Como 1f = 1 = 1lr, basta mostrar quef e lrcoincidem em Σ+ para concluir que f =lr.
Sejauuma palavra em Σ+. Conforme demonstrado,tpertence aiuse, e somente se, existe um passeio bem-sucedido emT com entradaue sa´ıda igual a (i∗u)∗t. Ent˜ao,ulr= (i∗u)∗t6=∅se, e somente se,upertence a domf, e, neste caso,ulr´e o r´otulo de sa´ıda de um passeio bem-sucedido emT com entradau. Comof ´e funcional, segue que ulr=uf, o que conclui a demonstra¸c˜ao.
Observamos que argumentos semelhantes (utilizando o reverso de T) permitem concluir que toda fun¸c˜ao racionalf : Σ∗ →Γ∗ tal que 1f = 1 ´e a composi¸c˜ao de uma fun¸c˜ao seq¨uencial `a direita com uma fun¸c˜ao seq¨uencial `a esquerda.
4.4 Caracteriza¸ c˜ ao de fun¸ c˜ oes seq¨ uenciais e de fun¸ c˜ oes subseq¨
126 4.4. Caracteriza¸c˜ao de fun¸c˜oes seq¨uenciais e de fun¸c˜oes subseq¨uenciais
Demonstra¸c˜ao. O corol´ario segue do Teorema 4.4.2 e do fato de quef−1 ´e uma rela¸c˜ao racional, e portanto preserva conjuntos racionais.
O teorema de Ginsburg e Rose ´e uma conseq¨uˆencia do teorema de Choffrut:
Demonstra¸c˜ao do Teorema 4.4.1. Sef for uma fun¸c˜ao seq¨uencial, a prova de quef satisfaz as condi¸c˜oes i,ii e iiido Teorema 4.4.1 ´e trivial, e n˜ao utiliza o Teorema 4.4.2.
A condi¸c˜aoifoi observada na Se¸c˜ao 4.2 (Proposi¸c˜ao 4.2.2), e a condi¸c˜aoii´e uma conseq¨uˆencia do fato de quef−1´e uma rela¸c˜ao racional e da Proposi¸c˜ao 2.2.2. A condi¸c˜aoiii´e obtida considerando-se um transdutor considerando-seq¨uencial que realiza f, e definindoK como o m´aximo dentre os comprimentos das emiss˜oes desse transdutor.
Suponha agora quef satisfa¸ca as condi¸c˜oesi,iieiiido Teorema 4.4.1. Sejamk≥0 um inteiro, e u ev palavras tais que
||u, v|| ≤k.
Defina w=u∧v, eu0 e v0 como as palavras tais queu=wu0 ev=wv0. Ent˜ao,
|u0|+|v0| ≤k.
Comof preserva prefixos, podemos escrever
uf = (wf)(u0f) e vf= (wf)(v0f).
Assim,
||uf, vf|| ≤ |u0f|+|v0f|.
Por iii, temos que
|u0f|+|v0f| ≤K(|u0|+|v0|)≤Kk.
ComoK ´e fixo e Kks´o depende dek, conclu´ımos quef tem varia¸c˜ao limitada.
Ent˜ao, f satisfaz as condi¸c˜oes i e ii do Teorema 4.4.2. Portanto, f ´e subseq¨uencial. Como f preserva prefixos, segue da Proposi¸c˜ao 4.2.8 quef ´e seq¨uencial.
Uma prova do Teorema 4.4.2, diferente da de Choffrut, foi apresentada por Reutenauer [Reu90]
em 1990. Nessa prova, Reutenauer utiliza uma generaliza¸c˜ao do conceito de diferencial de uma fun¸c˜ao, definido por Eilenberg na sua demonstra¸c˜ao do teorema de Ginsburg e Rose [Eil74].
No entanto, a demonstra¸c˜ao de Reutenauer continha algumas incorre¸c˜oes. Uma vers˜ao correta dessa demonstra¸c˜ao foi apresentada por Reutenauer e Bruy`ere em 1999 [BR99].
A caracteriza¸c˜ao de Choffrut ´e um resultado muito forte. Com ela, pode-se verificar facilmente se uma fun¸c˜ao racional ´e ou n˜ao subseq¨uencial. Os algoritmos para a decidibilidade de se uma fun¸c˜ao racional ´e subseq¨uencial, e para a constru¸c˜ao de um transdutor subseq¨uencial a partir de um transdutor letra-palavra que realiza uma fun¸c˜ao subseq¨uencial, estudados nas se¸c˜oes 4.5 e 4.6, dependem explicitamente desse resultado.
