Capítulo III. Resultados e Discussão
3.5 Fatores de risco percebidos no trabalho e geradores de elevados níveis de
3.5.3 Características do trabalho
As características do trabalho identificadas como geradoras de maiores níveis de insatisfação entre os trabalhadores do serviço são várias, nomeadamente em relação ao facto de o trabalho ser um trabalho onde não existe a perspetiva de evolução na carreira (85,1%) (cf. Anexo F1), cuja remuneração não permite ter um nível de vida satisfatório (83,6%),
40 onde faltam os meios necessários para realizar um trabalho de qualidade (75,8%). Trata-se de aspetos que se destacam pelo incómodo para as várias categorias profissionais (cf. Anexo F2), e que encontram o seu sentido no cenário atual da Administração Pública, onde o congelamento de salários, de promoções e progressões na carreira despontaram nos últimos anos, assim como a contenção de custos em investimentos nos locais de trabalho (e.g., instrumentos, meios, espaços de trabalho). Esta realidade está bem presente neste serviço, onde a mobilidade é inexistente ou meramente horizontal, isto é, entre diferentes unidades - onde distintas tarefas podem ser levadas a cabo pelos mesmos profissionais - mas dificilmente vertical (i.e., para um nível hierárquico superior). São identificadas a “falta de expetativas”, assim descrita por um dos trabalhadores; a perceção de um desfasamento entre a mobilização de si mesmo no trabalho e a remuneração, que fica de sobremaneira aquém do investimento na atividade; e a falta de investimento em instrumentos de trabalho adequados e fundamentais para a realização da atividade, tidas como questões de insatisfação, não no trabalho realizado, mas sim em termos de condições de trabalho oferecidas. Especificamente, em relação à falta de meios para realizar um trabalho de qualidade, é entre as características do trabalho acabadas de referir, a situação mais frequentemente relatada nas verbalizações dos trabalhadores. Parece comum o entendimento de que é provavelmente o grupo dos AO’s o mais penalizado por esta falta, e que de facto reporta elevados níveis de incómodo (81,8%). Um dos tipos de instrumentos de trabalho mais utilizados por estes profissionais é o porta-paletes, sendo vários os que necessitam de manutenção ou de substituição, já que se encontram em mau estado, e só não colocam em causa a qualidade do serviço prestado, porque acabam eles próprios por compensar estes problemas, assumindo alguns esforços físicos, que não seria suposto. Assiste-se aqui a um exemplo de adaptação do trabalhador ao seu trabalho, e portanto à contradição de um dos princípios de intervenção no quadro da nossa tradição científica: o de adaptação do trabalho ao homem (Leplat, 2015), otimizando as condições e os recursos que favorecem o seu desempenho. Inclusivamente, alguns trabalhadores expressaram a já ocorrência de acidentes profissionais (fraturas) no trabalho com estes equipamentos, e a necessidade de maiores esforços físicos no seu manuseamento, tendo em conta o estado em que se encontram. O uso destes equipamentos em mau estado é ainda agravado pelas condições gerais em que se encontra o piso, caracterizado como degradado e irregular, o qual potencia um maior nível de risco no transporte da medicação - sendo até referidos episódios de queda de medicação - muitas vezes tóxica (e.g. citotóxicos), resultando por sua vez em insegurança para os próprios trabalhadores, mas também em atrasos para os processos seguintes do circuito do
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medicamento. Ainda, a iluminação inadequada e o excesso de pó são aspetos atribuíveis aos “meios” que colocam em causa a qualidade do trabalho, e vistos como incomodativos para os que exercem funções no armazém farmacêutico da logística, cuja força de trabalho é constituída sobretudo por AO’s. Para outros profissionais, como farmacêuticos (75,0%) e assistentes técnicos (33,3%), cuja atividade profissional depende do uso frequente do computador são notórias algumas queixas, tanto pela falta de computadores suficientes, como pela má qualidade dos existentes, caracterizados como “lentos” e que “crasham” momentaneamente, resultando segundo os participantes, em atrasos para o próprio trabalho, e processos subsequentes. Para os TDT’s, estes problemas são reportados por 76,0% dos profissionais, em tarefas relacionadas com a distribuição da medicação, o trabalho com o sistema operativo (CPS), caracterizado como pouco célere; assim como com a grande distância a percorrer continuamente entre os vários produtos com que trabalham, obrigando- os a realizar um grande número de deslocações. Em específico, na manipulação clínica, para os TDT’s os problemas não parecem ser menores, sendo identificado como mais preocupante, aquele que, como já anteriormente mencionado, constituiu o ponto de partida de toda a análise das condições de trabalho: na UCMC (66,7%) (cf. Anexo F3), o uso de seringas na área estéril, instrumento de trabalho que suscita grandes dificuldades do ponto de vista músculo-esquelético para os seus utilizadores, e onde um instrumento que as substitua parece altamente pertinente. Outros meios percecionados como em falta para a realização de um trabalho de qualidade nesta unidade prendem-se com as duas câmaras existentes na zona branca da área estéril, destinadas à produção de tratamentos, com as quais existe dificuldade em operar em simultâneo, atrasando o trabalho. Ainda neste âmbito, a falta de pessoas/recursos humanos é mencionada. No caso da UFA (100%), os mesmos problemas relacionados com o uso dos computadores são também uma realidade, assim como a falta de frigoríficos de armazenamento.
Ainda outros aspetos no que respeita às características do trabalho são percecionadas como problemáticas de uma forma geral, nomeadamente a perceção de dificuldade em realizar o seu trabalho aos 60/65 (70,4%) (cf. Anexo F1), e a assunção de que “o meu trabalho é um trabalho que gostava que os meus filhos não realizassem” (56,8%), são segundo verbalizações dos trabalhadores, resultado não da atividade em si, mas sim das condições de trabalho a que estão sujeitos.
Parecem estes assuntos relacionados com as características do trabalho complexos, onde “as questões da sociedade podem ser lidas no posto de trabalho” (Schwartz & Durrive, 2007, p. 58). Isto porque questões de índole macro (eg., crise económica, contenção de
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custos na Administração Pública, etc.) se estabelecem sobre os trabalhadores, sobre as condições de exercício da sua atividade, e os obriga a adaptar-se. Contudo, não deve ser esquecida a importância de uma análise que dê visibilidade a esta realidade concreta e traduza o “ponto de vista do trabalho”, de uma análise que avalie as situações de trabalho, os fatores de risco a que estão expostos os trabalhadores, capaz de sustentar a gestão das mudanças que se impõe implementar. Persistir sobre a importância de uma articulação entre o que se passa a um nível macro e micro de análise é assim imperativo (Schwartz & Durrive, 2007).