4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Caracterizando e descrevendo as oficinas de família
Antes de iniciar propriamente a discussão sobre os processos de significação de família observados no corpus da presente pesquisa, é relevante caracterizar e descrever de
forma geral cada oficina realizada. Isso com vistas a permitir considerações mais globais sobre os dados que possam ser esmiuçadas/aprofundadas ao se recorrer ao nível criterioso de recorte e detalhamento dos episódios e das conversas individuais.
Oficina #1
Instituição: A Crianças participantes: Caio (M/3;3); Douglas (M/3;8); Gabriela (F/3;5); Luciano (M/4;4); Renan (M/5;10) Duração: 35min52s Constituída por cinco crianças, sendo duas delas irmãos reais (Caio e Renan), caracterizou-se especialmente pelo desenrolar de duas brincadeiras paralelas que se entrecruzaram pouco depois da metade da sessão. Após um difícil processo de definição de ‘personagens’, em que a permissão para a exploração e o manuseio de objetos foi dada com todos os participantes no papel de amigo, os ‘personagens’ da família foram melhor se caracterizando ao longo da construção lúdica. Assim, estabeleceu-se a interação de Gabriela e Luciano, que figuraram como mãe e filho, brincando durante bastante tempo com os objetos de maquiagem em um cantinho mais isolado da sala, na parte intermediária vazada de um armário. De outro lado, Renan, Caio e Douglas levaram a cabo suas interações a partir do estabelecimento de uma relação entre o pai e seus dois filhos, respectivamente. Embora existindo dois filhos, a relação entre irmãos não foi por eles caracterizada. A sessão seguiu com o claro desejo de Renan de construir uma casa. Sua vivência como pai aconteceu por ações pontuais e, principalmente, por breves momentos em que assim foi nomeado pelos dois parceiros, respondendo a estes quando solicitado. De igual modo, a relação mãe e filho entre Gabriela e Luciano constituiu-se por breves ações, ganhando maior consistência a partir do momento em que Renan, após algumas tentativas, conseguiu se inserir no enredo lúdico dos colegas e passou a também ser filho de Gabriela. Deste ponto em diante, o garoto dividiu-se entre ser filho em uma brincadeira e ser pai em outra, as quais persistiram concomitantemente.
Oficina #2
Instituição: A Crianças participantes: Marina (F/6;7); Luciano (M/4;4); Renan (M/5;11)25; Suely (F/7;1) Duração: 34min54s Constituída por quatro crianças, sendo duas delas irmãos reais (Marina e Renan), caracterizou-se por relevantes processos de negociação dos participantes entre si e com o pesquisador. As crianças não tiveram dificuldades em apontar os ‘personagens’ da família, mas precisaram negociar longamente umas com as outras a assunção de cada um deles. Ao final do momento inicial de definição destes, iniciaram a exploração e o manuseio dos objetos como pai, filho e duas tias. Disputas de papel e de objetos permearam a relação entre as meninas em um primeiro momento, porém, tão logo, minimizada essa questão, elas engataram uma construção lúdica em que claramente exerceram os papéis de mãe (Suely) e filha (Marina). Por outro lado, em resposta ao pesquisador, costumaram sempre retomar o ‘personagem’ da tia, inicialmente escolhido, poucas vezes reconhecendo verbalmente que agora eram mãe e filha. Os meninos foram excluídos de qualquer possibilidade de inserção nessa brincadeira por Suely e, assim, viram-se enleados na opção de brincar de pai (Luciano) e filho (Renan). Luciano, algumas vezes, tentou trocar de ‘personagem’ com o parceiro, mas não obteve sucesso, na medida em que, em nenhuma de suas tentativas, foi reconhecido por este enquanto filho. A relação mãe e filha caracterizou-se por ações hierarquicamente autoritárias, aliada a referências a um ‘pai de mentirinha’ (ainda que estivessem presentes dois meninos na sessão que poderiam assumir o papel). Interessante que, em algumas situações, o desenrolar do enredo foi explicitamente negociado pelas meninas. Enquanto isso, a relação pai e filho foi pontuada basicamente por ações de cuidado.
Oficina #3
Instituição: B Crianças participantes: Carlos (M/5;5); José (M/5;11); Thaís (F/4;5); Viviane (F/5;9) Duração: 27min30s Constituída por quatro crianças, sendo duas delas irmãos reais (José e Thaís), caracterizou-se pela construção de uma brincadeira envolvendo os ‘personagens’ pai (José), mãe (Viviane), filho (Carlos) e filha (Thaís), com ações de cuidado (fazer comida, ninar bebê) dos primeiros para com os últimos, enquanto estes se envolveram menos frequentemente em ações conspícuas relacionadas a família. Um ponto de destaque consistiu na ação de José (como pai) pegar o telefone de brinquedo dentre os objetos disponíveis e encabeçar o faz de conta de uma ligação para a polícia queixando-se dos colegas por eles estarem “bagunçando”. Esse fato suscitou questionamentos do pesquisador que visaram abordar possíveis sentidos e significados ligados à referência criada pelo garoto de recorrer à polícia em uma situação de ‘bagunça’.