Nesta se¸c˜ao, vamos demonstrar o teorema de Choffrut. Nossa demonstra¸c˜ao segue a de Reute-nauer e Bruy`ere.
Come¸camos com algumas defini¸c˜oes.
Defini¸c˜ao 4.4.2 Seja f : Σ∗ → Γ∗ uma fun¸c˜ao. Dizemos que f ´e fechada por prefixos se, para toda palavra wσ, onde σ ´e uma letra, se wσ∈domf, ent˜aow∈domf.
Note que, se f for uma fun¸c˜ao fechada por prefixosn˜ao-vazia, ent˜ao 1f 6=∅. Defini¸c˜ao 4.4.3 Seja f : Σ∗ →Γ∗ uma fun¸c˜ao fechada por prefixos.
O diferencial de f ´e a fun¸c˜ao parcialϕ: Σ+→Γ(∗) definida por (uσ)ϕ= (uf)−1((uσ)f), ∀ u∈Σ∗,∀ σ∈Σ.
Dada uma palavrauemΣ∗, o diferencial def com rela¸c˜ao au´e a fun¸c˜ao parcialϕu : Σ+→Γ(∗) definida indutivamente como segue. Para toda letra σ em Σ tal que(uσ)f 6=∅,
σϕu= (uσ)ϕ.
Para toda palavra v em Σ+ e toda letra σ em Σ tais que (uvσ)f 6=∅, (vσ)ϕu= (vϕu)((uvσ)ϕ).
Da defini¸c˜ao de ϕ, segue que domf∩Σ+= domϕ;
(4.4.1a)
(uσ)ϕ∈(Γ(∗)−Γ+)Γ∗,∀u∈Σ∗,∀ σ∈Σ,tais queuσ∈domϕ;
(4.4.1b)
(uσ)f = (uf)((uσ)ϕ) = (uf)(σϕu),∀u∈Σ∗,∀ σ ∈domϕu. (4.4.1c)
A propriedade (4.4.1b) significa que toda palavra (uσ)ϕna forma reduzida ´e igual a um produto x−1y, onde xey s˜ao palavras em Γ∗. A propriedade (4.4.1c) significa que (uσ)f pode ser fatorado como (uf)x−1y. Assim, podemos construir a imagem (uσ)f a partir de uf da seguinte forma.
Primeiro, o sufixo x´e apagado de uf. Em seguida, y´e concatenada `a direita da palavra obtida.
Dada uma palavra sem Σ∗ e uma palavra x=σ1. . . σn tal queu=sx∈domf, onde cada σi
´
e uma letra, a seguinte propriedade pode ser demonstrada por indu¸c˜ao emn:
(4.4.2) ((sσ1)ϕ). . .((sσ1. . . σn)ϕ) = (sf)−1((sx)f).
O produto ((sσ1)ϕ). . .((sσ1. . . σn)ϕ) ´e uma palavra no grupo livre Γ(∗). O lado direito de (4.4.2) mostra que essa palavra pode ser escrita na forma reduzida comoy−1z, ondey ezs˜ao palavras em Γ∗. Portanto,
(4.4.3) (sx)f = (sf)y−1z.
Assim, para construir a imagem (sx)f, primeiro o sufixo y ´e apagado de sf, e, em seguida, z ´e concatenada `a direita da palavra obtida.
Pela defini¸c˜ao de ϕu, tamb´em podemos escrever (4.4.3) como (sx)f = (sf)(xϕs).
Uma conseq¨uˆencia trivial de (4.4.3) ´e a propriedade a seguir:
(4.4.4) sf∧(sx)f = (sf)y−1.
128 4.4. Caracteriza¸c˜ao de fun¸c˜oes seq¨uenciais e de fun¸c˜oes subseq¨uenciais
A demonstra¸c˜ao do Teorema 4.4.2 utiliza o lema a seguir. Nesse lema, o resto da divis˜ao de um inteiro i por um inteiro j ser´a denotado por imodj, e i ≡ j (modk) indica que i e j s˜ao equivalentes na rela¸c˜ao emZdefinida por
i≡j se, e somente se, imodk=jmodk, ondek´e um inteiro fixo.
