IV. O romance Fatal Dilema
1.1. O caos disforme
1.1.4. Carnavalização do inferno
As personagens que, neste romance, suportam uma vida oprimida pela miséria e subsequentes angústias, por vezes, conscientemente ou não, adoptam posturas e comportamentos de libertação carnavalesca, de tal modo intensos ou até bizarros que a sua concretização pode ser inquietante ou patética. Como se sabe, o Carnaval é a festa da anarquia: tudo se transforma – rostos, corpos, vozes, trajes –, derrubam-se todas as convenções e ergue-se um mundo caótico, folião, em que se perdem todas as certezas do mundo familiar e a única regra é não haver regras. Portanto, dadas estas características, a realidade carnavalesca tanto pode ser assustadora como fundamental e desejável para a catarse dos que sofrem.
O carácter patético da carnavalização da vida está na incoerência, na inadequação, na convivência de realidades antagónicas que coexistem num espaço onde uma delas não deveria estar. Esta condição gera o grotesco: algo está a mais e no local mais inapropriado possível.44
44 Um conhecido exemplo desta condição que gera o grotesco, como nota Mary Russo, é o que nos dá Mikhaïl Bakhtine, no seu estudo sobre a obra de François Rabelais: “the ‘senile, pregnant hag’ as the strongest expression of the grotesque” (Russo, 1995: 1).
Retomando as palavras de Consuelo, quando desperta de um delírio seu, entrevemos o motivo desta carnavalização da vida miserável:
– Isto não há remédio senão a gente rir um bocado, para espairecer… Os ganhos cada vez são menos. Veja o Sr. Albaninho: ralo-me aqui com trabalho e o resultado é nenhum! (Ibidem, p. 135)
Nos incidentes da vida de Consuelo, com uma fatal propensão para o abismo, como é típico nas personagens do bas-fond, ocorre essa carnavalização, nem sempre voluntária. Numa conversa com Heitor, Albano explica-lhe por que razões não abandona Conceição, como planeara, e continua a apoiar a sua amante e Consuelo:
– (…) Palavra de honra! Vou agora ali unicamente por dó. Se tu visses! Dão-se a perros para viver… Não têm nada! E eu devia-lhe dinheiro… Imagina tu que, anteontem, fui dar com aquele estafermo da Rebolona a abanar ao lume, vestida como?... Com um encardido fato de pierrot, do guarda-roupa do teatro! Ai, menino, que figura! Com aquele seu comprimento espectral, aquele pescoço de linhas, aquele peito esquelético, aquela face de terra! E nos olhos a melancolia da fome! E ao sacudido compasso do abano o escorrido e imundo trapo guizalhando… Inverosímil de grotesca… mas dum grotesco triste e repelente. Arrepiava. Não podes pôr na tua ideia!
– Alguma estúpida renovação do Carnaval?
– Não… É que tinha o fato todo no prego! (Ibidem, p. 280)
A miséria extrema carnavaliza a vida de Consuelo, tornando-se irrisória: “tinha o fato todo no prego” para continuar a sobreviver. Esta privação, que se estende até à necessidade de empenhar todo o vestuário, tendo ela de se vestir, no dia-a-dia, com um “encardido fato de pierrot, do guarda-roupa do teatro”, tinge de ridículo o drama, pois Heitor escarnece e ironiza: “Alguma estúpida renovação do Carnaval?”
Conseguindo ser risível, o drama não perde a sua densidade perturbadora: descrevendo a imagem de Consuelo, Albano conserva na memória os pormenores da sua figura, ensombrados pelo seu dó (“comprimento espectral”, “pescoço de linhas”, “peito esquelético”, “face de terra”). Estes traços desenham a imagem da morte: no “comprimento espectral”, na sumição do seu corpo que devolve a aura incorpórea de um espectro, numa carne cortada e desfeita (“pescoço de linhas”) em linhas que ameaçam ruir e soltar-se, no “peito esquelético”, reduzido a ossos, na face que se prenuncia apossada pela terra onde apodrecerá (“face de terra”). Na evocação desta imagem de Consuelo, os gestos desta são os movimentos involuntários de uma massa inerte sacudida pelas forças naturais e é o fato de pierrot que aparenta ser uma entidade autónoma, com vida própria: “ao sacudido compasso do abano o escorrido e imundo trapo guizalhando…” As palavras de Albano são as de um discurso transtornado,
enfatizado por epifonemas constantes, acompanhando a descrição de Consuelo que surge num movimento ininterrupto de hipotipose:
(…) Com um encardido fato de pierrot, do guarda-roupa do teatro! (…) que figura! Com aquele seu comprimento espectral, aquele pescoço de linhas, aquele peito esquelético, aquela face de terra! E (…) a melancolia da fome! E (…) o escorrido e imundo trapo guizalhando…
A anáfora construída pela reiteração da preposição “com” e dos pronomes “aquele” e “aquela”, sem conjunções a unir as palavras, provoca um ritmo crescente e expressivo que revela os horrores que se sobrepõem; cruzando a vertigem desta descrição, a parataxe dá uma continuidade pendente ao discurso que parecia terminado (“E (…) a melancolia da fome! E (…) o escorrido e imundo trapo guizalhando…”), acentuada pelas reticências. É, portanto, um grito de perturbação com o que presenciou.
Muito importante, na carnavalização do inferno em que se transformou a vida de Consuelo, se torna a máscara que representa o fato de pierrot. Inicialmente, o efeito do que seria uma alegre fantasia de Carnaval é de imediato quebrado pelas evidências de o fato estar encardido, de ser como um “escorrido e imundo trapo” e de ser uma representação do Pierrot, a personagem do palhaço triste que chora por um amor não correspondido. Portanto, Consuelo encarna a figura da alegria arruinada pela dor, sendo a tristeza a nota dominante: “E nos olhos a melancolia da fome! (…) Inverosímil de grotesca… mas dum grotesco triste e repelente. Arrepiava.”
