3 PARTE II
3.1 Caracterizando o corpo deficiente: corpo nos disability studies
Como vimos, sendo uma investigação através do modelo social ou do modelo de minorias/de direitos, a deficiência antes de mais nada se aloca no social e não no individual em si. Conforme esses estudos, deficiência não é mais um atributo biológico e
53 sim uma maneira política e social de alocar determinados indivíduos como ‘incapazes’,
‘improdutivos’, ‘inferiores’, a partir de suas configurações corporais ‘limitadas’
(MCRUER, 2002). O principal pressuposto que veio sendo formulado nas teorizações sociais sobre deficiência é que ela não é intrínseca aos corpos e sim é fruto de arranjos sociais opressivos e discriminatórios que precisam ser reformulados para incluir o máximo de variabilidades corporais e reduzir ao máximo respostas segregacionistas.
Contudo, o que pude destacar da literatura que acessei entre os anos 1990 e 2000 é uma preferência em questionar essa noção dicotômica que coloca em campos distintos de análise a deficiência e aqueles(as) que são classificados(as) como deficientes (GARLAND-THOMSON, 1996, 1997; HUGHES & PATERSON, 1997; TREMAIN, 2000, 2005; DINIZ, 2003, 2007; DAVIS, 2006; SHAKESPEARE, 2006; MCRUER;
2006; MELLO, 2009; FREMLIN, 2011; HARLOS, 2012; COSTA C. ANDRADA, 2013).
Ao tentar compreender essa crítica nesta breve investigação teórico-bibliográfica, foi possível perceber que o que se disputa, de certa maneira, é a própria noção de ‘corpo deficiente’. O privilégio teórico e analítico dado à estrutura social como produtora de deficiências, entre o fim dos anos 1970 até meados dos 1990, foi o mote para começar a se retirar do domínio médico e da inevitável explicação biológica a vulnerabilidade social e econômica daqueles considerados deficientes. Nas palavras dos teóricos da deficiência norte-americanos Susan Snyder e David Mitchell (2001, p. 374):
Desde que os corpos deficientes sofreram historicamente classificações debilitantes, os disability studies propositadamente se abstiveram de formular as experiências corporificadas das pessoas com deficiência. Esta negligência foi intencional e estratégica: ela explicitamente procurou deixar uma entidade sobre-analisada misericordiosamente sozinha. Em vez disso, o olhar crítico estava ligado às práticas avaliativas físicas, ocupacionais e psicológicas e sobre as instituições que autorizavam tal olhar […]74.
Então, o que passará a ser problematizado mais veementemente nos disability studies, desde o fim dos anos 1990, é como teorizar corpo e deficiência de maneira correlacionada: evitando considerar o corpo somente como receptáculo inerte de atributos
74 Since disabled bodies had endured such a history of debilitating classifications, disability studies purposely refrained from formulating the embodied experiences of disabled people. This neglect was willful and strategic: it explicitly sought to leave an overanalyzed entity mercifully alone. Instead, the critical gaze was turned on the practitioners of physical, occupational, and psychological evaluations and on the institutions that authorized their gaze.
54 organicamente deficitários, como propunha a noção biomédica; ao mesmo tempo que busca ressignificar as experiências de opressão e discriminação social, propostas nas abordagens construcionistas, como experiências corporificadas.
Segundo Lennard J. Davis (2006b, p. XVI) ao longo dos anos 1990 perspectivas como a dos estudos literários, da história da arte, de estudos pós-coloniais e feministas vão acompanhar a expansão dos disability studies nas humanidades. Contudo, é impossível nos remetermos aos disability studies sem nos referirmos à separação entre corpo e sociedade, entre lesão e deficiência proposta mais fortemente pelos autores britânicos entre os anos 1980 e 90.
Apesar do modelo social britânico não ser a única abordagem sociológica de análise da deficiência, como vimos, acredito que devido a sua radicalidade metodológica, ele tenha se tornado a 'grande ideia’ (BARNES et al. 2002) para se pensar a deficiência como um 'problema' social que precisava ser resolvido. Costuma-se falar em primeiros teóricos do modelo social, aqueles envolvidos desde o final dos 70 na criação da UPIAS.
