4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.5. Carboidratos não estruturais
Os açúcares solúveis totais apresentaram, de forma geral, maior concentração na base comparada com a mediana e o ápice (Figura 18 e Figura 19). Desse conteúdo total de açúcares a maior parte é composta por glicose e frutose e por apenas uma pequena parte de sacarose. Quando relacionado o conteúdo de amido com o de açúcares solúveis, foi possível observar uma distribuição contrária entre eles, com maior concentração de solúveis na base e amido no conjunto ápice/mediana, isso tanto no controle quanto no tratamento.
Em folhas destacadas de G. monostachia foi quantificado o conteúdo de amido, para o ápice e a base, onde ocorreu um acúmulo diurno no ápice seguido de uma redução logo no início do período escuro. Isto, acompanhado de um acréscimo na acidificação, sugerindo o amido como fonte de carbono para a formação de PEP (Pereira et al., 2013). Dos carboidratos avaliados no presente trabalho, apenas o amido apresentou um comportamento inverso ao conteúdo de malato (Figura 10) no tratamento (Figura 19). Dessa forma, com o final do período de tratamento, observou-se uma redução no conteúdo de amido e um acréscimo nos níveis do acúmulo noturno de malato. Esse resultado, como o obtido por Pereira et al. (2013), também sugere o amido como principal fonte de carbono para a formação de PEP, sustentando o processo de acidificação noturna.
Em abacaxizeiro (Ananas comosus), espécie da família Bromeliaceae, o qual armazena açúcares solúveis no vacúolo durante o dia (Kenyon et al., 1985), foi observada uma redução nos níveis de glicose e frutose acompanhado de um aumento no conteúdo de ácido málico (Carnal & Black, 1989). Já para Tillandsia pohliana, pertencente à subfamília Tillandsioideae, mesma subfamília de G. monostachia, ocorreu uma flutuação diária inversa entre amido e ácidos orgânicos (Freschi et al., 2010a).
Assumindo essa preferência de G. monostachia pelo amido e seguindo o que foi proposto por Black et al. (1996), de que as espécies que apresentam preferência pelo amido para a formação de PEP tem como principal enzima de descarboxilação a ME, sugere-se a possibilidade de que esta seja a enzima de preferência utilizada nesse processo. Entretanto, para a T. pohliana, observou-se uma redução na atividade da PEPCK no período noturno e um posterior aumento no período diurno, acompanhado de uma atividade reduzida da ME, indicando dessa forma que a PEPCK seria a enzima responsável pelo processo de descarboxilação nessa espécie (Freschi et al., 2010a). Dessa forma, como a T. pohliana
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apresentou semelhança com G. monostachia no carboidrato de sustento da acidificação noturna, porém não apresentou um comportamento conforme o sugerido por Black et al. (1996), fazem-se necessários ensaios enzimáticos em G. monostachia que visem avaliar a atividade de cada uma das enzimas de descarboxilação com o objetivo de identificar qual seria o mecanismo enzimático responsável por esse processo.
Em trabalho realizado com a cultivar de bromélia Aechmea ‘Maya’, submetida ao déficit hídrico e expressando o CAM idling, também observou-se que o amido é o carboidrato de maior importância para a acidificação noturna e além disso, que ocorreu a manutenção de uma reserva de sacarose, possivelmente com função osmoprotetora (Ceusters et al., 2009). Dessa forma, os autores propõem que o déficit hídrico em plantas
CAM acarreta a necessidade de uma parcela de carboidratos para osmoproteção, além da
utilizada para a produção de PEP, respiração e crescimento. Em outro trabalho com a mesma cultivar, amostrada nas quatro estações do ano, foi confirmado o uso do amido como fonte de carbono ao longo de todo o ano (Ceusters et al., 2010).
A maior disponibilidade de açúcares solúveis na base da G. monostachia, possivelmente também está associada a uma função osmoprotetora e a uma redução do potencial hídrico, já que é a porção da folha responsável pela absorção da água e que estava em contato com o PEG. Já o maior conteúdo de amido em relação aos solúveis no ápice e na região mediana, permite supor que o amido seria a principal forma de reserva nessas porções com maior atividade fotossintética. Freschi et al. (2010b) demonstraram divisões marcantes entre as três porções quanto à densidade estomática, presença de hidrênquima e clorênquima. Entretanto, observando os dados apresentados referentes ao metabolismo de carboidratos não estruturais, a divisão nas três porções não é tão marcante, resultando em apenas duas regiões, uma composta pelo ápice e mediana e a outra pela base. Tendo em vista essas informações, sugere-se que o conjunto das porções ápice/mediana apresenta comportamento típico de regiões fonte ao passo que a base atuaria como um dreno de utilização.