De modo semelhante, encontramos estas transfigurações carnavalescas em Conceição, no que se refere ao seu modo de se vestir. Antes de sair de casa, mesmo de noite, enverga como que um disfarce gorado da sua desgraça:
Não tardou que saíssem [Conceição e Albano] – sumariamente arranjada a Conceição, vestida mesmo como estava em casa, tendo coberto apenas uma longa capa «tapa-misérias», de pano verde-garrafa e garrido forro escocês, e pregado à pressa o seu grande chapéu «directório», de veludo negro, com agrafe lapidada e plumas (…). (Ibidem, p. 286)
Tal como Consuelo tapa a sua nudez com um triste fato de pierrot, Conceição encobre a sua miséria com “uma longa capa ‘tapa-misérias’ ”, que, contudo, não é uma máscara que a esconda na noite escura, quando sai com Albano. A intenção sofre o malogro de, embora ocultando as vestes por baixo, a capa ser longa e vistosa nas suas cores vivas (uma “longa capa ‘tapa-misérias’, de pano verde-garrafa e garrido forro escocês”) e ser bastante apelativo ao olhar o chapéu (“grande” e “com agrafe lapidada e plumas”). Contudo, tanto a máscara de Consuelo, como a de Conceição, não encobrem
a miséria. As suas atitudes, ao vestirem-se desse modo estranho e improvisado, tentam erguer um sonho de fuga das suas vidas, mas do qual rapidamente acordam. O pesadelo grotesco das suas vidas não se esvai.
Na figura de Conceição, o adereço que mais contribui para o seu perfil grotesco é o chapéu, que funciona como um prolongamento anormal dos limites do seu corpo. O próprio narrador caracteriza a sua imagem como grotesca, descrevendo o momento em que ela se despe, deixando ficar o chapéu:
– Ó filha! Mas que preparo é esse?... – exclamou, rindo de espanto, Albano. Fora motivo ao seu reparo alegre, que a Conceição, já em camisa, sentada aos pés da cama e dobrada a desabotoar as botinas, conservava ainda o chapéu na cabeça.
– O que é?... – perguntou ela naturalmente. – Por onde devias começar, acabas…
Então ela, ao endireitar-se, muito intrigada, e como desse com a sua grotesca imagem no espelho do guarda-vestidos, riu por seu turno, e encolhendo os ombros:
– Ora! Que mais faz! (Ibidem, p. 292)
O corpo grotesco extravasa os limites da sua pele e funde-se com o mundo exterior. Como elemento naturalmente estranho ao corpo, o chapéu cria a imagem grotesca e, sendo grande, torna-a mais intensa – mais exagerada e disforme é a imagem. Além do seu tamanho, o chapéu sobressai pelas plumas, partes naturais do corpo das aves, criando alguma heterogeneidade na figura de Conceição, que lembra as imagens encontradas na Domus Aurea, de Nero.
No decurso da narrativa, verifica-se que Conceição mantém sempre um comportamento bizarro, cujos motivos não são explicitados e que, por ser aparentemente ininteligível e absurdo, se torna intrigante: nunca tira as meias à frente de ninguém, nem mesmo diante de Albano, o amante, que está autorizado a observar todo o seu corpo, excepto as pernas nuas e os pés descalços.
– Pernas e pés, já sabe… ninguém mos vê senão calçados. – Lá vem a asneira do costume! És tola!
– Minha mãe que fosse! – acentuou a Conceição com peremptória energia. – Então assim me pões fora?
– Que remédio! se quer que eu me vista.
E o Albano, exasperado por este inexorável obstáculo posto ao seu sibaritismo expectante, a ele que sofria, té à loucura, da obsessão do nu total, do nu paradisíaco, saltou com ímpeto da cama, exclamando:
– Sempre tens cada uma! Pra onde te havia de ir a vergonha. A Conceição adoçou a voz e a expressão, de jeito a aplacá-lo: – Mas olhe que não estão sujos!
De sobejo sabia Albano quão formal intransigência havia nesta estranha preocupação, nesta idiossincrasia estúpida. Quantas vezes, e sem resultado sempre, ele já procurara vencê-la! (…)
(…)
– Bem, então não te demores. Calça-te e chama-me. Ao resto da toilette posso eu assistir.
– Pois sim, pois sim… (Ibidem, pp. 119 – 121)
Conceição usa o vestuário como uma máscara da miséria e o seu comportamento, parecendo um capricho risível, talvez esconda algum segredo.
Conceição é uma personagem na qual traços físicos belos e disformes convivem num hibridismo exótico. A beleza sublime dos cabelos – “o cabelo abundante e negro como a essência mesma da noite” (Ibidem, p. 117) –, do busto – “airosa projecção do busto” (Ibidem, p. 117) – e dos braços – “estimulante perfeição dos braços” (Ibidem, p. 125) – contrasta com uma fealdade que surge mesmo animalizada: “narinas relinchantes” (Ibidem, p. 118), “o queixo, levemente prognata” (Ibidem, p. 118), a boca “grossa, irregular e um pouco puxada a um lado” (Ibidem, p. 118).
Em Fatal Dilema, o grotesco manifesta-se igualmente nos corpos das personagens muito belas e nem sempre existe máscara que escamoteie a verdade da miséria humana. Aliás, já notámos, nos exemplos de Conceição e Consuelo, que a carnavalização é ilusória e que o disfarce atrai o olhar, intrigado, para o que está escondido. No ponto que se segue, perceberemos em que contextos a beleza de algumas personagens é desfigurada e mesmo violentada.