CAPÍTULO 01 – TRAJETÓRIA METODOLÓGICA: TRILHANDO O CAMINHO DA
1.2. CARACTERIZANDO A METODOLOGIA E SEUS PROCEDIMENTOS
Primeiramente, é oportuno explicitar que a metodologia de pesquisa não se manteve única em todo o processo de construção da pesquisa. Começamos a ver a pesquisa em uma dimensão mais ampla e que possibilitasse hipóteses sobre a relação da Matemática com as Artes como forma de potencialização da aprendizagem. Em meio aos inúmeros questionamentos, foi percebido que seria difícil mensurarmos a aprendizagem dos alunos, considerando essa interdisciplinaridade. Todavia, poderíamos perceber a relação entre Matemática e Artes no processo de ensino e aprendizagem.
Para tanto, a priori, acreditávamos que, talvez, se ancorássemos nossa pesquisa em uma organização não governamental que já desenvolvesse um trabalho com as artes poderíamos ter mais chance de desenvolvê-lo. No entanto, à medida que íamos aprimorando o projeto, conseguimos enxergar além de uma visão artística. Além disso, remetíamos a um entendimento mais científico, objetivado com a proposta do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática. Sendo assim, a Matemática passou a ser o ponto de partida e, por fim, optamos em vivenciar a relação da Arte com a Matemática no próprio contexto escolar.
Com o calor da labuta profissional cotidiana, resolvemos aproveitar o ensejo para nos encarnar em uma pesquisa-ação na escola na qual atuamos. Há muito tempo já conduzia atividades interdisciplinares relacionadas às artes, faltava então trazer o sujeito da pesquisa para a posição de pesquisador. Aos poucos se tornou evidente a dificuldade em ancorar a pesquisa na escola da qual sou pedagogo há sete anos. Ficou difícil atuar no próprio local de
trabalho como pesquisador, pois encontrei inúmeras barreiras. Para André (1995) isso acontece porque, na maioria das vezes o pesquisador investiga uma situação que lhe é muito familiar e dificilmente colhe dados no próprio local de trabalho, na escola em que atua. É bem verdade que no princípio foi difícil localizar o sujeito e o objeto de pesquisa, considerando ser necessário identificar indícios de interesses coletivos para envolvimento na pesquisa, além de outros entraves institucionais. André (1995) continua alertando sobre a dificuldade de localização do sujeito e do objeto de estudo para realização da pesquisa-ação.
Finalmente, depois de muita reflexão resolvemos adotar uma metodologia, optando pelo Estudo de Caso do Tipo Etnográfico, na perspectiva definida por André (1995), além de escolher outra escola a partir de estudo exploratório em busca de indícios do objeto de estudo definido. Era necessário, nesse momento, que houvesse um isolamento das concepções esculpidas na proposta de uma pesquisa ação. Desta feita, tínhamos que adotar novas estratégias. Afinal, em se tratando do professor pesquisar na escola em que atua como docente [...] “o grande desafio nesses casos é saber trabalhar o envolvimento e a subjetividade, mantendo o necessário distanciamento que requer um trabalho científico. Distanciamento que não é sinônimo de neutralidade, mas que preserva o rigor (ANDRÉ, 1995, p.48)”.
Considerando os desafios apontados por André (1995) na citação anterior e ancorados na fundamentação da referida autora sobre os tipos predominantes de pesquisa qualitativa na educação, percebemos a pertinência da opção pelo estudo do tipo etnográfico para investigar o problema que motivou esta pesquisa.
Para a supracitada autora (1995) o estudo do tipo etnográfico apresenta as seguintes características: a) uso de técnicas associadas à etnografia como: observação participante, entrevista e análise dos documentos; b) princípio de interação constante entre o pesquisador e o objeto pesquisado; c) ênfase no processo, naquilo que está ocorrendo e não no produto ou nos resultados finais; d) preocupação com o significado, com a maneira própria em que as pessoas veem a si mesmas, as suas experiências e o mundo que o cercam; e) envolve um trabalho de campo; f) formulação de hipóteses, conceitos, abstrações, teorias e não a sua testagem.
Para a escolha do novo campo de pesquisa foram realizados contatos com as Secretaria de Estado da Educação de Sergipe (Departamento de Educação – DED) e Secretaria Municipal de Educação de Aracaju para levantamento acerca de escolas que apresentassem indícios de práticas relacionais entre Artes e Matemática. Os primeiros contatos nos levaram a algumas escolas da Rede Municipal de Aracaju que, apesar de
trabalhar com artes, não evidenciavam práticas interdisciplinares ou multidisciplinares com a Matemática. Após algumas tentativas e, a partir de um novo critério (visitas às escolas com maiores índices de IDEB)11, chegamos à definição da escola campo da pesquisa, na qual a partir das visitas constatamos evidências do objeto de pesquisa em tela; possibilidades relacionais entre Matemática e Arte. A referida escola da Rede Municipal de Aracaju, identificada nesta pesquisa com o nome fictício “Centro Educacional Pintando o Sete” terá sua caracterização detalhada em item posterior.
No desenvolvimento da pesquisa, seguimos os seguintes procedimentos e usos de instrumentos:
1. Observação não estruturada, também chamada de assistemática, que foi o primeiro passo desenvolvido desde o processo de escolha criteriosa do local estabelecido para a pesquisa de campo. Conforme Marconi e Lakatos (2010, p.77) “A técnica da observação não estruturada ou assistemática, também denominada espontânea, informal, ordinária, simples, livre, ocasional e acidental, consiste em recolher e registrar os fatos da realidade sem que o pesquisador utilize meios técnicos especiais ou precise fazer perguntas diretas.”
