4 ASPECTOS METODOLÓGICOS DO TRABALHO
4.1 CARACTERIZAÇÃO DO GÊNERO EDITORIAL E DO CORPUS
Como informado anteriormente, nosso corpus específico é formado de doze editoriais jornalísticos publicados aos domingos do primeiro semestre de 2014, em dois jornais de grande circulação em Recife, o DP e o JC. Foram selecionados 6 editoriais de cada jornal, um de cada mês.
O editorial faz parte dos gêneros da esfera jornalística (MARCUSCHI, 2008). Sua função principal é informar aos leitores a opinião coletiva do jornal. Mesmo assim, é preciso entender que ele é escrito não pelo jornal como um todo, mas sim por alguém que tem importância social como representante desse jornal. A respeito disso, Araújo (2007, p. 814) reforça essa informação, destacando que “embora o editorial venha marcado pela ausência de assinatura, há um indivíduo que o produz, um sujeito empírico do enunciado, um ser da experiência, o autor do texto”. Esse indivíduo pode ser representado também por um grupo de editorialistas.
Tematicamente, os editoriais discutem assuntos relevantes na sociedade, como política ou economia. Numa observação mais superficial, esse gênero pretende atingir o leitor do jornal. Se analisarmos, entretanto, o papel do jornal na sociedade, veremos que há outros objetivos para o editorial. Araújo (2007) observa que:
Uma vez que o editorialista possui como enunciatário o leitor do jornal, mas visa a atingir o Estado e suas organizações, verificamos que o editorial possui dois grandes objetivos: i) persuadir o leitor do jornal para que ele adira à tese defendida no editorial; ii) coagir o Estado e organizações não
governamentais na defesa dos interesses dos segmentos empresariais e financeiros e interesses da coletividade, incitando-os a uma determinada postura ou atitude, ou mesmo elogiá-los perante alguma atitude tomada (ARAÚJO, 2007, p. 818).
Assim, percebemos que o editorial não só se presta a convencer o leitor da opinião coletiva do jornal, mas também funciona como uma forma de mostrar essa opinião ao Estado, exercendo uma pressão para que mudanças gerais sejam providenciadas ou seus interesses sejam atingidos. Analisando a estrutura desse gênero textual, Medeiros e Câmara (2010) corroboram com essa ideia, mostrando que o editorial
não apresenta uma estrutura totalmente fixa, como também sua produção não possui regras específicas a não ser a ideia de que o editorial visa alcançar um objetivo que servirá àqueles que o produzem. No mais, sua produção sempre se dará de acordo com temáticas e propósitos ligados ao funcionamento do meio em que este é produzido e no qual circula (MEDEIROS; CÂMARA, 2010, p. 7-8)
Essa caracterização também foi observada nos editoriais que compuseram nosso corpus específico. Não há uma estrutura exata predeterminada, mas um caráter essencialmente argumentativo, o que sempre será caracterizado pela defesa de um ponto de vista a respeito de um tema problematizado e relevante socialmente. Nos doze editoriais analisados, sempre havia essa discussão a respeito de temas correntes na sociedade.
No editorial JC01, “País do crack – a epidemia”, publicado em 19 de janeiro de 2014, aborda-se o tema das drogas. O texto informa a situação nacional em relação ao consumo de crack e/ou similares, sobretudo no Nordeste, região mais afetada pelo uso desse tipo de droga.
No editorial JC02, “O palácio restaurado”, publicado em 23 de fevereiro de 2014, comenta-se a respeito da restauração do Palácio do Campo das Princesas, sede do governo do estado de Pernambuco. O texto retoma um pouco da história do Estado e discute a falta de consciência histórica por parte de muitos pernambucanos.
No editorial JC03, “O tribunal da discórdia”, publicado em 09 de março de 2014, debatem-se as desavenças entre ministros do Supremo Tribunal
Federal. O texto aborda algumas das consequências que esses desentendimentos podem trazer para a legitimidade dessa corte.
No editorial JC04, “Longevidade digna”, publicado em 06 de abril de 2014, aborda-se o descaso com os idosos no Brasil. O texto traz dados que comprovam o crescimento da população dessa faixa etária no país, indicando algumas medidas que podem ser tomadas para melhorar a situação da terceira idade no estado de Pernambuco.
No editorial JC05, “Falta pouco”, publicado em 18 de maio de 2014, informa-se a expectativa gerada em torno da proximidade com a Copa do Mundo do Brasil, em 2014. São discutidas questões como os gastos com o evento, o atraso e a utilidade das obras a ele relacionadas.
No editorial JC06, “Sobrado vira mocambo”, publicado em 15 de junho de 2014, denuncia-se o estado de abandono em que se encontra a Casa- -Museu Gilberto e Magdalena Freyre. O texto retoma temas discutidos em outros editoriais, como os gastos com a Copa e a restauração do Palácio das Princesas.
No editorial DP01, “Acessibilidade é direito de todos”, publicado em 12 de janeiro de 2014, aborda-se o direito à acessibilidade no país. Discutem-se as diversas barreiras que ainda existem para que os deficientes gozem de sua cidadania plena no Brasil.
No editorial DP02, “Futebol coberto de vergonha e luto”, publicado em 16 de fevereiro de 2014, trata-se dos episódios de racismo por que passou o futebol em 2014. No texto, são relatadas algumas situações ocorridas pelo mundo nas quais jogadores de futebol sofrem preconceito por parte da torcida por causa de sua cor.
No editorial DP03, “A verdade é que vale para a Petrobrás”, publicado em 30 de março de 2014, relatam-se as denúncias envolvendo corrupção na estatal. O texto analisa a postura do governo frente às investigações e as consequências da corrupção para a empresa.
No editorial DP04, “Legislativo sem aventureiros”, publicado em 06 de abril de 2014, aborda-se o crescente descrédito da população em relação ao Poder Legislativo. Analisam-se as possíveis causas desse descrédito, mostrando as consequências negativas para a imagem da casa.
No editorial DP05, “Claque de aluguel”, publicado em 04 de maio de 2014, continua-se a discutir o descrédito da população para com deputados e governantes. A partir de um episódio no qual um grupo de pessoas foi contratado para aplaudir deputados que votavam um projeto na Câmara, o texto analisa a imagem do Congresso frente à opinião pública.
No editorial DP06, “Desumanidade”, publicado em 01 de junho de 2014, procede-se a uma crítica bastante ácida ao caso do sequestro de 276 jovens nigerianas pelo fato de elas terem frequentado a escola. O texto caracteriza esse tipo de situação como barbárie, comparando o episódio da Nigéria a alguns outros ocorridos pelo mundo.
Como se pôde observar, então, no resumo dos doze editoriais, os temas tratados nos textos são sempre contemporâneos a sua publicação. Os editoriais fornecem o posicionamento do jornal a respeito desses acontecimentos (locais ou mundiais). Em sua maioria, os editoriais que aqui analisamos discutem política e cidadania.