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Caracterização geral das orações completivas

Capítulo 4. Infinitivo impessoal e flexionado em orações subordinadas

4.1 Caracterização geral das orações completivas

Neste capítulo, abordaremos o uso do infinitivo em português nas orações subordinadas substantivas completivas quer as que contêm o infinitivo não flexionado/impessoal quer as que contêm o infinitivo flexionado.

As orações subordinadas completivas são tradicionalmente designadas

substantivas, pois possuem uma distribuição semelhante à das expressões nominais,

podendo ser substituídas por um SN ou pelo pronome demonstrativo isso. Observemos a sua estrutura simplificada:

(1)

Como se observa pela estrutura, a oração completiva é argumento interno, é complemento do verbo “criticar” contido na frase superior.

As orações completivas podem assumir as funções atribuídas a uma expressão nominal: sujeito (2a), complemento direto (2b), complemento preposicional (2c), complemento nominal (2d), predicativo do sujeito (2e), complemento adjetival (2f).

(2) a) [Não teres entregue o relatório a tempo e horas] surpreende-me. b) O professor criticou [teres batido no teu melhor amigo].

c) A minha mãe obrigou-me [a ter os cadernos sempre em ordem]. d) A possibilidade [de ter um carro novo] alegra-me.

e) O mais importante é [teres bons amigos].

f) Os jogadores estão alegres [por fazerem parte da equipa do Mourinho].

O professor criticou isso SN ST T’ SV T V SN

Figura 8: Estrutura sintática de uma construção com oração completiva pronominalizada

Figura 7: Estrutura sintática de uma construção com oração completiva O professor criticou [-] teres batido no meu amigo ST T’ SV SCOMP COMP’ T V SN COMP ST [ø]

99 Como os exemplos já revelam, as orações subordinadas completivas podem ser selecionadas por nomes, verbos e adjetivos, designando-se a construção de complementação nominal (2d), verbal (2a), (2b) ou adjetival (2f) consoante a natureza do núcleo que seleciona a completiva.

Regra geral, as orações completivas infinitivas não possuem um complementador realizado lexicalmente, à exceção de alguns verbos declarativos de ordem que podem selecionar o complementador para34 (3a) ou se na subordinação

interrogativa indireta (3b). Acrescente-se ainda as preposições a, de, em e por que são selecionadas por alguns verbos (3c), (3d) ou nomes (3e), (3f). (Barbosa e Raposo, 2013, p. 1914).

(3) a) Eu disse [para saíres].

b) “Face a este espetáculo, não sei [[or se rir] ou [or se chorar]].” (Barbosa &

Raposo, 2013, p. 1915)

c) “Obrigaram as crianças a examinar atentamente o problema” (Barbosa & Raposo, 2013, p. 1914)

d) “Insisto em oferecer-te o jantar”. (Barbosa & Raposo, 2013, p. 1914) e) “A minha filha sentiu um enorme [orgulho em/por ter passado o ano].

(Barbosa & Raposo, 2013, p. 1914)

f) “A [tentativa de fugir da prisão] falhou.” (Barbosa & Raposo, 2013, p. 1914)

Os complementadores “para” e “se” fazem parte da própria oração infinitiva, enquanto as preposições “a”, “de”, “em” e “por” são selecionadas pelo predicador e não integram a oração infinitiva.

Como é visível nos exemplos, as orações subordinadas substantivas completivas infinitivas tanto podem aparecer com verbo no infinitivo impessoal / não flexionado, como no infinitivo pessoal/ flexionado, de acordo com várias propriedades, o tipo de sujeito da oração completiva e principalmente a natureza semântica do predicado verbal /adjetival /nominal que seleciona a própria oração completiva. Analisaremos adiante as construções que aparecem com infinitivo impessoal/não flexionado e as construções que aparecem com infinitivo pessoal/flexionado.

34 “Para” é aqui um complementador e não uma preposição simples porque a sua distribuição é paralela à do complementador “que”. Dessa forma, “para” não pode coocorrer com “que” (Duarte, 2003d, p. 621). Veja-se também a análise das orações subordinadas adverbiais finais, capítulo 5.3.

100 Dessa forma, um dos factos fundamentais para se perceber o tipo de oração infinitiva selecionada é a categoria e a natureza semântica do predicado superior. Tome- se em primeiro lugar as orações completivas selecionadas por predicados adjetivais.

Os exemplos de (4) ilustram construções com infinitivo não flexionado/impessoal. Os exemplos (4a) e (4b) contêm adjetivos avaliativos de uso factivo e o exemplo (4c) tem um adjetivo modal.

(4) a) É comovedor [[-]PRO ter havido tantos donativos para a UNICEF].

b) [[-]PRO Estar a chover em Agosto] é estranho.

c) É necessário [[-]PRO haver eleições de quatro em quatro anos].

Nos exemplos de (4), o sujeito da oração completiva é um PRO impessoal/arbitrário e a ocorrência de um verbo impessoal/existencial como “haver” ou de verbos meteorológicos como “chover” favorece o uso de infinitivo não flexionado.