Oficina #4
Instituição: B Crianças participantes: Artur (M/7;1); Cristiane (F/±6;0); Eduardo (M/3;1); Jonas (M/6;9) Duração: 26min20s + 10min02s26 Constituída por quatro crianças, perpassou a existência do pai (Artur), da mãe (Cristiane) e dos filhos (Eduardo e Jonas), mas também trouxe um novo elemento aos ‘personagens’ da família: a consideração da mulher/namorada. Utilizando-se do recurso à narrativa da história do filme infantil O Rei Leão27, Artur criou um enredo familiar para o leão, explicitando os integrantes da família, e, assim, considerando a relação horizontal (numa mesma geração) entre
26 Aos 26 minutos e 20 segundos, a videogravação sofreu uma pequena interrupção em virtude da chegada de cuidadoras da instituição para dar remédio às crianças, sendo retomada logo em seguida por mais 10 minutos, aproximadamente.
27 O REI Leão. Direção: Roger Allers; Rob Minkoff. Roteiro: Irene Mecchi; Jonathan Roberts; Linda Woolverton. Produção: Don Hahn. [S.I.]: Walt Disney Productions; Buena Vista Pictures, 1994. 1 DVD (88 min).
parceiros amorosos. Interessante que esta relação apareceu também no posterior enredo de brincadeira das crianças. Outro ponto relevante consistiu no relato de Artur sobre uma possível vivência de ter sido levado com dois irmãos (José e Thaís, da Oficina #3) e duas outras pessoas (certamente outros irmãos) para a Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente (GPCA). Essa narrativa teve espaço em dois momentos da sessão e ganhou seu contraponto na brincadeira de faz de conta, quando Artur (no papel de pai, assim como agiu José na Oficina #3) pegou o telefone de brinquedo e fez como se estivesse ligando para a GPCA para se queixar dos colegas por ele estarem “bagunçando”. Indagações do pesquisador buscaram explorar possíveis sentidos e significados relacionados a polícia nas considerações do garoto que giravam em torno da temática família.
Oficina #5
Instituição: C Crianças participantes: Diego (M/6;3); Gustavo (M/5;0); Hugo (M/5;2); Karla (F/6;2); Ruan (M/5;11) Duração: 31min01s Constituída por cinco crianças, abarcou a grande ocorrência de verbalizações entusiasmadas na exploração dos objetos. Contando, inicialmente, com o pai (Ruan), a mãe (Karla), o filho (Hugo), o avô (Diego) e o “tio do parque” (Gustavo), envolveu em seu transcorrer a existência de ‘personagens’ como o cozinheiro e o cabeleireiro, surgidos em grande imbricação com os objetos utilizados pelas crianças naquele dado momento. Mais para o fim da sessão, ganhou o contorno de um faz de conta envolvendo uma mãe e seus quatro filhos. A relação nesse ponto caracterizada foi verbalmente explicitada por Karla como envolvendo ações de cuidado da mãe para com os filhos. Além disso, configurou-se uma situação de demonstração de afeto do filho em relação à figura materna quando Hélio, claramente dirigindo-se à mãe (Karla), ofertou-lhe um presente.
Oficina #6
Instituição: D Crianças participantes: Breno (M/4;3); Francisco (M/5;8); Raquel (F/3;0); Vânia (F/5;6) Duração: 31min02s Constituída por quatro crianças, caracterizou-se pela grande ênfase infantil na assunção dos ‘personagens’ irmão e irmã. Embora pai e mãe tenham sido mencionados, e, de algum modo, em breves ocasiões, também escolhidos como papel a ser vivenciado, não receberam destaque nas construções lúdicas. Despertou atenção a clara menção à relação fraternal dos filhos, tendo sido referido em determinado momento por Francisco que a brincadeira era com “um bocado de filho”, seguindo-se a insistência de Vânia no sentido de que ela e Raquel seriam irmãs. Breno, desde o início, disse ser filho, sem necessariamente dirigir-se a algum parceiro como pai ou mãe. Raquel se esquivou de qualquer questionamento do pesquisador, não lhe respondendo e até distanciando-se dele, e explorou e manuseou objetos ao seu modo. E Francisco ‘flutuou’ entre os ‘personagens’ que naquele instante lhe deveriam ser mais interessantes: mãe, irmão, girafa.
Tendo sempre em mente o panorama descritivo acima, busca-se, a partir desse ponto, mergulhar propriamente nas reflexões e discussões sobre família, a partir dos sentidos e significados construídos e compartilhados pelas crianças em sua situação peculiar de acolhimento institucional, compreendendo que se está analisando um processo em curso (BRUNER, 1983/2007, 1990/1997), efetivado nas diferentes interações com os pares e com os adultos pesquisadores, em um momento sócio-histórico circunscrito (ROSSETTI- FERREIRA; AMORIM; SILVA, 2004).