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CARACTERIZAÇÃO IN LOCO DO PROGRAMA MESA BRASIL

O programa Mesa Brasil trata-se de uma iniciativa do Departamento Nacional do Serviço Social do Comércio (SESC) que foi estruturado e difundido simultaneamente no ano de 2003 em todos os estados brasileiros em um contexto de desenvolvimento do Regime Nacional de Segurança Alimentar com base no Projeto Fome Zero durante a gestão do governo Lula.

O desenvolvimento do programa Mesa Brasil pelo SESC de Boa Vista fundamentou-se em uma concepção de rede de solidariedade com base nas normas do Departamento Nacional do SESC em termos de redistribuição de alimentos excedentes, de combate ao desperdício e garantia da segurança alimentar e nutricional com base em uma culinária social.

Embora possuindo autonomia operacional, o Programa Mesa Brasil do SESC de Boa Vista adota um logo padrão (figura 23A) e segue diretrizes nacionais presentes nos manuais do Departamento Nacional do SESC, “Mesa Brasil: Rede Nacional de Programas contra a fome e o desperdício de alimento” (SESC, 2003) e “Guia do Programa Mesa Brasil SESC (SESC, 2017).

As atividades de coordenação e intermediação entre doadores, receptores e voluntários desenvolvidas no Programa Mesa Brasil pelo SESC de Boa Vista conta com 5 colaboradores contínuos, 1 gerente, 2 assistentes administrativos, 1 auxiliar de serviços gerais, 1 motorista (figura 23B), além de outros colaboradores não contínuos, como nutricionista, culinarista, professores e palestrantes.

Figura 23 - Imagens do Programa Mesa Brasil, SESC de Boa Vista

Fonte: Organização própria (PADILHA; MENDES; SENHORAS, 2019). Base de dados: SESC-RR (2017; 2018).

O sistema dinâmico de fixos de doação e recepção de alimentos é a parte essencial de materialização do Programa Mesa Brasil, sendo conformado por um amplo cadastro de instituições e pessoas físicas, as quais podem ser visualizadas na figura 23C em evento de socialização promovido pelo SESC em 2018.

Como ator funcional no desenvolvimento do Mesa Brasil, balizado pelos princípios de cidadania e solidariedade, o voluntariado é uma parte essencial do programa que se materializa pela participação ativa de voluntários de determinados doadores, mas principalmente das instituições receptoras de alimentos, em atividades de seleção, carregamento e distribuição, haja vista que ainda não existe um banco de voluntários cadastrados (figura 23D).

Em função da rede conformada pelo sistema de doadores e receptores de alimentos e pelo sistema de intermediação (SESC) e de voluntariado (pessoas físicas), o objetivo primário no desenvolvimento da segurança alimentar e nutricional reside na redistribuição e aproveitamento integral de alimentos, sendo identificado em sua evolução pelo volume de doações arrecadadas ao longo do tempo, entre 2003 e 2018.

Sob o prisma quantitativo, o programa Mesa Brasil desenvolvido pelo SESC de Boa Vista possui indicadores brutos de evolução crescente no objetivo primário de arrecadação de alimentos (gráfico 13), não obstante a volatilidade da arrecadação seja uma característica estrutural em função problemas de safras ou de desaceleração econômica.

Gráfico 13 - Evolução do volume de doações

Fonte: Elaboração própria. Base de dados: SESC-RR (2018).

Conforme se pode observar no gráfico 13, o programa Mesa Brasil somente conseguiu desenvolver melhorias no padrão de segurança alimentar em Boa Vista e em alguns municípios do

2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018

interior em função do volume de alimentos arrecadados ao longo do período de conformação do programa, entre 2003 e 2018, totalizando 5.066.898.038 Kg de alimentos doados que chegaram às mesas de famílias em condição de vulnerabilidade social.

Quando se leva em consideração o perfil de alimentos arrecadados pelo Programa Mesa Brasil do SESC de Boa Vista, observa-se, tanto, alimentos in natura excedentes ou industrializados com uso final direto (figura 24A), quanto, alimentos desperdiçados, que perderam valor comercial ou com algum grau de dano que potencialmente podem passar por seleção e aproveitamento integral nas práticas de culinária social (figura 24B).

Como programa multisetorial e multitemático, o Mesa Brasil não se materializa apenas pelas atividades de arrecadação e redistribuição de alimentos, mas antes, inclui uma série de atividades produtivas em conscientização e promoção da segurança alimentar em termos amplos, por meio de cursos de aproveitamento integral de alimentos (figura 24C) ou de palestras e eventos presenciais e itinerantes em Boa Vista e em municípios do interior de Roraima (figura 24D).

Por um lado, o Programa Mesa Brasil do SESC de Boa Vista tem recorrentemente se transformado em sua missão ao longo dos anos ao atuar com grupos de alta vulnerabilidade, como as comunidades indígenas, ainda com dificuldades de acesso, bem como, mas recentemente, com crianças venezuelanas em situação de desnutrição em abrigos coordenados pelo Exército na Operação Acolhida.

Por outro lado, o Mesa Brasil tem continuamente promovido cursos, palestras e orientações, tanto, junto a produtores rurais e comerciantes sobre armazenamento e transporte dos produtos doados, quanto, ações de capacitação no processamento de alimentos com instituições receptoras dos alimentos.

Figura 24 - Imagens de alimentos e práticas

Fonte: Organização própria (PADILHA; MENDES; SENHORAS, 2019). Base de dados: SESC-RR (2015; 2017; 2018).

Dentro de uma perspectiva sistêmica de rede, o Programa Mesa Brasil é ativo em reuniões do Conselho Municipal e Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (SESC-RR, 2018) e em atividades e eventos itinerantes que o SESC juntamente com outras instituições do Sistema S promovem na capital, Boa Vista, e em municípios do interior.

Entre campanhas de arrecadação de alimentos, encontros, cursos, palestras e eventos itinerantes, cabe destacar as ações previamente identificadas de promoção de uma educação para a segurança alimentar e nutricional, bem como o pioneiro Concurso de Culinária Mesa Brasil 15 anos, realizado em 2018 com o objetivo de fortalecer uma concepção de culinária social, adaptada às especificidades regionais.

ANÁLISE DE PERCEPÇÃO PELOS ATORES ENVOLVIDOS