Lema 4.4.1 Seja f : Σ∗ → Γ∗ uma fun¸c˜ao fechada por prefixos. Se f−1 preservar conjuntos racionais, e existir um inteiro positivo k tal que, para toda palavra wσ em domf, onde σ ´e uma letra,
(4.4.5) ||wf, (wσ)f|| ≤k,
ent˜ao f ´e subseq¨uencial.
Demonstra¸c˜ao. Inicialmente, vamos mostrar que, dada uma palavra reduzida u−1v em imϕ, (u−1v)ϕ−1 ´e um subconjunto racional de Σ∗.
Para cadai entre 0 e 2k, e cada palavrah em Γk, defina uma linguagem em Γ∗ como segue:
Ai, h={x∈Γ∗ : |x| ≡i (mod (2k+ 1)) e x∈Γ∗h ou h∈Γ∗x}.
A condi¸c˜ao x ∈ Γ∗h ou h ∈ Γ∗x significa que h ´e um sufixo de todas as palavras em Ai, h de comprimento maior ou igual k, e que pode haver no m´aximo uma palavra de comprimento menor quek nessa linguagem, e essa palavra ´e um sufixo de h.
Claramente, essas linguagens s˜ao racionais. Comof−1 preserva conjuntos racionais,
B = [
0≤i≤2k h∈Γk
(Ai, hv)f−1∩ (Ai, hu)f−1Σ .
´
e um subconjunto racional de Σ+. Vamos provar que (u−1v)ϕ−1=B.
Seja xσ uma palavra em (u−1v)ϕ−1, onde σ ´e uma letra. Ent˜ao, existe uma palavra y em Γ∗ tal que xf = yu e (xσ)f = yv. Sejam i = |y|mod (2k+ 1), e h a palavra definida como segue. Se |y| ≥ k, ent˜ao h ´e o sufixo de comprimento k de y. Sen˜ao, h ´e qualquer palavra de comprimento k que possa ser fatorada como h0y. Ent˜ao, xσ ∈ (Ai, hv)f−1 e x ∈ (Ai, hu)f−1, ou seja, xσ∈(Ai, hv)f−1∩((Ai, hu)f−1Σ). Portanto,xσ∈B. Obtemos assim
(u−1v)ϕ−1⊆B.
Seja agoraxσuma palavra emB, ondeσ´e uma letra. Ent˜ao,xσ∈(Ai, hv)f−1ex∈(Ai, hu)f−1, para algum ´ındicei entre 0 e 2k, e alguma palavra h em Γk. Portanto, existem palavrasy e z em Ai, h tais que (xσ)f =yve xf =zu.
Afirmamos que |y|=|z|. Para provar essa afirma¸c˜ao, note primeiro que, dada uma palavra wσ em (u−1v)ϕ−1, ondeσ ´e uma letra, a condi¸c˜ao (4.4.5) ´e equivalente a
(4.4.6) |u−1v| ≤k.
Como ||zu| − |yv|| ≤ ||xf,(xσ)f||, segue de (4.4.5) que ||zu| − |yv|| ≤ k. Como u−1v ´e uma palavra reduzida, (4.4.6) implica em |u| ≤k e |v| ≤ k. Portanto, ||z| − |y|| ≤ 2k. Como |z| ≡ |y|
(mod (2k+ 1)), obtemos |y|=|z|.
Agora, afirmamos que y = z. De fato, se |y| < k, ent˜ao, pela defini¸c˜ao de Ai, h, y e z s˜ao iguais ao sufixo de comprimento |y|deh. Sen˜ao, essas palavras podem ser fatoradas comoy=y0h e z = z0h. Se y0 6= z0, ent˜ao ||xf,(xσ)f|| = ||z0hu, y0hv|| > |h| = k, o que contradiz (4.4.5).
Conclu´ımos ent˜ao quey=z.
Assim, (xσ)ϕ= (xf)−1((xσ)f) =u−1y−1yv=u−1v, ou seja, xσ∈(u−1v)ϕ−1. Obtemos ent˜ao B⊆(u−1v)ϕ−1.
Logo, (u−1v)ϕ−1 ´e um subconjunto racional de Σ∗.
Agora, vamos construir um Σ-Γ-transdutor subseq¨uencial T que realiza f. Primeiro, vamos definir o autˆomato de entrada desse transdutor.