Porém, como dito anteriormente é Oliver que estrutura durante os anos 1980 o modelo social como conhecemos hoje. É esse autor também que propõe, como contraponto a esse modelo, a existência de um modelo individual, ou da tragédia pessoal - que depois serão genericamente chamados de modelo médico.
Assim, argumenta-se que essa primeira geração de modelistas sociais é uma vertente mais 'dura/radical' do modelo social britânico. Essa versão mais rígida seria contraposta às versões menos contundentes desse modelo que surgiram nos anos 1990 a partir da crítica feminista (DINIZ, 2003, 2007; MEDEIROS & DINIZ, 2004;
SHAKESPEARE, 2006; MELLO, 2009; MELLO, NUERNBERG, 2012; HARLOS, 2012; COSTA C. ANDRADA, 2013). Essas críticas feministas se voltariam para uma revisão e ampliação desse modelo. Para Diniz, principalmente, são as feministas que trazem para o modelo social as experiências da dor, do corpo com lesão e da dimensão do cuidado. Segundo Diniz (2003, 2007) é a crítica feminista e pós moderna, insurgentes nos anos 1990 e 2000, que “definiu a segunda geração de teóricos do modelo social”
(Diniz, 2007, p. 58). Ainda conforme Diniz (2007, p. 60-1) foram as
[...] teóricas feministas que trouxeram à tona temas esquecidos na agenda de discussões do modelo social. Falaram do cuidado, da dor, da lesão, da dependência e da interdependência como temas centrais à vida do deficiente. Elas levantaram a bandeira da subjetividade do corpo lesado, discutiram o significado da transcendência do corpo por meio da experiência da dor, e assim
55 forçaram uma discussão não apenas sobre deficiência, mas o que significava viver em um corpo doente ou lesado.
Nesse sentido, a ativista britânica feminista e deficiente Jenny Morris (1991, p.
10. Citada também em OLIVER, 1996, p. 11) (uma das autoras mencionadas durante o texto supracitado de Diniz) dialoga criticamente com o modelo social britânico dizendo
Há uma tendência dentro do modelo social da deficiência de negar a experiência de nossos próprios corpos, insistindo que as nossas diferenças físicas e restrições são criadas inteiramente socialmente. Enquanto as barreiras ambientais e atitudes sociais são uma parte crucial da nossa experiência de deficiência - e, de fato, nos deficientiza - sugerir que isto é tudo o que existe [sobre deficiência] é negar a experiência pessoal de restrições físicas ou intelectuais, da doença, do medo de morrer75.
Morris também é reconhecida por suas críticas aos fundadores do modelo social britânico por tentarem universalizar em suas teorias uma noção de deficiência que estava intimamente ligada à posição desses sujeitos. A crítica de Jenny Morris (1991) deflagrou o caráter masculinista e branco que se atrelou a uma noção exclusivamente física e estática de deficiência (DINIZ, 2003; 2007; MELLO, NUERNBERG, 2012; HARLOS, 2012). Levando em consideração que a maioria daqueles ativistas e teóricos eram lesionados medulares (DINIZ, 2007), Morris argumentava que as teorizações do modelo social estavam fadadas a reproduzir uma lógica que não considerava como central as experiências femininas na deficiência, além de outros aspectos que poderiam ser de extrema valia para interpretá-la socialmente [assim como dito anteriormente com relação a se viver com dores crônicas ou a interdependência gerada pelo cuidar do(a) outro(a)].
