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Capítulo 4: Os agentes económicos informais em Cabo Verde e em S Tomé e Príncipe: os rabidandes de Assomada e Praia e os candongueiros de S Tomé

4.2. Caracterização do espaço dos agentes económicos observados

Os empresários e as empresas que constituem o nosso objecto de estudo pertencem ao sector do comércio informal da área urbana em Cabo Verde e em S. Tomé e Príncipe. Aqueles

agentes económicos são conhecidos nos seus países por rabidantes e candongueiros, respectivamente.

A nossa observação recaiu sobre os rabidantes de Assomada e de Sucupira, na cidade da Praia, por serem os centros de maior concentração desses agentes económicos. Em Assomada, o mercado informal funcionava ao ar livre, apenas duas vezes por semana (quarta-feira e sábado). De acordo com informações recolhidas no terreno, a grande maioria dos negociantes que vendem no mercado de Assomada vem de diferentes pontos de Santiago e muitos vêm da Praia e escolhem fazer negócio nesses dias em Assomada porque pensam ganhar algum dinheiro. Em Sucupira, muitos rabidantes dispõem de estabelecimentos fixos (módulos e bancas) onde realizam as suas actividades. Em 2009, existiam perto de três centenas de módulos (pequenas lojas) de diferentes tipologias e qualidades e mais de duas centenas de bancas. Um número elevado de rabidantes fazia comércio no chão, à volta do espaço construído do mercado de Sucupira porque, tal como em S. Tomé, os espaços construídos pela Câmara Municipal eram manifestamente pequenos para o crescente número dos praticantes do comércio informal urbano. Este mercado só entrou em funcionamento a partir de Maio de 1999, quando os rabidantes de roupas e outros artigos de importação, que antes exerciam a sua actividade em Platô, a uma distância de cerca de 200 metros de Sucupira, foram transferidos para o novo mercado da cidade da Praia. Esta mudança teve por base a regulamentação da actividade dos rabidantes, em resultado do cumprimento de umas das recomendações do pacote das medidas ditadas por FMI, na sequência da adopção das medidas de John Williamson, saído do chamado Washington Consensus. Uma tal medida consistia no alargamento da base de incidência fiscal para aumentar os recursos financeiros do Estado de maneira a reduzir o défice orçamental. Situação semelhante viria a ocorrer em S. Tomé e Príncipe, anos mais tarde, com resultados diferentes, devido a uma maior fragilidade das suas instituições. Neste país, a transferência dos candongueiros da Feira do Ponto para o Mercado Novo, a distância entre os dois pontos é de cerca de 150 metros, só aconteceu em 2006. Desde o início da sua construção, que começou a ser arquitectada em meados dos anos noventa do século XX, o Mercado Novo esteve envolvido em muitas polémicas e notícias de corrupção com participação de individualidades do meio político local.

Em qualquer dos mercados urbanos, a Câmara cobrava uma taxa pela ocupação (arrendamento ou cedência) do espaço (módulo ou banca) que variava de acordo com a dimensão e qualidade do mesmo.

Em Cabo Verde, os espaços foram distribuídos de forma mais ou menos pacífica e transparente de acordo com critérios pré-estabelecidos: em primeiro lugar estavam os mais antigos que exerciam esta actividade no Platô e depois os de maior número de agregado familiar, ocupantes de bancas, etc.

Até Novembro de 2008, no mercado de Sucupira, ao contrário do Mercado Novo, não se vendiam bens de subsistência (hortaliças, tubérculos, peixes, carnes, etc.) produzidos no mercado interno. Era um mercado de vendas de produtos de importação. Porém, uma decisão do Presidente da Câmara Municipal da Praia, em Outubro de 2008, em nome de limpeza para futuros investimentos turísticos no Platô, determinou a retirada daquelas mulheres rabidantes de bens de produção local, que vendiam os seus produtos no chão em toda a extensão da Rua 5 de Julho até a Avenida Amílcar Cabral, por não caberem no Mercado Central do Platô, para o largo de Sucupira e outros mercados próximos, nomeadamente os mercados de Achada de Santo António, Achadinha, Vila Nova e Terra Branca, a partir de 15 de Novembro de 2008 (cf. JLC, 21 de Outubro de 2008 e O jornal A Nação, 12 Fevereiro 2009). Por conseguinte, a partir de finais de 2008, Sucupira é um enorme mercado onde se compra e vende de tudo, sejam bens de importação ou de subsistência de produção local.

Escolhemos um grupo mais heterogéneo possível de entrevistados de maneira a cobrir todas as situações que pudessem servir de base para a comparação das dinâmicas empresariais pretendida nos dois países o que não seria possível com grupos homogéneos, na medida em que, o que se pretendia, é a construção de uma base para estabelecer comparações entre as práticas e estratégias empresariais desses pequenos Estados insulares africanos e encontrar pistas para uma possível generalização.

Tal como foi referido por Grassi (2003), por detrás de uma mulher rabidante existe um homem que lhe serve de amparo. A figura do homem confere à mulher uma maior segurança e inserção social no meio ambiente, pois, através dele, seja marido, tio ou irmão, os problemas burocráticos são mais facilmente resolvidos, além da respeitabilidade que goza no meio. Em S. Tomé e Príncipe, a situação não é muito diferente daquela que observámos em Cabo Verde, mas notámos, contudo, que as mulheres são-tomenses sentem a necessidade de dizer que têm um marido, mesmo que ele só apareça de quando em vez e tenha outras mulheres. A sua ligação a um homem parece elevar a sua auto-estima, mesmo que esse homem lhe dê pouca atenção ou ajuda financeira. A razão disto é que as mulheres que não têm marido são encaradas nos meios locais como estando disponíveis para um homem qualquer e sofrem pressão de outras mulheres que têm seus maridos. Por conseguinte, a presença, ainda que