Como observado em (4.4.6), o comprimento de toda palavra reduzida em imϕ ´e limitado por k. Portanto, imϕ´e finito. Vamos enumerar as palavras nesse conjunto como r1, . . . , rn.
Conforme acabamos de demonstrar, para cada palavrarl,rlϕ−1´e um conjunto racional. Ent˜ao, pelo Teorema de Kleene, esse conjunto ´e reconhec´ıvel. Seja Al = (Ql, il, Tl) um Σ-autˆomato determin´ıstico completo e acess´ıvel que reconhece rlϕ−1.
SejaA= (Q, i, T) a parte bi-acess´ıvel do produtoA1× · · · × An, considerando como conjunto de estados finais a uni˜ao de (i1, . . . , in) com todan-upla (q1, . . . , qn) tal que pelo menos uma das coordenadas seja um estado final. Definimos o autˆomato de entrada deT como A.
E conveniente observar as seguintes propriedades de´ A:
|A|= domf.
(4.4.7a)
T =Q.
(4.4.7b)
Para todo par de palavrasse t em Σ+, se is=it, ent˜ao sϕ=tϕ.
(4.4.7c)
Para toda palavra x em domf∩Σ+,ix6=i.
(4.4.7d)
A propriedade (4.4.7a) segue da defini¸c˜ao dos estados finais deA, e pode ser demonstrada como segue:
|A|(1.6.4)= [
1≤l≤n
|Al| ∪1 = domϕ∪1(4.4.1a)= domf.
A propriedade (4.4.7b) ´e uma conseq¨uˆencia direta de (4.4.7a), e do fato de queA´e bi-acess´ıvel e f ´e fechada por prefixos.
Para provar (4.4.7c), observe que os conjuntos |Al| s˜ao dois a dois disjuntos porque ϕ ´e uma fun¸c˜ao. Assim, em cada estado (q1, . . . , qn) de A, no m´aximo uma coordenada ´e um estado final.
Temos ent˜ao que, se is = it, ent˜ao essas palavras pertencem ao comportamento de um ´unico autˆomatoAl. Portanto, sϕ=tϕ.
Para provar (4.4.7d), seja x ∈ domf ∩Σ+. Por (4.4.1a), x ∈ domϕ. Ent˜ao, x pertence ao comportamento de algum autˆomatoAl. Como a palavra vazia n˜ao pertence a domϕ, tamb´em n˜ao pertence a esse comportamento. Portanto,ilx6=il. Assim,ix= (i1x, . . . , inx)6= (i1, . . . , in).
Para definir as emiss˜oes de T, precisamos do seguinte formalismo. Para toda palavra s em domf, definimos
ˆ
s=∧{(sx)f :sx∈domf}.
130 4.4. Caracteriza¸c˜ao de fun¸c˜oes seq¨uenciais e de fun¸c˜oes subseq¨uenciais
Vamos demonstrar que, dadas palavras distintas set em Σ∗ tais queis=it, ˆ
s−1(sf) = ˆt−1(tf), e (4.4.8a)
ˆ
s−1(sσ) = ˆˆ t−1(tσ),ˆ ∀σ∈Σ tal quesσ∈domϕ.
(4.4.8b)
Primeiro, observe que, como s e t s˜ao distintas, pelo menos uma dessas palavras deve ser diferente da palavra vazia. Como is =it, segue de (4.4.7d) que ambas as palavras s˜ao diferentes da palavra vazia.
Para demonstrar (4.4.8a), sejax uma palavra em Σ∗ tal quesx∈domϕ. Afirmamos que existe uma palavra reduzidayx−1zx no grupo livre Γ(∗) tal que
(4.4.9) (sf)−1((sx)f) = (tf)−1((tx)f) =y−1x zx. Se x= 1, isso ´e evidente.
Sen˜ao, escreva x como σ1. . . σl, onde todo σj ´e uma letra. Como is = it, temos que, para todo ´ındice j,i(sσ1. . . σj) =i(tσ1. . . σj). De (4.4.7c) segue ent˜ao que (sσ1. . . σj)ϕ= (tσ1. . . σj)ϕ.
Assim,
((sσ1)ϕ). . .((sσ1. . . σl)ϕ) = ((tσ1)ϕ). . .((tσ1. . . σl)ϕ).