0 500 1000 1500 2000
0 300 600 900 1200 1500
Base Mediana Ápice
Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1)
Conteúdo de açúcares solúveis (µmol gMS-1)
P o rçõ es fo li a res A 0 500 1000 1500 2000 0 300 600 900 1200 1500 Base Mediana Ápice
Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1)
Conteúdo de açúcares solúveis (µmol gMS-1)
P o rçõ es fo li a res B Glicose Frutose Sacarose Amido 0 500 1000 1500 2000 0 300 600 900 1200 1500 Base Mediana Ápice
Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1)
Conteúdo de açúcares solúveis (µmol gMS-1)
Porçõ es fo li a res C Aa Ca Aa Aa Aa* Ab Ab Ba Ba Bb Bb* Cb* Ab* Bc* Cc Bc* Aa* Aa*
Figura 18. Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1) e açúcares solúveis (glicose, frutose e sacarose - µmol gMS-1) nas três porções (ápice, mediana e base) na condição de controle ao longo do experimento (A, início do experimento; B, segundo dia; e C, quarto dia). Médias seguidas da mesma letra não apresentam diferença significativa (Teste Tukey, p<0,05). Letras maiúsculas indicam comparações entre as porções no dia e letras minúsculas indicam comparações de cada porção ao longo dos dias.
48 0 500 1000 1500 2000 0 300 600 900 1200 1500 Base Mediana Ápice
Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1)
Conteúdo de açúcares solúveis (µmol gMS-1)
P o rçõ es fo li a res C 0 500 1000 1500 2000 0 300 600 900 1200 1500 Base Mediana Ápice
Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1)
Conteúdo de açúcares solúveis (µmol gMS-1)
P o rçõ es fo li a res A 0 500 1000 1500 2000 0 300 600 900 1200 1500 Base Mediana Ápice
Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1)
Conteúdo de açúcares solúveis (µmol gMS-1)
P o rçõ es fo li a res B Glicose Frutose Sacarose Amido Aa* Ca Bb Ba Bb* Aa Ba Aa Ab Bb* Aa Ab* Aa Cb* Bc* Ab* Ab* Cc
Figura 19. Conteúdo de amido (µmol glicose gMS-1) e açúcares solúveis (glicose, frutose e sacarose - µmol gMS-1) nas três porções (ápice, mediana e base) na condição de déficit hídrico ao longo do experimento (A, início do experimento; B, segundo dia; e C, quarto dia). Médias seguidas da mesma letra não apresentam diferença significativa (Teste Tukey, p<0,05). Letras maiúsculas indicam comparações entre as porções no dia e letras minúsculas indicam comparações de cada porção ao longo dos dias. Asteriscos indicam diferença significativa (Teste T, p<0,05) da porção entre controle e déficit hídrico.
5. CONCLUSÕES
A utilização da solução de PEG 30% em plantas inteiras resultou na indução de um déficit hídrico severo, podendo ser uma estratégia interessante quando se quer uma rápida e intensa expressão do CAM em G. monostachia.
Com base no padrão de assimilação líquida de carbono e de flutuação diuturna de malato, a espécie apresentou-se semelhante a um CAM cycling, quando bem hidrata. Ao final do experimento, a porção mediana foi a região foliar que apresentou o maior nível de acúmulo noturno de malato, ao passo que a assimilação líquida de CO2 foi restrita a dois
breves momentos, início e final do período claro, caracterizando uma transição do cycling para o idling.
O CAM, para essa espécie, possivelmente possui uma importância na redução da perda de carbono em períodos de restrição hídrica, contribuindo com aproximadamente 20% do carbono assimilado após quatro dias de déficit hídrico.
A espécie apresentou diferença entre as porções na eficiência potencial do PSII ao longo de todo o experimento, independente da condição hídrica, com destaque para a mediana, porém sem diferença entre os tratamentos. Esse parâmetro não apresentou redução, mesmo com a redução da assimilação de CO2, indicando que não houve
fotoinibição. Pode-se ainda dizer que o déficit hídrico não resultou na alteração do uso da energia pelo centro de reação do PSII, conforme constatado pela manutenção tanto do coeficiente de extinção fotoquímico como do não fotoquímico, nessas condições.
Com as imagens da eficiência operacional do PSII foi possível identificar ilhas de maior eficiência, que podem estar relacionadas à disponibilidade de CO2 proveniente da
descarboxilação do malato.
Existe uma diferença marcante quanto ao metabolismo de carboidratos não estruturais, resultando em duas regiões distintas ao longo da folha de G. monostachia. Sugere-se uma região composta pela base, semelhante a um tecido dreno de utilização e a outra pelo conjunto ápice e mediana, semelhante a um tecido fonte. Pode se dizer ainda que, possivelmente o amido é o carboidrato preferencialmente utilizado para a produção de PEP, já que este apresentou um comportamento inverso ao conteúdo de malato.
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