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3 DO EMPREGADO HIPERSUFICIENTE

3.1 CARACTERIZAÇÃO

A Lei n. 13.467/17 fixou determinados elementos essenciais que configuram a condição de empregado hipersuficiente, sem os quais não há qualquer possibilidade de que o trabalhador alcance esse status que lhe garante maior autonomia.

O referido dispositivo legal firmou como primeiro requisito para a caracterização do desta nova categoria, a condição de portador de diploma de nível superior. De sorte a permitir que apenas os trabalhadores que possuem certo grau de ensino, certificado por instituição credenciada pelos órgãos competentes, possam deliberar autonomamente sobre o seu contrato de trabalho.

Em segundo lugar, o legislador pontificou um critério econômico, fixando que apenas os empregados que recebam salário igual ou superior ao valor equivalente a duas vezes o limite máximo dos benefícios pagos pela Previdência Social do Brasil poderão figurar na condição de hipersuficientes.

Note-se que os valores de cunho previdenciário que a lei refere são atualizados anualmente pelo Ministério da Fazenda por meio de portaria divulgada em Diário Oficial. Em 2018, o teto dos benefícios da Previdência Social foi fixado em R$ 5.645,80, conforme o art. 2º da Portaria MF n. 15, de 16 de janeiro de 2018.

Dito isso, conclui-se que os elementos essenciais para a caracterização dos trabalhadores desta nova categoria de empregados é de que, além dos requisitos básicos da formação da relação de emprego, o indivíduo deve possuir ensino superior completo e, cumulativamente, perceber salário de acordo com quanto estipulado na norma legal.

Nesse ponto, é imperioso mencionar que, muito embora devam estar presentes os requisitos trazidos pelo novo dispositivo legal, o hipersuficiente mantém o seu caráter de subordinação, visto que é inerente a figura do empregado em seu contrato de trabalho.

Assim, malgrado o legislador tenha conferido maior autonomia para esses trabalhadores, a sua conduta será realizada mediante a existência de sujeição às ordens do empregador e dependência econômica, do mesmo modo que ocorre com os empregados em geral.

Vale, porém, destacar que o legislador, no parágrafo único do art. 444 da CLT, refere-se à percepção de “salário mensal igual ou superior a duas vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social”, não se confundindo esse limite mínimo com a remuneração recebida pelo empregado.

Diga-se, ainda, que o legislador não menciona que os requisitos previstos em lei não precisam estar presentes no momento da celebração do contrato. Na

realidade, a condição de trabalhador hipersuficiente deve ser aferida no momento em que se busca dar aplicação à autonomia prevista no parágrafo único do art. 444 da CLT.

3.1.1 Diferenciação quanto ao alto empregado

É possível observar que o tratamento do hipersuficiente não se confunde, de maneira alguma, com a figura do alto empregado, tendo em vista que estas espécies de trabalhadores possuem suas peculiaridades e, por consequência, disciplina legal distinta.

A primeira categoria comporta aqueles trabalhadores que mantém contrato de emprego nas condições mencionadas no parágrafo único do art. 444, da CLT, como já exposto, possuindo salário mensal igual ou superior a duas vezes o teto dos benefícios da Previdência Social, bem como o diploma de nível superior, e portanto, gozam de autonomia negocial dentro da relação laboral.

Os altos empregados, por sua vez, consistem naqueles trabalhadores com elevado grau de fidúcia, e que, portanto, recebem tratamento legal diferente dos empregados em geral. De acordo com as lições de Maurício Godinho Delgado, abarcam essa classificação os obreiros que ocupam cargos ou funções de confiança e gestão em geral, além dos diretores e da figura do sócio-empregado120.

Os ocupantes de cargos ou funções de gestão ou de confiança possuem tratamento legal disposto no art. 62 da CLT e, aqueles que laboram, especialmente no segmento bancário, estão pautados no art. 224 do referido dispositivo legal. A figura do diretor e das hipóteses do sócio empregado também possuem particularidades com amparo na legislação e na jurisprudência.

Naturalmente, estes empregados não possuem a autonomia prevista no novo regramento. De modo que, tais trabalhadores somente alcançarão o status de hipersuficiente se, e somente se, cumprirem os requisitos desta categoria de empregados. A título de exemplo, pode-se mencionar que um diretor empregado não

possuirá tal condição, se não dispor de nível superior completo e perceber salário equivalente aos parâmetros legais estabelecidos pela Reforma Trabalhista.

3.1.2 Dados e estatísticas

Para melhor compreender quem é o empregado hipersuficiente no cenário do mercado de trabalho brasileiro, de acordo com as diretrizes trazidas pela reforma trabalhista, vale-se, neste trabalho, dos dados estatísticos disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Segundo o IBGE, independente da renda auferida, apenas 13,8% dos trabalhadores empregados com carteira assinada possuíam, em 2010, diploma de nível superior e, 39% possuía ensino médio completo ou superior incompleto, conforme apontado no Relatório do Censo Demográfico de 2010 121 , último levantamento geral realizado pelo instituto.

Ainda segundo as estatísticas do órgão oficial, apenas 2,2% dos trabalhadores de todos as espécies de atividade remunerada possuía rendimento nominal mensal entre 10 e 20 salários mínimos122. Pontue-se que para a composição desse dado, foi considerado o salário mínimo da época, R$ 510 reais, e contabilizados os empregados, os trabalhadores do setor privado sem carteira assinada, funcionários públicos e domésticos, além dos autônomos.

Se considerarmos que, no ano de 2018, o valor nominal fruto da soma de duas vezes o teto dos benefícios da previdência social tem por resultado o valor de R$ 11.290,00, equivalente a aproximadamente onze salários mínimos, pode-se inferir, então, à luz dos dados disponibilizados no último censo, que os empregados hipersuficientes representariam menos de 2,2% da população ocupada com rendimento entre 10 e 20 salários mínimos.

121 IBGE. Censo Demográfico - 2010. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em:

https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/1075/cd_2010_trabalho_rendimento_amostra.pdf Acesso em 02 jul. 2018, p. 77.