Por (4.4.2), o lado esquerdo dessa igualdade ´e igual a (sf)−1((sx)f), e o lado direito igual a (tf)−1((tx)f), o que prova (4.4.9).
Sejau uma palavra em Σ∗ tal quesu∈domf e |yu|seja m´aximo. Ent˜ao, segue de (4.4.4) que (sf)yu−1 e (tf)y−1u s˜ao as menores palavras dos conjuntos {sf ∧(sx)f : x ∈ Σ∗ e sx ∈ domf} e {tf∧(tx)f :x∈Σ∗ e tx∈domf}, respectivamente. Portanto,
(4.4.10) sˆ= (sf)y−1u e ˆt= (tf)y−1u . Assim, ˆs−1(sf) =yu = ˆt−1(tf), o que prova (4.4.8a).
A discuss˜ao acima tamb´em ´e ´util para provar a propriedade (4.4.8b).
Sejaσ uma letra tal quesσ∈domϕ. Afirmamos que, para todoxem Σ∗ tal quesσx∈domϕ, existe uma palavra vx de Γ∗ tal que
(sσx)f = ˆsvx e (tσx)f = ˆtvx.
De fato, de (4.4.10) segue que sf pode ser fatorado como ˆsyu. Assim, (sσx)f = ˆsyuyσx−1zσx. Pela maximalidade de |yu|, yσx deve ser um sufixo de yu. Portanto, (sσx)f pode ser fatorado como ˆ
syzσx, onde y = yuyσx−1 ´e uma palavra em Γ∗. Da mesma forma, (tσx)f pode ser fatorado como ˆtyzσx. Podemos ent˜ao definir vx=yzσx.
Utilizando essas palavras, podemos escrever
{(sσx)f :sσx∈domf}= ˆs{vx:sσx∈domf} e
{(tσx)f :tσx∈domf}= ˆt{vx:sσx∈domf}.
Sejav =∧{vx :sσx∈domf}. Claramente, ˆsσ = ˆsv e ˆtσ = ˆtv. Assim, ˆs−1(sσ) = ˆˆ t−1(tσ) =ˆ v, o que prova (4.4.8b).
Vamos agora completar a defini¸c˜ao de T.
Para toda palavra sem Σ∗ tal queis6=∅, a emiss˜ao final do estado is´e (is)ρ= ˆs−1(sf).
Por (4.4.8a), essa emiss˜ao est´a bem definida.
Dadas uma palavra sem Σ∗ e uma letraσ tais que i(sσ)6=∅, a emiss˜ao do estado (is) comσ
´
e definida por
(is)∗σ = ˆs−1(sσ).ˆ Por (4.4.8b), essa emiss˜ao tamb´em est´a bem definida.
A emiss˜ao inicial de T ´e
iλ= ˆ1.
Vamos demonstrar que |T |=f.
Primeiro, observe que dom|T | = |A| = domf. Seja s uma palavra nesse dom´ınio. Vamos mostrar, por indu¸c˜ao em |s|, que
(iλ)(i∗s) = ˆs.
• |s|= 0: ent˜ao (iλ)(i∗s) =iλ= ˆ1.
• |s|>0: fatore scomo tσ, ondeσ ´e uma letra. Ent˜ao,
(iλ)(i∗s) = ((iλ)(i∗t))((it)∗σ) = ˆt(ˆt−1(tσ)) = ˆˆ s.
A hip´otese de indu¸c˜ao e a defini¸c˜ao de∗ foram utilizadas na segunda igualdade.
Utilizando essa propriedade, obtemos
s|T |= (iλ)(i∗s)((is)ρ) = ˆs(ˆs−1(sf)) =sf, ∀ s∈Σ∗. Portanto,|T |=f, ef ´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial.
Demonstra¸c˜ao do Teorema 4.4.2. Suponha quef seja uma fun¸c˜ao subseq¨uencial.
Como f−1 ´e uma rela¸c˜ao racional, essa inversa preserva conjuntos racionais.
Vamos mostrar quef tem varia¸c˜ao limitada. SejaT = (Q, i, λ, ρ) um transdutor subseq¨uencial que realiza f. Denote porM o m´aximo dos comprimentos das emiss˜oes q∗σ, para todo estadoq de T e toda letra σ tal que qσ 6=∅, e por N o m´aximo dos comprimentos das emiss˜oes qρ, para todo estado finalq de T.