Os exemplos de (5) ilustram construções com adjetivos avaliativos de uso factivo35, que, como vemos, admitem na oração completiva o uso de infinitivo flexionado, por vezes, mesmo a nominalização da oração completiva (veja-se 5c; 8b/c).

(5) a) É lamentável [o facto de [-] teres perdido a pulseira]. b) É lamentável [[-] teres perdido a pulseira].

c) É lamentável [o [-] teres perdido a pulseira]. (6) É complicado [[-]sair de casa].

(7) [[-]Ter tido um acidente vascular cerebral] é complicado. (8) a) É complicado [[-]viveres nessas condições].

b) É complicado [o facto de [-] viveres nessas condições]. c) É complicado [ o [-]viveres nessas condições].

(9) É difícil [[-] ler estes livros todos numa semana].

35

Alguns dos adjetivos avaliativos factivos são: aborrecido, agradável, angustiante, animador, bizarro, bom, censurável, comovedor, contagiante, decisivo, desagradável, desgostante, emocionante, estranho, fastidioso, honroso, humilhante, impressionante, justo, lamentável, maçador, perigoso, perturbador, reprovável, satisfatório, simpático, surpreendente, trágico, benéfico, complicado, custoso, difícil, fácil, simples, urgente, útil (Brito, 1983/1989, p. 280).

101 O exemplo (10a) ilustra uma construção com adjetivos epistémicos36e os exemplos de (10b/c/d) com adjetivos modais37:

(10) a) É certo [[-]teres um carro na próxima semana].

b) É necessário [[-] termos os passaportes sempre em dia]. c) [[-] termos os passaportes sempre em dia] é necessário. d) É necessário [o [-] termos os passaportes sempre em dia].

Como verificamos pelos exemplos, a oração completiva pode aparecer em posição inicial de sujeito ou depois do adjetivo. Em construções de não correferencialidade de sujeitos e quando o sujeito da oração completiva não é um sujeito genérico, ocorre preferencialmente o infinitivo flexionado, como nos exemplos apresentados anteriormente.

Também os nomes podem selecionar orações subordinadas completivas. Barbosa e Raposo (2013, p. 1937) distinguem as orações completivas tendo em conta a relação que estabelecem com o nome: oração completiva verdadeira (11a) (completa o sentido do nome e pode ser substituída pelo demonstrativo neutro isso) e oração especificativa (não pode ser substituída por isso), veja-se (11b).

(11) a) “[A ânsia de ter(mos) mais dinheiro] levou-nos a assaltar um banco.” (Barbosa & Raposo, 2013, p. 1937)

b) “A nossa ânsia disso levou-nos a assaltar um banco.” (Barbosa & Raposo, 2013, p. 1937)

c) “[A hipótese de fazer(mos) férias nos Açores] agrada-nos.” (Barbosa & Raposo, 2013, p. 1937)

d) “*A hipótese disso agrada-me.” (Barbosa & Raposo, 2013, p. 1937)

Em (12) temos um nome epistémico; como na completiva o verbo é impessoal (“haver”), ocorre infinitivo não flexionado.

(12)É uma certeza [ PRO haver novas eleições].

Nos exemplos (13) e (14) temos o uso de infinitivo flexionado pois a oração tem sujeito próprio. De acordo com a Gramática Generativa, o sujeito nulo pronominal nas orações de infinitivo flexionado é um [pro]. Em (13), (14a) e (14b) o nome é avaliativo factivo, em (14c) é epistémico.

36 Os adjetivos epistémicos são: certo, ciente, consciente, sabedor, seguro, claro, nítido, óbvio, visível. (Duarte, 2003d, p. 600).

37 Os adjetivos modais são: contingente, desnecessário, falso, impossível, improvável, necessário, obrigatório, permitido, possível, provável, verdadeiro (Brito, 1983/1989, p. 281).

102 (13) a) É um perigo [[-] saltares esse muro].

b) [[-] Saltares esse muro] é um perigo.

c) [O [-] saltares o muro tão depressa] é um perigo.

(14) a) A chatice está [em nós termos partido a jarra de vidro].

b) O benefício [de [-] estares perto de casa prevaleceu na tua decisão]. (infinitivo flexionado)

c) É uma certeza [[-] irmos ao cinema hoje]

Assim, nomes avaliativos factivos38, nomes epistémicos39, nomes declarativos40, entre outros, podem selecionar completivas de infinitivo flexionado e não flexionado. A distribuição do infinitivo flexionado e do infinitivo não flexionado relaciona-se com as propriedades da oração, nomeadamente a presença de sujeito próprio na oração completiva e as propriedades semânticas do predicado superior. Em certos casos, a oração completiva pode ser nominalizada, como em (13c). Voltaremos a tudo isto nos capítulos seguintes. O foco da nossa atenção serão as completivas selecionadas por verbos, mas antes da análise das completivas infinitivas em complementação verbal, observaremos o que é dito na literatura sobre a expressão de temporalidade do infinitivo nestas construções.