Juntamente a essa expansão crítica feminista que toma maior força durante os anos 1990 nos disability studies, inclusive entrando em diálogo com as proposições do modelo social britânico - como Diniz bem indica - é no mesmo período que começa a haver um maior movimento interdisciplinar na área. Em artigo de 1999 Davis (p.508-9) já pontuara que
Por 20 anos, disability studies têm sido o domínio de cientistas políticos e sociólogos. A Society for Disability Studies (SDS) e sua publicação, The Disability Studies Quarterly, juntamente com a revista britânica Disability and Society, são todos dominados
75 There is a tendency within the social model of disability to deny the experience of our own bodies, insisting that our physical differences and restrictions are entirely socially created. While environmental barriers and social attitudes are a crucial part of our experience of disability - and do indeed disable us - to suggest that this is all there is to it is to deny the personal experience of physical or intellectual restrictions, of illness, of the fear of dying.
56 por cientistas sociais. Mas, recentemente, os disability studies tomaram uma nova direção, através do impulso pelos estudos culturais, e se desviaram para as humanidades, cultura popular, a teoria literária, e assim por diante76.
Para esse autor, a deficiência pode ser capturada através das representações culturais encontradas nas obras literárias. Uma vez que a literatura é produzida dentro de contextos socioculturais específicos, é possível perceber que dentre as personagens as
Protagonistas são quase sempre definidas como tendo corpos normais, a configuração padrão de fisicalidade em romances.
Quando as personagens têm deficiências, o romance é geralmente exclusivo sobre essas qualidades. No entanto, a personagem com deficiência nunca é importante para si mesma. Em vez disso, a personagem é colocada na narrativa "para" as personagens não deficientes visando ajudá-las a desenvolver simpatia, empatia, ou como um contrapeso a algum problema na vida da personagem
"normal". (DAVIS, 1999, p. 510) 77
Neste sentido e poucos anos antes ao texto supracitado de Davis, a obra já mencionada da autora Rosemarie Garland-Thomson (1997) nos fornece mais informações para pensarmos os alicerces teóricos que foram constituindo o que já se nomeava disability studies durante os anos 1990. Garland-Thomson (1997, p. 15-6)78 descreve este seu livro como
[...] um manifesto que coloca os disability studies no contexto das humanidades. Mesmo os disability studies tendo se desenvolvido como um subcampo de pesquisa nos campos acadêmicos da sociologia, antropologia médica, educação especial e medicina reabilitativa, quase nenhum estudo nas humanidades explicitamente situa deficiência em uma perspectiva politizada e social construcionista. Um dos objetivos deste livro é começar a
76 For 20 years, disability studies has been the domain of political scientists and sociologists.
The Society for Disability Studies (SDS) and its publication, The Disability Studies Quarterly, along with the British journal Disability and Society, are all dominated by social scientists.
But recently disability studies has taken a new direction, given a boost by cultural studies, and has veered toward the humanities, popular culture, literary theory, and so on.
77 Protagonists are almost always defined as having normal bodies, the default setting of physicality in novels. When characters have disabilities, the novel is usually exclusively about those qualities. Yet the disabled character is never of importance to himself or herself. Rather, the character is placed in the narrative "for" the nondisabled characters to help them develop sympathy, empathy, or as a counterbalance to some issue in the life of the "normal" character.
78 Na nota 18 (p. 142), referente a este trecho citado, a autora menciona três obras que abordam a deficiência nesse contexto cultural e literário: The Cinema of Isolation de Martin Norden;
Lennard J. Davis, ed., The Disability Studies Reader (New York: Routledge, 1996); e Lennard J. Davis. Enforcing Normalcy.