Sejamkum inteiro n˜ao-negativo, euevpalavras em domf tais que||u, v|| ≤k. Existem ent˜ao fatora¸c˜oesu=xu0 ev=xv0 tais que |u0|+|v0| ≤k.
Como uf = (iλ)(i∗x)(ix∗u0)((iu)ρ) e vf= (iλ)(i∗x)(ix∗v0)((iv)ρ), temos que
||uf, vf||=||(ix∗u0)((iu)ρ),(ix∗v0)((iv)ρ)|| ≤(|u0|+|v0|)M+ 2N ≤kM + 2N.
Assim, K =kM+ 2N ´e um inteiro que depende apenas de k e das constantesM e N. Portanto, f tem varia¸c˜ao limitada.
Suponha agora que a inversa f−1 preserve conjuntos racionais, e quef tenha varia¸c˜ao limitada.
Vamos mostrar quef ´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial.
132 4.4. Caracteriza¸c˜ao de fun¸c˜oes seq¨uenciais e de fun¸c˜oes subseq¨uenciais
Pela primeira hip´otese, Γ∗f−1 = domf ´e um subconjunto racional de Σ∗. Pelo Teorema de Kleene, esse conjunto ´e reconhec´ıvel. SejaA= (Q, i, T) um Σ-autˆomato determin´ıstico bi-acess´ıvel que reconhece domf.
Para cada estadoq desse autˆomato, fixe uma palavra xq tal queqxq seja um estado final. Seq for um estado final, fixe xq= 1. Seja
M = max{|xq|:q ∈Q}.
Seja g : Σ∗ → Γ∗ a fun¸c˜ao definida como segue. O dom´ınio de g ´e o conjunto dos prefixos de todas as palavras de domf. Para cada palavrau nesse conjunto, defina
ug= (uxiu)f.
Ent˜ao, g´e uma fun¸c˜ao fechada por prefixos, ef =g|domf.
Vamos mostrar que a fun¸c˜ao g tem varia¸c˜ao limitada, e queg−1 preserva conjuntos racionais.
Sejakum inteiro positivo, e palavrasuevem domgtais que||u, v|| ≤k. Ent˜ao,||uxiu, vxiv|| ≤ k+ 2M. Como uxiu e vxiv s˜ao palavras em domf, e f tem varia¸c˜ao limitada, existe um inteiro K tal que ||(uxiu)f, (vxiv)f|| ≤ K . Assim, ||ug, vg|| ≤ K. Como K depende apenas de k e da constanteM, conclu´ımos queg tem varia¸c˜ao limitada.
SejaA um subconjunto racional de Γ∗. Da defini¸c˜ao de g, segue facilmente que Ag−1= [
q∈Q
µiq∩(Af−1)xq−1,
onde µiq ´e o conjunto dos r´otulos dos passeios de i a q em A. Como f−1 preserva conjuntos racionais, esse conjunto ´e racional. Portanto, g−1 preserva conjuntos racionais.
Como g tem varia¸c˜ao limitada, existe um inteiro k tal que, para toda palavra w e toda letra σ tal que wσ ∈ domg, ||wg, (wσ)g|| ≤ k. Assim, pelo Lema 4.4.1, g ´e subseq¨uencial. Da Pro-posi¸c˜ao 4.2.11, segue ent˜ao quef =g|domf ´e subseq¨uencial.
Uma aplica¸c˜ao interessante do Teorema de Choffrut ´e na demonstra¸c˜ao de que a composi¸c˜ao de duas fun¸c˜oes subseq¨uenciais ´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial.
Proposi¸c˜ao 4.4.1 Sejam Σ,Γ eΩalfabetos, ef : Σ∗ →Γ∗ eg: Γ∗→Ω∗ fun¸c˜oes subseq¨uenciais.
Ent˜ao, a composi¸c˜ao f g: Σ∗ →Ω∗ ´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial.
Demonstra¸c˜ao. Pelo Teorema 2.5.1, f g ´e uma fun¸c˜ao racional. Portanto, (f g)−1 preserva con-juntos racionais.
Vamos mostrar que f gtem varia¸c˜ao limitada.
