4 O PARQUE ESTADUAL DA FONTE GRANDE (VITÓRIA/ES)
4.4 CARACTERIZAÇÃO DO PARQUE ESTADUAL DA FONTE GRANDE
4.4.1 Aspectos fisiográficos
De acordo com o seu Plano de Manejo (ESPÍRITO SANTO, 1996), o PEFG possui 218 hectares e está situado a sudoeste do município de Vitória, possibilitando a visualização panorâmica de boa parte do município, da Baía de Vitória e de municípios adjacentes. Limita-se, ao norte, com a região da Grande São Pedro, ao sul, com o centro da cidade, a leste, com propriedades vizinhas aos bairros Fradinhos e Jucutuquara, e, a oeste, com propriedades vizinhas aos bairros de Santo Antônio, Caratoíra e Boa Vista. O PEFG possui um Centro de Educação Ambiental (CEA), localizado à latitude de 20°18’32”S e à longitude de 40°20’29”O.
O PEFG está inserido no Maciço Central de Vitória, pertencente ao Domínio Morfoclimático Tropical Atlântico de Mares de Morros Florestados, cuja região faz parte do complexo da Serra do Mar, considerada o primeiro degrau do Planalto Atlântico. Sua estrutura geológica é predominantemente constituída de rochas do embasamento cristalino cambriano, composto por granitoides, migmatitos e gnaisses bastante vulneráveis aos processos de intemperismo. Integrante da região fitoecológica da Floresta Ombrófila Densa Sub-montana de influência eólica, com fitofisionomia de Mata Atlântica de Encosta (GRIFFO; SILVA, 2013), e pertencente à Província Zoogeográfica Tupi, sua vegetação é típica de locais de elevados índices de chuva, caracterizada como Mata Costeira e com predominância de vida arborícola e poucos campos naturais (ESPÍRITO SANTO, 1996).
A origem do nome do parque está relacionada a uma das duas fontes que, no passado, abasteciam a ilha de Vitória: a Fonte Limpa e a Fonte Grande. A elevação, onde esta segunda fonte se originava, foi assim denominada de “Morro da Fonte Grande”, a qual deu origem, posteriormente, ao nome do parque. Em agosto de 1986, foi publicado, no Diário Oficial, a Lei Estadual n° 3.875, que criou o Parque Estadual da Fonte Grande3. Seis anos depois, em setembro de 1992, a Prefeitura
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O parque foi criado por uma Lei Estadual, mas sua gestão é de responsabilidade do Poder Público Municipal, precisamente da Secretaria Municipal de Meio Ambiental (SEMMAM/PMV).
Municipal de Vitória criou a Área de Proteção Ambiental (APA) do Maciço Central de Vitória (figura 30), pelo Decreto n° 8.911, integrando áreas do próprio PEFG e outras unidades de conservação municipais, como o Parque Municipal da Gruta da Onça e a Reserva Ecológica Pedra dos Olhos (ESPÍRITO SANTO, 1996). Uma APA, segundo o SNUC (BRASIL, 2000), constitui uma área geralmente extensa, com um determinado grau de ocupação humana e aspectos bióticos, abióticos, estéticos e culturais relevantes para a qualidade de vida das pessoas, e busca proteger a diversidade biológica, controlar o processo de ocupação humana e garantir a sustentabilidade no uso da natureza.
Figura 30 – Mapa do município de Vitória destacando a demarcação do PEFG, inserido na APA do Maciço Central de Vitória (seta vermelha)
Fonte: Adaptado do Plano de Manejo do PEFG (ESPÍRITO SANTO, 1996)
4.4.2 A fauna e a flora
No que tange à fauna, segundo o Plano de Manejo do PEFG (ESPÍRITO SANTO, 1996), esta unidade de conservação apresenta-se com características representativas da Mata Atlântica, apesar das consideráveis alterações sofridas em consequência da ação antrópica. Entre os mamíferos, destacam-se o Callithryx geoffroyi (saguí-da-cara-branca) (figura 31), o Didelphis marsupialis (gambá) e o Desmodus rotundus (morcego-vampiro).
As aves constituem o grupo mais nítido e facilmente perceptível do parque, sobretudo o Pitangus sulphuratus (bem-te-vi), o Colaptes campestris (pica-pau), o
Mimus saturninus (sabiá-do-campo), o Passer domesticus (pardal) e o Amazilia fimbriata (beija-flor-de-cauda-verde).
Anfíbios e répteis também são representativos e com diversidade relativamente rica, agregando espécies de ocorrência comprovada e outras que provavelmente estão ali presentes. O Bufo crucifer (sapo-comum), o Ameiva ameiva (calango-verde), o Tupinambis cf. teguxin (teiú) (figura 32) e a Philodryas olfersii (cobra-verde) são facilmente detectáveis por meio da sensorialidade na mata, visual e/ou auditivamente.
Figuras 31 e 32 – Fotos do saguí-da-cara-branca (Callithryx geoffroyi) e do teiú (Tupinambis cf.
teguxin) em meio à mata e às rochas, observáveis e audíveis em alguns trechos do parque
Fonte: Wilson de Souza e Sérgio Suanno (crédito)
Os invertebrados mais comuns de serem observados são: o Antimiopterux rústica (louva-a-deus) e as borboletas-azuis do gênero Morpho.
