A partir dessa apresentação resumida do pós-modernismo e de sua chegada e ascensão no Brasil é possível buscar identificar as suas características teóricas principais. Em primeiro lugar, há a questão apontada por Hobsbawn acerca de seu relativismo que iguala fato e ficção tornando desnecessário (para os pós-modernistas) a pesquisa rigorosa sobre a realidade. Se tudo é mera opinião não há diferença entre uma simples suposição ou o resultado de uma rigorosa pesquisa, exceto que a segunda requer muito mais dispêndio de energia. Em função disso
a produção cultural foi reconduzida ao interior da mente, dentro do sujeito monádico; ela não pode mais olhar diretamente com os seus próprios olhos para o mundo real em busca de um referente, ao contrário, ela deve, como na caverna de Platão, traçar suas imagens mentais do mundo nas paredes que a confinam (Jameson, 2006: 30).
No caso da produção de uma arte que se pretende contra-hegemônica esta perspectiva leva à um gigantesco rebaixamento de nível, pois, sem investigar a
39 realidade, os artistas críticos se limitariam à reproduzir o que já sabem, sem realizar novas descobertas e sem possuir nenhum critério em defesa da verdade de suas críticas (posto que seriam meras opiniões como as dos ideólogos da classe dominante, por mais mistificadoras ou preconceituosas que estas possam ser).
Os pós-modernistas negam frequentemente que sejam relativistas epistêmicos: insistem que sabem que há um mundo ´real` lá fora. A ironia, porém, é que sua própria defesa corrobora para provar o argumento contra eles e para demonstrar a fusão (ou confusão) da qual eu os acuso aqui - a de proceder, por exemplo, como se não apenas a ciência da física, mas a realidade da física representada por, digamos as leis da termodinâmica fossem em si um constructo social e historicamente variável (Wood e Foster, 1999: 12).
Embora Wood9 afirme que nem todos os pós-modernistas chegam a este relativismo extremo, ela mantém sempre a crítica de que a “ênfase na natureza fragmentada do mundo e do conhecimento humano” (Wood, 1999: 13) está no centro do pensamento pós-modernista. “Mesmo em suas manifestações menos extremas o pós- modernismo insiste na impossibilidade de qualquer política libertadora baseada em algum tipo de conhecimento ou visão ´totalizantes`” (Idem), em função disso não há, para o pós-modernismo, estruturas sociais (como o próprio capitalismo). A própria realidade seria fragmentada e impossível de ser conhecida de forma coerente. No fundo, o ataque pós-modernista não é somente ao universalismo, ao materialismo e ao objetivismo, mas à própria razão humana. Segundo Kenan Malik, este irracionalismo leva o pós-modernismo a recusar qualquer explicação causal. Ele afirma que
toda e qualquer ideia de determinação – mesmo no sentido não-reducionista, tendo a ver com o que E.P. Thompson chama frequentemente de “a lógica do processo”, ou o que Raymond Williams (…) descreve como “um processo complexo e inter- relacionado de limites e pressões” - é considerada como essencialista e, portanto, ilegítima (Wood e Foster, 1999: 126)
Portanto, as características do pensamento pós-modernista (relativismo, idealismo, fragmentação, subjetivismo, irracionalismo, a-historicidade) significam que não é possível um grupo artístico pós-modernista definir uma orientação coletiva para
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Wood, Foster e Malik, autores utilizados nessa análise, possuem uma interpretação do pós-modernismo diferente daquela de Jameson e Anderson. Se estes admitem o pós-modernismo como um contexto real, a lógica cultural do capitalismo tardio, aqueles o consideram somente uma corrente teórica com sua origem relacionada ao contexto da época de ouro do capitalismo que produz falsas interpretações da realidade, devendo ser, portanto, denunciada e combatida. Jameson, por outro lado, defende que rejeitar o pós- modernismo não é o melhor caminho para enfrentá-lo mas, para isso, é necessário reconhece-lo como parte da realidade e analisá-lo. Embora o pensamento de Jamenson seja a base para essa pesquisa, utilizo também esses outros pensadores por apontarem pontos importantes sobre o pós-modernismo, que não são tratados por Jamenson. Afinal, além de ser a lógica cultural do capitalismo tardio, o pós-modernismo, também apresenta-se como uma (forte) vertente teórica de interpretação da realidade.
40 uma atuação em busca de uma superação do capitalismo, inviabilizando, portanto, a própria existência de um grupo simultaneamente pós-modernista e crítico à ordem. Se não há uma realidade objetiva (ou pelo menos não somos capazes de acessá-la) e só possuímos opiniões sobre nossas próprias realidades (que não podem ser verificadas ou comparadas frente a nenhum critério de verdade) como chegar a qualquer acordo coletivo? Se o mundo é fragmentado, como ser contra “o capitalismo”, ou “o sistema”, ou “a ordem”, se nada disso existe? Se a história não é nada mais que um eterno presente, como desejar qualquer transformação (pois tudo deve ter sido sempre assim e que assim seja, amém)? Tudo é visto como natural e, portanto, impossível de ser transformado pelos seres humanos. Se a razão não é confiável em nenhuma medida só nos resta agir por instinto buscando o nosso próprio prazer individual (até porque não seria possível saber o dos demais, já que o mundo real é inacessível). Uma breve análise demonstra que não é possível um coletivo contra-hegemônico se orientar pelas teorias do pós-modernismo. Apesar de todo o seu discurso como mais avançado do que todas as teorias da modernidade, as quais considera ultrapassadas e conservadoras, a teoria pós-modernista acaba sendo a verdadeira conservadora, como Foster ilumina ao afirmar que
a ironia do pós-modernismo é que, enquanto alega ter transcendido a modernidade, abandona desde o início toda esperança de transcender o capitalismo em si e de ingressar em uma era pós-capitalista. A teoria pós-modernista, portanto, é facilmente absorvida na estrutura cultural dominante (Wood e Foster, 1999: 205)