Considerando que nossas observações se deram livremente no espaço da escola (em sala de aula), no recreio, na entrada, entre outros), atendendo ao calendário da escola, mas sem um roteiro prévio do que observar e registrar, mas considerando todos os acontecimentos como significativos, buscando, conforme aponta Lima (2006), os pormenores, os indícios, nos resíduos, nos detalhes pouco notados, por vezes considerados sem relevância, mas que favorece a percepção da realidade investigada, podendo indiciar hipóteses explicativas para o fenômeno. (GINSZBURG, 1989 apud LIMA, 2006). A princípio, durante um mês foram observadas todas as aulas das duas turmas, sendo que os demais meses (4 meses) a observação se concentrou nos horários definidos pelas professoras para as disciplinas de
11A seleção de um conjunto de escolas com maiores índices de IDEB para realizar o estudo exploratório foi uma
escolha que se deu após buscas infrutíferas por outros vias indicativas (Secretaria de Educação). Buscar um conjunto de escolas que tem se destacado nos levou a pensar que a probabilidade de encontrar nosso objeto de estudo talvez fosse maior e assim, teríamos um conjunto de escolas para selecionar. Foi um critério do momento, como poderíamos ter escolhido outros. Entendemos que ter IDEB alto não necessariamente significa ter mais experiências positivas significativas, mas de fato desperta a curiosidade acadêmica de entender os fatores que contribuem para isso. Como este não é nosso objeto de estudo paramos na escolha da escola pela evidência da presença do que nos propusemos a investigar.
Matemática e Artes. Também aproveitamos o recreio dirigido12 da escola para realizar observações e entrevistas informais às crianças. (MARCONI e LAKATOS, 2010, p.77)
2. Questionário Semiestruturado
Ainda na fase de observação, foram aplicados questionários semiestruturados contendo questões abertas e fechadas, a fim de obtermos dados cujas análises subsidiaram esta pesquisa. Sobre questionário nos embasamos em Minayo (2004), que expõe que o questionário semiestruturado compõe-se de perguntas estruturadas (fechadas) e perguntas abertas, nas quais quem responde tem a liberdade de discorrer sobre o tema proposto sem enquadramento pré-fixado pelo pesquisador. Os questionários foram aplicados a 13 professoras e à diretora da escola campo da pesquisa, tendo como objetivo de aplicação identificar indícios sobre o objeto de estudo (relação Matemática e Artes) para subsidiar a escolha das turmas nas quais centraríamos a pesquisa. Foi a partir da análise embrionária do questionário que definimos o 2º e o 4º ano do Ensino Fundamental como turmas a serem observadas e suas professoras a serem definidas como sujeitos centrais desta pesquisa.
3. Entrevistas semiestruturadas.
Para André (1995) é através das entrevistas intensivas que será possível “documentar o não documentado”, ou seja, tornar visíveis os encontros e desencontros que surgem no dia- a-dia da prática escolar, descrever as ações e representações dos seus protagonistas sociais, reedificar sua linguagem assim como suas formas de comunicação e os significados criados e recriados no cotidiano da prática pedagógica. Segundo a autora “[...] As entrevistas têm a finalidade de aprofundar as questões e esclarecer os problemas observados.” (ANDRÉ, 1995, p.28).
Sobre entrevistas semiestruturadas, Triviños (1987) aponta que a mesma traz questionamentos básicos, fundamentados em teorias e hipóteses que se relacionam ao tema da pesquisa, de modo a possibilitar o alcance dos objetivos propostos e cabendo ao pesquisador colocar o foco principal do procedimento, sendo o entrevistador responsável não só pela coleta verbal do que é dito, mas pela observação diretas de outras linguagens que favorecerá a compreensão do objeto de pesquisa. Para o autor o conhecimento da técnica e do objeto em estudo pelo pesquisador é fundamental para a confiabilidade dos resultados. Segundo o
12 Nessa escola a professora acompanha as crianças no recreio, sendo responsáveis pela proposição de
mesmo a entrevista semiestruturada “[...] favorece não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e a compreensão de sua totalidade [...]” (TRIVIÑOS, 1987, p. 152).
No nosso estudo elaboramos um roteiro com questões que explicitassem as questões norteadoras do estudo, principalmente aquelas que não foram devidamente contempladas nos questionários. Foram entrevistas as duas professoras (P1 e P2), sujeitos centrais dessa pesquisa.
4. Análise dos Dados
Em relação à análise de dados, utilizamos predominantemente técnicas qualitativas, entre estas a definição de categorias temáticas, agrupamento de termos com significados semelhantes às falas dos sujeitos (coletadas no diário de campo, questionários aplicados e entrevistas realizadas, objetivando análise e interpretação posteriores).
Na análise dos dados da pesquisa em tela, após transcrição, digitação e organização inicial dos dados, organizamos os dados dos questionários e das entrevistas em categorias e subcategorias temáticas, sendo que para a análise interpretativa também acrescentamos categorias situacionais, (situações registradas no diário de campo), que requerem descrição do contexto no qual a fala se deu.
A interpretação dos dados deu-se à luz dos diversos referenciais apresentados e discutidos no capítulo de fundamentação teórica, o qual foi enriquecido por obras demandadas no momento da análise dos dados.
1.3. CARACTERIZANDO O CAMPO E OS SUJEITOS DA PESQUISA