A capital baiana é uma cidade litorânea de topografia bastante acidentada, possuindo em suas encostas e fundos de vale comunidades pobres se deparando com uma gama de problemas sociais, econômicos e ambientais. Tal realidade pode ser verificada em trabalho de Nunes e Souza (2007), que fizeram uma pesquisa sobre a Agenda 21 nos bairros de Mata Escura e Estrada das Barreiras, localizados na região do “miolo” de Salvador. O Cabula está situado nessa região da cidade, entre a BR 324 e a Avenida Luís Viana (Avenida Paralela), ligando a região do Iguatemi ao aeroporto internacional Luís Eduardo Magalhães (Figura 1).
Figura 1 – Mapa do Cabula
Fonte: Google maps32.
Os autores afirmam que Salvador mais que dobrou sua população entre as décadas de 1970 e 2000, passando do contingente de um milhão para dois milhões e meio de habitantes. Assim, entrou no séc. XXI com graves problemas urbanos enfrentados pelos bairros mais pobres da cidade. Na Figura 2, é possível observar alguns de seus contrastes: a parte da orla marítima, com os seus prédios elevados, e parte da região do Cabula e entorno, com destaque
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para a área verde do 19° Batalhão de Caçadores (19º BC), rodeado por bairros carentes e invasões.
Figura 2 – Vista do 19° BC na região do Cabula e entorno; ao fundo, parte da orla marítima de Salvador
Fonte: Wikimapia33
De acordo com os dados do último censo realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)34, Salvador possui dois milhões e seiscentos e setenta e cinco mil habitantes, com uma projeção para 2014 de dois milhões e novecentos mil habitantes. Apesar de nestes últimos vinte anos ter ocorrido uma melhoria nas edificações, os bairros da região do miolo ainda guardam uma elevada precariedade de serviços públicos, tais como infraestrutura urbana, condições de habitação, saneamento, segurança e proteção ambiental.
Conforme Caldas, Nunes e Santos (2007), o miolo iniciou seu processo de ocupação a partir da década de 1950, com a construção do aeroporto na Estrada Velha do Aeroporto (EVA), que ligava a periferia de Salvador ao centro urbano. Segundo os autores, o Plano urbano para a área, que é datado de 1985, definiu os quatro polos iniciais de ocupação: a região do Cabula, região de Pau da Lima/EVA, região de Cajazeira e área de Mussurunga/São
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Disponível em: <http://www.wikimapia.org>. Acesso em: 19 jul. 2014.
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Para obter mais informações, consultar o site do IBGE, disponível em:
Cristóvão. Como enfatizam Nunes e Souza (2007), essas áreas tiveram o ciclo de ocupação a partir da construção de diversos conjuntos habitacionais voltados para as classes populares, tendo se intensificado a partir da década de 1970, contando com o aumento de pessoas vindas do interior do estado em busca de oportunidades de trabalho e os preços relativamente baixos das terras ali localizadas.
Segundo demarcação feita no ano de 1992 e considerando a nova delimitação de bairros de Salvador, o Cabula é subdividido em vários outros bairros que também poderiam se constituir em localidades do Cabula, como Resgate, Saboeiro, Narandiba e Doron (FERNANDES; PENA; LIMA, 2013). Os autores enfatizam que toda essa região era conhecida historicamente por possuir um caráter rural e agrícola, possuindo diversas fazendas e chácaras nas quais se cultivavam frutas, especialmente laranja e manga.
A partir de 1940 essas terras foram sendo vendidas, loteadas e invadidas, decorrentes em boa medida das pragas que acabaram destruindo os laranjais, sendo que entre 1965 e 1966 foi aberta a Rua Silveira Martins, principal eixo viário da região, segundo Fernandes, Pena e Lima (2013). Na atualidade, segundo os autores, e após anos de exponencial incremento populacional, a região do miolo representa aproximadamente 30% da população de Salvador. Segundo as projeções feitas pelo IBGE para o ano de 2014, por volta de 900.000 habitantes.
Além do miolo, também o Cabula iniciou seu processo de ocupação a partir da construção de numerosos conjuntos habitacionais e do surgimento de habitações precárias, especificamente a partir de 1970. Essa demanda culminou na presença de diversos serviços públicos e privados, tais como hospitais, escolas, universidade, supermercados, bancos, lojas etc. Nesse sentido, a localização de tais empreendimentos concentra-se no eixo de cumeada, na Rua Silveira Martins (a principal do bairro), Avenida Edgard Santos, Avenida Paralela e o entorno delas.
Sobre a origem do nome do bairro, de acordo com Fernandes (2003, p. 165 apud FERNANDES; PENA; LIMA, 2013, p. 59), o termo Cabula veio do idioma africano Bantú, falado entre os países do Congo e de Angola, significando “mistério, culto religioso, escondido, secreto”, tendo sido atribuído à localidade pela existência dos muitos quilombos e terreiros de candomblé. Um exemplo disso é o tradicional terreiro de candomblé Ilê Axé Opó Afonjá, fundando em 1910, situado no bairro de São Gonçalo do Retiro, com uma área total de 39.000 m2 e muita vegetação de mata atlântica preservada. Foi tombado no ano 2000 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Também o terreiro de candomblé Bate Folha, instalado em 1916, no bairro de Mata Escura, considerado um dos mais importantes e tradicionais de Salvador, com a finalidade de amparar, proteger e cultuar preceitos afro-brasileiros dentro da nação Angola, ressaltando o que dizem Caldas, Nunes e Santos (2007) e Nunes e Souza (2007). Por toda essa importância cultural e religiosa, foi reconhecido em 1993 pela Prefeitura Municipal de Salvador como de Utilidade Pública. Possui ainda um patrimônio ambiental preservado de 14,8 hectares de Mata Atlântica, contando com espécies nativas e africanas utilizadas nos rituais do Candomblé, tendo sido ainda reconhecido como Território Cultural Afro-Brasileiro pelo Ministério da Cultura, conforme os autores.