57 formular o que os disability studies poderiam parecer como um subcampo na crítica literária e estudos culturais.79
A autora então buscará, a partir de considerações advindas da teoria feminista (em principal) e da teoria crítica literária, pontuar “[...] como representações vinculam significados às diferenças físicas que chamamos deficiência” (GARLAND-THOMSON, 1997, p. 30)80. Para pensar as intersecções sobre corpo e cultura a autora invocará obras que, segundo ela, não especificamente lidam com gênero e deficiência. Segundo Garland-Thomson algumas obras de autores como Goffman, Foucault e Mary Douglas, propõe análises socioculturais que podem ser aproveitadas para formulação de uma “teoria da deficiência” [disability theory] (GARLAND-THOMSON, 1997, p. 30). Dentre esses autores, Garland-Thomson chama atenção para Goffman como o único que aponta diretamente deficiência em sua teoria sociológica do estigma. Para ela a análise de Goffman em Estigma - Notas Sobre A Manipulação Da Identidade Deteriorada (publicado pela primeira vez em 1963), “[...] alicerça o nascente campo dos disability studies nas ciências sociais. Como a teoria feminista, a teoria do estigma fornece um proveitoso vocabulário para alocar a deficiência em contextos sociais” (GARLAND-THOMSON, 1997, p. 30).81
O que quero chamar atenção nesta pequena parte que considerei do debate proposto por Rosemarie Garland-Thomson em seu livro é para uma possível ‘constituição política da deficiência’ a partir de outros referenciais teóricos que não o modelo social da deficiência britânico. Garland-Thomson não cita a produção inglesa em sua obra como uma teoria da deficiência, aliás a autora não faz menção alguma ao modelo social britânico, mesmo que quase o descrevendo em sua análise, com termos muito semelhantes aos preceitos considerados advindos deste modelo. Por exemplo, ao mencionar que os movimentos liberacionistas em busca por igualdade (no contexto norte-americano pós-anos 1960), postularam gênero e raça como diferenças ao invés de desvios, Garland-Thomson (1997, p. 23 )pontua que a
79 A manifesto that places disability studies within a humanities context. Although disability studies has developed as a subfield of scholarly inquiry in the academic fields of sociology, medical anthropology, special education, and rehabilitative medicine, almost no studies in the humanities explicitly situate disability within a politicized, social constructionist perspective. One of my aims in this book, then, is to begin formulating what disability studies might look like as a subfield in literary criticism and cultural studies.
80 ‘[…] how representation attaches meaning to the physical differences we term disability’
81 ‘[…] underpins the nascent field of disability studies in the social sciences. Like feminist theory, stigma theory provides a useful vocabulary for placing disability in social contexts’
58 [...] deficiência ainda permanece como inadequação corporal ou catástrofe a ser compensada pela pena ou boa vontade, ao invés de ser acomodada por mudanças sistêmicas baseadas nos direitos civis. De um lado, então, é importante usar o argumento construcionista para afirmar que deficiência não é insuficiência corporal, e sim algo que advém da interação de diferenças físicas em um ambiente. Do outro, a particular, existência histórica do corpo deficiente demanda duplamente acomodação e reconhecimento. Em outras palavras, as diferenças físicas como usar cadeira de rodas ou ser surdo, por exemplo, devem ser reivindicadas, mas não consideradas como perda/falta 82.
Como disse, é possível essa leitura discursiva, essa leitura que historiciza corpos e suas materialidades na tentativa de questionar o aparente estatuto apolítico que os saberes hegemônicos sobre o corpo – como a medicina e a própria sociologia – inferem sobre ele. O meu ponto nessa discussão é que o corpo deficiente não foi em si resgatado nos debates socioculturais sobre deficiência, como parecem sugerir alguns autores e autoras (HUGHES & PATERSON, 1997; SNYDER & MITCHELL, 2001), mas o corpo se torna foco de um debate político em transformação.
Se durante os anos 1970-80 a deficiência se torna uma identidade positivada politicamente, ela se positiva perante a vontade de participar da ordem que a excluía/oprimia como uma experiência legítima. O discurso do modelo social aloca essa experiência socialmente e desconsidera a dimensão de determinadas experiências corporais. Separar deficiência de lesão, é evidenciar a opressão estrutural que determinadas pessoas sofrem por causa de seus corpos. Basicamente, corpo é visto por essa teorização como um receptáculo de simbologias sociais e culturais. O corpo lesado ou lesionado, do modelo social, paradoxalmente, não é causa nem consequência da deficiência (TREMAIN, 2006; FREMLIN, 2011). Nas palavras de Mike Oliver:
“‘Deficiência não tem nada a ver com o corpo’ e que a ‘lesão é de fato nada menos do que uma descrição do corpo físico’” (Apud. PATERSON & HUGHES, 1997, p. 32) 83.