Seja k um inteiro n˜ao-negativo. Como f tem varia¸c˜ao limitada, existe um inteiro K tal que, para todo par de palavrasuev em domf tal que||u, v|| ≤k,||uf, vf|| ≤K. Comogtem varia¸c˜ao limitada, existe um inteiroLtal que, para todo par de palavrasxeyem domgtal que||x, y|| ≤K,
||xg, yg|| ≤L.
Sejam uev um par de palavras em domf gtal que||u, v|| ≤k. Ent˜ao,||uf g, vf g|| ≤L. Como k´e arbitr´ario, temos quef g tem varia¸c˜ao limitada.
Assim, pelo Teorema 4.4.2, f g´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial.
Corol´ario 4.4.2 Sejam Σ, Γ e Ω alfabetos, e f : Σ∗ → Γ∗ e g : Γ∗ → Ω∗ fun¸c˜oes seq¨uenciais.
Ent˜ao, a composi¸c˜ao f g: Σ∗ →Ω∗ ´e uma fun¸c˜ao seq¨uencial.
Demonstra¸c˜ao. Pela Proposi¸c˜ao 4.4.1,f g´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial. Notando quef gpreserva prefixos, segue da Proposi¸c˜ao 4.2.8 que f g´e seq¨uencial.
Outras aplica¸c˜oes desse teorema ser˜ao vistas nas se¸c˜oes seguintes.
Exemplo 4.4.1 Toda fun¸c˜ao Σ∗ →M com dom´ınio finito ´e subseq¨uencial. N
Exemplo 4.4.2 Do Corol´ario 4.4.1, segue que toda fun¸c˜ao racional com imagem finita ´e
sub-seq¨uencial. N
Exemplo 4.4.3 Considere a fun¸c˜ao racional τ definida no Exemplo 3.1.5.
Para todo inteiro positivon,||σn, σn+1||= 1, mas||σnτ, σn+1τ||= 2n+ 1, o que mostra que τ n˜ao tem varia¸c˜ao limitada. Portanto, essa fun¸c˜ao n˜ao ´e subseq¨uencial.
No entanto, demonstra-se facilmente que a inversa τ−1 ´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial. N
Exemplo 4.4.4 Seja Σ ={σ}. Vamos identificar o mon´oide aditivoNcom Σ∗. Sejaτ :N→N a fun¸c˜ao racional
σnτ =
(σn senfor par 1 senfor ´ımpar
O gr´afico deτ ´e (σ2, σ2)∗∪(σ,1)(σ2,1)∗. Portanto, essa fun¸c˜ao ´e racional.
Mas,τn˜ao ´e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial porque, para todo n´umero naturalnpar,||σn, σn+1||= 1
e ||σnτ, σn+1τ||=n. N
Exemplo 4.4.5 Considere a fun¸c˜aof definida no Exemplo 4.2.1. Conforme observado, essa fun¸c˜ao
´
e seq¨uencial `a direita.
No entanto, f n˜ao tem varia¸c˜ao limitada, pois, para todo x em Σ∗,
||xσ, xγ||= 2 e ||(xσ)f, (xγ)f||= 2(|x|+ 1).
Portanto,f n˜ao ´e subseq¨uencial. N
Exemplo 4.4.6 Considere o transdutor letra-palavra
4 3
2
ξ/a γ/a σ/a
1
ξ/a σ/a
T : ξ/a
γ/a σ/b σ/a
γ/b ξ/c
134 4.4. Caracteriza¸c˜ao de fun¸c˜oes seq¨uenciais e de fun¸c˜oes subseq¨uenciais
Esse transdutor n˜ao ´e subseq¨uencial, mas realiza uma fun¸c˜ao racionalf. Vamos mostrar quef
´
e uma fun¸c˜ao subseq¨uencial.
Primeiro, observe que todas as palavras no dom´ınio de f tˆem comprimento maior ou igual a 3. Ademais, para toda palavra x = uσ1σ2σ3 nesse dom´ınio, onde cada σi ´e uma letra, podemos escrever
xf = (ug)x0,
ondeg:{σ, γ, ξ} → {a, b, c}´e o morfismo muito fino gerado por σg=a, γg =b e ξg=c, e x0 ´e uma palavra de comprimento igual a 3.