Vale destacar a pesquisa de Silva et al. (2011), que fizeram um levantamento e discussão dos principais aspectos físicos, econômicos, sociais, ambientais e culturais sobre o Cabula e entorno. Nos primeiros encontros com lideranças de bairro, os pesquisadores encontraram uma nova delimitação para essa região, construída a partir de interação com os sujeitos de pesquisa, na qual se reconheciam seus valores culturais, simbólicos e históricos. Desse modo, os autores passaram a considerar também aquilo o que as comunidades afirmavam serem os referidos territórios do Quilombo do Cabula, incluindo os bairros de Narandiba, Resgate, Saboeiro, Pernambués, São Gonçalo do Retiro, Engomadeira, Estrada das Barreiras, Beiru/Tancredo Neves, Arenoso, Arraial do Retiro, Nova Sussuarana e Mata Escura.
Essa complexidade está presente na organização social, política e urbana do Cabula e entorno, bem como nas ações prioritárias dos grupos de pesquisa dos quais fazemos parte e que atuam na região, conforme comentado anteriormente. Assim, podem ser ressaltados autores como: Caldas, Nunes e Santos (2007), em uma vertente socioambiental e religiosa; Fernandes, Pena e Lima (2013), a partir da conjunção do tecido urbano, econômico e social; Nunes e Souza (2007), em uma dimensão política, geográfica e socioambiental, e Silva et al. (2011), nas esferas da economia solidária, das tecnologias sociais e do turismo de base comunitária. A história de ocupação urbana do bairro foi marcada pela segregação econômica e socioespacial, encontrando-se, na atualidade, em pleno processo de especulação do mercado imobiliário, ressaltando que a condição de periferia da cidade vem sofrendo alterações, em virtude da valorização imobiliária recente, segundo Fernandes, Pena e Lima (2013).
O Cabula permanece com grande extensão territorial, a maior parte dela formada pelo 19º BC, que abriga uma significativa reserva de Mata Atlântica, da qual faz parte a reserva de água do Cascão. Dentre os recursos naturais da região do miolo de Salvador, destaque para a vegetação que é composta basicamente de remanescentes de Mata Atlântica, contando com
inúmeras árvores de grande porte e zonas de mata, como a represa do Cascão, no 19º BC, a represa do Prata e o Jardim Botânico de Salvador. Este se localiza no bairro de São Marcos, sendo conhecido como Mata dos Oitis e possuindo a exuberância de mata preservada em 37 hectares de extensão (NUNES; SOUZA, 2007).
O Parque Teodoro Sampaio, localizado no bairro da Mata Escura, com 38 hectares, conta com alguns projetos municipais de revitalização para que se possa oferecer um retorno socioambiental e cultural às comunidades locais. Todavia, a maior ameaça à preservação desses remanescentes são as invasões e autoconstruções, dentro e fora de seus limites, podendo destruir um importante patrimônio ambiental. Por meio de programas socioambientais, caso da Agenda 21 que foi construída em parceria com sujeitos escolares e instituições educacionais tornou-se possível atingir objetivos que levaram em conta a multidimensionalidade social e econômica e a “conservação e gerenciamento dos recursos para desenvolvimento, fortalecimento dos principais grupos sociais [...] considerando-se que não é possível separar a questão ambiental da social” (CALDAS; NUNES; SANTOS, 2007, p. 94).
As principais bacias hidrográficas da região do miolo são formadas pelos rios Camurujipe, Cachoeirinha, Pituaçu, Saboeiro e Cascão (compondo a bacia das Pedras), Jaguaribe e Ipitanga. Para Silva et al. (2011), é visível o desconhecimento por parte de comunidades do Cabula e entorno no que se referem aos rios, represas, parques e outros recursos ambientais presentes na localidade. De acordo com os autores, a maioria da população jovem desses bairros desconhece a história e os valores socioculturais e ambientais locais, em parte decorrente da ausência de políticas públicas voltadas para essa valorização.
Muitos dos problemas socioambientais da Região do Cabula e entorno têm origem na ocupação urbana desordenada, acarretando novas ações de desmatamento, descarte indevido de resíduos, poluição de leitos de rios e córregos, culminando nas autoconstruções que ameaçam os remanescentes das áreas verdes do município (FERNANDES; PENA; LIMA, 2013; NUNES; SOUZA, 2007). Isso acaba refletindo em um aumento desordenado do crescimento populacional e uma distribuição desigual de emprego e renda, dificultando o reconhecimento de que os problemas socioambientais não se dissociam das questões de cidadania.
Desse modo, a presença de rios, represas, reservas, aquíferos, parques e outros recursos representam um importante potencial a ser compartilhado na Escola Estadual Visconde de Itaparica, agregando conhecimentos à dinâmica socioambiental vivenciada pelas comunidades escolares.