82 ‘[…] disability is still most often seen as bodily inadequacy or catastrophe to be compensated for with pity or good will, rather than accommodated by systemic changes based on civil rights.
On the one hand, then, it is important to use the constructionist argument to assert that disability is not bodily insufficiency, but instead arises from the interaction of physical differences with an environment. On the other hand, the particular, historical existence of the disabled body demands both accommodation and recognition. In other words, the physical differences of using a wheelchair or being deaf, for example, should be claimed, but not cast as lack.’
83 ‘Disablement has nothing to do with the body’ and that ‘impairment is in fact nothing less than a description of the physical body’
59 Dessa maneira podemos considerar tanto o construcionismo social britânico sobre deficiência, fortemente baseado na dicotomia lesão/deficiência, quanto o construcionismo social norte-americano, baseado no modelo minoritário ou de direitos, estão ligados a essa noção geral do debate entre corpo e sociedade, no qual o corpo, deficiente ou não, é matéria orgânica, objetivo exclusivo do saber biomédico, dos modelos clínicos; e socialmente falando, esse corpo é somente ancoragem de simbologias e interpretações que variam de acordo com os preceitos de cada sociedade ou cultura.
Assim, se pensarmos a constituição dos disability studies a partir dessas problematizações gerais em torno do “corpo”, perceberemos que nos anos 1970-80 a visão de corpo nas ciências sociais – as primeiras referências diretas dos primeiros estudos sociais sobre deficiência – é exatamente a de um dado orgânico em que se investe simbologias. O corpo seria o suporte do signo, um fato biológico que varia de acordo com percepções culturais inscritas em sua materialidade orgânica universal. Em artigo de 201084 a psicóloga Maria Elisa Rizzi Cintra e o antropólogo Pedro Paulo Gomes Pereira abordam como nas ciências sociais alguns autores e autoras têm centrado suas perspectivas a partir do corpo, mas que não necessariamente contestam as bases mais deterministas de se pensar a corporalidade:
O corpo vem se firmando como um terreno privilegiado para se entender as disputas em torno de novas identidades, da preservação de identidades históricas, da ascensão de híbridos culturais ou das recontextualizações locais de tendências globais.
As polêmicas análises sobre a temática afirmam seu caráter essencial para a compreensão das sociedades contemporâneas.
Todavia, diante dessas questões e da multiplicidade de análises, talvez devêssemos, para replicar aqui uma indagação de Miguel Vale de Almeida, insistir numa simples pergunta: de que falamos quando falamos de corpo? (Ênfase minha) (CINTRA e PEREIRA, 2010).
