CAPÍTULO I DIALOGISMO COMO INTERCAMBIAÇÃO ARTÍSTICA
1.3 O Dialogismo Como Fio Condutor da Crônica Fernandesiana
1.3.1 Caracterização Dialógica de Personagens e Ambientes
Como fio condutor, as narrativas fernandesianas possuem o dialogismo em suas diversas especificidades e que são promotoras da intercambiação artística. Para isso, vale ressaltar que a caracterização física das personagens e do ambiente, nessas obras, são pulverizadas, e que, por isso, esses elementos são minimamente demarcados, quando o são. Isso remete ao fato de haver apenas inferências sobre o espaço onde ocorrem as manifestações de ideias e não se apresentarem descrições físicas das personagens, nem desses ambientes.
Revelam-se, assim, em alguns casos, apenas aspectos psicológicos projetados na aparência ―Mal saí à rua, encontrei Sancho com uma triste expressão de desapontamento‖ (FERNANDES, 2005, p. 65), ―Quando chega à casa, gosta de silêncio. Não há nada melhor para recuperar-se de um dia estafado que o silêncio‖ (Idem, p. 87); ―Você está parecendo um extraterrestre, Acríbeo!‖ (Idem, p. 99). No primeiro caso, só se sabe que o encontro ocorreu na rua, todavia não há registros da hora do dia, local específico, somente se considera o
espaço urbano. Já, no segundo caso, o narrador avisa que a personagem está em casa e ela ouve o tilintar do telefone, mas não especifica nenhum detalhe deste ambiente, embora deixa possível pista de que o horário esteja relacionado ao fim da tarde, pois implica a ideia de fim de expediente de trabalho. No terceiro exemplo, o encontro é promovido no mesmo instante em que a crônica é instaurada, mas não há sequer sugestão vaga do local onde ocorre o diálogo. Há, porém, sugestão do horário: de manhã, pois Acríbeo revela que acabara de acordar.
Isso se manifesta como recurso peculiar de garantir que o foco do leitor sejam os fios discursivos em detrimento de alusões a imagens representativas, remetendo à ideia de que as relações dialógicas, explícita ou implicitamente são apresentadas na obra em estudo. Em ―O inferno são os outros‖, evidenciam-se direta e indiretamente enunciados filosóficos ( alusão a Sartre) e religiosos ( alusão ao Cristo), tratam-se do dinamismo vivo, da linguagem real. Nessa crônica, o narrador autoriza, com o próprio distanciamento, a personagem Sancho comunicar-se com Acríbeo, possuir seus próprios enunciados e manifestar seus próprios posicionamentos a respeito do ―outro‖, bem como ouvir seu interlocutor e também apresentar uma posição responsiva.
Além dos diálogos instaurados entre as personagens Sancho e Acríbeo, há outro acima deles: o diálogo estabelecido com o leitor. E, embora a recepção não faça parte do escopo desta pesquisa, vale ressaltar a posição que o leitor assume ao compreender os fios enunciativos prenhes de sentidos, como o momento em que Sancho declara já ter assistido à peça Entre quatro paredes de Sartre. Nesse instante, o enunciador não chama o leitor, mas é como se o fizesse, pois requer desse interlocutor o conhecimento da peça sartreana para atribuir, ao diálogo das personagens, sentidos a partir dos signos relativos a Sartre, como desejo de aniquilar o outro, a má-fé, angústia e náusea56.
Para o filósofo da linguagem Bakhtin:
[...] na obra de arte, a resposta do autor às manifestações isoladas da personagem se baseiam numa resposta única ao todo da personagem, cujas manifestações particulares são todas importantes para caracterizar esse todo como elemento da obra. (2003, p. 4)
56 Segundo Sartre (1997), a má-fé consiste em mentir para si mesmo. Ainda na perspectiva sartreana (1969), a náusea se trata do ponto máximo da angústia; todavia, a náusea não está dentro do indivíduo, mas ele está dentro dela. Disso presume-se que o mundo seja a náusea.
Assim, em cada momento da existência histórica, o narrador lida com uma linguagem pluridiscursiva, uma vez que, o discurso constituinte das personagens e de sua própria fala, são permeados pelas palavras do outro da mesma época ou de épocas diferentes, bem como são carregadas das relações axiológicas individuais e inerentes àquele tempo.
Neste instante, retorna-se novamente à obra fernandesiana ―O inferno são os outros‖ com a finalidade de demonstrar que o autor-criador contempla uma ―[...] vontade discursiva do falante‖ (2003, p. 282) que se realiza primeiramente pela escolha do gênero do discurso. Dentro da lógica da crônica, as personagens discutem questões filosóficas como as dores do mundo, má-fé, angústia e náusea, mas a crônica não possui o grau zero da escritura57, ou seja, ela materializa questões filosóficas, promove relações dialógicas, mas isso é assumido pelas personagens que exercitam oralmente essa filosofia, uma vez que não ocorre no fio discursivo e enunciativo do objeto artístico. Dessa forma, o narrador entrega ao leitor a discussão filosófica de forma objetivada.
Segundo Bakhtin, no universo dialógico58 sempre captamos uma ideia no contexto de uma obra. Assim, o dialogismo se manifesta na crônica ―Silêncio‖ a partir das experiências dialogadas por Sontônio Bello e Geraldino Carro. Nessa obra, as personagens expõem, de forma convergente, o que é o silêncio e como os cidadãos têm ignorado esse importante legado de diálogo, pois para elas, o silêncio59 é também uma forma de comunicar-se. Essa afirmação edifica o pressuposto a partir do que não foi dito.
Essas personagens conceituam o silêncio, utilizando palavras e se posicionam a partir da afirmação de que se o ser humano não voltar a dar valor ao momento de não dizer nada, retomada ao momento antes da criação, estará fadado a ser apenas bicho enquanto não conseguir recuperar o próprio silêncio. Sugere-se assim, na crônica destacada, que a ausência de silêncio seja a configuração do niilismo em contraste com a existência humana. Nesse sentido, nessa crônica, o enunciado é afirmado, logo ele existe e se sugere uma contrapartida.
Se o dialogismo atua como fio condutor do gênero discursivo crônica, as relações dialógicas, componentes desse discurso literário, são o principal elemento estético a ser evidenciado a fim de promover um descortinamento do objeto artístico e cristalizar sua função
57 Ver Barthes (1971).
58 Esse universo dialógico contraria o monológico, haja vista que neste ou a ideia é afirmada ou negada, pois se não se configurar dessa forma, a ideia simplesmente deixa de ser uma ideia de significação plena e passa não existir.
59
Atitude mítica diante da inefabilidade do ser supremo. Segundo Wittgenstein, citado por Abbagnano (2012, p.1065), silêncio consiste também em uma atitude diante de algum problema ou de algo sobre o qual não se pode falar.
relativamente estável aliada aos efeitos estéticos como intercambiação artística. Já a ausência de alguns elementos da narrativa, remete à ideia de que a descrição física das personagens e o espaço não são propulsores de efeitos de sentido nos discursos artísticos das crônicas fernandesianas, bem como corroboram a desconstrução desse gênero, na contemporaneidade.
Nesse viés, verifica-se que os nomes dessas personagens constituem também um intercâmbio artístico, conforme será mostrado no próximo subcapítulo.