrapassa oitenta anos. Já na comunidade Itambé há moradores que moram no local há menos de dez anos e outros há mais de quarenta anos, conforme Tabela 1.

Tabela 1 - Distribuição do número de informantes por tempo de moradia nas comunidades.

Município de Chapada dos Guimarães - MT.

Tempo de moradia CC CP C I

1 a 10 anos 0 10 3

11 a 20 anos 2 4 2

21 a 30 anos 2 5 1

31 a 40 anos 2 13 0

41 a 50 anos 2 12 4

51 a 60 anos 9 3 0

61 a 70 anos 0 4 0

71 a 80 anos 4 3 0

81 a 90 anos 1 0 0

Total de informantes 22 54 10

Neste estudo, ao se tratar de comunidades tradicionais, que são caracterizadas pelo tempo de permanência no local e/ou manutenção dos costumes, a sustentabilidade alimentar está ancorada na agricultura familiar por muitas décadas. Neste contexto, a agricultura familiar local foi palco de embate dessas populações para preservar seus usos e costumes

frente à erosão genética e cultural que vem sendo paulatinamente sendo introduzida no mundo moderno. Devido à aculturação moderna e imigração de pessoas advindas de outros estados e país acabam levando à introdução de histórico e experiência de vida diversas, o que pode influenciar no modo de gestão da agrobiodiversidade (BROOKFIELD; STOCKING, 1999). A identidade tradicional dos informantes que conservam a sua forma de reprodução cultural, social, religiosa e econômica nas pequenas áreas onde nasceram cresceram e vivem até a presente data é manifestada no depoimento do informante:

Meu pai nasceu, cresceu, casou, construiu a famia dele ali mais imbaxo e morreu. eu com essa idade nunca saí daqui, criei meus filhos tudo aqui...to com 76 anos faço roça, lido cos animã, crio meu gadinho e pra mim num tem coisa melhor que isso... eu como o que quero na hora que quero, panho as fruitas direto do pé, quando sinto arguma dor no corpo vô no quintal ou no mato pego logo uma planta que cura faço o chá bebo e pronto, logo to bam denovo. (Sr. G.

S., 76 anos – CC).

Referente às propriedades na comunidade Pingador 84% dos entrevistados são proprietários da área onde residem e 16% dos moradores são caseiros nas fazendas de propriedade dos fazendeiros, através de concessão temporária enquanto durar o contrato. Na comunidade Cambambi registrou-se que 100% dos informantes são os próprios donos da terra onde moram. Na comunidade Itambé 80% possuem casa própria e 20% moram de forma cedida ou de forma compartilhada com os pais. Resultados semelhantes foram encontrados por Sánchez (2014) na comunidade de Água Fria localizada na região, os filhos mais velhos formam a família e passam a morar no terreno dos pais.

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