A provocação teórica da citação acima me fez considerar outra questão seguindo os termos dessa pesquisa: de que corpo deficiente falamos então? Esta é uma indagação importante que foi sendo formulada no andamento da pesquisa e acredito não possuir resposta exata. Conforme avançava nas leituras fui me deparando com maneiras diversas de teorizar socialmente sobre deficiência. Minha aparente implicância com os modelos
84 O texto não possui paginação especifica e está online no endereço
http://periodicos.ses.sp.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-18122010000100010&lng=en&nrm=iso
60 construcionistas sociais sobre deficiência é fruto da minha inquietação, em partes responsável pela dúvida “que corpo é esse que figura em tais teorizações?” e também em compreender mais profundamente como deficiência se constitui como um problema sociológico aparentemente desprovido de corpo. Ou seja, nas primeiras leituras sobre disability studies que tive contato deficiência se “desvincula” do corpo para ser constituída como um problema político e depois sociológico, por exemplo. Porém, o que se começou a argumentar fortemente nas teorias sociais pós anos 1990 é que o próprio corpo humano não é anterior as práticas e saberes que o delimitam como saudável, completo, funcional ou não (ABBERLEY, 1987; ZOLA, 1991; HUGHES &
PATERSON, 1997; TREMAIN, 2000; 2005; SNYDER & MITCHEL; 2001;
BRECKENRIDGE & VOGLER, 2001)
Sem conseguir entrar nos pormenores que se relacionam à descrição biológica do que seria o corpo deficiente focalizei em pensar a deficiência como fruto de relações sociais, em que sua dimensão biológica, ou melhor, o que se produz hegemonicamente sobre deficiência no saber biomédico, pode ser considerada dentro desse complexo relacional. Logo abaixo abordarei, mesmo que de maneira abrangente e histórica, a descrição biológica a qual me refiro, contudo já é preciso salientar que ela conecta-se à visão médica e anatômica de um organismo morfofuncional determinado e reconhecível sob o olhar objetivo do saber biomédico. Para essa maneira de pensar deficiência, o corpo deficiente é aquele que possui determinado déficit, perante uma norma estabelecida, seja ele efeito de variadas naturezas e causas (desde o ser mulher, negro(a), desejar pessoas do mesmo sexo ou desejar que uma de suas pernas sejam amputadas85, não possuir visão ou sentir dores crônicas). O corpo então é receptáculo da deficiência, de um atributo, congênito ou adquirido, organicamente deficitário, um defeito, falha, lesão, que impeça o funcionamento considerado normal do corpo humano. Nesse sentido, colocar a deficiência dentro de um complexo relacional, como mencionei, implica em pensar a
85 Aqui me refiro às pessoas conhecidas como wannabes (querem ser). Os e as wannabes são pessoas que, de maneira geral, querem ter seus corpos transformados em ‘deficientes’ através de intervenções médicas, como amputações e paralizações. Segundo o blog ‘O Universo dos Desejos Tortos’ <
http://deficientesedevotees.blogspot.com.br/ >: “São considerados wannabes pessoas que de fato tentaram uma auto mutilação e estão intrinsecamente ligados à amputação”. O caso de maior repercussão midiática sobre esse ponto se deu no começo dos anos 2000, quando tornaram-se públicas as cirurgias de amputação voluntária de membros saudáveis (de duas pessoas sem deficiências) feitas pelo cirurgião escocês Robert Smith ao fim dos anos 1990 (ELLIOTT, 2000; SULLIVAN, 2005; BAYNE; LEVY, 2005). Smith se defendeu da opinião pública chocada com as intervenções desnecessárias em um artigo de 2004 no qual aborda que as pessoas que o buscaram para realizar as operações sofriam de Transtorno da Identidade Amputada (Amputee Identity Disorder) (SMITH, 2004).
61 deficiência como fruto de um conjunto de relações sociais, culturais, históricas e políticas, principalmente pela perspectiva crítica ao 'discurso pela falta', levado pela medicina, ser ligado as movimentações politicas das pessoas deficientes pelo mundo.
Então, não é considerar o corpo deficiente como um espaço de ausências, como não é só criticar o discurso biomédico como simples normalizador de corpos, mas tentar alocar historicamente determinados conhecimentos e discursos como mediadores dos entendimentos sobre os corpos e não meros descritores neutros do que seriam as diferentes formas, culturais ou não, de possuí-los. Através do discurso biomédico, por exemplo, alguns corpos puderam ser hegemonicamente reconhecidos e caracterizados como deficientes, ou seja, o conhecimento médico, anatômico e fisiológico do corpo humano estabeleceu uma norma, uma estatística mensurável de como o corpo humano deveria ser e se comportar (ORTEGA, 2008). O ideal de um corpo a ser alcançado é substituído por uma norma mensurável de lógicas orgânicas e populacionais. Essa norma é uma descrição estatística da morfologia e cognição humanas que passa a ser considerada média em uma população. Todos os desvios desse ponto normal passam a ter que ser examinados e classificados (DAVIS, 2006c).