Vamos provar que f tem varia¸c˜ao limitada. Dado um inteiro k ≥ 0, sejam x = uσ1σ2σ3 e y=vγ1γ2γ3 palavras em domf, onde cadaσi e cadaγi ´e uma letra, tais que||x, y|| ≤k. Podemos tamb´em escreveryf = (vg)y0. Vamos considerar dois casos paraw=x∧y:
• |w|<|u|e |w|<|v|: ent˜ao
||xf, yf||=|((w−1u)g)x0|+|((w−1v)g)y0|=|w−1u|+|x0|+|w−1v|+|y0| ≤k.
• |w| ≥ |u| ou |w| ≥ |v|: suponha que |u| ≤ |v|. Ent˜ao, |w| ≥ |u|. Assim, uv. Observe que, como ||x, y|| ≤k,|u−1v| ≤k necessariamente. Temos ent˜ao que
||xf, yf|| ≤ |x0|+|(u−1v)g|+|y0|=|x0|+|u−1v|+|y0| ≤k+ 6.
O caso |v|<|u|´e an´alogo.
Portanto,f tem varia¸c˜ao limitada. Utilizando o Corol´ario 4.4.1, conclu´ımos quef ´e uma fun¸c˜ao
subseq¨uencial. N
Exemplo 4.4.7 O objetivo deste exemplo ´e mostrar que a varia¸c˜ao limitada ´e essencial na ca-racteriza¸c˜ao das fun¸c˜oes subseq¨uenciais, e que a condi¸c˜ao iii do Teorema 4.4.1 ´e essencial na caracteriza¸c˜ao das fun¸c˜oes seq¨uenciais. O resto da divis˜ao de um inteiro a por um inteiro b ser´a denotado por amodb, e o mon´oide N com a opera¸c˜ao de adi¸c˜ao ser´a identificado com o mon´oide livre gerado por uma ´unica letraσ.
Conforme discutido no Exemplo 2.2.3, a fun¸c˜ao τ : N → N que associa cada n´umero natural ao seu quadrado n˜ao ´e racional. Ademais, essa fun¸c˜ao n˜ao tem varia¸c˜ao limitada, nem satisfaz a condi¸c˜ao iii do Teorema 4.4.1.
Claramente,τ preserva prefixos. Vamos mostrar que a inversaτ−1 preserva conjuntos reconhe-c´ıveis. Pelo Teorema de Kleene, esse fato implica que τ−1 preserva conjuntos racionais.
Primeiro, recordamos a propriedade simples de que todo subconjunto reconhec´ıvel de N´e uma uni˜ao finita de progress˜oes aritm´eticas. Uma demonstra¸c˜ao desse fato pode ser vista no livro de Eilenberg [Eil74]. Assim, ´e suficiente mostrar que a imagem inversa de uma progress˜ao aritm´etica por τ ´e uma uni˜ao finita de progress˜oes aritm´eticas.
SejaA={a+rk :k≥0}uma progress˜ao aritm´etica, ondeaer s˜ao n´umeros naturais. O caso em que r= 0 ´e trivial, portanto vamos supor que r >0.
Seja X o subconjunto de {0, . . . , r −1} definido como segue. Um inteiro i est´a em X se, e somente se, existe um inteiro positivo m tal que m2 ∈A, e m≡i (modr). Denotamos por mi o menorm com essa propriedade.
Afirmamos que
Aτ−1 = [
i∈X
{mi+rk:k≥0}.
Sejam x um inteiro em Aτ−1, e i= xmodr. Ent˜ao, i∈ X. Comomimodr =i, temos que (x−mi) modr= 0, ou seja, existe um inteiro k tal quex=mi+rk. Obtemos assim
Aτ−1 ⊆ [
i∈X
{mi+rk:k≥0}.
Seja agora x um inteiro da forma mi+rk, para algum i em X e algum inteiro k ≥0. Como x2 = mi2 + 2mirk +r2k2, temos que x2 ≡ mi2 (modr), ou seja, existe um inteiro p tal que x2−mi2 =pr.
Como mi2 ∈ A, existe um inteiro l tal que mi2 = a+rl. Portanto, x2 =a+r(p+l), o que mostra quex2 ∈A. Obtemos ent˜ao
[
i∈X
{mi+rk:k≥0} ⊆Aτ−1.
Assim, τ ´e uma fun¸c˜ao que n˜ao ´e racional, mas satisfaz as condi¸c˜oes ieii do Teorema 4.4.1, e
a condi¸c˜ao ido Teorema 4.4.2. N