A flora do parque configura-se como mata secundária, tendo como remanescente a vegetação rupestre, efeito direto das inadequadas práticas agropastoris em anos anteriores, as quais ainda se manifestam em pequenas parcelas do local. Após o abandono da área, a vegetação recuperou-se naturalmente, ocasionando a permanência de espécies endêmicas, como a Cedrela fissilis (cedro) e a Piptadenia gonoachanta (jacaré) (ESPÍRITO SANTO, 1996).
A vegetação de capoeirão apresenta-se reduzida a pequenas parcelas, com altura aproximada de 20 metros, tendo como algumas representantes da mata secundária arbórea a Galezia integrifolia (pau-d´alho) e a Ficus clusiifolia (mata-pau) (figura 33), além da ameaçada de extinção Dalbergia nigra (jacarandá). No estrato arbustivo, é
comum serem encontrados a Coffea arabica (café), e, no estrato herbáceo, a Paullinia weinmanaefolia (cipó) (figura 34), a Cattleya guttata (orquídea) e a Micrograma vaccinifolia (samambaia). Já a capoeirinha, que não ultrapassa os 10 metros de altura, tem como representante arbóreo o Gochnatia polymorpha (camará) e a Zeyhera tuberculosa (ipê-felpudo), enquanto no estrato arbustivo o Schinus terebinthifolius (aroeira) e no herbáceo o Cnidosculus urens (pinão). Além dessas tipologias predominantes, o Plano de Manejo do PEFG também faz referência à macega (basicamente constituída por camará), aos campos (sujos e limpos) e à vegetação rupestre (encontrada nos afloramentos rochosos), reflorestamentos, culturas agrícolas e fruteiras (ESPÍRITO SANTO, 1996).
Figuras 33 e 34 – Fotos do mata-pau (Ficus clusiifolia) e do cipó (Paullinia weinmanaefolia) em meio a uma das trilhas do parque
Fonte: Wilson de Souza e Sérgio Suanno (crédito)
4.4.3 O PEFG como Unidade de Conservação de Proteção Integral
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), em seu Art. 7°, regulamenta duas categorias de Unidades de Conservação, a saber: (1) Unidades de Conservação de Proteção Integral; (2) Unidades de Conservação de Uso Sustentável. O objetivo das Unidades de Conservação de Proteção Integral é preservar a natureza, admitindo o uso indireto dos seus recursos naturais (aquele uso que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição desses recursos), ao passo que as Unidades de Conservação de Uso Sustentável admitem a compatibilidade da conservação da natureza com o uso sustentável de parte dos
seus recursos naturais (BRASIL, 2000). A categoria das Unidades de Conservação de Proteção Integral, por sua vez, é composta por cinco sub-categorias, quais sejam: (I) Estações Ecológicas; (II) Reservas Biológicas; (III) Parques Nacionais; (IV) Monumentos Naturais; e (V) Refúgios de Vidas Silvestres.
O PEFG está enquadrado na sub-categoria III (Parques Nacionais) das Unidades de Conservação de Proteção Integral, a qual engloba os Parques Estaduais do território nacional, possuindo “[...] todos os seus limites envolvidos pela APA do Maciço Central que atua como zona de amortecimento” (GRIFFO; SILVA, 2013, p. 59). O objetivo básico de um Parque Estadual, inserido no contexto dos Parques Nacionais, consiste em preservar
[...] ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico. (BRASIL, 2000, p. 23)
Em consonância com o SNUC, a promoção de visitas públicas ao PEFG está subordinada às normas e restrições determinadas no seu Plano de Manejo, estabelecidas pela SEMMAM/PMV, órgão responsável pela sua administração e pela expedição de autorização prévia para a pesquisa científica e atividades de educação ambiental. Assim sendo, e em obediência às normas do Plano de Manejo, solicitamos a autorização da referida Secretaria para a realização de nossa pesquisa (APÊNDICE B), a qual, gentilmente, nos autorizou por meio do Termo de Compromisso de número 12/2015, em face da protocolização do Processo de número 5053660/2015 (ANEXO E).
No que se refere à estruturação do PEFG para visitação, o Plano de Manejo estabelece diretrizes relativas à promoção do conhecimento, apreciação, compreensão e interação dos sujeitos com os seus recursos ambientais e culturais, a partir do Subprograma de Interpretação Ambiental (ESPÍRITO SANTO, 1996), e cujas atividades envolvem tanto a exploração das trilhas interpretativas, com o mínimo de impacto causado sobre a vegetação, quanto a contemplação e a interpretação nos mirantes naturais associados às trilhas.
Já no Subprograma de Educação Ambiental, também presente no referido Plano de Manejo, é marcante a preocupação com o desenvolvimento da percepção e da compreensão sobre os recursos ambientais do PEFG como patrimônio sociocultural e econômico indispensável à sustentabilidade da qualidade de vida e ao aprimoramento humano e ecológico do cidadão. Entre seus objetivos, destacam-se: (a) o estímulo ao uso do parque e dos seus recursos pela rede escolar; e (b) a oportunidade para que estudantes e professores possam “[...] desenvolver estudos técnicos, científicos, métodos e práticas de conservação e educação ambiental” (ESPÍRITO SANTO, 1996, p. 51).