Segundo o histórico das práticas de normalização abordado pelo sociólogo Richard Miskolci (2005, p. 10) o que acontece durante o século XIX é o crescente avanço da '[...] medicina social, a qual passou a enquadrar as práticas sociais a partir de seus próprios conceitos. Progressivamente toda forma de comportamento que não se enquadrava no crescente padrão burguês de sociabilidade passou a ser vista como anomalia e desvio'. Com isso, Miskolci (2005, p. 12) nos alerta que 'fenômenos históricos e socialmente criados' - como a prostituição, criminalidade, desemprego - 'passam a ser vistos de maneira naturalizada' principalmente a partir do desenvolvimento dos grandes centros urbanos característicos do avanço capitalista e da organização social burguesa.
Ecoando as análises do filósofo francês Michel Foucault, o autor explica que 'todo desvio passou a ser considerado doença, assim como o desviante passou a ser declarado um degenerado' devido ao advento do poder disciplinar, 'um meio de intervenção e normalização social que foi responsável pela criação do desvio' (MISKOLCI, 2005, p.
12). Para esse sociólogo (MISKOLCI, 2005, p. 13)
[...] o poder disciplinar se caracteriza por uma técnica positiva de intervenção e controle social baseada na norma, a qual qualifica e corrige ao mesmo tempo. A norma não visa excluir, antes é a pedra de toque de uma técnica positiva de intervenção e
62 transformação social. Os dissidentes passam a ser classificados e corrigidos.
Seria dessa forma, então, que o desvio - como um perigo a integração social - se originaria em um momento histórico de constante vigilância sobre a vida humana, uma constante observação quantificável e normalizadora sob o poder do discurso médico social. Essa relação recíproca entre o desvio e a normalização que o produz, só é possível a partir da consolidação do biopoder no século XVIII. Novamente ecoando Foucault, Miskolci (2005, p. 13) nos indica que biopoder é 'um conjunto de práticas e discursos que constituem a sociedade burguesa através do foco nos corpos e na vida' (ênfases minhas).
O biopoder se preocupa em gerenciar, através de uma política da vida, a reprodução social, econômica e biológica necessária a manutenção dessa ordem social e moral burguesa que já vinha se estabelecendo desde o começo século XIX. Nas palavras de Michel Foucault (1999, p. 293): “A biopolítica lida com população, e a população como problema político, como problema a um só tempo científico e político, como problema biológico, como problema de poder [...]”.
Para Francisco Ortega o corpo contemporâneo está emaranhado em um discurso bioascético sobre saúde que o autor denomina healthism86. Healthism ‘que pode ser traduzido como a ideologia ou a moralidade da saúde’ é ‘a forma que a medicalização adquire na biosociabilidade’. Segundo esse filósofo, foi com tal moralidade que “a saúde tornou-se não só uma preocupação, tornou-se também um valor absoluto um padrão para julgar um número crescente de condutas e fenômenos sociais. Menos um meio para atingir outros valores fundamentais, a saúde assume a qualidade de um fim em si [...]”
(ORTEGA, 2008, p. 31). Assim, “força, rigidez, juventude, longevidade, saúde, beleza são novos critérios que avaliam o valor da pessoa e condicionam suas ações” (ORTEGA, 2008, p. 34).
O eu que busca ser ‘saudável’ precisa ser ‘refletido’ na materialidade do corpo, que também terá aspectos de boa saúde. Um empreendimento moral se dá entre ‘essência’
e ‘aparência’. Para Ortega, a vigilância do corpo – para manutenção de suas boas capacidades funcionais - e a tentativa de discipliná-lo - para extrair-lhe todas suas
86 Mesmo Francisco Ortega não mencionando, este conceito já encontrava-se em circuito sociológico desde o final dos anos 1970. A edição Disabling Professions (1977) traz um texto do sociólogo Irving Zola chamado Healthism and Disabling Medication. Devido a influência deste sociólogo para os disability studies, as ideias do ‘saudismo’, podem ser consideradas como um espectro de suas investigações sociais sobre deficiência.