Segundo Marcelino (2003, p. 31), “O bairro do Peruche localiza-se na Zona Norte do Município de São Paulo, sendo um sub-distrito do Bairro da Casa Verde, ou seja, está sob responsabilidade da Administração Regional da Casa Verde – ARCV”. Um dado curioso é a sua distância efetiva de aproximadamente 6 km do marco zero da Capital. O bairro também caracteriza-se por construções com arquitetura da década de 50, residências, dormitórios, estabelecimentos comerciais que atendem à população local, e pequenas indústrias (Figuras 7 e 8).
Figura 7 - Mapa da localização geográfica do bairro do Parque Peruche [Fonte: MARCELINO, 2003, p. 28]
A história do Bairro Parque Peruche inicia-se em 1616. Muito antes de seu loteamento, um moinho de trigo foi construído onde hoje temos uma escola estadual, um posto de saúde e uma creche. Segundo Marcelino (2003, p. 33), o historiador Aureliano Leite (1939) descreve:
Na verdade, há cerca de dois quilômetros da residência de João Maxwell Rudge, na terceira colina ao fundo, ao sopé da qual corre o riacho do Mandaqui, esparralha-se uma casarona colonial; sede do Sítio Mandaqui, adquirido pelo Dr. Francisco de Paula Peruche dos herdeiros de Pedro Bicudo e transfeito no Parque Peruche, para a venda de terrenos em lotes. Atualmente, quase ignorada, foi ela bastante conhecida no começo do século passado. E consta que ali, em 1822, se desenrolaram episódios amorosos de D. Pedro I e a Marquesa de Santos, ou cenas de revolução de 1842, em que estiveram envolvidos a própria Marquesa e o seu já esposo Brigadeiro Tobias, Feijó, doente de morte, Antonio Carlos, Martins Francisco, Nicolau Vergueiro, o senador mineiro Padre José Bento, etc. Neste mesmo solar, dias depois, por uma noite invernosa de junho, procedentes de seu acampamento na ponte do rio Pinheiros, teriam dormido o ríspido general Barão de Caxias e seu estado-maior, quando aquele fez o Coronel Amorim Bezerra iniciar a sua marcha contra Campinas, via Jundiaí, cujo caminho era por ali. Trata-se de um prédio com sua capela no próprio corpo da habitação. Verdadeiramente senhorial (pela esplêndida colocação sobre uma esplanada natural, boleada para frente, para a esquerda e para a direita, e subindo, em suave declive, o morro dominante), apresenta autêntico feito primeiro, ostentando certo luxo nas largas portas de uma só folha espessa de cedro, com almofadões. Oferece ainda um quê de conforto nos dormitórios forrados já de taboas. No mais, abarracado, de chão em terra batida, porventura de Lages no passado, com grossas paredes de taipa de pilão e um largo alpendre coberto, ou pórtico, á entrada. A seu flanco, alinha-se a senzala de negros. Em que pese à opinião de Belmonte e outros, que conosco visitaram o prédio, dele examinando atentamente as ferragens dos batentes e outras minúcias internas, seiscentista, não nos parece provir da época pobre da caça ao índio, mas talvez da época rica de ouro ás arrobas.
O Parque Peruche já foi conhecido pelos moradores antigos pelo nome de Abissínia Paulista. Abissínia era o nome de um país do continente africano, hoje, Etiópia. Uma vez que no antigo casarão, a presença de escravos era constante, mesmo antes da Lei Áurea, muitos negros alforriados residiam no bairro. “Entre 1915 e 1940, deu-se início a verdadeira metropolização em São Paulo” (MARCELINO, 2003, p. 34), e naturalmente, as áreas rurais contíguas sofreram uma expansão do espaço urbano. Com o crescimento da população, tornou-se difícil conseguir alojamentos baratos. As classes desfavorecidas começaram então a se deslocarem para regiões mais distantes do centro da cidade. Desse modo, a partir de um loteamento nasceu, na década de 30, o bairro Parque Peruche, segundo Marcelino (2003, p. 35) em:
[...] uma área que pertencia ao Sítio do Mandaqui, mas que também sofreu uma divisão, passando para Chácara do Bicudo. Então, um médico chamado Francisco de Paula Peruche resolveu investir na compra desta área na região periférica norte da cidade de São Paulo, transformando-a em um terreno onde a finalidade era a venda em pequenos lotes, os quais se destinavam sempre para camadas menos favorecidas da população.
O Movimento Negro surge neste período quando a Frente Negra Liberal, por meio de uma cooperativa, proporcionou, aos negros, a aquisição de suas propriedades (Figura 9).
Figura 9 - Área formada pela oportunidade de aquisição de moradias. Mapa produzido pelo Centro de Estudos da Metrópole do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEM-Cebrap) [Fonte: DIAS, 2008)]
O bairro começou a se formar e, somente na década de 60, foi considerado oficialmente como um subúrbio-loteamento. Sua urbanização foi dificultada por causa do meio de transporte. Como não contava com vias ferroviárias, o ônibus foi o único meio de transporte público ao qual a população teve acesso.
Sua população inicialmente era composta em sua maioria por negros, mas o elemento branco e até o amarelo também chegou logo ao bairro, sendo inclusive marcante a presença de estrangeiros das mais variadas origens; porém sempre obedecendo a um perfil social. Ou seja, eram pessoas de poucas posses e que pretendiam ter uma casa própria, mesmo que para isso custasse muito sacrifício, visto que o transporte para a cidade ficava longe e o recém-criado Parque Peruche não possuía ao menos os recursos básicos necessários (MARCELINO, 2003, p. 37).
A população do bairro vive uma carência de locais de prática de lazer e atividades culturais. Por ter sido planejado para ser um bairro dormitório, os lotes foram planejados para acomodar residências. Além disso, faz parte da história esportiva do país, por ter sido berço de vários atletas, tais como, Ademar Ferreira da Silva no Atletismo, Serginho Chulapa e Mario Américo do futebol, Éder Jofre pugilista.
Apesar da falta de espaços para atividades culturais, o samba também fez-se presente no bairro. Entre as décadas de 50 e 90, os ensaios das escolas de samba, que era um encontro cultural da comunidade negra, eram realizados na rua. As principais escolas do Bairro, a exemplo da Escola de Peruche, do Morro da Casa Verde e do Império da Casa Verde, consistem no reduto do Samba de São Paulo, e localizam-se na região da Zona Norte e Parte da Leste.
Hoje os tempos mudaram, e a Império da Casa Verde e Peruche, com suas quadras com infra-estrutura mais profissional, são pontos de encontro da comunidade. O Morro da Casa Verde ainda faz seus ensaios na rua, e seus dirigentes mantém a organização tradicional da escola de samba como se fosse uma instituição familiar.