4. Conclusão
4.1. Enquadramento do autor nas novas tendências da literatura contemporânea de
4.1.1 Caraterísticas do autor identificadas ao longo da obra
O estreito mundo infantil é alvo, na obra do escritor, de uma reconfiguração onírica potenciadora da imaginação e da criatividade. O autor constrói argumentos narrativos que combinam, de forma hábil, o universo realista com o maravilhoso, explorando as vertentes da fantasia e da imaginação.
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As potencialidades do imaginário são percorridas pelo humor, por um sentido cómico que desarma o leitor e cria um efeito de surpresa que o faz sorrir. É a promoção do nonsense que desconstrói estereótipos e ideias feitas, um intento declarado do escritor: “Penso que em todos os meus livros existe o propósito claro de desconcertar o leitor, de o inquietar e de no final o deixar com novas questões às quais ele mesmo terá de responder” (Maldonado, 2011: 15).
O inesperado (um rapaz de cinco anos que vai gerir os medos do irmão mais velho), o ilógico (uma panóplia de animais, incluindo um dinossauro, que enche o quarto de quatro irmãos) e o absurdo (um rapaz que pesca um tubarão e o leva para casa) criam um efeito surpresa no leitor, desconcertando-o.
Tal como refere Myriam Ávila, não importa que as histórias sejam absurdas, desde que a coerência textual e a lógica permaneçam intactas (Ávila, 1996: 63), o que realmente acontece nas intrigas criadas por David Machado.
Assim, apesar desta desconstrução de estereótipos, todas as peripécias são descritas como possíveis e verosímeis dentro do universo narrativo, e é isso que atribui coerência às narrativas, cujo desfecho, apesar de, muitas vezes, ser inesperado, nunca desilude o leitor, porque a ordem é reposta pelo recurso à imaginação (em A Noite Dos Animais Inventados, a panóplia de bichos acaba por sair do quarto entrando num comboio mágico que os leva até à floresta mágica).
O universo das narrativas de David Machado é povoado de sentidos simbólicos muito fortes, o que possibilita uma leitura muito enriquecedora que ultrapassa a realidade e importa um sem número de sentidos implícitos a explorar. A título de exemplo, veja-se a simbologia da numerologia: o número quatro, em A Noite Dos Animais Inventados e Os Quatro Comandantes Da Cama Voadora, é sinónimo de totalidade, representa a força da união.
As personagens comungam de caraterísticas comuns e experimentam emoções em conjunto, unem-se em torno de universos imaginários, que surgem da transfiguração do real que potencia a fantasia, ultrapassando as barreiras da realidade, porque, para as crianças, não há limites para a imaginação, como é referido no conto Os Quatro Comandantes Da Cama Voadora, “quando sonham, vão dar a volta ao mundo numa cama puxada por balões de todas as cores”.
A união permite a criação de um mundo de fantasia perfeito, onde todos contribuem para um mesmo sonho e participam do mesmo clima de transfiguração do real, um cruzamento perfeito entre realidade e sonho.
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o autor tenta criar entre o potencial leitor e as personagens, construindo histórias próximas do universo infantil, criando, muitas vezes até, uma relação de diálogo implícito entre o narrador e o narratário, apostando em perspetivas narrativas a partir do ponto de vista infantil.
As personagens dos contos de David Machado são aventureiras, determinadas, corajosas, cúmplices e companheiras nas brincadeiras. É um universo infantil oposto ao dos adultos que cria empatia com o potencial leitor. As crianças vivem este universo onírico sem a intervenção direta dos adultos e criam soluções para os problemas que surgem, revelando autonomia criativa.
Nenhum adulto participa no mundo de faz de conta, porque parece estar vedada aos “grandes” esta capacidade de transfiguração do real, esta habilidade imaginativa que se atreve a inventar mil e uma histórias e a participar delas como se estivessem de facto a acontecer. As exceções são apenas o Professor Maior, em Os Quatro Comandantes Da Cama Voadora, e o avô, em O Tubarão Na Banheira. O Professor participa, de forma indireta, fornecendo aos quatro amigos o saber livresco, necessário à consecução da grande viagem, mas acaba por lhe ser concedido o direito a participar no mundo imaginário, porque este revela uma jovialidade de espírito que o aproxima das personagens do conto: “Apesar de parecer muito velho, mantinha uma juventude infinita nos seus olhos azuis”. O avô, pela idade que tem, e acrescendo o facto de ter perdido os óculos, revela-se companheiro do neto e participa das atividades num clima de cumplicidade reforçada pela ausência de uma visão perfeita.
Esta proximidade entre gerações não deixa de estabelecer, também, uma ponte com a realidade, tal como refere o próprio autor em entrevista à revista Solta Palavra: “Os avós têm um papel muito interessante na vida das crianças. São sabedoria e experiência, claro, mas depois são mais permissivos que os pais (…) por vezes eles próprios quebram regras importantes só para não deitar por terra a fantasia das crianças” (Maldonado, 2011: 17).
O contexto familiar tem um peso muito forte em todas as narrativas, embora surja, ao longo da intriga, de forma não declarada. A família faz parte da vivência das personagens e aparece com tarefas tipificadas (os pais jogam às cartas, em Os Quatro
Comandantes Da Cama Voadora, dormem no quarto ao lado dos irmãos, em A Noite Dos
Animais Inventados, ou veem televisão no sofá da sala, em A Mala Assombrada), mas a sua importância é sólida, porque atribui credibilidade às histórias, reforça estabilidade e promove o reconhecimento e a identificação dos leitores com os ambientes e situações retratadas.
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O triângulo casa-família-escolaestá muito presente nas diversas narrativas, como, por exemplo, nas referências à casa, à escola ou aos elementos da família. Este universo, vivido pelas personagens e próximo do vivenciado pelo potencial leitor, atribui credibilidade e verosimilhança à intriga e cria, também, uma relação de proximidade emotiva com o narratário que revê o seu próprio mundo através dos olhos das personagens.
A combinação de objetos reconhecíveis e identificáveis com usos fora do comum sublinham a dimensão humorística do texto, colocando a ação a trilhar os limites da verosimilhança.
A valorização do estudo e do conhecimento é também um eixo que atravessa as narrativas de David Machado, ora pela inclusão da necessidade do conhecimento para ultrapassar dificuldades, em Os Quatro Comandantes Da Cama Voadora, ora pelos apontamentos que o pequeno herói regista no Caderninho das Palavras Difíceis, em O Tubarão Na Banheira. O elogio do conhecimento concretiza-se em tarefas lúdicas desprovidas de caráter obrigatório, válidas pelo ultrapassar de “complicações” que surgem ao longo da brincadeira.
É ainda de salientar algumas referências intertextuais que figuram de forma dissimulada nos contos Os Quatro Comandantes Da Cama Voadora e O Tubarão Na Banheira.